Publicado em 24/01/2012 11:11
Estamos de volta ao trabalho e à alegria do contato com os leitores. Escrever só se justifica, se for para ter a sensação de convivência com o leitor.Enquanto se escreve, tem-se em mente a imagem de alguém que lerá seu texto.Assim, o diálogo acontece.Vamos à crônica de hoje, você e eu.
Acabo de ler um texto de opinião do jornal Folha de S.Paulo sobre as tragédias das chuvas e da seca simultâneas em nosso grande país. Em determinado parágrafo, algumas frases chamaram-me a atenção:
Subitamente, verbas não faltam. E sobem a cada novo
deslizamento, a cada família desabrigada, a cada morto registrado nas telas de
TV. Crie-se uma força tarefa! Antecipe-se o Bolsa Família! Abra-se o FGTS!
Flexibilize-se o Orçamento! Aja-se imediatamente diante das câmeras!
Leia, de novo, as cinco últimas frases, leitor amigo, e
observe os verbos acompanhados do pronome se: crie-se; antecipe-se; flexibilize-se;
aja-se. Criar,antecipar,abrir e flexibilizar são verbos chamados de transitivos
diretos,, isto é, pedem um objeto direto quando estão na voz ativa.Quem cria,
cria algo;quem antecipa, antecipa algo e, assim, também com abrir e
flexibilizar. Quando um verbo é transitivo direto, podemos construir a oração
na voz passiva sintética com a partícula apassivadora se, e o termo que era
objeto direto na voz ativa passa a exercer a função de sujeito na voz passiva. Vejamos
as orações do texto jornalístico da Folha de S.Paulo, como seriam na voz ativa:
(1) É preciso criar uma força tarefa.(2) É preciso antecipar o Bolsa
Família.(3) É urgente abrir o FGTS.(4) Vamos flexibilizar o orçamento.Para dar
mais ênfase à necessidade das ações e ironizar o atraso das medidas
preventivas, a articulista usou os verbos na terceira pessoa do Presente do
Subjuntivo, com ares de Imperativo.Essas mesmas orações poderiam ser
convertidas em voz passiva analítica e ficariam assim:(1)Que seja criada uma
força tarefa! (2) Que seja antecipado o Bolsa Família!(3) Seja aberto o FTS!
(4) Que seja flexibilizado o Orçamento!
Até aí, tudo certo gramaticalmente escrevendo e falando. Mas
e a frase: Aja-se imediatamente diante das câmeras? Nesse caso, a pressa da
escrita levou a jornalista a um equívoco gramatical. Agir não é um verbo
transitivo direto, portanto, não poderia ser empregado como se tivesse a mesma
regência ou regime dos demais.Na voz ativa., teríamos um frase como essa: É
preciso agir bem diante das câmeras.Não poderíamos passar a oração para a voz
passiva, porque na voz ativa não há objeto direto.A oração na voz passiva
sintética ficaria sem o sujeito.Também não se poderia converter essa oração
iniciada com aja-se em voz passiva analítica: seja agido.Agir é um verbo
intransitivo e constrói-se com adjunto adverbial: Agir bem ou mal, com cautela
ou com afoiteza, etc.
Houve, sem dúvida, uma mistura de regências verbais, nesse
parágrafo, o que se explica pelo fato de os jornalistas terem de produzir seus
textos diários em muito pouco tempo, para o fechamento das edições.
No mesmo texto do jornal, aparece uma expressão bastante
corriqueira e originada em transmissões de jogos de futebol. Vamos ao parágrafo:
Ano após ano, a história se repete, com o mesmo
corre-corre, e os que não preveniram não apenas correm atrás do prejuízo como
ficam matutando como reduzir os danos políticos e ainda tirar alguma casquinha.
Correr atrás do prejuízo é um modismo que surgiu no
futebol. Nas entrevistas concedidas por jogadores , quando seus times estão em
desvantagem, é comum ouvir-se frases como estas: Vamos correr atrás do
prejuízo, no segundo tempo. O campeonato é longo e ainda dá para correr atrás
do prejuízo. O chavão futebolístico ganhou força e se espalhou para a
linguagem padrão. Algumas pessoas criticam essa construção gramatical, com o
argumento de que não se corre atrás de prejuízo, mas de lucro.Explico que não
vejo absurdo nessa expressão do meio esportivo porque nela está subentendido um
verbo que pode ser: derrotar, acabar com, superar.Seria como: correr atrás de
superar o prejuízo.
Por isso, eu também vou por aqui terminando meu texto, para
não curtir o prejuízo da perda de um leitor como você. Até a próxima!
Publicado em 24/01/2012 11:04
Muito se fala sobre a leitura dinâmica e a ajuda que ela pode prestar às pessoas que gostam de ler muitos livros em curto período de tempo ou àquelas (atenção para o sinal de crase) que têm de ler muitas apostilas para concursos, por exemplo. Conversemos um pouco sobre essa prática, leitor amigo.
Segundo pesquisas, um leitor médio consegue ler até 150 palavras por minuto e compreender 60% do que lê. Com o domínio avançado da leitura dinâmica, de acordo com os defensores desse método, a velocidade de leitura poderá chegar até a 800 palavras por minuto e o nível de compreensão poderá ser de até 90%.Os neurocientistas não são tão entusiasmados com toda esse aumento de velocidade na leitura e com esse nível alto de compreensão do texto, mas admitem que é possível que se aumente a velocidade da leitura pela mudança na forma de ler. Também eu concordo com o aumento da rapidez da leitura pelo domínio da técnica, porém não a aconselho como método de estudo ou de memorização.
O princípio básico da leitura dinâmica é a leitura sem a pronúncia mental que todos nós nos acostumamos a fazer. Enquanto nossos olhos percorrem a forma da palavra escrita, vamos pronunciando mentalmente as sílabas e as palavras.Se conseguirmos parar de pronunciar as palavras no ato de leitura e as reconhecermos apenas na sua forma ou desenho, o significado delas será assimilado diretamente e com maior rapidez. Outra técnica é aumentar o foco do campo visual na leitura: tentar abarcar o maior número possível de palavras. Quem se habitua a ler muito em voz alta ou em silêncio, normalmente vai aumentando a capacidade de ler com maior rapidez.Na sala de aula, o professor consegue perceber o progresso dos alunos na leitura, com muita propriedade.Aconselho sempre, nos meus cursos para professores, o uso da leitura em voz alta. E não só nas aulas de português, mas em todas as disciplinas. Todos os professores são também professores de leitura.Quem lê bem em voz alta demonstra que sabe ler bem em silêncio e compreender o sentido do que lê.Para quem já é bastante habituado à leitura, acredito que a técnica da leitura dinâmica seja mais produtiva.O que tenho conseguido perceber é que a vocalização mental do que lemos ajuda-nos a concentrar a atenção no texto e a perceber melhor seu sentido.
Como leitor apaixonado dos mais variados gêneros e tipos textuais, consigo ler em poucos dias de férias vários romances, jornais e revistas. Agora mesmo, entre o Natal e estes últimos dias de férias escolares, consegui ler os seguintes livros: A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr., Beatriz, de Cristovão Tezza e As Esganadas, de Jô Soares.Todos me trouxeram alguma recompensa e ampliaram minha visão de mundo.Recomendo-os todos, seja como informação, seja como forma de ampliação de nosso nível de consciência sobre a vida e sobre a humanidade.Comecei a ler , ontem à noite, O Cemitério de Praga, de Umberto Eco.Já me surpreendi e fiquei fascinado com o primeiro parágrafo de quase quinze linhas.Escrever um parágrafo dessa extensão, sem se tornar obscuro e cansativo, só é possível para um escritor com a habilidade que tem o autor do também consagrado romance, O Nome da Rosa.Termino aqui, nesta linha, a minha crônica de hoje, já com os olhos voltados ansiosamente para a bela capa de O Cemitério de Praga, que, certamente, também será um belo filme, em breve.
Até a próxima!
Publicado em 18/01/2012 09:19
Laura Maria Leal Fernandes | belo horizonte
Messias Pedro | Ananindeua-PA
Parabèns, favor analisar "meu querido diário" do Chico Buarque
João Vianei Alves de Carvalho | Petrolina-PE
Glauciane | Rio de Janeiro
Guilherme | Rio de Janeiro
Lucia costa | Crato
ademar amancio | populina sp
ademar amancio | populina sp
Izabel Cristina Monteiro da Silva | Timon
ademar amancio | populina sp
ademar amancio | populina sp
Denise Pereira de Souza | Rio de Janeiro
Magali | Manaus
jefferson chaves | Belém
Versos Simples chimarruts / EScândalo de CAETANO VELOSO gostaria que cada estrofe fosse analisada...
ademar amancio | populina sp
ademar amancio | populina sp
Denise Pereira de Souza | Rio de Janeiro
Denise Pereira de Souza | Rio de Janeiro
Denise Pereira de Souza | Rio de Janeiro - RJ
natanael souza colares | manaus
A vida da gente -Cantado por maria gadú! valew pela analise , não entedia dessa maneira...!
ademar amancio | populina
sempre gostei de domingo no parque,mais nunca tinha notado que a letra fosse tão rica.
Pedro Cesário Dos Santos Jr | Joao Pessoa/Paraiba/Brasil
Pedro Cesário Jr | João Pessoa
Olá Professor, gostaria de saber mais sobre a música "Domingo No Parque"
Elisabeth Casagrande Vitiello | São Paulo
Camila Candido | São Paulo
maria aparecida arantes jose | Cruzilia M G
Muito bom amei quero ouvir todos os dias
beto | São Paulo
silvia | goiania
ademar amancio | populina sp
ademar amancio | populina interior de sao paulo
Messias Pedro da Silva | Ananindeua-Pará
lígia marques | guarabira
Uíres Marins | São Gonçalo / RJ
Joaquim Piauilino Filho | Bom Jesus-PI
Diego Henrique | Santa Luzia- MG
Linda análise professor, assim como todas as outras... muito obrigado!!!
Jober Keitel | Sapucaia do Sul
katia lucia lopes | belo horizonte
gostaria que o sr.analisasse a música é dai de milton nascimento e ruy guerra.agradeço
Rodrigo Teixeira | Fortaleza
gostario que o senhor fizesse uma analise da musica, Daniel na cova dos Leões, da Legião Urbana
silvia | goiânia
LAIS | Casimiro de Abreu RJ
paulo araujo dos santos | itatiba-SP
Claudinéia Pamplona | Belém
Priscila | Rio de Janeiro
Letícia | São Paulo
Gostaria de parabenizar o trabalho e sugerir a música tropicália de caetano veloso
ROZE NEIDE DOS SANTOS | São Vicente São Paulo
Sol | Araçatuba
Thaís Cristina Vitale | São Bernardo do Campo
João Paulo | Murici - AL
Publicado em 04/01/2012 12:10
A crônica de hoje retrata o meu carinho
permanente e a minha ternura mais funda pelas palavras. Amo-as, solitárias ou
A última edição do Dicionário Aurélio, revista e ampliada, traz, em suas 2.272 páginas, inúmeras palavras novas que não faziam parte de edições anteriores. Fiz uma exaustiva pesquisa,descobri-as e fiz questão de transcrever-lhes os significados só para vocês,meu leitor ou minha leitora, tão companheiros meus neste espaço, ao longo deste ano que espero tenha sido para vocês, de muita alegria e realizações, como foi para mim.Vamos a elas:
Agrobusiness: 1. O mesmo que agronegócio. O conjunto de atividades e operações da cadeia de produção rural e da comercialização de seus produtos e serviços.
Bandeide- Aport. do ingl. Band-aid, marca registrada.] 1. Curativo adesivo com uma gaze fina com antisséptico no centro, utilizado para proteger ferimentos leves. [Sin. lus.: penso rápido.]
Barwoman: 1. Mulher que prepara bebidas em bar1 (1) ou evento. [Pl. em ingl.: barwomen.]
Biojoia: 1. Joia feita de matéria-prima vegetal, esp. de sementes (jarina, buriti, etc.), fibras e cascas de coco, etc., que são coletadas sem causar prejuízo à natureza.
Blogar: Verbo intransitivo. Inform. 1. Manter (o internauta) um blog. [Conjug.: rogar.]
blue tooth- 1. Tecnologia que permite a conexão de dispositivos sem uso de cabos.
blu-ray disc: 1. Formato de disco de alta capacidade utilizado para armazenamento de conteúdo em alta definição. [Possui as mesmas dimensões de um disco DVD, a forma de armazenamento e a tecnologia aplicada à leitura de dados, porém, são diferentes.]
blu-ray player:Substantivo masculino. Inform. 1. Aparelho para reproduzir discos no formato blu-ray.
Bollywoodiano:
[De Bollywood (do top. Bombaim [atual Mumbai, cidade da Índia] + o top. Hollywood) + -iano.]
Adjetivo. Cin.
1. De ou referente a
Bollywood, a indústria de filmes da Índia (v. indiano).botox,
Bullying: 1. Em estabelecimentos escolares, etc., provocação, intimidação, ou agressão, física ou verbal, feita por indivíduo mais desinibido, mais velho, mais forte, etc., a outro mais tímido, mais novo, mais fraco, etc.
Chef: 1. Cozinheiro que dirige a cozinha de um restaurante, hotel, etc.
Chocólatra: Substantivo de dois gêneros. 1. Aquele que é devorador contumaz de chocolates e afins.
Chororô: 1. Fam. Choradeira (1).2. P. ext. Lamentação que se faz com o intuito de conseguir ou justificar algo:
Ciabatta: 1. Pão de massa úmida aromatizado com azeite.
Combo: 1. Inform. Gravador de
CDs que também
Cookie: 1. Cul. Biscoito crocante e macio, de forma arredondada, ger. recheado com nozes, passas, etc.
2. Inform. Informação coletada por um navegador Web que fica armazenada no computador, e que pode ser us. por sites da Intranet.
data-show: 1. Aparelho de vídeo que, através de um sistema de lentes, projeta imagens numa tela de projeção. [Pode ser conectado ao computador ou sistema de home theatre.] [Pl.: data-shows.]
donut: 1. Massa com a forma de rosca, frita e envolta em açúcar ou, eventualmente, chocolate.
doula[Do gr. doúle, aquela que serve.] Substantivo feminino. 1. Profissional que acompanha a gestante antes, durante e após o parto, cuida do seu bem-estar físico e emocional, e explica a ela (e a seu companheiro) a linguagem e os procedimentos dos médicos e enfermeiras.
e-book Substantivo
masculino.
1. V. livro eletrônico.
Ecobag: 1. Sacola feita de material biodegradável (ger. de tecido e linhas naturais e tinta à base de água).
ecojoia
1. Joia elaborada a partir de sementes não germinadas (catadas no solo das florestas, esp. da amazônica) e de
vários outros materiais (marfim vegetal, couro,
coco frito, etc.) de baixo ou nenhum impacto ecológico.
ecotáxi: 1. Turismo em áreas preservadas (ou relativamente preservadas) da natureza, e que busca o contato com a beleza natural, a diversidade da fauna e da flora, etc., sem causar danos ao ecossistema.
Ecoturismo: 1. Turismo em áreas preservadas (ou relativamente preservadas) da natureza, e que busca o contato com a beleza natural, a diversidade da fauna e da flora, etc., sem causar danos ao ecossistema.
Enem: 1. Sigla de Exame Nacional do Ensino Médio.
Flex: Adjetivo de dois gêneros e de dois números.Substantivo masculino de dois números. 1. Diz-se de, ou motor capaz de funcionar com dois tipos de combustível ao mesmo tempo, ou seja, com álcool e/ou gasolina.2. Diz-se de, ou o veículo com este tipo de motor. [Em tais veículos a gasolina e o álcool ficam no mesmo tanque e são queimados simultaneamente na câmara de combustão.]
fotolog [Adapt. do ingl. photolog.] Substantivo masculino.
1. Álbum de fotografias virtual, posto na Internet.
glamoroso(ô) [De glamor + -oso; ingl. glamorous.]
Adjetivo. 1. Que tem ou que revela glamor; glamouroso. [Flex.: glamorosos (ó), glamorosa(s) (ó).]
glamorizar: Verbo pronominal. 1. Tornar(-se) glamoroso; glamourizar.
hora-aula:
hotspot: 1. Local onde há disponibilidade de conexão à Internet sem fio.
mix: 1. Qualquer mistura, esp. a de alimentos (no caso de frutas, por vezes, batidas com água ou outra bebida): mix de frutas, mix de legumes, mix de frutas secas, mix de frutas e legumes.
Mochileiro: 1. Indivíduo, ger. jovem, que viaja com pouca bagagem (ger. mochila) e que procura gastar pouco com transporte e hospedagem.
nerd: 1. Jovem muitíssimo aplicado nos estudos, com especial interesse por tecnologia, às vezes, porém, com problemas de socialização, por ter comportamento antissocial ou por sofrer o preconceito dos demais.
odontogeriatria: 1. Ramo da odontologia especializado no tratamento dentário de pacientes idosos.
pet shop: 1. Estabelecimento no qual se comercializam produtos alimentícios (ração, pastas, biscoitos, etc.), remédios, acessórios, etc. ou a prestação de serviços para animais domésticos de pequeno porte
petit gâteau: 1. Pequeno bolo de chocolate com recheio cremoso e casca crocante, inventado nos E.U.A. mas batizado com nome francês.
pop-up: 1. Na Web, janela, ger. indesejada, destinada a exibir propaganda.
pré-sal: 1. Camada da costa brasileira, na faixa que se estende do Espírito Santo a Santa Catarina, localizada abaixo do depósito de sal no leito do mar (a mais de 7 mil metros), que abrange as bacias do Espírito Santo, Campos e Santos e apresenta grande quantidade de petróleo e gás. [Pl.: pré-sais.]
ricardão: 1. Amante de mulher casada ou comprometida.
saidinha de banco:1. Modalidade criminosa que consiste em assaltar um indivíduo que acabou de sacar dinheiro de um banco, principalmente de um caixa eletrônico.
SAMU: Sigla de Serviço de Atendimento Móvel de Urgência.
sex shop:1. Loja, ou seção desta, em que se vendem artigos para estímulo da libido ou coadjuvantes do ato sexual, além de livros, vídeos, etc., eróticos.
Tablet:
1. Computador de uso pessoal que possui tela sensível ao toque.
2. Tipo especial de caneta,
us. para registrar notas diretamente na tela do computador
test
drive: 1. Avaliação do desempenho de um veículo, feita por
especialista, ao dirigi-lo.
2. O ato de dirigir um
veículo, antes de comprá-lo, para avaliação de seu desempenho.
Tuitar:1. Postar no twitter comentários, informações, fotos, etc. ger. de caráter pessoal ou institucional.2. Acompanhar os fatos, ideias, informações, etc. registrados por alguém em seu twitter. [Conjug.: v. ajuizar.]
Até a próxima!
Publicado em 26/12/2011 09:23
Texto não é uma simples aglomeração de frases, períodos e parágrafos; texto é uma unidade de sentido. Vamos conceituar o texto verbal como uma produção escrita ou oral que esteja em sintonia fina com um contexto. Todo texto manifesta um conjunto de idéias dominantes em um grupo social, isto é, uma formação discursiva. Podemos dizer que o texto é a manifestação de um discurso. Eu leio o texto, para me encontrar com o discurso. As ideias contidas em um texto constituem o seu discurso. Texto e discurso andam juntos, avançam juntos, não se dissociam.O que eu leio é o texto;o que eu penso que esteja por trás do texto é o discurso.
O que é ler um texto?O que é
interpretar um texto?Ler é colher tudo o que o texto quis dizer. Para a
filosofia da linguagem, dizer é sinônimo de agir. Língua é uma forma de ação sobre
o outro e sobre o mundo. Interpretar é escolher uma entre as várias
possibilidades de significação que o texto sustenta. Isso não significa dizer
que qualquer interpretação seja válida. O que se diz em um texto está nele
mesmo, nos mecanismos que engendram o seu sentido. Interpretar não é adivinhar
ou inventar. Quem lê um texto com a intenção de descobrir o sentido dele e, ao
mesmo tempo, aprender os diferentes modos de escrever um texto deve responder a
duas perguntas básicas: 1 O que este texto quis dizer?2 Como ele disse o
que quis dizer?Essas perguntas propiciam condições ao leitor de buscar o que
dizer em seus textos e como dizer o que pretende dizer. A leitura de um texto
é, dessa forma, o caminho adequado para todos aqueles que desejam ampliar a sua
competência para a leitura e a escrita. Para dominar a língua e fazer dela um adequado
instrumento de recorte da realidade, uma forma de ação na vida em sociedade, é
preciso aprender a olhá-la com sensibilidade. Nem sempre as interpretações que
são feitas pelos diferentes leitores correspondem ao que se propõe dizer em um texto.
Foi o que se deu com a grande cantora e intérprete Gal Costa em uma entrevista
de lançamento do seu mais novo CD-ROM todo ele produzido e dirigido por Caetano
Veloso, que assina a maior parte das músicas também. Na edição do jornal Folha
de S. Paulo, de 29 de novembro de
E como é, para Gal, ter seu nome estampando a capa de um álbum em que as ideias não são suas? Como é ser "apenas" a vocalista de seu próprio CD?
"Eu mesma disse para ele: 'Caetano, esse disco é seu'", assume. "Mas sempre foi assim. Em todos os meus discos para os quais ele compôs, eu não pedia temas. Ele fez o que quis. Gosto de ser carregada."
Ela aplicou a si o que interpretou da leitura dos versos da canção Recanto, que dá título ao novo trabalho dela: "Não salto, mas sou carregada/ Por asas que a gente não tem. A luz não me fulmina os olhos/Nem vejo bem".
"Caetano decifrou isso muito bem nessa canção", afirmou Gal.
Caetano rebate: "Mas não foi isso o que eu quis dizer.
Foi justamente o contrário. Você, quando canta, parece que é carregada por asas
que a gente não tem, que mais ninguém no mundo tem".
Veja, leitor, que Gal Costa acabou por contradizer o que está dito nos versos de Caetano Veloso. Ela não se preocupou com o que o texto quis dizer, ela apenas aproveitou uma parte do texto para aplicar a si mesma, ao seu jeito de ser.
Alguns perigos rondam a interpretação de um texto. Esses perigos são: a extrapolação, a contradição e a redução.
Extrapolar é fugir dos limites do texto, das marcas e das pistas que ele oferece à interpretação que se sustenta nele, para criar outro texto.
Contradizer é dizer o contrário do que está contido no texto. Como exemplo, cito a interpretação que Gal Costa fez dos versos de Caetano.
Reduzir é concentrar-se apenas em algumas ideias do texto, em algumas partes e deixar de olhar o texto na sua totalidade. Esse é o erro mais comum. A interpretação desejada já está virtualizada no próprio texto, isto é, já está prevista como possível. Um texto pode ser interpretado de várias maneiras diferentes, mas não de todas. Se a interpretação não estiver garantida com as marcas de significado que são repetidas ao logo do texto, a interpretação não é aceitável. Nas leituras que fazemos, sejam elas literárias ou não-literárias temos de ter a paciência e a curiosidade necessárias para descobrir não apenas a significação, mas também a organização do texto. Tenho de dizer que as sensações que o leitor experimenta diante de um texto, as impressões que cada leitor tem ao ler um texto são importantes para a leitura, sim. Sem querer exagerar, afirmo que, se o texto for literário, até a leitura errada pode ser acertada, devido à perfeição da literatura. Se analisarmos a intenção de Gal Costa, ao interpretar os versos da canção, perceberemos que o seu erro de interpretação constitui o acerto de sua carreira: ela só interpreta bem as canções, se se sentir carregada, sustentada pelo bom trabalho de outras pessoas. Todos nós, quando lemos, às vezes, fugimos para outros mundos da imaginação, sonhamos com fatos diferentes dos que estamos lendo, temos outras inspirações e tudo isso é muito gostoso que aconteça. Leitura é para isso mesmo. Só precisamos garantir que, na descoberta do querer dizer do texto, isto é, do seu sentido, não possamos fugir do que está explícito e implícito nas suas linhas e entrelinhas. Assim fazendo, leitor, afastaremos os perigos da interpretação.
Até a próxima.
Publicado em 10/12/2011 09:49
Participei, no sábado passado, 03-12, de uma mesa-redonda cujo tema foi: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias: Leitura e Escrita, no Simpósio de Tecnologia Educativa, do programa de Mestrado em Linguística da Universidade de Franca, do qual sou professor. Concentrei minha palestra no tema tecnologia e educação. Usei como motivação o poema de Manoel de Barros, O Apanhador de Desperdícios, cujos versos eu convido você, leitor, a ler agora:
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Um poema como esse deve ser lido, pelo menos, duas vezes, e sei que você o fez, tal é a beleza dos versos e do encantamento que ele é capaz de provocar.
Sinta que o poeta faz uso de uma linguagem simples, metafórica e muito expressiva, para definir o fazer poético. Arte é uma criação humana, pronta a dar mais sentido à vida. Vivemos melhor, quando buscamos sentido em tudo o que aprendemos e fazemos.
A voz que se exprime nesses versos é a voz poética que sabe ver e sentir a beleza da vida nos seres e coisas menores ou menos importantes. O sentido da vida nem sempre está nas grandiosidades.É preciso aprender a ver os detalhes para enxergar melhor a totalidade.O diálogo no poema é entre a voz poética e a voz tecnológica.
As perguntas fundamentais de minha apresentação foram estas: O que a tecnologia tem feito comigo? O que eu tenho feito com a tecnologia? Tenho para mim que preciso colocar a tecnologia a meu serviço. Clarice Lispector escreveu o seguinte: Adestrei-me desde os sete anos para que um dia tivesse a língua em meu poder. Digo, em paráfrase, que estou me adestrando para ter a tecnologia em meu poder. Não posso e não quero ser escravo da tecnologia.
O eu - lírico
do poema diz não gostar das palavras fatigadas de informar. Existe uma
ansiedade pela informação cada vez maior nesse mundo tecnologizado,
O eu do poema respeita mais as palavras essenciais ao dia a dia do mundo da vida, as palavras concretas do ato de viver como água, pedra e sapo, inseto. A velocidade da tartaruga fala mais à sua alma do que a velocidade dos mísseis. Ele ama o perto mais do que o longe, mais o rio da sua aldeia do que o Tejo do poema de Fernando Pessoa, é atrasado de nascença e nasceu para amar os passarinhos.
A felicidade dessa voz que se expressa nos versos de Manoel de Barros dialoga, em contraponto, com as milhares de vozes do mundo de hoje, viciadas e escravizadas pela tecnologia. O quintal do poeta é maior do que o mundo e ele se faz um apanhador de desperdícios, sabe ver nos restos o canto da vida e queria que a sua voz se formatasse em canto, de canção mesmo, e também de lugar de pensar, para nele poder dizer bem alto a sua voz poética: Não sou da informática, eu sou da invencionática e a palavra só me serve para compor meus silêncios no meio de tanto barulho e de tão pouca atenção aos gestos mais simples e importantes para a vida acontecer.
Fiz desse poema a entrada para defender uma educação multidisciplinar que faça das artes, irmãs das ciências, e que não haja separação entre as ciências humanas e as ciências exatas. Não há sentido a preocupação desse mundo dominado pelo capital em se formar apenas especialistas incapazes de se comunicar para além dos limites de suas especialidades.A educação com que sonho não é dos especialistas, mas a dos generalistas que saibam pensar como cientista e como artista, como matemático e poeta, médico e romancista, engenheiro e músico.A educação será tanto mais aperfeiçoada quanto mais conseguir preparar a mente dos educandos para usar a imaginação de modo especialmente criativo em uma área e saber fazer aplicações criativas em outras áreas das atividades humanas. Basta que nos lembremos de que entre nós tivemos um médico como Guimarães Rosa, que se de fez autor de um romance da majestade de Grande Sertão: Veredas; um engenheiro como João Cabral de Melo Neto, que se consagrou como o poeta de Vida e Morte Severina; um advogado como Vinícius de Moraes, que se eternizou com os versos de Soneto de Fidelidade e com os acordes musicais de Garota de Ipanema; e que temos um quase arquiteto como Chico Buarque de Hollanda que é, sabidamente, um dos maiores compositores da Música Popular Brasileira.
Só me resta concluir com as proféticas palavras de Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo: A linguagem purificada da ciência, ou mesmo a linguagem mais purificada da literatura nunca será adequada à dádiva do mundo. Até a próxima!
Publicado em 04/12/2011 13:02
Na coluna da semana passada, escrevi, em forma de crônica, sobre dois adjetivos muito usados neste mundo de liberalismo econômico, em que as leis de mercados de capitais são soberanas: eficaz e eficiente. Não basta ser eficaz, é imprescindível ser eficiente. Sonhar, então, é proibido. No texto que escrevo agora, as estrelas serão outros dois adjetivos não tão usuais, mas que apareceram recentemente em um texto jornalístico de opinião.São eles: resiliente e renitente.
Veja comigo, prezadíssimo leitor, onde fui encontrar essas duas saborosas palavras.
Nizan Guanaes, publicitário e presidente do Grupo ABC, em 15 de novembro de 2011, escreveu, em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo, um perfeito anúncio publicitário, em busca de uma cozinheira. Veja só o título que ele deu à sua crônica: Procura-se uma grande cozinheira. Depois de comentar que a boa situação econômica do Brasil tem levado as pessoas a procurar profissões e empregos mais rentáveis, o que, segundo ele, é muito bom para todos, ele clama por auxílio dos leitores para que possam encaminhar para a casa dele uma excelente cozinheira. Leiamos juntos alguns excertos de seu texto:
Estou há anos procurando uma cozinheira de mão-cheia. Uma Dona Flor,
mas que não precisa ter o corpo da Sônia Braga -precisa é cozinhar mesmo. Fazer
aquela grande e vasta comida brasileira. (...)
Estamos
chegando ao final do ano, ao período de Natal, as pessoas estão imbuídas do
espírito natalino e podem fazer essa boa ação para um ex-gordo como eu. (...)
E termina assim o seu texto-anúncio:
Espero que
este artigo-anúncio classificado atinja seus objetivos. E que graças à força da
Folha e de santo Expedito eu encontre a minha tão sonhada cozinheira.
Aliás,
cozinheira anda tão difícil que hoje a gente não pede mais para santo Expedito,
a gente pede é para santo Antônio.
Você percebeu que no final ele apela até para santo Antônio, que é considerado casamenteiro. Ele se dispõe mesmo a casar com a sonhada cozinheira.
Pois bem, no dia seguinte, 16 de novembro de 2011,
o conceituado jornalista Fernando Rodrigues, da sucursal do jornal Folha de
S.Paulo, em Brasília, fez do texto-anúncio de Fernando Guanaes o tema de sua
coluna. Intitulou-a: O Brasil profundo e,
assim, exprimiu-se nos trechos-chave de sua crônica política:
Bem-sucedido, Nizan Guanaes diz ser um
entusiasta do Brasil contemporâneo. Mas é fascinante como até em cabeças como a
dele sobrevive um pedaço renitente do
Brasil antigo, profundo. (...)
Nizan
também deve ter redigido seu texto de boa-fé. Quer dar emprego a alguém.
"É fruto do bom momento econômico do Brasil." Só que, ao escolher as
palavras do seu Procura-se uma grande cozinheira, o publicitário mostra, de
forma involuntária, como é resiliente o velho Brasil no nosso cotidiano.
Você, meu leitor, atentou para as frases em que
são empregados os dois adjetivos que inspiraram esta crônica que estou
elaborando com carinho e zelo. Antes de me deter um pouco mais nos dois
vocábulos-chave de meu texto, levo você ao texto da cronista Danuza Leão, na mesma Folha de S. Paulo,
em 20 de novembro de
Apesar do tom brincalhão, Nizan publicou um anúncio, em espaço nobre, procurando uma cozinheira. (...) Quando Fernando diz que, ao escrever "procura-se uma cozinheira", Nizan mostra "como é resiliente o velho Brasil no nosso cotidiano", e que "até em cabeças como a dele sobrevive um pedaço renitente do Brasil antigo e profundo", nosso grande jornalista, querendo denunciar o preconceito, acabou sendo preconceituoso, logo ele. Ser cozinheira é uma excelente profissão; uma profissão nobre, pois a culinária de um país é parte importante de sua cultura, e foi descascando legumes que começaram todos os célebres "chefs de cuisine". Senti-me feliz pela leitura que ela soube fazer dos dois textos. Como leitora competente, Danuza Leão soube ler o explícito e o implícito, o aparente e oculto, o direito e o avesso dos dois textos. E é assim que um texto precisa ser lido. É indispensável ler o que está oculto em um texto. E a colunista fez isso muito bem. Já o jornalista Fernando Rodrigues, sem perceber, talvez, é que foi preconceituoso em relação ao nobre trabalho de uma cozinheira, seja ela a empregada, ou seja, a própria patroa de uma casa. Nizan Guanaes não foi, nem demonstrou, no seu texto, que é preconceituoso. Não foi teimoso, pertinaz, renitente, na ideia de mudança do velho para o novo, isto é, de um país apegado ao distanciamento social entre ricos e pobres, para um país que luta mais contra as desigualdades. Também não se mostrou resiliente, resistente, incapaz de aceitar uma mudança de comportamento em relação à igualdade de tratamento às pessoas que exercem profissões mais bem remuneradas e às empregadas e empregados em geral.Escrevi este texto de tal forma que os significados dos dois adjetivos que servem de título ficassem bem aparentes e claros, mas se você puder e tiver tempo, não deixe de consultar um dicionário. Além de ser um exercício agradável e enriquecedor para o uso da nossa língua portuguesa, auxilia bastante o nosso cérebro e traz boas inspirações para a vida.
Até a próxima!
Publicado em 28/11/2011 15:36
Um engenheiro de transportes de São Paulo, ao ser entrevistado por uma repórter, a respeito das reformas dos aeroportos, assim se expressou: Do modo como estão sendo feitas, podem até ser eficazes, mas não serão eficientes. Imediatamente, meus ouvidos me avisaram da novidade: eficaz não é sinônimo de eficiente. Será?Sei que a origem latina das duas palavras dão a ideia de bom resultado, alcance de efeito desejado. De onde teria surgido, então, a diferença de significação entre ambas? È muito interessante a história das palavras e da mudança de significados e de usos pelos quais elas passam no decorrer de sua existência.Confesso que é essa uma das minhas paixões.E das boas paixões, porque não me traz maiores sofrimentos e nem causa perdas.Não luto com as palavras, nem elas comigo, não fogem ao meu assédio e aceitam meu carinho.
Vamos aos dicionários, minha leitora companheira, meu leitor amigo. Eles são bons amigos e nada cobram a não ser paciência.
O dicionário Aurélio 2010 registra os seguintes significados para eficaz e eficiente::
eficaz
[Do lat. efficace.]
Adjetivo de dois gêneros.
1. Que produz o efeito desejado; que dá bom resultado:
medida eficaz; tratamento eficaz.
2. Que age com eficiência:
gerente eficaz. ~ V. corrente , seção e valor . [Sin. ger.: eficiente e (p. us.) efetuoso. Superl. abs. sint.: eficacíssimo.]
eficiente:
Do lat. efficiente.]
Adjetivo de dois gêneros.
1. V. eficaz. ~ V. causa .
eficiência
[Do lat. efficientia.]
Substantivo feminino.
1. Ação, força, virtude de produzir um efeito; eficácia.
No dicionário Houaiss, encontramos as seguintes abonações:
Eficiente: que obtém resultados efetivos com o mínimo de perdas, erros, dispêndios, tempo etc. no seu trabalho, numa tarefa ou na consecução de um fim; competente, capaz
Ex.: um criado eficiente
Eficaz que tem a virtude ou o poder de produzir, em condições normais e sem carecer de outro auxílio, determinado efeito; efetivo
Ex.: <meio e. > <proteção e. >
Ainda no Houaiss na rubrica de administração, é que poderemos achar a chave da diferença de significação:
qualidade ou característica de quem ou do que, num nível operacional, cumpre as suas obrigações e funções quanto a normas e padrões.
Obs.: cf. eficácia e efetividade
De acordo com esse dicionário, concluiremos que, se a pessoa cumpre sua obrigação, faz o que deve, realiza o que o chefe pede, é eficaz, não importando se na ação ele gastar mais energia ou não conseguir evitar algum desperdício. Se outra pessoa fizer a mesma ação, porém com alguma economia ou com menos desperdício, essa será eficiente.
Assim, para o engenheiro de transportes mencionado no início da crônica, as reformas dos aeroportos, feitas de forma um tanto apressada, poderão ser eficazes, porque precisam ser feitas antes da Copa do Mundo, mas poderão não ser eficientes, porque sairão mais caras e não serão definitivas. Para os administradores de empresas, eficiência é sinônimo de produtividade, está vinculada ao nível operacional, ou seja, à realização de operações mais lucrativas para as empresas.
A eficácia liga-se ao nível gerencial, das escolhas e decisões a serem tomadas pelos donos. A decisão tem de ser eficaz e a realização tem de ser eficiente.
Se sairmos do campo da administração, essa diferenciação não precisa ser feita. Eficaz e eficiente são sinônimos e a preferência de uso dependerá de quem escreve ou fala. Pelas minhas pesquisas, a sugestão é que se use o adjetivo eficaz, para objetos coisas inanimadas e eficiente, para pessoas. Leia este exemplo: Ele tomou medidas eficazes para os problemas da empresa e comprovou mais uma vez que é um chefe eficiente.
Clarice Lispector para mulheres, de novo
Atendendo a pedidos de mais leitoras, busco novamente o livro Clarice só para Mulheres e transcrevo outro trecho fascinante:
Para seu marido ler
Um menino de dez anos de idade disse um dia desses a um pai muito esclarecido: Alô, camarada! O pai respondeu, firmemente, gentilmente: Não sou seu camarada, sou seu pai. O pai foi áspero? Não. Reconheceu o fato de que filho e pai não são iguais. Pai é o homem que tem a difícil tarefa de civilizar seu filho. E isso envolve outra difícil tarefa: a de disciplinar. Um dos medos dos pais modernos é o de perder a amizade do filho. O resultado é que este cresce com desprezo por qualquer espécie de autoridade. E o resultado é uma criança e mais tarde um adulto que se sente solta no mundo, sem apoio e sem lei.
Em que se baseia a disciplina? Em firmeza, em carinho, em justiça, em franqueza.
Para quem julga Clarice Lispector apenas uma genial escritora alienada, fora do mundo, eis uma demonstração de sua ligação com a vida social, de suas preocupações com a educação dos filhos e, sobretudo, de sua sabedoria e intuição de mãe.
Veja mais um trechinho curto, para encerrar este meu texto que escrevo só para você:
Definição: Diplomata é um homem que pode ganhar numa discussão com sua mulher sem que ela perceba que saiu perdendo.
Quanta percepção e sensibilidade, meu Deus! Abençoada Clarice.
Até a próxima!
Publicado em 22/11/2011 13:59
Participei com entusiasmo do 5º Congresso Brasileiro de Escritores promovido pela União Brasileira de Escritores (UBE), na cidade de Ribeirão Preto, no período de
Quero deter-me sobre a palestra do Frei Betto, nome pelo qual é conhecido Carlos Alberto Libânio Christo. Sobre ele esclareço que não é frade, isto é, não foi ordenado padre, é irmão pertencente à ordem dominicana. Também não é filiado a nenhum partido político, como muitas pessoas costumam dizer. É um intelectual de vulto e tem escrito muito. Até agora, publicou 53 livros, o último dos quais é o romance Minas do Ouro, que acaba de ser lançado pela editora Rocco. Já o estou lendo e gostando bastante, seja porque também sou mineiro, seja pela boa qualidade literária do livro.
A palestra do Frei Betto intitulou-se Os escritores e as ditaduras e, nela, ele faz um apanhado de todos os escritores que foram vítimas de regimes ditatoriais, pelo mundo, desde a época de Cristo, o primeiro sacrificado por causa do uso das palavras. Jesus, em verdade, morreu sob dois processos: o judaico e o romano. Daí, poder-se dizer que é difícil concordar com o fato de uma pessoa declarar-se cristã e sua fé não ter nenhuma incidência política. Prosseguiu o Frei Betto em sua palestra, mostrando a trajetória literária de grandes nomes de escritores que foram presos, torturados e, muitos deles, mortos por regimes totalitários.Tudo isso para dizer que a literatura tem um caráter claramente conscientizador e, por isso mesmo, desperta o medo em ditadores.
O que me interessa nesta crônica é reafirmar que a função primeira da obra literária é dar o que pensar, é transmitir uma visão de mundo que poderá ajudar o leitor a se ver melhor, a se situar bem na vida e no mundo, a ficar mais esperto no jogo da vida. Por isso tudo a literatura tem de ser bela e fazer-se necessária na vida das pessoas. A literatura, disse bem Frei Betto, não tem de ser engajada politicamente, ela tem de trazer o belo artístico. Engajado quem tem de ser é o autor, não a obra. E eu acrescento, então, que o que faz a literariedade de uma obra são a sua forma significante e o conteúdo de valores que ela transmite. Para mim, o conteúdo da atividade estética é tão decisivo quanto o trabalho com o material linguístico. Por isso, gostei tanto da palestra do Frei Betto e a considerei a mais relevante de todo o 5º Congresso Brasileiro de Escritores.
Clarice para mulheres.
Nunca é demais escrever sobre Clarice Lispector e fico surpreso e feliz, quando vejo nas redes sociais que ela continua despertando o interesse e o encantamento cada vez maiores dos jovens. É bem verdade que muitos a citam, sem ter lido suas obras. Descobrem algumas frases soltas nas quais se reconhecem ou sentem que poderiam servir de guias de seu viver ou de seus amigos e as colocam em seus murais.De qualquer modo, é sempre bom que a literatura sirva de guia para os moços e moças de nosso Brasil amado.
Neste meu espaço, aqui e agora, trago aos meus leitores alguns trechos do belo livro de crônicas de Clarice, intitulado Clarice só para mulheres, da editora Rocco, lançado em 2008, porém pouco citado. Como é gostoso reconhecer Clarice nos conselhos para mulheres, na sugestão de roupas, perfumes e jóias!Quem leu os romances e contos de Clarice, verá nesses trechos escritos sob pseudônimos, para jornais, o estilo insuspeitável e originalíssimo da escritora, sempre atual, de nossa literatura.
Cito alguns trechos, para seu deleite, minha estimada leitora e meu prezado leitor:
Quem é que você deve imitar?
A questão está toda aí: você deve imitar você mesma. O que quer dizer: seu trabalho é o de descobrir no próprio rosto a mulher que você seria se fosse mais atraente, mais pessoal, mais inconfundível. Quando você cria seu rosto, tendo como base você mesma, sua alegria é de descoberta, de desabrochamento.
As 24 horas de um dia
Poucas pessoas pouquíssimas, aliás vivem com alegria. Ou estão lamentando os erros de outrem ou se preocupando com os problemas de amanhã.
Ou se sentem tão cansadas e nervosas que não têm capacidade de usar o momento presente. No entanto, o dever da gente é com o momento presente, sobretudo.
Não existe ninguém no mundo que tenha mais do que 24 horas por dia. Planejando um pouco, é muito possível mais essas essas 24 horas sem a exaustão ou confusão que vêm quando se tenta fazer muito em pouco tempo.
Qual seria a recompensa de um planejamento do tempo? Esta: ter mais tempo.
Minha vontade seria de transcrever mais trechos do precioso livro, mas deixo esses dois como chamariz para a sua leitura da obra inteira, porque sei que você se sentirá recompensada/o pelo esforço de concentração que fará sobre as palavras muito puras gotas de cristal, como Clarice mesma gostava de dizer.
Até a próxima!Publicado em 17/11/2011 10:11
A cidade de Conselheiro Lafaiete, no estado de Minas Gerais, ganhou as páginas dos jornais e tornou-se sucesso na internet, devido a um fato linguístico. A jovem lafaietense, Paola Fernandes Maia de Souza, de 14 anos, participante do quadro Soletrando, do Caldeirão do Huck, da rede Globo, no dia 28 de outubro passado, foi reprovada na soletração que fez da palavra esfoliação. O júri do programa que, naquele dia, certamente não estava de bem com a língua, reprovou a jovem, por julgar errada a soletração feita por ela. Para os jurados, esfoliação só poderia ser escrita com X: exfoliação.
Nunca se consultou tanto o dicionário Aurélio na bela cidade mineira, tenho certeza. Quem não o tinha em casa deve até tê-lo encomendado. Afinal, os brios da população foram atingidos.
Paola havia sido aprovada em todas as fases e ficara para a final, com apenas mais dois candidatos. Ela foi a segunda a soletrar, já que o primeiro havia errado.E lá se foi a representante da aprazível cidade de 102.000 habitantes, próxima de Ouro Preto e Ouro Branco. E Paola não fez feio. Lembrou-se dos produtos esfoliantes que tantas mulheres usam e soletrou com segurança: E-S-F-O-L-I-A- Ç-Ã-O.Seus torcedores ali presentes e, sem dúvida, os seus conterrâneos todos, de olhos grudados na tevê, deram pulos de alegria e gritaram o nome da cidade e da conterrânea famosa. Quando veio o veredito do Luciano Huck: errado, não é com S, é com X, houve uma decepção total. A aluna seguinte soletrou a palavra que lhe deram, de forma correta, e foi declarada vencedora.
A mãe de Paola caiu em prantos, mas a diretora da escola não se conformou. Consultou a internet, pelo telefone celular, e confirmou que aquela palavra poderia também ser escrita com S. Pediu licença reclamou educadamente e provocou espanto geral.
Você poderá estar pensando, caro leitor, como um pessoal tão gabaritado como o do júri do programa poderia errar tão feio, não é mesmo? A candidata estava certa: as duas formas de escrita, com S e com X, estão corretas, conforme o dicionário.
Veja leitor, como muitas pessoas, na posição enganosa de autoridades da língua, reagem, quando erram, e são corrigidas. Tentam justificar o erro com explicações nem sempre convincentes.Foi o que se deu com a equipe de jurados do Huck.
Tão logo a professora e também diretora da escola de Paola fez a reclamação, a equipe de produção do programa pediu que aguardassem a decisão. A aluna, a mãe e a diretora foram chamadas ao local onde havia sido feita a soletração. Exibiram o vídeo da fala de Paola e confirmaram o veredito de erro, porque a garota pronunciou com S e, de acordo com o Aurélio, o significado é diferente.São palavras homônimas,esfoliação e exfoliação, mas têm significados diferentes.Assim, para o júri, Paola Fernandes, que não é cantora, como a sua quase homônima conterrânea mineira, havia errado.Ou seja, inventaram uma saída honrosa.
Agora, faço uma rápida interrupção, na narrativa que vinha fazendo e convido você para vir comigo ao dicionário Houaiss.
Esfoliação
substantivo feminino
ato ou efeito de esfoliar
1 desprendimento, em fólios, escamas ou lâminas, dos tecidos animais ou vegetais
2 Rubrica: medicina.
descamação das células superficiais do epitélio
3 Rubrica: medicina.
descamação da camada cornificada da epiderme
Exfoliação
substantivo feminino
m.q. esfoliação
Vamos também ao dicionário Aurélio:
Esfoliação
[Do lat. exfoliatione < lat. exfoliare, tirar as folhas.]
Substantivo feminino.
1. Ato ou efeito de esfoliar.
2. Geol. Descamação (2). [Cf. exfoliação.]
Exfoliação
[Do lat. exfoliatione.]
Substantivo feminino.
1. Med. Desprendimento da pele sob a forma de escamas [v. escama (2)]. [Cf. esfoliação.]
Faço questão de recorrer também ao dicionário UNESP do Português Contemporâneo organizado pelo meu estimado professor de Linguística no Mestrado, Francisco da Silva Borba, da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP., de Araraquara:
Esfoliação/ exfoliação. Veja que ele já abona as duas em par.
Sf. 1. ato de esfoliar. descamação: a mulher aproveita folgas para fazer exfoliações no rosto.
Esfoliar.
Vt. Fazer desprender a pele de; descamar: Com uma mistura de óleo de amêndoas você pode esfoliar levemente as pernas.
Os dicionários que citei dão razão à ilustre diretora de Conselheiro Lafaiete e à jovem estudiosa e brilhante, Paola Fernandes. Considerar errada a separação das letras que a aluna fez da palavra esfoliação com s, e não com x, só fez desfolhar a insegurança linguística dos jurados do programa e mostrar que, em matéria de conhecimento linguístico, é preciso humildade para reconhecer que a língua tem também as suas armadilhas.
Fico feliz com a notícia de que a Globo resolveu, ontem, refazer a etapa de seleção
Para suavizar um pouco esse deslize terrível das pessoas que compõem o júri do programa Soletrando, cito e recito mentalmente Drummond, como um agradecimento a vocês, minha leitora e meu leitor:
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Até a próxima!
.
Publicado em 10/11/2011 15:28
Outro dia, li na internet a notícia que tinha como foco uma doença cujo nome é estranhíssimo: Síndrome de Crigler-Najjar, tipo 1. O texto narra o drama de uma criança australiana que necessita de banhos diários de luzes azuis, a fim de se manter viva, pois é portadora dessa síndrome, causada pela insuficiência de uma enzima que controla a presença da bilirrubina. E fiquei triste, pensando no sofrimento da criança e, curioso, pelo nome esquisito da doença causado pela bilirrubina.
Lembrei-me depois de que Vinícius de Moraes, no poema, Poesia, havia empregado a palavra bilirrubina, em um dos versos. Vamos ler juntos, leitor, o belo poema do saudoso e grandioso poetinha:
Minha
mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado
Minha
irmã, conta-me histórias da infância em que eu tenha sido herói sem mácula;
Meu
irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a bilirrubina.
Maria,
prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco quilos;
Chamem-me
a massagista, a florista, o amigo fiel para as confidências.
E
comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas
Alinhadas
sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.
O eu-lírico do poema constrói o etos de poeta e encena todo um ritual de preparação para a criação da poesia. Convoca a mãe, a irmã, o irmão, a empregada, a massagista, a florista e o amigo fiel.Todos deverão colaborar para que ele esteja pronto para fazer a poesia acontecer.Quando ela vier, ele deverá estar de bem com o passado, em dia com a infância de herói, com a saúde impecável, com o físico afinado, com o corpo descansado, com a casa cheia de flores e sem sobras de segredo.A voz que fala nos versos quer estar pronta para o momento da inspiração poética e sabe que se não estiver, a poesia fugirá.
Gostei dos versos, quando os li pela primeira vez, e fixei-me na palavra bilirrubina. Quando o poema é bem composto, nem mesmo uma palavra tão prosaica, tão sem poesia, pode tirar-lhe a beleza,.Pelo contrário, ela também se torna bela e ganha contornos poéticos.
De onde teria vindo bilirrubina? Veja só: essa palavra pertence ao universo vocabular da Bioquímica, é formada pelos radicais latinos: bílis+ruber e, segundo o dicionário Aulete digital é substantivo feminino e significa: pigmento biliar vermelho, elaborado nas células de Kupffer do fígado por degradação da hemoglobina e do qual derivam outros pigmentos, como a biliverdina. É o principal dos pigmentos biliares; encontra-se também nos cálculos biliários.
E não é que Vinícius de Moraes andava preocupado com o nível de bilirrubina no organismo? Daí descobrimos que o poeta queria mesmo estar bem humorado, com a bílis em dia, já que o substantivo bílis significa:
1-Líquido esverdeado, amargo e viscoso, segregado pelo fígado e que, por meio de sistema próprio de canais, é levado ao duodeno, participando, de modo importante, da digestão.
2- Fig. Mau humor, irascibilidade, hipocondria.
O poeta não queria tornar-se bilioso, isto é, cheio de bílis, de mau humor, colérico, incapaz de estar alinhado para alinhavar os versos prestes a vir à sua mente.
Muito menos queria estar melancólico o que já seria estar com a bílis enegrecida, segundo a origem grega da palavra: melan (de cor preta e, por extensão: triste) + kolé (bílis). O dicionário Aurélio assim registra as acepções dessa palavra funesta que não combina com o universo poético de Vinícius:
1 Tristeza sem causa definida, por vezes acompanhada de uma saudade difusa
2 Desgosto, pesar
3 Psiq. Distúrbio emocional caracterizado por um estado de abatimento mental, pela sensação de impotência, pelo sentimento de que a vida não possui sentido, podendo, se não tratado, conduzir ao suicídio.
Nada como uma boa pesquisa sobre os significados das palavras para descobrir o sentido dos textos, porque significado e sentido estão próximos, mas não são exatamente a mesma coisa. Acabei de ler isso, não em um livro de teoria literária, mas em um romance dos mais belos de José Saramago. O livro intitula-se Todos os nomes e foi publicado aqui no Brasil, pela editora Companhia das Letras, em 1998. Não há como não recomendá-lo para sua leitura, amigo leitor. Acompanhe-me neste trecho da história:
O diálogo fora difícil, com alçapões e
portas falsas surgindo a cada passo, o mais pequeno deslize poderia tê-lo
arrastado a uma confissão completa se não fosse estar o seu espírito atento aos
múltiplos sentidos das palavras que cautelosamente ia pronunciando, sobretudo
aquelas que parecem ter um sentido só, com elas é que é preciso mais cuidado.
Ao contrário do que em geral se crê, sentido e significado nunca foram a mesma
coisa, o significado fica-se logo por aí, é directo, literal, explícito,
fechado em si mesmo, unívoco, por assim dizer, ao passo que o sentido não é
capaz de permanecer quieto, fervilha de sentidos segundos, terceiros e quartos,
de direcções irradiantes que se vão dividindo e subdividindo em ramos e
ramilhos, até se perderem de vista, o sentido de cada palavra parece-se com uma
estrela quando se põe a projectar marés vivas pelo espaço fora, ventos
cósmicos, perturbações magnéticas, aflições.
Não basta o significado, é preciso buscar o sentido do que se lê, do que se vê e, principalmente, do que se vive.
Até a próxima.
Publicado em 31/10/2011 10:52
Ouço muitas vezes essa expressão e também você, leitor, deve ouvi-la bastante, e é sobre ela que inicio esta crônica. O que significa falar bem o português? Para muitas pessoas, talvez a maioria, falar bem significa expressar-se rigorosamente de acordo com os padrões da gramática normativa. Nesse caso, não se perdoam quaisquer deslizes de ordem gramatical e ainda se espera que aquele que fala faça uso de algumas palavras, expressões e locuções que sejam elegantes e não muito comuns na fala cotidiana das pessoas em geral.Será isso mesmo o que ensina a teoria Sociolinguística? Não, não é esse o posicionamento dessa teoria que trata da relação entre a língua, a sociedade e o usuário. Para a Sociolinguística, a língua varia de acordo com os usuários e com os usos, e falar bem é usar a língua de modo a ser entendido pelo interlocutor. Segundo os sociolinguistas , a língua varia no tempo e no espaço e todas as normas são igualmente válidas.Não há deficiência no linguajar das pessoas não escolarizadas, mas, sim, diferenças de expressão linguística em relação à norma privilegiada socialmente.
Existem dois tipos de variedades linguísticas: os dialetos e os registros.
1) Dialetos: Variedades de fala e escrita que dependem dos usuários da língua.
2) Registros: Variedades que dependem dos usos, dos interlocutores do discurso e da mensagem.
Os dialetos podem ser dos seguintes tipos:
regionais;
sociais;
de idade;
de sexo;
de geração e função social.
Os registros linguísticos classificam-se de acordo com:
1- o modo (língua oral e língua escrita);
2- o grau de formalismo que varia numa escala de cinco graus básicos
e a sintonia, isto é, o grau de status social dos interlocutores, o grau
de cortesia entre eles, a tecnicidade da mensagem;
3- a norma.
Vejamos os graus de formalismo no quadro a seguir:
LÍNGUA ORAL LÍNGUA ESCRITA
Oratório Hiperformal.
Formal ou Deliberativo Formal
Coloquial Semiformal
Casual Informal
Familiar Pessoal
Registros Oratório e Hiperformal (grau extremo de formalismo):
Como exemplos de registro oratório temos os chamados discursos de tribuna (proferidos por oradores em sessões de Tribunais, Parlamentos, Igrejas) com predomínio das funções conativa, referencial e emotiva da linguagem. É a busca da persuasão, do
convencimento, da exortação. O registro Hiperformal predomina em certas mensagens literárias que se preocupam rebuscada do texto de modo que ele se faça entender apenas pelos estudiosos da língua e consulentes de dicionários. Os textos de Rui Barbosa, Coelho Neto, a Carta às Icamiabas, no romance Macunaíma, de Mário de Andrade, são exemplos do uso desse registro. Imagine, leitor, você ouvir uma frase como esta: O mancebo osculou a face angelical da moçoila ao aljôfar.(tradução: O rapaz beijou a mocinha ao cair do orvalho da manhã. Ou esta outra: A bucéfalo de oferenda não perquira a odontogenia. Esse seria o registro gramatical hiperformal do conhecido provérbio: A cavalo dado não se olham os dentes.
Registros Deliberativo e Formal: linguagem bem cuidada de acordo
com a norma culta: a linguagem dos jornais, os textos científicos e didáticos das teses, livros didáticos e artigos de grandes revistas, servem de exemplo.
Registros Coloquial e Semiformal: uso de construções gramaticais mais soltas, menos preocupadas com a gramática normativa. É a linguagem dos diálogos descontraídos, das reportagens de rádio e tv., etc.
Registros Casual e Informal: é a linguagem de grupos (gírias
próprias, termos especiais, liberdade de repertório e de sintaxe. Na
escrita, a correspondência familiar é o campo próprio desse registro.
Registros Íntimo e Pessoal: maneira pessoal de se usar a linguagem
na vida familiar e particular, com o mínimo de formalidade.
A língua portuguesa é o conjunto desses dialetos e registros e todos eles têm o seu grau de complexidade e riqueza de significação. O ideal é que todos os brasileiros possamos aprender os diferentes registros e dialetos e saibamos empregá-los de forma adequada, nas diferentes situações sociais que venhamos a enfrentar. Essa é uma afirmação pedagógica e teórica que faço, não sem antes explicar que a função da escola é criar condições de os alunos aprenderem o registro formal da língua, a norma considerada padrão que é privilegiada pela sociedade. O alunos não deveriam concluir o período de escolarização obrigatório sem ter o domínio pleno dos modos de expressão oral e escrita prescritos pela gramática normativa da língua.
Como estudioso da gramática e da teoria linguística tenho uma séria de sugestões para mudanças de nossas gramáticas, mas não posso preconizar o seu abandono no ensino de língua portuguesa. A gramática, repito, não tem culpa pelo mau uso que dela alguns fazem. Ela não quer ser rainha, ela quer ser mesmo serva do uso da língua. Ela não é sinônimo de língua, é apenas o seu retrato, uma tentativa de codificar os usos da língua.
Acho muito estranho o fato de a maioria das pessoas, mesmo as escolarizadas, não conhecerem uma gramática. É sinal de que, na escola, tenta-se ainda hoje ensinar a norma prescrita pela gramática, sem que os alunos a tenham em mãos. É um ensino de gramática sem a gramática. Convenhamos que não deva ser uma tarefa fácil para o professor, não é?
Até a próxima!
Publicado em 25/10/2011 09:59
Combinemos que, de quando em vez, é bom que abordemos, neste Rodapé Literário, aspectos da ortografia e da gramática da nossa língua portuguesa. Escrevo a expressão nossa língua, porque precisamos todos sentirmo-nos donos dela também.A língua é para ser amada e usada espontânea e naturalmente como nossa forma de ação no mundo.As pessoas costumam demonstrar receio, ou até medo, de falar ou escrever em determinadas circunstâncias, por não se sentirem seguras em relação às regras gramaticais.Eu lhes garanto, no entanto, que não se pode fazer da gramática normativa um instrumento de inibição da fala ou escrita de quem quer que seja.È evidente que o ideal é que as pessoas se esforcem para ter o domínio pleno dos recursos da língua, para falar e escrever na modalidade considerada culta.A situação real é que esse fenômeno não acontece, por uma série de fatores, desde os problemas do ensino, passando pela situação econômica, até chegar a um fator que considero preponderante: a preguiça de ler que assola o país.As pessoas leem muito pouco,usam muito pouco os olhos para se concentrar na palavra escrita, em busca de informação, cultura, entretenimento, formação espiritual e artística.Nem jornal as pessoas leem.Basta que consultemos a tiragem dos nossos jornais. Fala-se muito, ouve-se pouco, lê-se e escreve-se menos ainda. As nossas pesquisas sobre leitura revelam essa verdade.Tenho certeza de que esse não é o seu caso, leitor, uma vez que você está concentrado até aqui, acompanhando a escrita deste meu texto.Agradeço e louvo a generosidade de sua atenção à minha crônica e lhe afirmo que o meu objetivo de escrever é ser útil aos que me leem.
Dito isso, passemos a algumas regras de ortografia que espero possam ajudá-lo em caso de dúvidas.
Emprego das letras S/Z
Veja a ortografia das seguintes palavras:
a) Pesquisar, alisar, divisar, improvisar, paralisar. Todas estão escritas com a letras S, porque são derivadas de palavras que já são grafadas com S, na raiz: pesquisa,lisa,divisa,improviso e paralisia.
b) Atualizar, canalizar, amenizar, externar, exteriorizar. Todos esses verbos são grafados com Z, porquanto são derivados de palavras que não têm essa letra na raiz. São elas as primitivas: atual, canal, ameno, externo e exterior.
Se você estiver em dúvida quanto à terminação ESA ou EZA, observe o seguinte:
c) Se o substantivo não for derivado de adjetivo, escrever-se-á com S: marquesa, camponesa, defesa, princesa.
d) Se for derivado de adjetivo, deverá grafar-se com Z: magreza, gentileza, frieza, beleza, nobreza que são derivados dos adjetivos: magro, gentil, frio, belo, nobre.
Emprego de SS
As pistas metodológicas que se apresentam a seguir são bastante úteis, para sanar dúvidas ortográficas:
a) Palavras derivadas de verbos que têm o radical ced, são escritas com SS. É o caso de
cessão, derivada do verbo ceder; acesso, de aceder.
b) Quando os verbos têm o radical gred, dão origem a palavras grafadas com SS: Examine os exemplos: regredir (regresso); agredir (agressão).
c) Se o verbo tiver a raiz prim, as palavras dele derivadas deverão ser escritas com SS:
imprimir (impressão); reprimir (repressão).
d) Se os verbos tiverem o radical meter como é o caso de intrometer, prometer, submeter, as palavras que deles se derivarem serão escritas com SS. Veja os exemplos: intromissão, promessa, promissão, submissão.
e) Os verbos que terminam em tir dão origem a palavras que se escrevem com SS. Mire os exemplos: discutir (discussão); admitir (admissão); permitir (permissão).
Emprego de Ç
Com ç escrevem-se as palavras que se enquadram nos casos seguintes:
a) derivam-se de palavras que terminam
b) Os verbos ter e seus compostos também dão origem a palavras com Ç, como: retenção, de reter; tenção, de ter; contenção, de conter; abstenção, de abster.
c) Após ditongos: eleição (ditongo: ei); afeição (ei); traição (ai).
d) Vocábulos de origem árabe: muçulmano, açucena; açafrão; açúcar.
e) Palavras de origem africana ou indígena: juçara, araçá, Iguaçu, paçoca, Paraguaçu, caçula.
Emprego de S
a) Os substantivos que são derivados de verbos cuja raiz termine em nd, são escritos com S. São exemplos: expansão, suspensão, pretensão, ascensão, que são derivados, respectivamente, dos verbos: expandir, suspender, pretender e ascender.
b) Também com S devem ser grafados os substantivos derivados de verbos com o radical terminado em rg ou rt, como é o caso de: imersão, inversão, conversão, diversão, cuja origem está nos verbos: imergir, inverter, converter e divertir.
c) Escrevem-se com S os substantivos correspondentes a verbos com o radical pel ou corr. Sirvam como exemplo as palavras: impulsão (derivada de impelir); expulsão (expelir); repulsão (repelir); curso, discurso, excursão, incursão, recurso e cursivo, sendo essas seis últimas derivadas do verbo correr.
Emprego de X
Apresento a você, leitor, uma regra bastante prática para o caso da grafia com X:
Se a palavra iniciar-se com exa, exe, exi, exo, exu, com o som de Z, será escrita com a letra X. Veja comigo: exame, executar, exílio, exotismo, exumação. É importante que eu explique que só existem nove palavras, nessa situação, que não seguem essa grafia e são escritas com a letra S, de acordo com o Dicionário Aurélio. São elas:
Eseré (fava de calabar); esipra (erisipela); esocídeos (espécie de peixes); esoderma (membrana de insetos); esôfago; esoforia (estrabismo); esoterismo (ocultismo, não confundir com exoterismo que, na filosofia, significa, de acordo com o Aurélio: ensinamento que, em escolas da Antiguidade grega, era transmitido ao público sem restrição, dado o interesse generalizado que suscitava e a forma acessível em que podia ser exposto, por se tratar de ensinamento dialético, provável, verossímil.); ésula (planta) e esurino (aquilo que excita a fome).
Leitor, faço questão de agradecer a sua companhia nesta crônica linguístico-literária e encerro-a com uma confissão bonita e pedagógica de Clarice Lispector no seu livro A descoberta do mundo, p.101: E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever, é com se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.
Até a próxima.
Publicado em 18/10/2011 09:53
Hoje é para ser comemorado mais um Dia do Professor! E eu sou um deles, com a mais perene alegria. Antes de tudo, sou professor e tenho o maior orgulho dessa resposta que eu dou à minha existência. O entusiasmo que sinto pela sala de aula continua o mesmo das minhas primeiras aulas. E olhe que já se vão longos quarenta e sete anos de profissão. Mesmo que fosse hoje, apesar da situação tão sofrida dos professores brasileiros, sobretudo os do ensino fundamental e médio, eu ainda escolheria ser professor. Chego a crer que o magistério nem é mesmo questão de escolha.De repente, não mais que de repente, como diria Vinícius, a pessoa se vê professor, sente uma espécie de chamado para a sala de aula.Dali, daquele espaço de magia, encontro e acolhimento, onde um dia eu entrei por acaso, não mais quis sair.
Estou escrevendo este texto, no dia 12 de outubro, data em que se homenageia no Brasil a nossa Santa Padroeira e a criança e, logo no dia 15, em que você deverá estar lendo o que escrevi neste espaço do jornal, erguem-se louvores aos professores. Criança e professor são figuras que se casam à perfeição, que se entranham e se dão como pais e filhos. Nesta data, sinto-me professor e criança. Como professor, eu agradeço todos os meus alunos do ensino fundamental à pós-graduação. Não fossem vocês, eu não seria professor.Com todos vocês eu aprendi um pouco mais sobre a vida e sobre os homens.Descobri-me muito mais no encontro, na solidariedade e na crença mútua.
Como criança, faço questão de homenagear as minhas professoras do antigo Grupo Escolar Dr.Lycurgo Leite, da minha inesquecível Juréia,
O título de minha crônica é para lembrar que hoje é dia de dar vivas entusiasmados ao professor, mas, infelizmente, é também dia de desejar que viva o professor, que ele continue vivo, porque já atentam contra a sua vida nas escolas do Brasil. Ah! quem poderia imaginar que um dia chegaríamos a esse estado de barbárie.
Sobre grama e gramática
Um dos estudos linguísticos mais fascinantes é o da origem e transformação das palavras, a chamada etimologia. De certa forma, podemos considerar que as palavras têm uma vida semelhante à nossa. Elas nascem, crescem no uso, transformam-se, têm um período fecundo de produtividade de sentido e uso e depois entram em estado de decadência e são substituídas por outras. Não é regra geral, mas acontece com quase todas.A diferença negativa contra nós é que ninguém escapa à lei da decadência e desaparecimento.
Vamos às palavras e suas origens. Escrevi sobre caligrafia na crônica anterior e expliquei a origem grega da palavra: Kalós+graphein, em que a primeira significa bela, bonita e a segunda, escrever. Temos assim, a palavra caligrafia com o significado original de escrita bonita. O significado de escrever, para graphein, surgiu por associação, porque este verbo grego nasceu para designar a ação de sulcar, arranhar, raspar as letras nas pedras ou na argila.Daí, para passar a designar o ato de escrever foi um salto natural.E hoje temos, em muitas línguas palavras derivadas de graphein, como gráfico,grafia,autógrafo,parágrafo,grafema,grafe,grafila,grafomania,graforreia, grafismo grafemático,grafologia,grafofobia,grafite, grafismo,grafiteiro e tantas outras.
Ainda na língua dos gregos antigos, não dos gregos quebrados de hoje, encontramos gramma, como elemento de composição de palavras, derivado de graphé, para designar letra do alfabeto, escrita, registro, lista, livro, descrição, veja quanta possibilidade de significados para gramma, até chegar à nossa Gramática, que é derivada de Grammatiké tékne cujo significado seria ciência ou arte da escrita. Desse elemento de composição gramma, colocado no final de palavras, teremos no dicionário muitos exemplos de palavras entre as quais poderei apontar as seguintes, com um convite a que você vá, quando possível, ao dicionário, para conferir ou descobrir os seus significados:
anagrama, antibiograma, audiograma, caligrama, cronograma, decigrama, diagrama, digrama, electrencefalograma, epigrama, estenograma, fonograma, fotograma, hemograma, hierograma, lipidograma, lipograma, maregrama, metagrama, miligrama, monograma, organograma, pentagrama, pictograma, programa, psicograma, radiograma, silabograma, sismograma, taquigrama, telegrama, tetragrama.
Também devo mencionar um outro significado para gramma no grego: pequeno peso, por estar relacionado à pequenez das letras do alfabeto. Daí, termos a unidade de massa chamada de grama em português: dois gramas, duzentos gramas, etc , sempre no masculino.
Leitor, pode ser que você esteja curioso e queira interrogar-me: Professor, a palavra grama do campo de futebol ou do jardim teria vindo dessa mesma gramma do grego?
Respondo-lhe: A grama de jardim ou do campo de futebol originou-se do latim gramen, graminis. Nada tem a ver com a gramma dos gregos, que não é capim. Existe entre nós,atualmente, uma expressão popular,comer grama,para significar que a pessoa enfrentou muitas dificuldades, para realizar uma tarefa difícil. Posso garantir-lhe, entretanto, que para mim foi tão natural e gostoso escrever este texto que posso chamar Guimarães Rosa, para me emprestar uma das belas frases de seu Grande Sertão: Veredas: O bom da vida é para o cavalo, que vê capim e come. Simples assim. Até a próxima.
Publicado em 03/10/2011 11:00
É muito gostoso ouvir o leitor de um texto que escrevemos e descobrir as sensações e impressões que ele teve, enquanto lia o nosso escrito. Uma leitora muito querida fez a gentileza de comentar a minha última crônica e dizer que ficou impressionada com a minha paixão pela leitura, desde tão cedo.Disse-me ainda que adorara ler as frases que transcrevi do meu caderno de anotações sobre os livros que havia lido, em um só ano.Para ela a mais bonita das frases foi : Um homem que não pode amar seu semelhante, tampouco pode amar a Deus.(Sully Prudhome, no livro,Diário Íntimo).
Lembrei-me, de cor, da frase de Guimarães Rosa,
Vamos a um livro belíssimo e inesquecível que foi uma marca na minha trajetória de leitor adolescente e que há pouco tempo eu tive o prazer renovado de reler. Trata-se do romance Deus Nasceu no Exílio, produzido por um autor da Romênia, chamado Vir gil Georgiu, que escreveu também um romance célebre intitulado: A 25ª Hora.
1ª- Não é preciso ter tudo o que se deseja, para ser feliz.
2ª- O aspecto dos homens não passa muitas vezes de falsa aparência.
3ª- Poderíamos viver todos em paz se os homens não tivessem medo uns dos outros.O medo faz-nos empregar linguagens diferentes.E a vida torna-se uma guerra sem fim, uma guerra dia a dia mais encarniçada.fabricam-se armas em vez de inventar palavras de paz.
4ª- Se víssemos tudo o que nos espera, o tempo que passa teria um gosto de podridão.
5ª- Pode-se, portanto, morrer, antes de estar definitivamente morto.
6ª- O exílio é este lugar suspenso entre uma origem que se apagou na areia e um fim que não se deixa entrever.
Com essas frases, eu me presenteei e também a você, meu leitor, pelos valores que elas transmitem e pela beleza que irradiam. Também creio, ter-lhe dado uma sugestão para suas próximas leituras qual seja a de anotar frases e até trechos mais longos.De preferência em letra cursiva, a nossa caligrafia, a bela escrita, cuja morte vem sendo injustamente decretada.
O lavarroz
Abro um outro tópico nesta crônica, para lhe dar uma informação. O objeto culinário escorredor de arroz, de utilidade incontestável para quem cozinha, foi inventado por uma senhora nascida em Batatais, na nossa cidade amada. Por ela, o objeto seria patenteado como lavarroz, mas o nome de registro que permanece até hoje é escorredor de arroz. Pois é, a cirurgiã-dentista Therezinha Beatriz Zorowich, conhecida como Beatriz, conforme o desejo dela mesma, incomodada com o constante entupimento da pia pelos grãos que escorriam da bacia em que lavava o arroz, sentiu uma fagulha criadora e inventou o protótipo do que seria o escorredor de arroz: uma vasilha que de um lado pudesse lavar o arroz e do outro fizesse escorrer a água suja, sem que os grãos vazassem. Seu marido era engenheiro e ajudou-a a fazer o modelo em papel alumínio e daí para ser vendido para a Trol, indústria de plástico famosa, foi um passo.O lavarroz de Beatriz Zorowich virou realidade com o nome de escorredor de arroz.Nossas homenagens à inventora batataense.
Não vou perder a oportunidade de explicar o processo de formação dessas duas palavras: lavarroz e escorredor de arroz. A primeira é formada pelo processo de composição por aglutinação: esse processo se dá, quando duas ou mais palavras se ajuntam de tal forma que acabam perdendo sua integridade fonética e dão origem a uma outra. Nesse caso, na junção das duas, acabou desaparecendo uma letra a:seria lava-arroz e ficou sendo lavarroz. No segundo caso, as palavras se justapuseram, conservando a sua constituição fonética e deram origem a uma nova palavra da língua. Esse processo tão comum de formação de novas palavras na língua intitula-se composição por justaposição. Para ser sincero com você, considero lavarroz mais poético do que escorredor de arroz. E você?
Quero fechar o meu texto com um lamento pela falta de estímulo à escrita chamada de cursiva, a nossa tradicional caligrafia. Escreva à mão, como eu fiz em meu caderninho que foi a fonte de inspiração para as minhas duas últimas crônicas, e sinta o quanto é mais natural e faz bem ao cérebro. Steve Job que o diga. Na próxima semana, tratarei desse assunto. Até lá.
Publicado em 25/09/2011 13:48
Escrevo esta crônica para você, leitor, que me perguntou se a literatura resolve o problema de quem precisa aprender gramática. Antecipo-me às considerações que deverei fazer neste texto, para expressar minha devoção tanto à gramática quanto à literatura. Desde sempre gostei de ler.E como já li!E como ainda acho que tenho de ler!Tenho comigo um caderno com anotações de livros que li em um ano. Nutro um amor grande por este meu caderninho e, para não deixá-lo mais curioso, leitor meu, cito alguns dos livros que li, em um único ano.Eu tinha 17 anos. Fiz-me leitor muito cedo, precocemente mesmo. Hoje luto para formar leitores e nem sempre consigo, mas já formei muitos e formarei outros tantos.É a minha alegria e realização como educador.
Pela primeira vez, vou digitar os títulos dos livros que estão no citado e reverenciado caderno e, nesse gesto, tenho certeza, voltarei à época e condição de leitura que vivi, quando li cada um desses livros. Sentirei saudade, muita mesmo, e desejarei voltar àquele tempo.A minha sensação será indescritível e inefável.
Já o que você vai experimentar de sensação, ao me acompanhar nessa trajetória de volta a um passado de leitura, não me será acessível, a não ser no plano da imaginação. Tudo isso, só é proporcionado pela leitura.
Venha comigo à lista de livros amados que eu releria com muito prazer e sabor.
1-Trem de Istambul, Graham Greene.
2- Doutor Jivago, de Boris Pasternak.
3- Terra dos Homens, Antoine de Saint- Exupéry
4- Cela da Morte, Caryl Chessman.
5- Leon Tolstoi, Stefan Zweig
6- De Saga em Saga, Selma Lagerlof.
7-Os Irmãos Karamazov, Fiódor Dostoiévski.
8-Um Caso Liquidado, Graham Greene.
9-Diário Íntimo, Sully Prudhome.
10-Deus Nasceu no Exílio, Vintila Horia.
11-Um Certo Sorriso, Françoise Sagan.
12-Você Gosta de Brahms? Françoise Sagan.
13-Dentro de um Mês, dentro de um Ano, Françoise Sagan.
14- Gigi, Colette.
15-Amor de Outono, Colette.
16-Chocolates pela Manhã, Pamela Moore.
17-Os Homens não Querem Morrer, Paul Henry Simon.
18-O Poder e a Glória, Graham Greene.
19-Um Americano Tranquilo, Graham Greene.
20-Cartas à sua Noiva, Jaques Maillet.
21- Grandes Amizades, Raissa Maritain.
22- Psicologia do Caráter, Rudolf Allers.
23-Advogado do Diabo, Morris West.
24-A Peste, Albert Camus.
25-Cidade Vazia, Fernando Sabino.
26- Virilidade, Sexo e Amor, Dr. François Goust.
27- A Raposa e as Uvas, Guilherme Figueiredo.
28-De Mulher o que Você Entende?, Madeleine de
Agora que os citei e os revelei a você, terei um prazer imenso em transcrever frases de muitos deles que eu ia anotando à medida que ia lendo cada um.
Começo com o inesquecível Terra dos Homens, do criador de O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry. Nesse livro, o escritor relata as suas aventuras como piloto de aviação.Reflita sobre as seguintes frases que anotei, em meu caderninho, à mão, em letra cursiva, portanto:
1ª. - Mais coisas sobre nós nos ensina a terra mais que todos os livros.Porque nos oferece resistência.
2ª. - A grandeza de uma profissão é talvez, antes de tudo, unir os homens; só há um luxo verdadeiro, o das relações humanas.
3ª. - Cada um se enriquece com a descoberta de outras consciências.
4ª. - Quando tomamos consciência de nosso papel, mesmo o mais obscur,.só então somos felizes.Só então podemos viver em paz e morrer em paz, pois o que dá um sentido à vida, dá um sentido à morte.
5ª. - A verdade para um homem é o que faz dele um homem.
6ª. -As vocações ajudam o homem a se libertar, mas é igualmente necessário libertar as vocações.
Outro livro que li com muito gosto também foi Advogado do Diabo, de Morris West. Desse romancista, recomendo também A filha do Silêncio.É uma emocionante narrativa.Veja comigo algumas frases copiadas de Advogado do Diabo:
1ª- A fome não tem moral.
2ª- Como acontece com a maioria das pessoas bem educadas, não tinha defesa contra a grosseria dos outros.
3ª-Um homem que não pode amar seu semelhante, tampouco pode amar a Deus.
Um livro que me ajudou bastante na formação do meu caráter foi Diário Íntimo, de Sully Prudhome. Dele, cito algumas frases:
1ª- O amor contém em si um infinito desejo de fazer feliz o ser amado.
2ª-E estima que nos inspiram os homens pode medir-se pela qualidade de nossas confidências.
3ª- Amemo-nos uns aos outros e a face da terra se transformará.
4ª- A sinceridade é a condição principal de qualquer produção do espírito.
5ª- Nada mais agradável no mundo do que uma conversa simpática, pois nela se exercitam todos os poderes do espírito e do coração, com suficiente respeito ao interlocutor para dizer apenas coisas dignas. Essas trocas de calor e de luz são belas, animadoras e instrutivas.
Não encerro esta crônica sem escrever que a literatura tem mesmo uma função enobrecedora para quem escreve e uma função conscientizadora para quem lê. O compromisso da literatura é com a beleza da criação verbal e com a configuração de um mundo novo para o leitor.Ela não tem compromisso de ser modelo de ensino de gramática normativa.O escritor tem plena liberdade de tratar a língua conforme os propósitos de seu texto e, por essa razão, todas as normas linguísticas podem estar em um romance em um conto em uma novela.Um texto literário pode servir de modelo de criação de textos, mas pode não servir como uma boa aula de gramática.Ainda voltarei a esse tema fascinante, amigo leitor. Até a próxima.
Publicado em 13/09/2011 11:39
Gosto de observar a movimentação dos significados das palavras. Nos últimos meses estou atento a um novo emprego do substantivo abstrato atitude. Convido você, meu leitor, a ler os seguintes enunciados com o emprego dessa palavra,extraídos do jornal Folha de S.Paulo:
(1) Ex-guitarrista de Ozzy Osbourne traz peso e atitude a São Paulo.
(2) O candidato Paulo Maluf (PP) mostrou depoimentos de eleitores que têm atitude e votam em Maluf e pediu votos para ir para o segundo turno.
(3) Desta vez, a new face da cidade de Lagoa do Itaenga adquiriu o perfil que o novo inverno pede: exala uma sensualidade cheia de frescor e tem atitude de sobra.
(4) todas fazendo cara de quem tem atitude, e de repente é preciso escolher dez misses sorridentes.
(5) Ela tem atitude, mas não sei como ela vai se sair na frente das câmeras com um...
(6) O problema não é vencer. É a maneira que se joga. O torcedor são-paulino quer espírito de jogo. Todos querem ser campeão, mas é preciso atitude. Acho que valeu pela demonstração de vontade, de garra e de luta", disse o goleiro.
(7) Ele tem atitude, não é o personagem que todas as mães gostariam de ter como filho.
É um novo uso do substantivo atitude que, até há pouco, fazia-se acompanhar de verbos como tomar, gostar, mudar, questionar, reprovar e sinônimos, ou de adjetivos como elegante, digna, reprovável, indigna, inadmissível, tal como nos exemplos a seguir:
(8) As imagens também mostram uma pessoa que estava no local questionando a atitude do policial e afirmando que a ocorrência não passava de um acidente.
(9) Mudar a atitude da equipe.
(10) Ela não aceitava fingir que nada estava acontecendo. Ela pagou no final um preço altíssimo por essa atitude.
(11) Os conservadores não gostaram (da atitude) do secretário-geral da OEA, o social-democrata chileno José Miguel...
(12) A nota, porém, provocou reação dos alunos, que consideraram inadmissível a atitude do professor.
Se o leitor consultar o dicionário Aurélio, de 2010, encontrará os registros que se seguem:
[Do it. attitudine, pelo fr. attitude.]
Substantivo feminino.
1. Posição do corpo; porte, jeito, postura:
Mantém-se erecta, em atitude elegante.
2. Modo de proceder ou agir; comportamento, procedimento:
Qual foi a sua atitude em face do desafio?
3. P. ext. Afetação de comportamento ou procedimento:
Sua cordialidade é pura atitude;
Tomariam lá por fora como uma atitude, aquele meu interesse pelos escravos de minha gente. (José Lins do Rego, Banguê, p. 74.)
4. Propósito, ou maneira de se manifestar esse propósito:
A atitude das nações aliadas na II Guerra Mundial foi de hostilidade ao nazismo.
5. Reação ou maneira de ser, em relação a determinada(s) pessoa(s), objeto(s), situações, etc.
Sua atitude negativa revela-lhe o desequilíbrio psíquico.
6. Astron. Posição de um foguete, míssil ou satélite artificial, determinada pela direção de seu eixo principal em relação a um dado sistema de coordenadas.
7. Mar. G. Bras. Orientação do eixo longitudinal do projetil, ou de um dos três eixos do míssil guiado, em relação a uma referência preestabelecida.
8. Orientação de uma aeronave determinada pela relação de seus eixos com uma linha de referência ou um plano de referência, mas não necessariamente horizontal.
De uma forma ou de outra, vimos que os usos da palavra atitude, nas frases de (8) a (12) encaixam-se nas acepções do dicionário. Contudo, nas frases de (1) a (7), a presença do verbo ter ou trazer empresta uma nova acepção ao substantivo. Ter atitude passa a significar ter posicionamento diante de uma situação, ter firmeza, caráter, vontade própria, presença marcante, certeza do que quer alcançar. Também, já não precisa de adjetivo, basta-se a si mesmo. Com certo exagero, pode-se dizer que o substantivo atitude agora tem mais atitude. As novas edições dos nossos melhores dicionários registrarão, sem dúvida, essa nova acepção dessa palavra.
Na pesquisa que fiz, encontrei ainda um exemplo curioso de uso do verbete atitude e trago-o para você que me lê agora. Em um texto com o título: Após relatório, Air France defende pilotos do voo
Pode-se até pensar em um possível erro do redator, porém a acepção (8) do dicionário Aurélio, que aparece transcrita acima, abona o seu emprego dessa forma. O estranhamento acontece porque o jornalista empregou o adjetivo alta junto de atitude, o que conduz o leitor a imaginar que alta combinaria com altitude e, em uma leitura em voz alta, inescapavelmente, ler-se-á: alta altitude.
Estar de bem com a língua é muito bom, leitor, porque a vida das palavras é também divertida como a nossa, porém também pode ser perigosa, da mesma forma como a vida de todos nós, também o é tantas vezes.
E já que tratei da vida das palavras, dou-me ao luxo de acabar meu texto e de me despedir de você, meu caríssimo leitor, com versos do genial Carlos Drummond de Andrade, no poema, O Lutador:
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.
Publicado em 06/09/2011 10:36
O caderno Equilíbrio, do jornal Folha de S.Paulo, do dia 30 de agosto último, trouxe uma pesquisa sobre o modo como os profissionais brasileiros fazem a gestão de seu tempo e concluiu que 33% deles gastam duas horas sem nada fazer e 52% deixam para a última hora o cumprimento de uma tarefa que seria urgente. Esse fenômeno é chamado de procrastinação que é, segundo a jornalista que redigiu o texto, o impulso que leva a pessoa a fazer qualquer coisa, mesmo que seja sem atrativo algum, em lugar daquilo que seria o necessário.
Confesso a você, meu leitor, que fui atraído para a leitura dessa reportagem pelo emprego inusitado do substantivo procrastinação. Aqui mesmo, neste espaço de O Jornal, já escrevi uma crônica sobre variação linguística e dei um exemplo de registro linguístico hiperformal, com o verbo procrastinar. Veja como foi: Não procrastines o que é de feitura hodierna, em vez de: Não adies o que é para ser feito hoje.Essa última A pesquisa poderia ter chamado de enrolação ou adiamento a tendência humana de deixar para depois o que pode ser feito imediatamente,mas, talvez, para ficar mais chamativa preferiu usar o inusual substantivo procrastinação.Essa palavra tem origem no latim procrastinatio,procrastinationis cujo significado é adiamento ou demora.O verbo que lhe deu origem é procrastino, procrastinas, procrastinare que significa procrastinar, deixar para amanhã, adiar.
Fiquei feliz com o uso dessa palavra já tão esquecida e que agora ganha uma certa sobrevida. Entretanto, devo ressaltar que o emprego que se fez dela na pesquisa não foi dos mais saudáveis, já que o propósito foi de criar um sentimento de culpa e condenação a quem procrastina uma tarefa.Fico tentado a perguntar: Quem já não procrastinou uma tarefa alguma vez? É evidente que não estou fazendo nenhum elogio à preguiça ou ao preguiçoso, mas não podemos negar que todos nós já procrastinamos ou tivemos vontade de procrastinar algumas obrigações. Por isso mesmo é que somos humanos.
Relembro-me, bem humorado, dos versos do imortal poeta Mário Quintana, para suavizar um pouco a ideia de que procrastinar é uma falha imperdoável do ser humano.
Suave preguiça, que do mau querer
E de tolices mil ao abrigo nos põe
Por causa tua, quantas más ações
Deixei de cometer. (Baú de espantos: Da preguiça)
SNOOKER
Não me esqueci que em outra crônica havia escrito sobre o bem humorado texto de Millôr Fernandes com o título acima e depois o interpretaria. Pois bem, convido você a relê-lo e a acompanhar o que escrevo sobre ele:
Certa vez eu jogava uma partida de sinuca e só havia a bola sete na mesa. De modo que mastiguei-a lentamente saboreando-lhe os bocados com prazer. Refiro-me à refeição que havia pedido ao garçon. Dei-lhe duas tacadas na cara. Estou me referindo à bola. Em seguida saí montado nela e a égua, de que estou falando agora, chegou calmamente à fazenda de minha mãe. Fui encontrá-la morta na mesa, meu irmão comia-lhe uma perna com prazer e ofereceu-me um pedaço: Obrigado, disse eu, já comi galinha no almoço.
Logo em seguida chegou minha mulher e deu-me na cara. Um beijo, digo. Dei-lhe um abraço. Fazia calor. Daí a pouco minha camisa estava inteiramente molhada. Refiro-me à que estava na corda secando, quando começou a chover. Minha sogra apareceu para apanhar a camisa. Não tive remédio senão esmagá-la com o pé. Estou falando da barata que ia trepando na cadeira.
Malaquias, meu primo, vivia com uma velha de oitenta anos. A velha era sua avó, esclareço. Malaquias tinha dezoito filhos, mas nunca se casou. Isto é, nunca se casou com uma mulher que durasse mais de um ano. Agora, sentado à nossa frente, Malaquias fura o coração com uma faca. Depois corta as pernas e o sangue vermelho do porco enche a bacia.
Nos bons tempos passeávamos juntos. Eu tinha um carro. Malaquias tinha uma namorada. Um dia rolou a ribanceira. Me refiro a Malaquias. Entrou pela pretoria adentro arrebentando a porta e parou resfolegante junto do juiz pálido de susto. Me refiro ao carro.. E a Malaquias.
(Millôr Fernandes. Trinta anos de mim mesmo. São Paulo, Abril Cultural, 1973.).
Em uma primeira leitura, o texto parece meio confuso e de leitura difícil, embora apresente um tom humorístico. Parece nem ser um texto, pois aparentemente não tem coerência.Se o texto não tiver coerência, não será um texto. Todavia, se o leitor fizer uma leitura cuidadosa descobrirá que o texto tem, sim, uma organização diferenciada.O título já indica como pista o embaralhamento das frases, assim como o jogo de snooker que nós aportuguesamos como sinuca.No início do jogo de snooker as bolas estão organizadas cada uma na sua posição e logo com a primeira tacada do jogador, elas se embaralham na mesa.No texto, os quatro parágrafos apresentam os personagens de uma família:
No 1º parágrafo: o eu-narrador, a mãe e o irmão.
No 2º parágrafo: eu-narrador, esposa e sogra.
No 3º parágrafo: primo, suas esposas, seus filhos, sua avó.
No 4º parágrafo: eu-narrador, primo e namorada.
Percebe-se, assim, que o texto tem como tema as relações familiares, que aparentam uma certa desorganização, porém cada um sabe do seu papel social e familiar.O que o texto tem mesmo de diferente é o embaralhamento da construção das frases, isto é, parece não ter coesão, porém essa aparente confusão sintática é intencional, para mostrar a comparação entre as relações familiares e o jogo de snooker.Esse texto assim elaborado, é mais uma amostra da criatividade do seu autor.
Até a próxima.
Publicado em 30/08/2011 13:02
A música Sinhá, de Chico e João Bosco, merece uma análise mais ampla e eu o farei nesta crônica, conforme o que prometi a você, meu parceiro e atento leitor.
Vamos primeiramente à letra de Sinhá, a mais bela canção do novo CD-ROM de Chico. Nos versos do poema, falam duas vozes: a do escravo e a do cantor.O escravo implora ao senhor de engenho que não o castigue, por julgar que ele havia visto a Sinhá tomar banho nua no açude da fazenda.O cantor é quem conta o conto, a história desse escravo, e se sente atormentado, por saber-se herdeiro sarará de um feroz senhor de engenho e de um escravo mandingueiro que enfeitiçara uma sinhá. Em cada palavra, em cada frase, estão presentes as vozes, as visões de mundo de duas pessoas, pelo menos. É o que o filósofo russo, Bakhtin, chama de tensão dialógica da linguagem.
É bem feita e forte a argumentação do escravo desde a primeira estrofe:
Se a dona se banhou
Eu não estava lá
Por Deus Nosso Senhor
Eu não olhei Sinhá
Estava lá na roça
Sou de olhar ninguém
Não tenho mais cobiça
Nem enxergo bem
Em oito versos de seis ou cinco sílabas cada um, o autor-criador coloca em cena a voz do escravo a se defender em juramento a Deus Nosso Senhor de que não estava no local onde Sinhá se banhou e também não é mais de olhar ninguém, nem mais cobiça tem pelo corpo de uma mulher.
Se assim é, veja como ele dialoga persuasivamente com o seu senhor:
Pra que me pôr no tronco
Pra que me aleijar
Eu juro a vosmecê
Que nunca vi Sinhá
Eram cruéis assim as relações escravocratas. Por qualquer motivo, o dono do escravo ou o feitor podia colocar o miserável escravo no tronco e aleijar seu corpo.Quando se pensa em torpezas como essas, não é possível ficar tão orgulhoso de nosso país.E continua o pobre negro a implorar:
Por que me faz tão mal
Com olhos tão azuis
Me benzo com o sinal
Da santa cruz
Perceba que o acusado faz uso dessas armas poderosas que são as palavras, para enternecer o coração do poderoso senhor branco: com olhos tão azuis, como é possível querer fazer-me tanto mal? Não vê que a sua superioridade é tamanha em relação a mim, até pela cor de seus olhos? A que ponto chegava a pretensa superioridade dos senhores brancos! Como é triste constatar que nos dias atuais, ainda existe muito dessa vilania e tantos donos de bens acumulados, sabe-se lá como, gostariam de voltar àqueles tempos de tamanha indignidade.
E o escravo termina a estrofe, com um apelo aos sentimentos religiosos do senhor de engenho: Me benzo com o sinal da santa cruz. É interessante que se saiba que na época da escravidão, os negros escravizados eram obrigados a professar a fé católica, embora praticassem às escondidas a sua religião africana. É o que se chama de sincretismo religioso sincretismo religioso que consiste no fato de uma mesma pessoa adotar e praticar diferentes religiões e crenças religiosas. No poema Sinhá, o escravo diz benzer-se com o sinal da santa cruz, em uma tentativa desesperada de comover o seu senhor e, ao mesmo tempo, confessa praticar a religião do povo iorubá.
A terceira estrofe apresenta em seus oito versos hexassílabos, isto é, de seis sílabas poéticas todos eles, mais uma linha argumentativa do escravo: ele descreve seus passos no momento do banho da Sinhá:
Eu só cheguei no açude
Atrás da sabiá
Olhava o arvoredo
Eu não olhei Sinhá
Se a dona se despiu
Eu já andava além
Estava na moenda
Estava pra Xerém
O esquema da arquitetônica, isto é, da forma composicional é o mesmo das duas estrofes anteriores. O escravo descreve seus passos, conta o seu roteiro, na terceira estrofe e ,a seguir, tenta persuadir o senhor cruel de engenho a não o torturar.Veja isso na quarta estrofe:
Por que talhar meu corpo
Eu não olhei Sinhá
Pra que que vosmincê
Meus olhos vai furar
Eu choro em iorubá
Mas oro por Jesus
Pra que que vassuncê
Me tira a luz
É muito doloroso descobrir as possibilidades de castigo a que se submetiam os degradados escravos. No caso deste escravo da história de Sinhá, ele sabe que o senhor de engenho poderia talhar-lhe o corpo e furar-lhe os olhos.Esses versos ,sem dúvida, dialogam também com o poema Navio Negreiro ,do inesquecível Castro Alves.
A estrofe final revela a voz do cantor atormentado que é o autor da história, toda ela tramada nos fios cruéis da escravidão e nos caminhos e descaminhos do desejo amoroso.
E assim vai se encerrar
O conto de um cantor
Com voz do pelourinho
E ares de senhor
Cantor atormentado
Herdeiro sarará
Do nome e do renome
De um feroz senhor de engenho
E das mandingas de um escravo
Que no engenho enfeitiçou Sinhá.
O cantor-autor descobre, atormentado, a sua própria origem e reconhece que na sua voz ressoa a voz do pelourinho e que, sem o desejar, tem pose e postura de senhor de engenho.Sem dúvida, a composição musical de Chico e João tem uma função também conscientizadora.
Fica o meu convite final, meu leitor: ouça a canção de Chico e João Bosco e descubra mais riquezas do que as que apontei nesta crônica com que o presenteio neste último sábado de agosto.
Até a próxima!
Publicado em 14/08/2011 09:35
Gosto muito de ler os jornais diários e observar, além de usufruir de tudo o que eles nos oferecem em matéria de notícias e opiniões, o tratamento dado à língua. No caso de uso das palavras, fico atento à fixação de alguns jornalistas por algumas delas. Noto que quando algum deles emprega uma palavra um tanto quanto esquecida e esta soa como novidade no seu texto, em breve ela surge em textos de outros colegas.
Hoje, meus leitores, quero mostrar-lhes o uso constante que vem tendo o verbo aplainar. No jornal Folha de S.Paulo, esse verbo vem sendo usado com bastante frequência e eu senti-me tentado a tratar dele nesta crônica. Vamos a alguns trechos desse jornal, em edições diferentes:
(1) Hoje é dia 16 de julho. O prazo para filiações partidárias dos candidatos de 2012 termina
(2) Empresários do Planalto estão em campo na tentativa de aplainar o terreno para o novo depoimento de Wagner Rossi, amanhã no Senado. (Folha de S.Paulo, 9/8,2011,p.A4
(3) Cazuza aplaina contradições do mundo em que viveu. O filme não é desonesto com o personagem, mas aplaina as contradições do mundo em que ele viveu. ( Folha de S.Paulo,2/8/2011,p.E4).
Um leitor perguntou-me:
Como devo dizer na norma culta, professor: terreno plano ou plaino?Aplainar ou aplanar? Terraplenagem ou terraplanagem?Posso falar terreno chão?
Façamos juntos, com base nos exemplos acima, uma pesquisa nos dicionários para descobrirmos a riqueza do campo semântico do adjetivo plano.
O verbo aplainar, assim está abonado no dicionário Aurélio
Aplainar
[De a-2 + plaina + -ar2.]
V. t. d.
1. Alisar com plaina; aparelhar.
2. V. aplanar (
3. Art. Gráf. Assentar (13).
V. p.
4. V. aplanar (4 e 5)
E o verbo aplanar, sinônimo de aplainar, apresenta-se assim:
[De a-2 + plano + -ar2.]
V. t. d.
1. Tornar plano ou chão; nivelar, achanar, aplainar.
2. Tornar fácil; facilitar, simplificar, aplainar: &
3. Vencer, remover, superar (obstáculos, empecilhos, dificuldades, etc.); desembaraçar, aplainar.
V. p.
4. Tornar-se ou apresentar-se plano ou chão; achanar-se, aplainar-se.
5. Resolver-se, desembaraçar-se; aplainar-se:
Para você que se assustou com a expressão terreno chão, veja como é a abonação desse adjetivo:
CHÃO pode ser adjetivo ou substantivo.
Adj.
1. Plano, liso: 2
2. Tranquilo, sereno, bonançoso, bonança: 2
3. Franco, lhano, sincero, despretensioso: 2
4. Liso nos negócios; honrado: 2
5. Singelo, simples, sem enfeites: 2 &
6. Costumado, habitual, trivial, vulgar: 2
7. Rasteiro, vulgar.
[Flex.: chã, chãos, chãs; superl. abs. sint.: chaníssimo.]
S. m.
8. Terra chã.
9. V. solo1 (1).
10. V. piso (3).
11. Lugar onde se nasceu ou reside; querência.
12. Pequena propriedade de terra.
13. Fundo de quadro, tecido, etc.
[Pl.: chãos.]
Plaina
(ã). [Fem. de plaino (q. v.).]
S. f.
1. Instrumento usado pelos carpinteiros para alisar madeira.
2. V. niveladora.
Plaino
[F. epentética de plano, com um i não explicado.]
S. m.
1. V. planície: &
Adj.
2. Plano (1): &
Aplainamento
[De a-2 + plaina + -ar2.]
V. t. d.
1. Alisar com plaina; aparelhar.
2. V. aplanar (
3. Art. Gráf. Assentar (13).
V. p.
4. V. aplanar (4 e 5): &
Niveladora
(ô). [Fem. de nivelador.]
S. f.
1. Máquina de terraplenagem munida de lâmina, e utilizada para regularizar o terreno, abrir valetas e executar pequenas escavações, podendo ser rebocada ou de autopropulsão; patrol, patrola, plaina, aplanadora.
Terraplenagem ou terraplanagem
[De terraplenar + -agem2.]
S. m.
1. Conjunto de operações de escavação, transporte, depósito e compactação de terras, necessárias à realização de uma obra; movimento de terra.
[Var.: terraplanagem.]
Terrapleno
[Do it. terrapieno.]
S. m.
1. Terreno resultante da terraplenagem; repleno, aterrado.
2. Terreno aplainado; repleno.
Por meio dessa busca, descobrimos que todas as perguntas feitas pelo leitor podem ser respondidas afirmativamente. Poderemos dizer ou escrever: terreno plaino o plano;aplainar ou aplanar o terreno;fazer a terraplanagem ou terraplenagem;terreno chão ou plano.
Ao mostrar todas essa riqueza vocabular, pretendi convencê-los de que é muito agradável recorrer ao dicionário, sempre que possível. Não há caminho melhor para a ampliação de nosso vocabulário do que esse.Vocês, meus leitores, perceberam que ao buscar uma palavra no dicionário, acabamos por buscar outras e é nessa verdadeira viagem pelo terreno da língua que podemos adquirir o direito à chave do reino das palavras, como nos versos de Carlos Drummond de Andrade.
Existe uma expressão consagrada e repetida por muitas pessoas que é chamar o dicionário de pai dos burros. Costumo afirmar que o correto mesmo é chamar ao dicionário pai dos inteligentes. Sempre defendi a ideia de que nas aulas de Português todos os alunos pudessem ter em mãos uma boa gramática e um belo dicionário.
E por aqui vou encerrando este texto, convidando-os para novo encontro comigo, aqui neste mesmo espaço de O Jornal, na próxima semana. Até lá!
Publicado em 09/08/2011 08:44
Para o escritor é muito agradável ter contato direto com o leitor do seu texto e ouvir dele as impressões que teve na leitura. Na crônica anterior, por exemplo, escrevi sobre o uso das letras maiúsculas e minúsculas e alguns leitores manifestaram seu contentamento em poder ampliar seu conhecimento e dirimir dúvidas que tinham a esse respeito. Um deles, solicitou-me mais esclarecimentos, já que é colaborador de jornais e revistas.
Por essa razão, na crônica de hoje, mesmo correndo risco de repetir algumas orientações já apresentadas no texto da semana passada, vou concentrar minha atenção nos manuais de redação dos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de São Paulo e da revista Veja.
De acordo com esses manuais devem-se empregar as iniciais maiúsculas nos seguintes casos:
1- Nos títulos de jornais, livros, revistas, produções artísticas, literárias e científicas, nomes de programas de TV, que também devem vir em negrito, tal como fiz nos nomes dos dois jornais acima e farei nos casos a seguir: Memórias Póstumas de Brás Cubas,
Carta Capital, Caros Amigos, Um Laço, Um Anzol, O Jornal de Batatais, Com Açúcar e com Afeto.
Observe que as partículas como: artigos, preposições, conjunções e advérbios que aparecem nesses títulos devem ser escritas com iniciais minúsculas, tal como em: Memórias de um Sargento de Milícias, De bem com a Língua, de bem com a Vida.
2- No início de uma citação: A presidenta Dilma Rousseff disse: O mundo viverá um longo período de tensão econômica. É bom notar que se depois do sinal de dois pontos (:) vier uma simples continuação da frase e não uma citação textual, a palavra deverá vir com inicial minúscula. Veja: A Presidência da República definiu as prioridades do orçamento: educação, saúde,transportes e emprego.
3-Na denominação de estabelecimentos públicos ou particulares, estádios, aeroportos, ferrovias igrejas, ou seja, nos casos em que uma designação esteja incorporada ao nome próprio, tal como em: Edifício Itália, Palácio do Planalto, Editora LPB, Estádio Oswaldo Scatena, Rodovia Altino Arantes, Igreja Bom Jesus da Cana Verde.
Note bem que, quando se tratar de simples indicações sobre um nome próprio, as letras serão minúsculas, como, por exemplo: a igreja de Batatais na Praça da Matriz, o hotel principal de Batatais, o único hotel de Delfinópolis é o JP.
4- Nos nomes próprios compostos, ligados por hífen, os dois iniciam-se por maiúsculas:
Acordo Franco-Brasileiro, Decreto-Lei, Pantanal Mato-Grossense, Instituto Médico-Legal.
5- de Nas formas cerimoniosas de tratamento e suas abreviaturas: Vossa Excelência, V.Exª. Sua Senhoria, S.Sª. Vossa Santidade, V.S..
Note bem que nos manuais de jornais e revistas, a recomendação é que se grafem em minúsculas os títulos como doutor, senhor, mestre e suas abreviaturas: dr. sr., srª, contrariando a norma oficial.
6-Nos nomes de torneios e campeonatos: Copa do Mundo de Futebol, Campeonato Paulista da 4ª Divisão, Troféu Brasil.
7-Nomes de empresas, instituições, órgãos oficiais: Prefeitura de Batatais, Secretaria da Educação, Centro Universitário Claretiano,Universidade de Franca,Rádio Claretiana, TV Educadora, Rádio ABC, Rádio Difusora.
Com relação ao emprego de letras iniciais minúsculas, tenho ainda a esclarecer que estas devem ser empregadas:
1- Na designação das profissões e dos ocupantes de cargos como presidente, ministro, governador, secretário, prefeito, papa, cardeal, advogado, professor: A presidenta Dilma, o ministro Fernando Haddad, o professor Antônio Cândido, o papa Bento XVI.
2- Nos nomes próprios, quando empregados como nomes comuns: Ele é um verdadeiro mecenas da nossa cultura. Ele é um Caxias no cumprimento do dever.Sempre há um judas nos grupos humanos.
Minha leitora, meu leitor, acredito que eu tenha conseguido apontar o número ideal de situações de uso das letras iniciais maiúsculas e minúsculas e, dessa forma, possa ter sido útil, o que é de fato meu objetivo principal quando escrevo minhas crônicas. Na parte final, apresento-lhes um conto do sempre original e atua Millôr Fernandes. Veja como vocês interpretam o texto que se segue.
SNOOKER
Certa vez eu jogava uma partida de sinuca e só havia a bola sete na mesa. De modo que mastiguei-a lentamente saboreando-lhe os bocados com prazer. Refiro-me à refeição que havia pedido ao garçon. Dei-lhe duas tacadas na cara. Estou me referindo à bola. Em seguida saí montado nela e a égua, de que estou falando agora, chegou calmamente à fazenda de minha mãe. Fui encontrá-la morta na mesa, meu irmão comia-lhe uma perna com prazer e ofereceu-me um pedaço: Obrigado, disse eu, já comi galinha no almoço.
Logo em seguida chegou minha mulher e deu-me na cara. Um beijo, digo. Dei-lhe um abraço. Fazia calor. Daí a pouco minha camisa estava inteiramente molhada. Refiro-me à que estava na corda secando, quando começou a chover. Minha sogra apareceu para apanhar a camisa. Não tive remédio senão esmagá-la com o pé. Estou falando da barata que ia trepando na cadeira.
Malaquias, meu primo, vivia com uma velha de oitenta anos. A velha era sua avó, esclareço. Malaquias tinha dezoito filhos, mas nunca se casou. Isto é, nunca se casou com uma mulher que durasse mais de um ano. Agora, sentado à nossa frente, Malaquias fura o coração com uma faca. Depois corta as pernas e o sangue vermelho do porco enche a bacia.
Nos bons tempos passeávamos juntos. Eu tinha um carro. Malaquias tinha uma namorada. Um dia rolou a ribanceira. Me refiro a Malaquias. Entrou pela pretoria adentro arrebentando a porta e parou resfolegante junto do juiz pálido de susto. Me refiro ao carro.. E a Malaquias.
(Millôr Fernandes. Trinta anos de mim mesmo. São Paulo, Abril Cultural,1973.)
Na próxima semana, dialogarei com vocês sobre o sentido e a organização dessa criação textual do mestre do humor Millôr Fernandes.
Até a próxima!
Publicado em 31/07/2011 13:09
Ao escrever esta crônica, estou pensando em muitos leitores que me dizem ter dificuldades em muitas situações de produção de textos com o uso de iniciais maiúsculas. Antes, é bom que se saiba que em matéria de uso da língua, vale muito a intenção de quem fala ou escreve.A gramática e o dicionário estão a serviço do texto e não o contrário.Vou exemplificar com o título de meu livro de crônicas: De bem com a língua, de bem com a vida.Poderia ter escrito Língua, com a letra l (ele) maiúscula.Ficaria marcada a minha intenção de me referir à Língua Portuguesa, tão somente, como o faço aqui no meu Rodapé Literário.Quando da escolha do título do livro, optei por De bem com a língua, de bem com a vida, para provocar a possibilidade de um duplo sentido: De bem com a língua portuguesa ou de bem com a língua como órgão da fala ou sinônimo da própria fala.Muitas crônicas do meu livro referem-se mesmo ao ato de usar a língua, para falar mal ou bem da vida alheia ou da própria vida.Veja que o simples uso de uma inicial maiúscula pode mudar o sentido do texto.
As regras para o uso das iniciais maiúsculas há muito não são alteradas e os casos divergentes ou dúbios acabam sendo resolvidos pelo bom senso ou escolhas particulares de redações de jornais ou revistas que editam os seus manuais de orientação aos jornalistas.
Dessa forma, tentarei resumir os diferentes itens do Formulário Ortográfico da Língua Portuguesa.
As iniciais minúsculas
Comecemos pelas iniciais minúsculas, as quais devem ser usadas nas seguintes situações:
1) Nos nomes de povos, quer se refiram às pessoas de um país ou de um estado: mineiros, amazonenses, peruanos, uruguaios, etc.
2) No caso dos pontos cardeais e nos chamados colaterais quando indicarem direção: norte, sul, leste, oeste, nordeste, sudeste, noroeste, sudoeste.
Exemplos: a) Quero conhecer o país de norte a sul, de leste a oeste, assim que puder.
b) De norte a sul do país houve acentuado progresso..
Note bem: escrevem-se com iniciais maiúsculas os pontos cardeais, quando estiverem em suas formas absolutas, indicando região: O falar do Nordeste (região do Brasil); as línguas do Ocidente.
É bom também saber que depois do sinal gráfico de dois pontos (:), a letra inicial minúscula é que deve ser empregada. Exemplo:
a) Duas coisas convêm saber: a primeira é que não é fácil ficar de bem com a vida; a segunda é que nem todos conseguem ficar de bem com a língua.
b) "Chegam os magos do Oriente, com suas dádivas: ouro, incenso, mirra." (Manuel Bandeira).
3) Em todos os vocábulos comuns da língua, no seu uso corrente e habitual, como: livro, casa, beija-flor, cantor, etc.
AS INICIAIS MAIÚSCULAS
a) No começo de um período, verso ou citação direta.
Exemplos:
Disse o Padre Antonio Vieira: "Estar com Cristo em qualquer lugar, ainda que seja no inferno, é estar no Paraíso."
"Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que à luz do sol encerra
As promessas divinas da Esperança "
(Castro Alves)
É bom saber: No início dos versos que não marcam início de período, pode-se usar a inicial minúscula. Veja os versos:
Na
e lazer de
na
a
b) Nos nomes de pessoas reais ou fictícios.
Exemplos:
Chico Buarque, Valdomiro Capela, D. Quixote.
c) Nos nomes de lugares reais ou fictícios.
Exemplos:
Batatais, Campinas, Santa Cruz, Macondo.
d) Nos nomes mitológicos.
Exemplos:
Apolo, Netuno.
e) nos nomes de períodos históricos, festas religiosas ou datas e fatos políticos importantes: Idade Média, Renascimento, Natal, Páscoa, Ressurreição de Cristo, Dia do Trabalho, Dia das Mães, Independência do Brasil, Proclamação da República, Páscoa, Ramadã, etc.;
f) Em siglas, símbolos ou abreviaturas.
Exemplos:
OEA, Sr., Drª., V. Ex.ª.
g) Nos nomes que designam altos conceitos religiosos, políticos ou nacionalistas.
Exemplos:
Igreja (Católica, Presbiteriana, Ortodoxa), Estado, Nação, Pátria, União, etc.
Observação: esses nomes escrevem-se com inicial minúscula quando são empregados em sentido geral ou indeterminado.
Exemplo:
Todos amam sua pátria. Construíram uma bela igreja na região.
Note bem:
Emprego oscilante de letra maiúscula:
a) Nos nomes de logradouros públicos, templos e edifícios.
Exemplos:
Rua Comandante Salgado ou rua Comandante Salgado
Igreja de Santo Antônio ou igreja de Santo Antônio
Edifício Aurora ou edifício Aurora.
Empório Santo Expedito ou empório Santo Expedito.
É bom saber: se o substantivo inicial: rua, igreja, edifício, ou empório, fizer parte do conjunto, a inicial maiúscula vale para os dois nomes: Empório Santo Expedito, Rua Sete.
h) A inicial maiúscula também deve aparecer nos substantivos comuns que estiverem personificados ou individualizados: o Amor, o Ódio, a Saudade, a Virtude, a Morte, o Lobo, o Cordeiro, a Cigarra, a Formiga, a Capital, a República, a Transamazônica, a Indústria, o Comércio etc.
Agora, observe os exemplos a seguir e você mesmo perceberá que os substantivos que precedem os nomes de cidades, de nomes de artistas e escritores, livros, peças teatrais, filmes, etc., ficam com as iniciais minúsculas:
A cidade de Batatais e não A Cidade de Batatais.
O poeta Vinícius de Moraes e não O Poeta Vinícius de Moraes
O romance Um Laço, um Anzol.
O Ministério da Educação
O filme E o Vento Levou.
O projeto Educação para Todos.
A música Paratodos, de Chico Buarque.
Meu leitor, não vou conseguir nesta crônica tratar de todos os itens da extensa pauta do uso das maiúsculas e das minúsculas, mas fica o meu convite para que você volte a este mesmo espaço de O Jornal, no próximo sábado, para ver que eu vou continuar com o mesmo tema. Vamos combinar assim? Então, até a próxima!
Publicado em 25/07/2011 12:58
Quero dialogar com meus leitores sobre os dois livros que acabo de tornar públicos: o romance Um laço, um anzol e o de crônicas, De bem com a língua, de bem com a vida. Caso vocês, minha leitora e meu leitor, tenham interesse em tê-los em sua companhia, poderão comprá-los de mim mesmo, o que será um prazer imenso para mim, ou nas bancas de jornais e revistas de nossa cidade. Será uma grande alegria apor neles minha assinatura e escrever-lhes uma carinhosa dedicatória.Em verdade, eu gostaria mesmo é de poder presentear cada um dos meus leitores desta minha crônica com um livro de minha autoria.
O romance Um laço, um anzol poderá ser adquirido também diretamente da editora no seguinte link: http://www.editoramultifoco.com.br/literatura-loja-detalhe.php?idLivro=526&idProduto=544 .
Quanto ao livro de crônicas De bem com a língua, de bem com a vida, noticio a você que acabei de assinar contrato com a Saraiva, para edição
Estou feliz com o sucesso de minha produção literária e didática, porque tenho tido a oportunidade única de dialogar pessoalmente com meus leitores. Depois que um livro é publicado, já não mais pertence ao autor.O destino dele está nas mãos de cada leitor.O autor não termina o livro, ele apenas põe o ponto final, mas não determina e encerra o sentido do livro.Quem dá sentido à obra, é o leitor, que, de algum modo, foi também autor, autor contemplador.Quando escreve, o autor tem sempre presente a imagem de um leitor. As interpretações que são feitas pelos leitores nem sempre coincidem com o que o autor pensou ao criar o texto. Nesse processo é que reside a riqueza de um livro. Um leitor disse-me que pela primeira vez experimentava a sensação de ter diante de si o autor do livro que iria ler.E eu lhe disse que a alegria do autor é conhecer o leitor de seu livro.
Hoje tenho a certeza de que tinha mesmo de publicar este romance. A história que nele conto, vinha comigo há bastante tempo.Eu já havia escrito alguns capítulos como se fossem roteiros de um filme e precisava dar fim ao destino das personagens.Não sabia qual seria, mas teria de seguir com o enredo, para ver o rumo que tomaria.E o final foi-se desenhando e eu me deixei levar pelos lances finais.
O romance narra a história de Valdomiro Capela, um traficante de drogas, que sai da capital do estado e vai para Santa Cruz, uma cidade pequena e distante, a fim de escapar do cerco da justiça e planejar os próximos passos de sua atividade. Na cidadezinha, ele conquista a população, por meio de farta distribuição de presentes, simpatia pessoal e capacidade de liderança de movimentos populares. Acaba despertando o faro policial de João Mandi, um investigador aposentado que, em consulta a arquivos da polícia, descobre a ocupação criminosa de Valdomiro. Este é preso, em ação policial de fachada. Em pouco tempo, é solto e, ajudado por policiais a quem paga proteção, volta às escondidas a Santa Cruz e executa uma ação bem planejada, para matar João Mandi. A cidade passa a procurar o velho policial aposentado e o tem como morto. Valdomiro Capela torna-se ídolo da pequena cidade e é levado a candidatar-se a prefeito, como candidato único e é eleito com a quase totalidade dos votos. Exerce o cargo com competência e ganha a admiração geral até de autoridades federais. Na festa de inauguração da ponte de mais de
E agora, a palavra final, está com os leitores. Enquanto você estiver lendo Um laço, um anzol, eu já estarei escrevendo meu novo romance e já me empolgando com a trama.
Você que está lendo as crônicas De bem com a língua, de bem com a vida, tenha consigo esta minha explicação. Em cada uma destas crônicas, eu me coloquei por inteiro, posicionei-me diante da língua e da vida, imaginei sempre estar na sala de aula que é o lugar que mais frequentei nesta minha vida, além de minha casa. Minha esperança é que você leia cada uma das minhas crônicas e se sinta recompensado pelo tempo de concentração na leitura.
Com muito prazer, transcrevo parte do Prefácio, escrito pelo professor e escritor, Dr.Luiz Antonio Ferreira, titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Escreveu o professor Ferreira:
É mesmo um excelente professor, mas é também um amante exemplar da arte de escrever e, por isso, revela a intimidade sábia que tem com os autores da literatura universal. Por ser um linguista, Pernambuco conhece os teóricos e os simplifica com sua mineirice admirável. Por ser doutor em educação, nunca se priva de explicar o que pode ser ensinado com a harmonia do informar para fixar, mais do que no cérebro, na alma. Humanista em todos os sentidos, conversa poetizando, ensina citando e opinando, explora a linguagem com o coração e a razão. Conhecimento e sensibilidade, pois, assumem o dizer do poeta-professor-linguista-mineiro Juscelino Pernambuco e o encanto está composto.
Até a próxima, amigos leitores!
Publicado em 18/07/2011 16:22
Considerando que você, leitor, gosta de aprender algumas novidades da língua e recordar tantas outras particularidades aprendidas no seu passado escolar, dedico-me hoje a tratar de alguns plurais interessantes. Comecemos pelo plural de Considerando. Você já deve ter observado que em documentos oficiais há um uso constante da oração adverbial causal considerando que. Vejamos um exemplo: Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, a referida locução aparece sete vezes. Convido você a reler comigo a parte inicial da bela e idealista Declaração.Ah! como seria bom que todos os povos e todas as pessoas não perdessem de vista os Consideranda abaixo:
CONSIDERANDO que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da
família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade,
da justiça e da paz no mundo,
CONSIDERANDO que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram
em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um
mundo em que os todos gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de
viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração
do ser humano comum,
CONSIDERANDO ser essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo império
da lei, para que o ser humano não seja compelido, como último recurso, à rebelião
contra a tirania e a opressão,
CONSIDERANDO ser essencial promover o desenvolvimento de relações amistosas
entre as nações,
CONSIDERANDO que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta da ONU, sua
fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor do ser humano e na
igualdade de direitos entre homens e mulheres, e que decidiram promover o progresso
social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla,
CONSIDERANDO que os Estados-Membros se comprometeram a promover, em
cooperação com as Nações Unidas, o respeito universal aos direitos e liberdades
humanas fundamentais e a observância desses direitos e liberdades,
CONSIDERANDO que uma compreensão comum desses direitos e liberdades é da mais
alta importância para o pleno cumprimento desse compromisso,
agora, portanto,
A ASSEMBLÉIA GERAL PROCLAMA a presente Declaração Universal dos Direitos
Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações,
com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em
mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o
respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de
caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua
observância universal e efetiva, tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros,
quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição.
Observe que, depois de cada parágrafo, iniciado por CONSIDERANDO QUE, aparece a vírgula como prenúncio de que a oração principal ainda não surgiu. Depois dos sete CONSIDERANDA é que a oração principal acontece. Ei-la: A ASSEMBLEIA GERAL PROCLAMA a presente Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Um bom exercício domínio da língua portuguesa é você tentar reescrever a Declaração inteira, começando pela oração principal, até chegar aos consideranda.
Você, certamente, notou que escrevi: aos CONSIDERANDA, os CONSIDERANDA e sete CONSIDERANDA. Trata-se do plural de CONSIDERANDO.O correto é o plural consideranda, precedido de determinante masculino: os consideranda, alguns consideranda, outros consideranda, etc. Não é adequado escrever, então, os considerandos ou alguns considerandos.
São sinônimos de considerando que: tendo em vista que, porque, já que, uma vez que, na medida em que, como, etc. A expressão Considerando vem do latim, Considerandum, e no plural latino tínhamos Consideranda. Assim, devemos em português dizer e escrever Consideranda.É dessa forma que a expressão é usada nos textos legislativos da Presidência da República.
Outro plural interessante é Campi, que no singular é Campus, referente ao Campus universitário. Em inglês, inadequadamente, usa-se Campuses, o que é um desrespeito à origem latina da palavra.
De vez em quando, leio em textos jurídicos a expressão data vênia com acento circunflexo. O latim não conheceu esse acento, portanto, não é apropriado o seu uso como sinal de aportuguesamento.
Passemos a outros plurais que, às vezes, provocam estranhamento, principalmente quando estamos diante de abreviações. Antes, é bom que façamos distinção entre abreviação e abreviatura. Abreviatura é quando se faz a redução de uma palavra a algumas de suas letras, como, por exemplo, de Excelentíssimo para Exmº.Abreviação é a redução de uma palavra à sua parte inicial como, no caso de metrô, em vez de metropolitano;cinema, em vez de cinematógrafo;xerox, em vez de xerocópia.Existe também a sigla, que é a formação de uma nova palavra com a junção de algumas de suas letras ou sílabas como, por exemplo:CEUCLAR(Centro universitário Claretiano),UNIFRAN(Universidade de Franca), UNESP(Universidade Estadual Paulista) VOLP(Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa).Você poderá perguntar-me: Como seria o plural de siglas, abreviaturas e abreviações?
Eu lhe direi, dileto leitor, que considerando o adiantado da hora e a exiguidade do espaço, depois de tanto escrever, deixarei para outra crônica o tratamento de um assunto tão atraente como esse. Pode ser? Então, até a próxima!
Publicado em 09/07/2011 10:51
No último parágrafo da crônica da semana passada, escrevi sobre a morte do grande escritor espanhol, Jorge Semprún, aos 87 anos, em sua residência em Paris, no dia 7 de junho passado.Também mencionei a presença de Haruki Murakami, talvez o maior nome da literatura japonesa atual, em Barcelona.Como eu estava por lá naqueles dias, vivi mais intensamente os acontecimentos e faço questão de repassar as minhas impressões, nesta crônica singela, que tem a língua e a literatura como temas.
São ambos grandes artistas da palavra escrita e da manifestação de um posicionamento social importante que serve como alerta para os homens dos séculos XX e XXI.A literatura tem também uma função decididamente conscientizadora.Quem lê, acaba aprendendo a ver melhor o mundo e a vida humana na terra.
Sobre Semprún, muitas personalidades do mundo literário e político manifestaram-se nos diferentes jornais espanhóis.No jornal,El País, li textos de Mario Vargas Llosa,Eduardo Arroyo, Javier Rodríguez Marcos e muitos outros.Devo ressaltar que Jorge Semprún viveu entre os 20 e 22 anos de idade os horrores do campo de concentração de Buchenwald, condenado por ser antinazista.Sobre esse calvário em sua vida, ele escreveu obras como: El largo viaje e Viviré com su nombre, morirá com el mio.O artigo jornalístico escrito sobre ele que mais me emocionou foi o de Eduardo Arroyo, intitulado: Nunca conoció el rencor. Deve ser a glória maior de um homem, alguém dizer, depois de sua morte, que ele não conheceu o rancor.Pode-se até ficar indignado, exaltado, mas guardar rancor, não pode ser um ato responsável do ser humano.Pois bem , o articulista do consagrado matutino madrilenho termina seu belo texto escrevendo que Semprún terminou seus dias sem nenhum rancor pela vida, nem pela morte.Assim dito, em espanhol: Ni rencor por la muerte, ni rencor por la vida.
Depois, no dia 9 de junho, fui lá lá ver no Palau de
...mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta de outro e dissesse: ´Vizinho, são 3 horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou.´ E o outro respondesse: ´Entra, vizinho e come do meu pão e bebe do meu vinho! Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a vida é bela´.
E o homem trouxesse sua mulher e os dois ficassem entre os amigos e amigas do vizinho entoando canções para agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores e o dom da vida, e a amizade entre os humanos, e o amor e a paz.
Essa repetição da conjunção e no final é espetacular e imprime ao texto uma dinâmica inigualável. É a figura de linguagem chamada de polissíndeto.
E por aqui, detenho minha vontade de escrever mais e me dou por realizado com a sua leitura neste final de semana de paz e amor e carinho e respeito por você, minha leitora e meu leitor preciosos. Até a próxima!
Publicado em 09/07/2011 10:36
No meu programa semanal: Análise Musical, da Rádio Claretiana FM, no dia 22/3/2011, analisei a letra da música, Costumes, interpretada por Paula Fernandes. Atendi, como sempre faço, ao pedido de uma ouvinte. Foi a primeira vez que, de fato, fiquei atento à letra dessa canção.
Na crônica de hoje, transcrevo o que disse ao vivo, no meu programa de rádio. Leia com atenção a letra e, se puder, leitor, acesse o meu site: www.professorjuscelino.com.br , vá ouvindo a música , acompanhando a minha escrita e a minha apresentação no rádio. Vamos à letra da música: Costumes (Composição: Roberto Carlos e Erasmo Carlos) Interpretação: Paula Fernandes
Eu pensei
Que pudesse esquecer
Certos velhos costumes
Eu pensei
Que já nem me lembrasse
De coisas passadas
Eu pensei
Que pudesse enganar
A mim mesmo dizendo
Que essas coisas da vida em comum
Não ficavam marcadas
Não pensei
Que me fizessem falta
Umas poucas palavras
Dessas coisas simples
Que dizemos antes de dormir
De manhã
O bom dia na cama
A conversa informal
O beijo depois o café
O cigarro e o jornal
Os costumes me falam de coisas
De fatos antigos
Não me esqueço das tardes alegres
Com nossos amigos
Um final de programa
Fim de madrugada
O aconchego na cama
A luz apagada
Essas coisas
Só mesmo com o tempo
Se pode esquecer
E então eu me vejo sozinha como estou agora
E respiro toda a liberdade
Que alguém pode ter
De repente ser livre
Até me assusta
Me aceitar sem você
Certas vezes me custa
Como posso esquecer dos costumes
Se nem mesmo esqueci de você
Essa gravação faz parte do segundo CD-ROM de Paula Fernandes e a sua interpretação é extraordinária. Ela é uma bela cantora e uma cantora bela. Fez uma releitura dessa canção amorosa de Roberto Carlos, em parceria com Erasmo Carlos, e não há como não sentir que a música ganhou mais vida. A melodia ganhou um novo arranjo e com a voz marcante de Paula, com o seu timbre grave de contralto, acabou se tornando o grande destaque desse seu novo trabalho musical. Roberto tinha 25 anos, quando compôs com Erasmo essa canção romântica e a nova estrela do cenário musical brasileiro, mineira de Sete Lagoas, foi muito feliz na escolha da música para o seu segundo disco. O sucesso que ela vem alcançando tem razão de ser. Eu a vi pela primeira vez no programa Bem amigos, da rede Globo e confesso que fiquei extasiado Antevi, para ela, um lugar de destaque na MPB, o que vem se confirmando.
Pelo que tenho lido e ouvido, trata-se de uma jovem bastante centrada no que quer alcançar, e não se deixou deslumbrar pelo sucesso. O encantamento de Roberto por ela é bastante natural. Afinal, ele se viu diante de uma artista jovem, talentosa e bonita. Dificilmente ele cede direito de gravar a outro artista, mas para Paula esse privilégio aconteceu de forma mais fácil, porque ele percebeu que a interpretação dela enriqueceria a sua criação e de Erasmo Carlos.
Com relação à música, trata-se de uma composição bastante simples, uma canção de amor de um lirismo quase ingênuo. Todas as canções de amor, todos os poemas de amor são produzidos para dizer uma só coisa: eu te amo. Em Costumes, o eu - lírico quer dizer também: eu te amo, mas só descobriu agora que não mais está junto da pessoa que ele ama. É interessante que ele sente que ama depois que se separou, por isso ele está lamentando não ter prezado tanto os costumes, os hábitos, a rotina do amor que ele viveu. Agora, ele recorda o passado que teve ao lado da pessoa que amava, mas sente que não soube valorizar e respeitar os costumes da vida a dois. Ele não consegue esquecer esses costumes, longe da pessoa que ama, e sente falta dos pequenos gestos, das palavras de carinho, da convivência amorosa. O que a letra da canção revela é a falta de preparo para o amor, a imaturidade, a ingenuidade para viver um grande amor, porque o amor também é compromisso e exige de quem ama certos compromissos que muitas pessoas pensam que significam falta de liberdade. Então, tratam o amor como se fosse prisão. Esse é o querer insaciável característico dos seres humanos: Temos um querer que não se sacia.Queremos o que não temos.Todas as vezes que temos o que queremos, perdemos, porque passamos a querer outra coisa.É um querer incessante. A voz criada pelos compositores, para falar na canção, revela exatamente isso. Roberto e Erasmo perfilam aqui um lirismo amoroso e sentimental. O eu - lírico toma consciência, só depois da separação, de que era muito mais feliz ao lado da pessoa amada. Fala do engano que comete ao pensar que pudesse esquecer-se dos momentos vividos juntos. Ingenuamente, acredita que nada restaria desses momentos lindos, que parecem rotineiros, os costumes que não são esquecidos, principalmente se não nos esquecemos da pessoa que amamos. Então, a amor, visto como prisão, é que significa liberdade. O amor exige troca, gentilezas,esses costumes todos de que fala a música de Roberto e Erasmo.
A chave de ouro do poema está nos versos finais: Como posso esquecer dos costumes,
Se nem mesmo me esqueci de você.
E esperando que você, leitor, por gentileza, não esqueça o costume de ler o que escrevo semanalmente, encerro esta minha crônica. Até a próxima.
Publicado em 05/07/2011 13:05
Prof. Dr. Juscelino Pernambuco lança seu 1º romance, "Um Laço, Um Anzol", no Salão Nobre
O Centro Universitário Claretiano promove no próximo dia 01 de julho, às 19h30, o lançamento do livro Um Laço, um Anzol, primeiro romance publicado do Prof. Dr. Juscelino Pernambuco. O evento será realizado no Salão Nobre do Prédio Padre Bento.
Conhecido pelas suas crônicas semanais publicadas em um jornal do município de Batatais, mas principalmente pela sua dedicação à vida acadêmica, o Professor Juscelino Pernambuco foi coordenador do curso de Letras e do curso de pós-graduação em Ensino de Português, Literatura e Redação do Claretiano, sem contar sua passagem como professor do Colégio São José.
Nascido em Jureia, distrito de Monte Belo, em Minas Gerais, Professor Juscelino iniciou carreira acadêmica precocemente. Aos 20 anos de idade, já era diretor de escola estadual. Anos depois se dedicou à licenciatura pela PUC e especializou-se em Letras pelo curso de mestrado da UNESP. O doutorado em Educação foi concluído na Universidade de São Paulo.
Em seu primeiro romance, Professor Juscelino cria um personagem que surpreende o leitor. O livro narra a história de Valdomiro Capela, um traficante de drogas famoso que sai de sua cidade e parte para outro município, afim de recomeçar a vida com uma outra atividade. A história tem um breve resquício de uma notícia de jornal, da qual o professor leu e logo pensou em narrá-la, mas sem ser o mesmo caso.
Venho apenas contar um história. Mas essa história, no início do trabalho, não possuía começo, meio e fim. Como autor criador, possuo vozes interiores, como a da sociedade, por exemplo, explica o professor, com relação às mudanças do percurso do personagem Valdomiro no desenrolar da trama.
Juntamente com o livro Um Laço, Um Anzol, será lançado o livro de crônicas publicadas no jornal entre 2009 e 2010. Já estou organizando o 2º livro de crônicas, com as publicações de 2010 e 2011, antecipa o professor.
Além desses trabalhos impressos, Professor Juscelino apresenta o programa Análise Musical, transmitido às terças-feiras pela Claretiana FM.
Após palestra com o autor, será realizada noite de autógrafos, bem como a venda dos livros em frente ao Salão Nobre.
Lançamento do livro Um Laço, Um Anzol Prof. Dr. Juscelino Pernambuco
Data: 01/07/2011
Horário: 19h30
Local: Centro Universitário Claretiano Salão Nobre Prédio Padre Bento. Endereço: rua Dom Bosco, 466 Bairro Castelo Batatais/SP
Informações: 16 3660-1777.
Entrada gratuita.
Publicado em 20/06/2011 09:45
SOBRE PAÍSES, LÍNGUAS E PESSOAS.
Não posso furtar-me à vontade de escrever sobre impressões que me causam viagens a outros países. Confesso que viajar para longas distâncias e distantes países, somente pelo prazer de viajar, não é uma prioridade em minha vida.Preciso de uma motivação forte, como foi o caso de minha ida recente à Espanha.Fui apresentar um artigo científico no XVI Congresso da Associação de Linguística e Filologia da América Latina(ALFAL), da qual sou sócio há anos.O local de realização foi a vetusta Universidade de Alcalá de Henares, cujo paraninfo é o imortal Miguel de Cervantes, filho mais ilustre da cidade, do país e um dos maiores gênios literários de todos os tempos.
Meu trabalho científico intitulou-se: O filho eterno, de Cristovão Tezza: um acontecimento e, nele, analisei o romance mais premiado da nossa literatura, nos últimos vinte anos.O Congresso foi um sucesso com mais de mil pesquisadores do mundo todo inscritos.Ouvi e li trabalhos belíssimos sobre o passado, o presente e o futuro das línguas e da literatura da América Latina, da Europa e da África.
No decorrer da programação do evento científico e logo após seu término dediquei-me a conhecer bem Madrid , Barcelona e a antiquíssima e portentosa Toledo.Quando digo que quis conhecer essas majestosas realizações humanas em forma de cidades, quero acentuar meu interesse, em igualdade de condições, pelas pessoas que nelas habitam. A existência humana e a resposta que os homens dão ao seu existir são objeto de minha preocupação, quando viajo.Gosto muito de falar com as pessoas de outras terras e cidades, para conhecer a fundo seu modo de ver o mundo e a vida e responder à responsabilidade de existir.Para mim, existência e essência caminham juntas, são indissociáveis.Primeiro existo e depois dou sentido à minha vida assumindo a responsabilidade dos meus atos.Existir, como observou bem o filósofo da linguagem, Mikhail Bakhtin, é dar respostas à vida.
Senti o povo espanhol angustiado por causa do caos econômico que vem assolando a Europa toda, com exceção da Alemanha, que, ao impor o euro como moeda comum, assumiu o comando de toda a comunidade européia (será mesmo uma comunidade?).Fui ver a reação dos estudantes indignados que estão acampados há meses na Puerta del Sol (nome sugestivo), em Madrid, e na Plaza Catalunha, em Barcelona.Fotografei-os e falei com eles e percebi que eles desejam derrubar o governo e os tradicionais políticos, mas não têm ideia do que colocar no lugar, já que também não querem a oposição.Querem, sim, um novo modelo de governo e de políticos.Senti saudade dos tempos em que os estudantes brasileiros também marcavam presença nos grandes debates de interesse nacional.
Minha viagem foi proveitosa e agradável, sobretudo, pelo exercício que fiz dos meus conhecimentos de outras línguas que me permitiram aproximar-me de tantas pessoas de países diversos.A maior riqueza cultural que uma pessoa pode adquirir é aprender outras línguas, não só as línguas vivas, mas também as chamadas línguas mortas, como o latim e o grego.Aliás, foi o latim que me permitiu viver um momento muito marcante de minha permanência na Espanha: em Toledo, na porta de um mosteiro cisterciense, vi uma monja vestida de branco e preto, com um avental cinza, como alguém que estava à cozinha a preparar o almoço.Aproximei-me receoso de que ela não pudesse falar comigo e disse-lhe em latim: Memento homo, quia pulvis es ..., que em português significa: Lembra-te, homem, que és pó. Usei essa estratégia de aproximação porque sei que a ordem cisterciense divide seu tempo em orações (quase todas em latim) e trabalho.Ela sorriu e dispôs-se a falar comigo sobre o seu mosteiro e ainda concordou que eu a fotografasse.Ali fiquei por quase uma hora e pude conhecer um pouco mais da história de Toledo e da influência árabe sobre a cultura espanhola.
Sobre a viagem, também não posso deixar de escrever sobre os taxistas com os quais dialoguei.Uma forma segura de conhecer uma cidade ou um país é ouvir os taxistas, profissionais dos mais úteis e, geralmente dos mais corteses, em nossos deslocamentos.Um deles, o romeno Demétrio, mostrou a sua paixão pela música popular brasileira e logo fez questão de colocar, para eu ouvir com ele, canções de Gal Costa, Emílio Santiago, Benito di Paula e Wando.E, melhor ainda, cantamos juntos, na ida para o estádio de Camp Nou, do Barcelona.Diga-se de passagem, uma visita imperdível, dada a majestade do grande clube barcelonês.Seu lema, Més que un club, é verdadeiro na sua plenitude.
Vi também a grandiosidade dos museus e esculturas espanhóis. No Centro Nacional de Arte Rainha Sofia, em Madrid, vi de perto
A única coisa que lamentei na viagem foi a morte do grande escritor espanhol, Jorge Semprún, a 8 de junho, terceiro dia do nosso congresso.Sobre ele e sobre o escritor japonês Haruki Murakami, a quem assisti receber um prêmio em Barcelona e fazer um belo discurso sobre a falta que o sonho anda fazendo aos homens, nos dias atuais, pretendo escrever na crônica da próxima semana. Conto com vocês, estimadíssimos leitores. Até lá!
Publicado em 20/06/2011 09:40
Não, não são nomes de dupla sertaneja (bem que poderiam ser!), são apenas dois adjetivos que correspondem às locuções adjetivas:de raposa e de abutre. Em vez de dizer, por exemplo: Eles tiveram no Congresso Nacional um comportamento ora de raposas, ora de abutres, poderemos dizer: um comportamento ora vulpino, ora vulturino. Empreguei esses dois adjetivos, para explicar que existem algumas locuções adjetivas que podem ser substituídas por adjetivos sonoros e poéticos, ou então, esquisitos como é o caso de vulpino e vulturino.
Para as estações do ano, temos adjetivos bonitos:
1- De verão- estival ou estivo.2-De primavera: primaveril.3-De outono: outonal ou também autunal.4- De inverno: hibernal ou invernal. Assim, você, leitor, poderá optar por dizer: amor primaveril, em substituição a amor de primavera. Isso, se não for mesmo amor pela sua prima Vera. Nesse caso, não seria amor primaveril, mas primaveral, não é mesmo?
Para os órgãos do corpo, entretanto, os adjetivos não são tão poéticos.
1- Para estômago: estomacal(origem no latim) ou gástrico(origem no grego).2- Para intestino: intestinal(or.latim) ou entérico(or.grego).Atenção para a palavra correta referente a problemas intestinais: disenteria.O prefixo dis- sugere dificuldade, como nas palavras: disfagia, dispepsia,dismenorreia,dislexia, etc. 3-Para tórax: torácico.4- Para fêmur: femoral.Portanto, não diga: toráxico, nem femural.
Para animais, há toda uma lista de adjetivos que é curiosíssima e gostosa de acompanhar, nesta manhã ensolarada na nossa Batatais querida.Veja só:
Borboleta: papilionáceo.
Búfalo: bufalino.
Cabra:caprino,cabrum,caprum,cápreo,caprídeo.
Camelo:camelino.Cão:canejo, cainho,canino,canzoal.
Carneiro:carneirum,arietino.Cavalo:cavalar, equino,hípico,equídeo.
Cobra: colubrino,ofídico,ofídio,serpentino,vipéreo,viperino,vípero.
Cordeiro:anho.
Corvo:corvino
Elefante:elefantino,elefântico.
Formiga:formicário.
Galo:alectório.
Lebre:leporino.
Lesma:lesmacídeo.
Lobo:lupino,lobal.
Ostra:ostráceo.
Pato:anserino.
Papagaio:papagaial
Peixe:pésceo.
Perdiz:perdíceo.
Pombo:columbano,columbino.
Porco:porcino,porqueiro, suíno.
Rã:batracoide.
Raposa:pasino,vulpino.
Rato: murino,murídeo,ratinheiro
Rola: turturino.
Tigre:tigrino.
Touro:taurino,táureo,toureiro.
Urso:ursino,ursídeo.
Veado:cerval,cervino,cervum,elafíano.
CUIDADOS COM O E-MAIL
Nada como a rapidez de um e-mail, para solucionar problemas de trabalho, de relações amorosas ou familiares. Entretanto, é preciso cuidado com o texto a ser digitado e até com o endereço do destinatário.O ideal é que não se envie um só e-mail, sem uma releitura atenta do que foi digitado.Leia o fato que vou narrar a seguir e perceba as consequências de um e-mail mal endereçado:
Um empresário deixou a correria de São Paulo e foi para a minha cidadezinha de Jureia, em busca de descanso à beira do rio Muzambo. A esposa dele viajara para a Argentina a negócios e só o encontraria no dia seguinte.Assim que chegou ao Novo Hotel, o marido atencioso quis passar um e-mail para a esposa amada. Lembrou-se de ter anotado o novo endereço eletrônico dela em um papelzinho, mas não o achou.Como ela havia soletrado por telefone o novo endereço, ele confiou na memória .Acabou trocando, sem perceber, uma letra. A mensagem tão carinhosa que ele digitou, foi cair na caixa postal de uma senhora cujo esposo havia falecido na véspera. Logo de manhã, a viúva foi conferir os e-mails, em busca de mensagens de condolências. Abriu o e-mail do empresário, deu um grito e desmaiou.Os parentes que estavam na andar térreo, correram para ver o que havia acontecido e deram com a tela aberta do computador, estampando o seguinte texto: Querida, acabei de chegar.Foi uma viagem interminável.Embora, eu esteja aqui há poucas horas, já estou gostando muito.Informei ao pessoal daqui que você virá amanhã e já está tudo pronto para a sua chegada.Você vai gostar muito.Um beijo saudoso do seu amantíssimo marido.
P.S.Aqui está fazendo um calor infernal.
Aproveito o ensejo e escrevo para você algumas regras a que devemos obedecer, quando digitamos e-mails:
1- Escolha uma linguagem bem cuidada, sem enfeites, e seja bem cuidadoso com as expressões.Use muitas vezes:por favor, por gentileza, por obséquio, para evitar passar a impressão de autoritário ou raivoso.
2- Evite ser descuidado com a repetição de palavras, abreviações obscuras e frases sem sentido.
3- Coloque-se no lugar do destinatário do seu e-mail, para acertar o tom da mensagem.Tente perceber se não está sendo arrogante, constrangedor e deselegante.
4-Tome cuidado para não errar o destinatário (você viu o caso do empresário) e não ser inconveniente.
5-Não use textos inteiros com letras maiúsculas.Causa impressão de que você está gritando com o interlocutor.
6- Evite erros de grafia e,para isso, releia o que escreveu, antes de enviar.
7- Não responda com mensagens pré-fabricadas e curtas demais, pois dão a impressão de pressa e pouca atenção.
O que escrevi como regras para o e-mail serve também para os usuários do Twitter, a rede social que foi criada em 2006 e que exige que se tenha a habilidade para a elaboração de mensagens de, no máximo, 140 caracteres. Escrevi habilidade, porque o que tenho visto é um amontoado de besteiras que servem de atestado de incompetência linguística e cultural de grande parte dos usuários desta ferramenta digital.
Não é este, contudo, o caso do inspirado poeta Fabrício Carpinejar que, na onda do Twitter, acaba de lançar o livro, www.twitter.com/carpinejar, com milhares de tweets poéticos e filosóficos.Abro-o, ao acaso, e transcrevo um pouco do que leio, para terminar meu texto e agradecer a sua companhia, minha leitora e meu leitor:
Nada pior do que cobrar um amor. Cobrar o que veio de graça. 11:16 AM jul 29th from web
O amor é perversamente sutil.Amar e gostar de amar podem não acontecer ao mesmo tempo.6:06 jul 29th from web.
Até a próxima!
Publicado em 23/05/2011 09:03
O título desta crônica pode ser interpretado de formas diferentes.Se você estiver em um consultório médico, saberá que ele estará recomendando que você cuide bem do órgão que serve para degustar e deglutir os alimentos e é decisivo para falarmos, uns mais, outros menos, a torto e a direito, da vida dos outros e até da nossa mesmo. É evidente, leitor, que acabo de fazer uma ligeira brincadeira e provocação. Interessa-me mostrar para que serve a nossa língua.
Se não for esse o caso, significa que língua é o nosso instrumento de comunicação, expressão do pensamento e, mais do que isso, nossa forma de ação no mundo.É sobre essa língua que, neste espaço jornalístico, faço questão de escrever, para dizer que ela é bela, em todas as suas manifestações, mesmo naquelas que parecem chocantes para uma camada da população que se acha muito culta ,dona do mundo e da gramática.A língua não pode servir de instrumento de opressão ou de humilhação.Ela existe para promover o bem estar social, a boa convivência entre os homens, o amor e a paz. O falar certo e o falar errado dependem de avaliação social. O que ontem foi considerado certo na gramática é , muitas vezes,hoje considerado erro. O ideal é que a escola consiga fazer de seus alunos verdadeiros cidadãos poliglotas na própria língua, ou bidialetais, como defendem alguns linguistas.Isso significa dizer que eles deverão ser capazes de dominar a variedade culta e a variedade popular da língua, em condições de usar uma ou outra, conforme o ambiente social em que estiverem.Esse é o papel, nem sempre tranquilo e fácil, da escola e da família.Todos nós ensinamos a língua, todos temos o dever de ensinar a língua na nossa vida social.Repito que a função da escola é criar condições para que os alunos todos, independentemente da origem social, aprendam bem a norma considerada culta da língua, além da norma que já trazem de casa e usem, uma ou outra, de acordo com as exigências do ambiente social em que estiverem.
Até quando você conta uma piada ou uma anedota, está ensinado e exercitando a língua. Porque, você sabe, o segredo de uma boa piada ou de uma anedota depende do uso que se faz das palavras e sua combinação em frases.As anedotas, por exemplo, vão sendo modificadas a cada vez que são contadas.Cada pessoa vai colocando por conta própria, dados e fatos, que não constavam do texto original. Vejamos um exemplo de uma que me faz rir todas as vezes que ouço alguém narrar.
A família viajou para o Uruguai e o genro fez questão de levar a sogra querida, eu não disse sobra querida. Ela estava bastante idosa e acabou morrendo, na véspera de eles voltarem.Como o dinheiro já estava no fim, a filha e o genro, não tomaram as providências obrigatórias nessas circunstâncias ,tais como: ida ao consulado brasileiro, preenchimento de papéis de liberação do corpo, pagamento de passagem de avião ou de outro meio de transporte,etc. Para economizar gastos, resolveram trazer a falecida no próprio carro. O problema maior seria a passagem pela alfândega.O filho mais velho sugeriu que colocassem a vovó sentada no banco de trás.Quando o policial alfandegário se aproximou, o genro fez sinal de silêncio, como se pedisse para falar baixo, para não despertar a pobre velhinha. Já em solo brasileiro, pararam no primeiro posto que encontraram., para ir ao banheiro e jantar. Estavam todos famintos e tristes.Antes, embrulharam o corpo da vovó querida, em uma lona, e o colocaram, com cuidado, no bagageiro, para não despertar suspeita de algum curioso.
Enquanto jantavam, o filho mais novo, saiu à porta do restaurante e não viu o automóvel. Meu Deus, roubaram nosso carro, pai! Todos se levantaram num desespero só.Vamos à polícia! Aí, veio o susto maior. Dizer o que para a polícia? Que transportavam uma morta desde o Uruguai? Não podiam pagar um anúncio em jornal, pedindo para o ladrão devolver o carro... ou o corpo? Só encontraram uma explicação para dar aos parentes e amigos sobre a ausência da sogra e avó: ela arrumou um namorado idoso no país vizinho e a família, como presente, resolveu deixar o carro para os dois pombinhos virem para o Brasil, depois de acertarem os detalhes do casamento.
À medida que você vai ouvindo o relato minucioso e divertido desse fato, vai criando o seu próprio modo de contá-lo a outra pessoa. Esse exercício de recontagem da anedota exige de quem conta um bom domínio dos recursos da língua e boa imaginação para torná-la mais divertida. Usar bem a língua faz sua vida e a vida daqueles que o cercam cada vez melhor. A língua é a nossa mais fiel companheira, porque nos ajuda
Até próxima, caros leitores!