De bem com a língua,
de bem com a vida

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Língua, Literatura e vida

Publicado em 04/09/2010 09:42

Chego hoje à marca de 77 textos publicados aqui neste espaço de O Jornal e me assusto, não com a quantidade, mas com a rapidez do tempo. Foram setenta e sete sábados, nos quais estivemos juntos, até agora ( e espero estar por aqui, por um longo tempo), unidos pelas palavras, pensadas e escritas por mim, para produzir significação. O prazer de escrever e estar tão próximo dos leitores é diferente do que acontece com um escritor de romances que apenas pode construir a imagem de seus possíveis leitores. Aqui, escrevo buscando estar em sintonia com quem lê meus textos e conversa comigo sobre o que lê. E gosto muito, quando tantos leitores falam comigo sobre o que representa para eles o que escrevo.Também é gostoso, quando leitores consultam-me sobre alguma expressão da língua.Sinto-me útil e dou mais valor ainda ao meu esforço intelectual despendido no estudo da língua portuguesa.Não sou daqueles que se valem de algum conhecimento a mais a respeito da língua, para torná-la mais difícil e misteriosa.A tarefa de quem escreve sobre a língua ou a ensina na escola é fazer que todos se sintam donos dela.A língua existe para ser amada, não temida; ela é o nosso instrumento de ação no mundo.Quando falamos ou escrevemos, estamos agindo, dando respostas à vida.Viver é conviver e dar respostas à vida.Viver é perigoso, como escreveu o Guimarães Rosa. Vejam como a literatura é também importante para se conhecer um pouco mais o sentido da vida.Outro dia, um leitor destes meus escritos semanais, disse-me que havia lido, em algum lugar, a palavra embrejada. Antes de buscá-la em dicionários ( depois vi que não são todos que a agasalham), fui à literatura de Guimarães Rosa e lá encontrei no Grande Sertão: Veredas, página 114, a fala do Riobaldo Tatarana:

 “Estou contando ao senhor, que carece de um explicado. Pensar mal é fácil, porque esta vida é embrejada. A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar. A senvergonhice reina, tão leve e leve pertencidamente, que por primeiro não se crê no sincero sem maldade.”.

Que belo e significativo uso para embrejado! A vida é cheia de brejos, é escorregadia, pantanosa, traiçoeira, surpreendente, perigosa como um brejo. Chama a atenção nessa fala o emprego da palavra senvergonhice.O grande escritor  escreveu-a ,  assim mesmo, emendada, e com a letra N.Ficou mais bonita, embora não esteja escrita dessa forma nos dicionários.Ele, o Guimarães, pode.

Essa palavra, que deve ser escrita por nós, assim: sem-vergonha e que pode ter como sinônimos:sem-vergonhez,sem-vergonheza,sem-vergonhismo( no plural,seriam: sem- vergonhezes,sem-vergonhezas, sem-vergonismos) – vejam que prodigalidade para a falta de vergonha – anda tendo muita validade e aplicação nos tempos modernos. Em época de eleições, então, nem se fala! Valho-me ainda de Guimarães Rosa, para falar de eleições. Vejam o que Riobaldo diz no romance:

“Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias...Tanta gente – dá susto se saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza,ser importante, querendo chuva e negócios bons...”(página 15).

Governar um país, uma cidade, um Estado, não é tarefa para qualquer um mesmo!Já que estou nesta trilha, sigo mais um pouco com o livro de Guimarães Rosa e vou citando frases dele , para dar um pouco mais de graça e trazer ensinamento para a nossa vida. Literatura ajuda a viver melhor.

“Hem?Hem? O que mais penso,testo e explico:todo-o-mundo é louco.O senhor, eu,nós, as pessoas todas.Por isso é que se carece principalmente de religião:para se desendoidecer,desdoidar.” ( p.15)

“Viver é muito perigoso...Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode estar sendo se querendo o mal, por principiar” (p.16)

“O senhor sabe: o perigo que é viver...” ( p. 18).

“O senhor... Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas- mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra,montão.” (p.20)

São tão límpidas as frases roseanas, tão poéticas e filosóficas, que nem é preciso que eu as comente. Tirar-lhes-ia a graça.A literatura de Guimarães Rosa tem uma função conscientizadora muito clara  e é disso que precisamos.O homem precisa voltar para dentro de si mesmo e analisar o papel que anda cumprindo no mundo.Viver é buscar competência para estar no mundo.Existe a teoria da incompetência alheia, mas não se exercita a teoria da incompetência de si mesmo.Só costumamos ver incompetência nos outros, mas não enxergamos ,às vezes, a nossa própria incompetência no ato responsável de viver e julgar e participar.

Termino, prazerosamente,com Guimarães, filosofando sobre a vida: “Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender–a–viver é que é o viver, mesmo.” (p. 443).

Cá entre nós, esse aprendizado sobre o ato de viver é tão bom, que nem precisamos ter pressa para terminar o curso e receber o diploma, não é verdade?Até a próxima, leitor e parceiro dos meus textos.

 

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Sobre Gramáticas e Gramáticos

Publicado em 15/08/2010 10:07

Acordei com vontade de falar da beleza da língua portuguesa em todas as suas formas, mesmo naquelas não privilegiadas pela sociedade.Uma língua é o conjunto de todas as suas variedades, registros e dialetos.Quanto mais variedades da língua uma pessoa dominar e usar, tanto melhor para a sua vida social.

Na crônica da semana passada, eu tratava da Gramática e dizia que ela não surgiu para ser tratada como se fosse rainha do uso da língua, mas apenas uma serviçal do uso da língua.Precisamos aprender a ver a Gramática como um indispensável manual de consulta sobre as possibilidades de usos da língua, na norma que é privilegiada histórica e socialmente.Não adianta querermos mudar este fato: sempre haverá uma norma gramatical preponderante na vida social.A Gramática dessa norma, mesmo com suas imperfeições e até desacertos, constitui ainda a principal fonte de referência da normatização da linguagem-padrão falada e escrita do país.

A Gramática no Brasil tem uma história bonita e digna de ser conhecida.Vejamos um pouco da história das nossas gramáticas e dos nossos gramáticos.

Nosso primeiro gramático, Júlio Ribeiro, professor de Português no tradicionalíssimo colégio de Campinas, SP., Culto à Ciência,no qual também tive a honra de lecionar em 1978 e 1979, na pioneira Gramática Portuguesa(1881), propõe  a gramática como um compêndio que exponha metodicamente os fatos da língua, para serem aprendidos com facilidade.

Outro gramático, João Ribeiro (1887), professor do Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro, elabora a sua  Gramática da Língua Portuguesa, considerando-a como coordenadora e expositora dos fatos das regras da linguagem. Notemos que nela também é preponderante a preocupação com as regras de bem dizer e escrever.

Ainda no mesmo ano de 1887, Maximino Maciel, professor titular do Colégio Militar do Rio de Janeiro,publica a Gramática Analítica(Descritiva) e Pacheco Silva e Lameira de Andrade, com preocupação voltada para o ensino de português nos ginásios, liceus e escolas normais, estas concentradas na formação de professoras para os antigos Grupos Escolares, de 1ª a 4ª séries, dão a público a Gramática da Língua Portuguesa.

Em 1907, vem a lume a 1ª edição da gramática que já foi editada mais de cem vezes: Gramática Expositiva, curso superior, de Eduardo Carlos Pereira.Esse estudioso mineiro da língua portuguesa revelou uma grande capacidade de coleta de fatos da língua , para ordená-los e expô-los metodicamente, segundo ele.Sua gramática manifesta alguma preocupação de nível pedagógico, pois que entende o ensino gramatical com fator de manutenção da unidade nacional, mas não apresenta uma vinculação científica à teoria marcadamente linguística.O cunho é mesmo normativo e visa à correção na escrita e na fala, o que por si só, não pode ser objeto de condenação dos lingüistas.

Outras Gramáticas têm alcançado também sucessivas e renovadas edições no Brasil. Entre elas podemos destacar a Gramática Metódica da Língua Portuguesa, de Napoleão Mendes de Almeida, muito adotada nos antigos internatos masculinos e femininos e seminários para formação de padres. Essa gramática alcançou a 45ª edição, em 2005.Também merece destaque a Gramática Normativa da Língua Portuguesa, do professor Carlos Henrique da Rocha Lima, cuja edição mais recente é a de número 45, de 2006.O professor Celso Cunha também alcançou sucesso com a sua Gramática do Português Contemporâneo, datada de 1970, que vem sendo constantemente editada , agora com o título de Nova Gramática do Português Contemporâneo, em co-autoria com Lindley Cintra.O prof. Evanildo Bechara, um dos artífices do Acordo Ortográfico de 1990, já em pleno vigor no Brasil, é nos anos mais recentes o mais bem sucedido de nossos gramáticos normativos.Sua Moderna Gramática Portuguesa, de 1961, é a mais vendida e a mais atualizada, com uma edição, a 37ª, de 2009.Além dessa, ele elaborou e lançou em 2006, a Gramática Escolar da Língua Portuguesa, destinada alunos do ensino médio e cursos preparatórios.Poderíamos ainda citar outras gramáticas de cunho normativo, mas preferimos ficar com essa relação, para mostrar que contamos com um bom número de boas gramáticas normativas.

Para quem deseja conhecer também importantes gramáticas descritivas do português brasileiro indico as que se seguem: Nova gramática do Português Brasileiro, de Ataliba Teixeira de Castilho;Gramática do Português Brasileiro, de Mário Alberto Perini e a Gramática Houaiss da Língua Portuguesa, de José Carlos Azeredo.São todas elas de alto nível científico e resultantes de vários anos de pesquisas de seus autores e acabam de ser lançadas no mercado editorial.Um pouco antes dessas três, surgiu a bela e competente Gramática de Usos do Português, de autoria da professora Maria Helena de Moura Neves, de quem tive a honra de ser aluno e depois colega na UNESP, de Araraquara.

Muito mais eu ainda poderia dizer sobre gramáticas, porém prefiro dar por findo este texto, na esperança de poder contar sempre com a sua companhia, minha cara leitora, meu prezado leitor.Até a próxima.

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Em defesa da Gramática

Publicado em 09/08/2010 15:30

EM DEFESA DA GRAMÁTICA

 Fiquei ausente deste espaço de O Jornal, por algumas semanas, e recebi muitas mensagens de leitoras e leitores, que me perguntavam, preocupados, se eu não mais escreveria minhas crônicas semanais. Essa preocupação deixou-me feliz, pela afirmação de que o meu trabalho tem importância para muitas pessoas. Pois bem, estou de volta, com muita disposição e prazer. Estava em férias (também poderia escrever, estava de férias), ou seja, não tive de dar aulas, cumprir horários, corrigir trabalhos, enfim, tarefas do professor. Entretanto, não me afastei da vida intelectual, o que espero possa acontecer até o final dos meus dias. Participei de Congressos, apresentei trabalhos e escrevi bastante. Em um desses Congressos, na bela cidade de São Carlos, saí em defesa da Gramática. Pois é, leitor amigo, a nossa gramática anda precisando de defesa. Quem a anda atacando? você poderá perguntar-me.E eu lhe direi, alguns linguistas amigos e colegas meus e mais algumas pessoas do meio acadêmico. Esse fato vem causando algum desconforto para os professores do ensino fundamental e médio. Estes ficam inseguros quanto a ensinar ou não gramática. Devo dizer que Gramática não é sinônimo de língua; é apenas um retrato da língua.Aprender uma gramática não significa aprender uma língua. A gramática, tal como foi idealizada desde a Grécia antiga, tem o objetivo de organizar os recursos da língua escrita e efetuar a exposição deles, de forma metódica, para que possam servir de manual de consulta aos usuários. A gramática , apesar de suas imperfeições e até incoerências constitui ainda a principal fonte de referência da normatização da linguagem-padrão falada e escrita do país.O grande linguista e professor, Edward Lopes, esclarece que não cabe ao linguista ser contra a normatividade, ou a favor dela.Segundo esse pioneiro da linguística brasileira, o que compete ao linguista é insistir no fato de que o problema da gramaticalidade é matéria puramente linguística, pois as línguas são produtos das convenções e dos valores sociais, de onde derivam as regras para que haja intercomunicação. Qualquer utilização da língua por um falante tem que ser por ele planejada para que atinja seus objetivos. As regras linguísticas são regras do comportamento social dos indivíduos e por isso são transmitidas de uma geração a outra. O problema da gramaticalidade da norma culta de uma língua é, do ponto de vista histórico-geográfico, apenas o falar próprio de uma região, e do ponto de vista social, é apenas o falar de um grupo.

Eu faço questão de afirmar que não interessa ao locutor, quando fala ou escreve, discutir o gênero e o número de uma palavra como lua, por exemplo.Interessa, isto sim, que ele tenha percepção do potencial significativo  dessa palavra que inspirou versos como estes de Carlos Drummond de Andrade no Poema de Sete Faces :

Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

deixam a gente comovido como o diabo.

Não se ensina gramática como um fim em si mesma; gramática é meio, não fim. A língua não se resume ao conhecimento gramatical. Ela, a gramática, tem de ser o que ela pretende ser: serva do uso da língua. Ela também não tem culpa pelo que fazem com ela, quando a colocam no centro do ensino da língua.Luis Fernando Veríssimo disse em uma crônica bonita que a gramática precisa apanhar todos os dias para saber de seu lugar.Digo que, se alguém precisa apanhar, ( aliás, ninguém deve apanhar) não é a gramática; é, sim, quem não sabe o que ela é e para que ela serve.

 

                                   O QUE FAZEM DA LÍNGUA

 

Transcrevo a seguir, de forma literal, algumas frases de Relatórios de Fiscais do antigo Crédito Rural. Como pesquisador, busco conhecer manifestações escritas e faladas de pessoas de diferentes classes sociais e de diferentes profissões.

Você, leitor, haverá de notar que se trata da escrita de pessoas que têm pouco domínio dos recursos da língua portuguesa considerada padrão. Como professor, apresento essas frases e proponho que você, depois de lê-las e, certamente, de considerá-las engraçadas ( duvido que você não vá rir delas), tente reescrevê-las ou discutir com pessoas de sua convivência. Vamos às frases desses fiscais zelosos do dinheiro do Banco, porém devedores da gramática da língua portuguesa.

1-Nada mais vi a não ser um recibo de bezerros mamando a 200.

2-A casa de farinha não foi para frente porque o mutuário deu para tráz e nunca mais se levantou.

3-O reprodutor “MARCO POLO” e a vaca “TEREZA” foram vendidos ao sr.José Airton que está pronto a esclarecer o assunto pela importância de Cr$ 10.000,00.

4-Cliente aguarda a capilaridade pluviométrica da zona para efetuar o mister.

5-O cavalo está ajudando nos serviços da fazenda.Ele liquidou o financiamento com a mandioca particular que está sendo carregada para a casa de farinha do vizinho.

6-Cliente faz roçado juntamente com a mulher.

7-O sol castigou o mandiocal.Se não fosse esse gigante astro as safras seriam de acordo com as chuvas que não vieram.

8-Levou vários tiros na trazeira dados por um tal de Bamba, que perfazeu um total de dois buracos, indo para o ospital.

9- A euforbiácea foi substituída pela musácea sem o consentimento da carteira precisando começar tudo de novo o serviço.

10-O mister não foi feito,faltando completar com dinheiro dele,que gastou com farras e comprou um jipe de refugo, com parte.

Até a próxima, leitora e leitor, e obrigado pela sua companhia neste texto.

 

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Copa do Mundo, Literatura e Vida

Publicado em 03/07/2010 18:11

Escrevo este texto logo depois do jogo de futebol entre Paraguai e Japão. Os japoneses foram derrotados em cobranças de pênaltis, o que torna mais trágica a competição. Ao final, muito choro da torcida e dos jogadores nipônicos de um lado e muita alegria dos torcedores e jogadores guaranis do outro. Vi, como disse Luis Fernando Veríssimo, gueixas e samurais desconsolados.Eu, cá do meu posto de torcedor confiante, mas atento ao significado das atividades humanas, fico a pensar o quanto o futebol se assemelha à vida:acasos, mistérios, estranhezas marcam a nossa vida assim como são a marca desse esporte tão apaixonante. Os comentaristas arriscam seus palpites, porém erram mais do que acertam. Futebol é jogo e este não é matéria de adivinhação. Futebol também é paixão. A vida é movida pelas paixões, que foram tão bem caracterizadas por Aristóteles.

A vida é um jogo perigoso e fascinante. Para jogar bem é preciso talento, confiança e alma. Foi Nelson Rodrigues, que teve um grande talento para escrever belas crônicas sobre futebol, autor desta frase: “Quem ganha e perde as partidas é a alma.” Os comentaristas de rádio e tevê costumam falar em raça. É mais do que isso: é alma. Gosto muito de futebol e aprendi a ver esse esporte com uma visão inspirada no grande escritor Albert Camus ( pronuncia-se: Albér Cami), que também foi jogador de futebol, na posição mais perigosa e ingrata que é a de goleiro. Ele escreveu grandes romances, um dos quais, A Peste.Uma de suas frases sobre o futebol foi a seguinte: “O que finalmente eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem devo ao futebol.” Nem é preciso que eu a comente, tão claro é o seu significado.Ele não apenas jogou, mas soube aprender a viver melhor com o futebol, porque soube descobrir o sentido que o esporte pode trazer para a vida.É a diferença entre quem pensa e quem apenas usufrui dos lucros e benefícios das atividades que exerce.

A Copa do Mundo de 2010, que está acontecendo na África, foi um sonho do grande líder Nelson Mandela.Será uma pena que, depois de terminado esse espetacular evento, o mundo volte a se esquecer do continente africano, tão carente de ajuda humanitária ainda. Lembrei-me de que em Durban, onde a Seleção Brasileira está jogando as oitavas de final, viveu, por algum tempo, o grande poeta português, Fernando Pessoa.O padrasto dele era cônsul português nesta cidade. O comentarista de futebol, Tostão, jogador fabuloso dos áureos tempos do Cruzeiro e da Seleção Brasileira, tricampeã de 1970, escreveu outro dia que, de acordo com relatos da época, Fernando Pessoa era uma pessoa esquisita. A frase de Tostão foi a seguinte: “Só os esquisitos seriam capazes de escrever coisas tão maravilhosas.” Talvez, o Dr. Eduardo Gonçalves, mais conhecido como Tostão, tenha mesmo razão. Fernando Pessoa ,conhecido pelos seus heterônimos, isto é, por nomes de poetas diferentes, com personalidade, visão de mundo e estilo diversos, mas todos criados por ele, criou um verso como este: “As coisas não têm explicação, têm existência.” Tenho de aceitar que muitos acontecimentos desta nossa vida aqui na terra são mesmo inexplicáveis. É preciso saber ver com Guimarães Rosa que escreveu o seguinte em seu livro maior, Grande Sertão: Veredas, na página 236: “Porque a cabeça da gente é uma , e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores e diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Para entender a vida e o futebol , precisamos abrir a cabeça para o total. E Fernando Pessoa confirma, neste verso bonito, que nem sempre é bem interpretado: “Navegar é preciso, viver não é preciso.” A palavra preciso aqui não é do verbo precisar e não significa: é necessário; é adjetivo e significa rigoroso, exato, categórico.A navegação é exata, precisa, porque apoiada em instrumentos. Já a vida e o futebol não são precisos.Daí a atração que esse esporte exerce sobre as pessoas de todas as nacionalidades.Também , dessa falta de precisão é que resulta o mistério que é viver. Termino dizendo que literatura e futebol, duas de minhas grandes paixões e de tantas outras pessoas, como vocês, meus leitores, podem ajudar –nos a compreender melhor a beleza e o milagre que é a vida de todos nós.

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A Viagem de Saramago

Publicado em 28/06/2010 09:15

A VIAGEM DE SARAMAGO

 

José Saramago acaba de fazer sua última viagem. Não estará mais conosco. Acabou de fazer uso de seu passaporte para a eternidade. Esse acontecimento faz-me lembrar de que no prólogo do livro Os Doze Contos Peregrinos, Gabriel García Márquez narra ter sonhado que assistia ao seu próprio enterro, a pé, caminhando ao lado de um grupo de amigos da América Latina, todos vestidos de preto, em sinal de luto, mas em clima festivo. Ele também se sentia feliz com a oportunidade que a morte lhe dava de estar entre amigos antigos e queridos..Quando a cerimônia terminou, as pessoas começaram a sair do cemitério e ele também se pôs a caminhar de volta com os amigos.Foi quando um deles, com o semblante sério, disse-lhe, com severidade, que para ele a festa havia acabado: “ Você é o único que não pode ir embora”.García Márquez conclui:”Só então compreendi que morrer é não estar nunca mais com os amigos”. José Saramago, não em sonho, mas na dura realidade não mais poderá estar com os amigos na terra. Li muitas declarações a respeito da morte do nosso único Prêmio Nobel de Literatura de língua portuguesa.Entre elas, uma mereceu minha atenção: a de Chico Buarque de Hollanda: "Perco um grande amigo. Perdemos todos um ser humano admirável, um escritor imenso, zelador apaixonado da língua portuguesa." Chico ressalta a amizade que teve o privilégio de manter com o notável escritor, o traço humanista de Saramago e o zelo com que tratava a nossa língua portuguesa.Notei em todas as manifestações de escritores e de outras personalidades conhecidas internacionalmente a preocupação em acentuar o estilo saramaguiano de escrever, o lado combativo de sua personalidade e o amor que ele tinha pela língua portuguesa. Li praticamente toda a obra dele e sobre o seu  penúltimo romance, A Viagem do Elefante, publicado em 2008, posso afirmar que é um dos mais  criativos e surpreendentes de sua rica produção.Sobre ele escrevi um artigo para um Congresso, para analisar o que chamamos teoricamente de metadiscurso, isto é, a participação do autor no próprio romance com comentários e explicações.Saramago é um mestre do metadiscurso e algumas passagens desse romance atestam isso. No diálogo a seguir, o autor-criador do romance metadiscursiviza sobre o acto poético e o significado da arte literária:

 

Pois olhe que não falta por aí quem diga que as fadas que presidiram ao meu nascimento não me fadaram para o exercício das letras, Nem tudo são letras no mundo,meu senhor, ir visitar o elefante salomão neste dia é, como talvez se venha a dizer no futuro, um acto poético,Que é um acto poético, perguntou o rei,Não se sabe, meu senhor, só damos por ele quando aconteceu. (p.17).

 

Para mim a morte do autor foi também um ato poético do qual ele mesmo não teve experiência. Temos certeza de que morreremos, mas não teremos a experiência da própria morte, porque morrer significa a cessação de uma experiência que é o ato de viver.

Manuel Bandeira compôs um poema belíssimo sobre a experiência da morte que vale a pena ser lembrado agora:

A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

Podemos discordar de muitos posicionamentos de José Saramago, mas um fato é incontestável: a literatura perdeu um grande nome.  Acredito piamente que ele foi tão grande ficcionista e que muitas de suas falas, fora de sua obra, misturavam-se com a sua própria inventividade ficcional.Quando leio os seus livros, mesmo aqueles em o seu propalado ateísmo mais se manifesta, tenho certeza de que se trata de uma manifestação de falsa rebeldia diante de Deus.Convenço-me de que Saramago foi o ateu mais teísta da nossa literatura. Creio mesmo que Deus, na sua infinita misericórdia e grandeza, nem levou a sério suas manifestações antibíblicas, mas soube, isto sim, apreciar o grande talento do criador literário e cultivador de palavras que foi José Saramago, que Ele acaba de chamar para fazer parte da Academia de Letras, que também deve haver no céu. Por que não acreditar que isso possa ser verdade?

Um abraço,amigo leitor.Até a próxima.

 

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De bem com o Gerúndio

Publicado em 15/06/2010 10:03

                               DE BEM COM O GERÚNDIO

Vem ocorrendo no português brasileiro um uso acentuado do gerúndio em uma construção não recomendável que é a seguinte: vou+estar+ gerúndio. Por exemplo: vou estar estudando agora. Também é comum ouvirmos frases como estas: Não vou poder estar atendendo você agora; vou estar falando com o meu chefe.Você pode estar voltando outra hora?

Outro dia, uma aluna querida falou assim comigo:– Eu vou estar tendo de estar faltando à sua aula. Disse com todos os trejeitos de mocinha elegante, mas o gerúndio ficou de mal com ela, tenho certeza.

Frases como essas parecem elegantes, mas não o são.O uso indiscriminado e abusivo do gerúndio, dessa forma, constitui um vício de linguagem que recebe um nome não muito simpático:ENDORREIA. Um nome como esse só pode servir como alerta a que se evite usar mal a bela forma gerundiva. Ficar de bem o gerúndio significa usá-lo como um futuro em relação a outro futuro. Aí, sim, estará o bom gerundismo.Eis alguns exemplos: Amanhã, não irei a sua casa, porque a estas horas estarei viajando.Logo mais, à noite, deverei estar assistindo a um belo filme.

Também se recomenda o  gerúndio, quando se quer expressar uma ação que esteja ocorrendo ou que seja simultânea a outra, ou ainda se queira expressar idéia de progressão indefinida.

Se o empregarmos com os verbos estar, andar, ir ou  vir, marcaremos bem uma ação durativa, com diferentes aspectos:

1) com o verbo estar, o gerúndio exprime o momento preciso, definido.

Está havendo, nos tempos atuais, um excesso de descrença.
Os preços não  mais estão subindo como antes.
Os jovens estão casando cada vez mais cedo..

2) com o verbo andar, a idéia que o gerúndio passa é  de intensidade.

Andei pensando muito na nossa relação.
Andam falando mal de você nos breus e tocas.

3) com o verbo ir + gerúndio, expressa-se uma ação durativa.

As horas estão passando e nada de ela chegar, meu Deus!
Com muito esforço, ele foi ganhando a posição de titular.

4) com o verbo vir + gerúndio, exprime-se uma ideia de progressão temporal

Ela vem sendo convidada frequentemente para palestras.

Vem chegando a madrugada.

Como se pode ver, o gerúndio é uma forma verbal muito produtiva e útil à construção do sentido do texto.O que não se recomenda é o seu uso que não seja para exprimir a ideia de um futuro durativo e contínuo.Caso eu quisesse, poderia escrever muitos textos sobre o uso do gerúndio.Há até tese de doutorado sobre essa forma verbal, mas acredito que, nessas poucas linhas,  tenha conseguido transmitir para você o essencial do bom gerundismo.

                                

                                                 ORIGEM DO ANFITRIÃO

O dicionário registra para essa palavra o seguinte:

1-aquele que oferece e paga as despesas de um jantar, festa, banquete etc.

2-o dono da casa, que recebe os convidados para qualquer evento

3-aquele a quem se homenageia.

De onde teria vindo esse vocábulo tão ouvido nesses dias de início da Copa do Mundo de Futebol? Como tantas outras, essa palavra simpática teve origem na mitologia. Anfitrião era casado com Alcmena, a formosa mãe de Hércules.Na guerra de Tebas, o marido da bela Alcmena teve de ir como soldado. Zeus não perdeu a oportunidade de ter Alcmena nos braços: disfarçou-se com os trajes e feições de Anfitrião, colocou Hermes( Mercúrio) como guarda e foi para a casa de Alcmena, lá permanecendo o tempo que quis, sem que a esposa do valente querreiro desconfiasse. Pobre Anfitrião!Convenhamos que  a origem da palavra, hoje tão sugestiva, não foi assim tão nobre, não é mesmo?

 

                                              CUIDADO COM BADERNA

No dicionário Houaiss, baderna é assim registrada:

Regionalismo: Brasil. Uso: pejorativo.

1-situação em que reina a desordem; confusão, bagunça

2-divertimento noturno; boêmia, noitada

3-conflito entre muitas pessoas; briga, rolo

De onde teria originado essa palavra? A origem de baderna é curiosa.O Rio de Janeiro teve em 1851 uma bailarina famosa chamada Maria Baderna.Seus fãs eram muito barulhentos e desordeiros.Faziam baderna antes, durante e depois da exibição da artista.A ação estendeu-se para a criação da palavra.Você há de convir comigo que não foi uma homenagem das mais elegantes para uma bailarina, hein? Baderna lembra bagunça. O Dicionário de Etimologias da Língua Portuguesa assegura que a origem de bagunça está nas palavras francesas bagou e bagarre que significam confusão, motim.Tenho para mim, que essa palavra originou-se mesmo foi de bagaço que, em Minas Gerais, era usada como sinônimo de tumulto, confusão.

Por essas e outras palavras e suas origens é que me apaixono e continuo tentando dialogar com você, leitor, aqui neste rodapé jornalístico. Um abraço!

 

 

 

 

 

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Palavras de Sobras.Crônica publicada em O Jornal de Batatais,29/05/2010

Publicado em 30/05/2010 10:39

RODAPÉ LITERÁRIO 68(29-5-2010)

De bem com a Língua, de bem com a vida.

Prof. Dr.Juscelino Pernambuco www.professorjuscelino.com.br.

 

   

                                               PALAVRAS DE SOBRAS

 

Quando uma pessoa não consegue escrever o que está pretendendo, mas tem de apresentar o texto assim mesmo, costuma-se dizer que ele está enchendo linguiça, o que não é o meu caso, ao produzir esta minha crônica semanal.Qualquer que seja o texto, escrito ou falado, há que se fazer um planejamento sobre o que se quer dizer e sobre o modo como se quer escrever.Quem assim não procede, corre o risco de pagar mico e nesse caso, a vaca pode ir para o brejo.

Sublinhei três expressões muito conhecidas e usadas, sobretudo, na fala e que tem cada uma a sua própria história.Encher linguiça, por exemplo, tem origem no modo caseiro de se fazer esse saboroso alimento embutido.Nas tripas selecionadas entravam os mais diferentes tipo de carne a que se acrescentavam condimentos,gorduras e temperos, até ser formada uma massa compacta. Esse processo começou a ser denominado enchimento de linguiça e reunia muitos familiares, tal como para se fazer pamonha ainda hoje.Era uma festa.O ritual era lento e demorado, daí o significado atribuído, por extensão, à expressão linguística tão usada hoje.Pagar mico significa envolver-se em situação constrangedora ou vexaminosa, digna do riso das pessoas.De onde teria vindo essa expressão tão do agrado dos jovens? Vem de um brinquedo ou de um jogo com cartas de baralho, em que aquele participante que ficar para o final, sem ter formado os pares esperados, paga o mico, recebendo uma punição e eliminação do jogo.Isso me faz lembrar a expressão, Pó de Mico, que inspirou até uma famosa marchinha carnavalesca, lembram-se? Vem cá seu guarda, bota pra fora esse moço,que está no salão brincando, com pó de mico no bolso/ Foi ele, foi ele, sim, foi ele que jogou o pó em mim.(bis). Se se lembraram, leitores, cantem agora, que eu estou cantando enquanto escrevo.Tempos bons, hein? Pó de mico é o material de origem piroclástica, ou seja, vulcânica, encontrado na região de Pozzuoli (Itália), que se mistura com cal e se emprega como cimento hidráulico.Esse pozinho, quando entra em contato com a pele humana, provoca uma coceira incontrolável, que leva a pessoa a se portar como os micos, que se coçam sem parar.Origem interessante tem a  expressão pó de mico, não é? Já a vaca vai para o brejo, quando falta capim por longo tempo e ela tem de encontrar nos pântanos alguma espécie de alimento para resolver sua situação de fome.Assim, quando a situação está deveras complicada, costuma-se dizer que a vaca foi para o brejo.É gostoso saber que tudo o que surge na língua que falamos tem razão de ser e tem uma história.

Lembrei-me agora de que no inverno, apreciamos comidas quentes tais como:feijoada e fondue ( pronuncia-se fondi).Esta bem poderia ser aportuguesada como queijarada, tal como feijoada, já que é um prato de origem suíça composto de queijo fundido em vinho branco e temperado com alho e quirche, e levado à mesa em panela própria sobre um fogareiro, no qual cada comensal mergulha fatias de pão na ponta de um espeto.Esse saboroso alimento surgiu da necessidade de aproveitamento das sobras de queijo não vendidos em determinado ano por uma fábrica suíça, que os havia produzido em excesso.Os queijos endureceram e teriam de ir para o lixo. Alguém teve a criativa ideia de derreter os queijos e acrescentar vinho ou aguardente para conservar aquela massa toda.Desse modo, esperava-se que com o frio aquela queijada se reendurecesse e não se estragasse.Deu certo e o segredo foi só derreter pequenas porções provar o sabor e sentir que era bom demais.Estava inventada a fondue ( notem que ela é feminina), palavra derivada do francês: fondre, que significa fundir.

Surgida também de sobras, temos a nossa inimitável e tipicamente brasileira feijoada.Na época da escravidão, todas as partes não aproveitadas dos porcos para a comida  dos proprietários dos escravos eram levadas para as senzalas.Alguma cozinheira muito perspicaz viu que aquela sobra toda, pés, joelhos, beiços, rabo,etc. poderia redundar em uma comida saborosa.Levou tudo ao tacho de cobre, misturou com feijão e muito tempero, cozinhou por várias horas e viu que o que dali surgiu era melhor até que as carnes nobres do porco.Estava inventada a  feijoada, que como se vê, originou-se de sobras, o que vem provar que nem sempre o que sobra é prejudicial e deve ser olhado com cuidado.Aliás, há uma máxima latina que diz:Quod abundat non noscet.Vejam o significado: O que abunda não prejudica.

Sem querer sobrar no coração de vocês, leitores, despeço-me, por aqui. Até a próxima.

 

Juscelino Pernambuco é professor do curso de Mestrado em Linguística e do curso de Letras da Universidade de Franca e apresentador do programa Análise Musical, na www.claretianafm.com.br.

 

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DIFICULDADES DA ORTOGRAFIA

Publicado em 26/05/2010 15:40

Outro dia, pedi a um aluno que fosse à lousa e escrevesse a palavra, EXCEÇÃO. Ele, gentilmente e confiante, escreveu:excessão.Pedi a outro que corrigisse  e este grafou: exseção.Continuei a experiência didática e fui solicitando aos outros alunos que fossem também , um por vez, tentando acertar a grafia dessa palavra.Vejam, leitores, as diferentes formas gráficas criadas pelos alunos:excessão, essessão,eceção,exeção,ecessão, exseção, exsseção, essesão, exceção,exeção.Sem dúvida, fiquei surpreso, mas entendi perfeitamente o fato linguística pitoresco.Fosse a nossa ortografia comandada pelas leis fonéticas, todas essas formas estariam certas. A pronúncia da palavra EXCEÇÃO, em todas as formas seria a mesma e correta. Em texto anterior, trouxe para vocês a descoberta da professora Elis de Almeida Cardoso, da Universidade de São Paulo, que, na revista Discutindo a Língua Portuguesa, escreveu  que a palavra IGREJA no português arcaico, entre os séculos XII e XVI,podia ser escrita de dez maneiras diferentes: ygreja,eygreya, eygleyga, eigreia, eygreia,eygleiga,igleja,igreia,igreja e ygryga.

A história  da ortografia da nossa língua é interessante e feita de avanços e recuos. De fato, a grafia das palavras do português já foi fonética, isto é, escrevia-se como se falava, o que aconteceu até o século XVI. Cada um escrevia como queria, ou como percebia o som. Na Carta de Achamento do Brasil,mais conhecida como Carta de Caminha, lia-se no primeiro parágrafo: “ Datada deste porto seguro davosa jlha da vera cruz oje sesta feira primeiro de mayo de 1500...”.

No século XVI, surgiu uma escrita apegada à origem das palavras e grupos como: ch, ( com valor de k),ph,rh,th passaram a ser constantes em nossas palavras, como é o caso de typographia. Valia a intenção de escrever bonito e assim perdia-se a noção da origem verdadeira da palavra. Por exemplo: lírio, grafava-se:lyrio, sem guardar qualquer ligação com a origem grega da palavra: leírion. Sem dúvida, havia uma vontade de escrever diferente para dar a impressão de elegância  e beleza, o que existe até hoje, principalmente em nomes próprios, em que as pessoas gostam muito de th, y ,ch.

Uma grande reforma só veio a acontecer com o foneticista português Gonçalves Viana, em 1904, aprovada aqui no Brasil em 1915. Por essa reforma, foram suprimidos os grupos: th,ph,ch ( valendo k),rh e y;houve redução das consoantes duplas, com exceção de rr e ss; eliminou-se a consoante nula que não influísse na pronúncia da vogal anterior e regularizou-se a acentuação gráfica. Foi uma ampla reforma que poderia ter vigorado até os dias atuais, não fosse o retrocesso estabelecido no Brasil em 1919, quando o acadêmico Osório Duque Estrada conseguiu aprovar a queda da Ortografia Nacional, de Gonçalves Viana, e fez voltar tudo  à ortografia livre de regras do século XVI. Em 1931 é que pelo acordo Brasil- Portugal recuperamos a reforma simplificada e ampla de Gonçalves Viana, aprovada em 1915. Ficamos nesse vaivém de Reformas até o acordo de 1943, quando foi elaborado o Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Em 1971, houve ainda uma pequena reforma, por decreto presidencial. Nela, o que houve de marcante foi a queda do acento diferencial de muitas palavras.

Agora estamos diante de um fato consumado.O Novo acordo está aí e, pode-se agora dizer, vitorioso.Existem alguns movimentos tímidos no Brasil de não-aceitação do que foi estabelecido para a nossa grafia.Em Portugal, é que há uma resistência maior, o que é um fato normal, por lá, porque não se sabe qual será o Ministério responsável pela criação do novo Vocabulário Ortográfico deles. São três Ministérios envolvidos com a Ortografia.Seria difícil um acordo entre eles.Imaginem, então, um acordo sobre o acordo.Por aqui, tudo vai caminhando bem.Digo que o novo acordo não resolve todos os problemas, como sonham alguns, mas já foi um avanço.Não se pode exigir que o sistema ortográfico seja remexido inteiramente de uma só vez. Para mim, o problema maior está no uso do sinal de hífen.Esse é sério e complicado de se alterar e de se acertar de uma vez.Não há caminho melhor para evitar vacilações ortográficas do que a leitura e a boa escolarização.Escrever corretamente as palavras depende essencialmente de memorização da imagem da palavra escrita.O segredo está na memória gráfica da palavra e isso só se adquire com a leitura e com o exercício da escrita.

Vou parando por aqui, porque há um belo romance me esperando.Vejam o título e o autor: O albatroz azul, de João Ubaldo Ribeiro. Prometo escrever sobre ele.Um abraço, leitores.

 

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O errado e o certo

Publicado em 17/05/2010 08:05

O ERRADO E O CERTO.        

 

Muitos leitores espantaram-se, e com razão, diante das frases erradas expostas no meu texto da semana passada.Sei também que fizeram testes de acerto e erro das frases, com amigos e parentes.Foi esse o objetivo da Exposição MENAS: o certo do errado, o errado do certo, do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo e também do meu texto semanal. A língua que falamos é um fenômeno tão presente na nossa vida que poucas vezes paramos, para refletir sobre ele.Quando escrevo meu texto, aqui neste rodapé de O Jornal, tento conduzir uma reflexão sobre fatos da língua.Conforme o que combinei com vocês, vamos juntos, então, ver do errado ao certo sobre as frases do Museu.


 

                                               O ERRADO       


1-ELAS SÃO PESSOAS COM QUEM DISCORDO.

2-VAMOS SE VER AMANHÃ

3-DEIXA EU ESTUDAR.

4-A GENTE VAMOS À ESCOLA TODOS OS DIAS

5-OS JOGADORES SUBSTIMARAM A CAPACIDADE DOS RIVAIS.

6-SE O JUIZ PRESSUPOSSE MINHA INOCÊNCIA, TUDO FICARIA MAIS FÁCIL.

7-O PROBLEMA É NÓS.

8-ISTO É PARA MIM FAZER.

9-ELE SEMPRE FEZ O QUE QUIZ.

10-MUITOS ELEITORES SE ABSTERAM DE VOTAR NAS ELEIÇÕES DE ONTEM.

11-POLÍCIA PROCURA PADRE SEQUESTRADO PELA INTERNET.

12-A VIÚVA DO FALECIDO ESTÁ AÍ FORA.

13-EU VI ELA NA FESTA.

14-NÃO LHE CONHEÇO.

15-À PARTIR DE MAIO, VOLTA A FAZER FRIO.

16-MINHA MOTO É IGUAL AQUELA QUE VOCÊ COMPROU.

17-ELES DERAM A VITÓRIA DE BANDEIJA AOS ADVERSÁRIOS.

18-TUDO NA LOJA ERA VENDIDO À

PRAZO.

19-A QUESTÃO NÃO TEM NADA HAVER COM VOCÊ.

20-ELAS GOSTAM E ESTUDAM LÍNGUA PORTUGUESA.

21-ELA FICOU MEIA CANSADA.

22-FIZ UMA FESTA BENEFICIENTE.

23-ELA EXTENDEU OS CUMPRIMENTOS A TODOS OS PRESENTES.

24-EU EXPLODO DE RAIVA.

25-A POLÍCIA INTERVIU NA BRIGA.

26-AQUELAS CASAS GERMINADAS ATÉ QUE FICARAM BONITAS.

27-VOSSA SENHORIA PRECISAIS ESTUDAR MAIS.

28PAREM DE ZUAR AÍ NO FUNDO DA SALA.

29-ESTE É UM DOS IMINENTES MINISTROS DO SUPREMO.

30-ELA NÃO PREVEU TODOS OS PROBLEMAS.

31-O CARRO DELE DEU PERCA TOTAL.

32-FAZEM DOIS DIAS QUE NÃO NOS VEMOS.

33-EU NÃO SEI AONDE ELE MORA.


 

 

 

 

                                               O CERTO

 

 


1- ELAS SÃO PESSOAS DE QUEM DISCORDO.

2- VAMOS NOS VER AMANHÃ.

3- DEIXA-ME ESTUDAR.

4- NÓS VAMOS À ESCOLA TODOS OS DIAS.

5- OS JOGADORES SUBESTIMARAM A CAPACIDADE DOS RIVAIS.

6- SE O JUIZ PRESSUPUSESSE MINHA INOCÊNCIA, TUDO FICARIA MAIS FÁCIL.

7- O PROBLEMA SOMOS NÓS.

8- ISTO É PARA EU FAZER.

9- ELE SEMPRE FEZ O QUE QUIS.

10- MUITOS ELEITORES SE ABSTIVERAM DE VOTAR.

11- POLÍCIA PROCURA, PELA INTERNET, PADRE SEQUESTRADO.

12- A VIÚVA ESTÁ AÍ FORA.

13- EU A VI NA FESTA.

14- NÃO O CONHEÇO.

15- A PARTIR DE MAIO, VOLTA A FAZER FRIO.

16- MINHA MOTO É IGUAL ÀQUELA QUE VOCÊ COMPROU.

17-ELES DERAM A VITÓRIA DE BANDEJA AOS ADVERSÁRIOS.

18 TUDO NA LOJA ERA VENDIDO A PRAZO.

19- A QUESTÃO NÃO TEM NADA A VER COM VOCÊ.

20- ELAS ESTUDAM E GOSTAM DE LÍNGUA PORTUGUESA.

21- ELA FICOU MEIO CANSADA.

22- FIZ UMA FESTA BENEFICENTE.

23- ELA ESTENDEU OS CUMPRIMENTOS A TODOS OS PRESENTES.

24- EU ESTOURO DE RAIVA.

25-A POLÍCIA INTERVEIO NA BRIGA.

26-AQUELAS CASAS GEMINDAS ATÉ QUE FICARAM BONITAS.

27- VOSSA SENHORIA PRECISA ESTUDAR MAIS.

28- PAREM DE ZOAR AÍ NO FUNDO DA SALA.

29- ESTE É UM DOS EMINENTES MINISTROS DO SUPREMO.

30- ELE NÃO PREVIU TODOS OS PROBLEMAS.

31-O CARRO DELE DEU PERDA TOTAL

32- FAZ DOIS DIAS QUE NÃO NOS VEMOS.

33-EU NÃO SEI ONDE ELE MORA.


 

 


Dispenso-me de explicar as correções feitas, uma vez que ao fazer as comparações entre o errado e o certo, vocês mesmos perceberão as razões. Saber gramática não significa saber propriamente as regras, mas, sim, saber usar as unidades da língua no jogo da comunicação.A gramática continua sendo indispensável para a construção dos nossos textos.Ela não quer ser rainha, mas serva do texto, auxiliar de número um das nossas manifestações linguísticas.Em defesa da gramática, devo dizer que ela não tem culpa pelo mau uso que fazem dela .Luis Fernando Veríssimo, em um texto instigante intitulado: O gigolô das palavras, escreveu no final que a gramática precisa apanhar todos os dias para saber o seu lugar.Permito-me discordar do grande cronista e dizer que quem precisa apanhar, se for o caso, é quem não sabe que a gramática é humilde e pretende apenas ajudar quem deseja falar e escrever de acordo com as suas necessidades de convivência social.A gramática quer ser amada e respeitada e não temida e maltratada.Até a próxima, leitora e leitor amigos.

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Menas: o certo do errado, o errado do certo

Publicado em 17/05/2010 08:04

“MENAS: O CERTO DO ERRADO, O ERRADO DO CERTO.”

 

Bons-dias!

 


ELAS SÃO PESSOAS COM QUEM DISCORDO.

VAMOS SE VER AMANHÃ.

DEIXA EU ESTUDAR.

A GENTE VAMOS À ESCOLA TODOS OS DIAS.

OS JOGADORES SUBSTIMARAM A CAPACIDADE DOS RIVAIS.

SE O JUIZ PRESSUPOSSE MINHA INOCÊNCIA, TUDO FICARIA MAIS FÁCIL.

O PROBLEMA É NÓS.

ISTO É PARA MIM FAZER.

ELE SEMPRE FEZ O QUE QUIZ.

MUITOS ELEITORES SE ABSTERAM DE VOTAR NAS ELEIÇÕES DE ONTEM.

POLÍCIA PROCURA PADRE SEQUESTRADO PELA INTERNET.

A VIÚVA DO FALECIDO ESTÁ AÍ FORA.

EU VI ELA NA FESTA.

NÃO LHE CONHEÇO.

À PARTIR DE MAIO, VOLTA A FAZER FRIO.

MINHA MOTO É IGUAL AQUELA QUE VOCÊ COMPROU.

ELES DERAM A VITÓRIA DE BANDEIJA AOS ADVERSÁRIOS.

TUDO NA LOJA ERA VENDIDO À PRAZO.

A QUESTÃO NÃO TEM NADA HAVER COM VOCÊ.

ELAS GOSTAM E ESTUDAM LÍNGUA PORTUGUESA.

ELA FICOU MEIA CANSADA.

FIZ UMA FESTA BENEFICIENTE.

ELA EXTENDEU OS CUMPRIMENTOS A TODOS OS PRESENTES.

EU EXPLODO DE RAIVA.

A POLÍCIA INTERVIU NA BRIGA.

AQUELAS CASAS GERMINADAS ATÉ QUE FICARAM BONITAS.

VOSSA SENHORIA PRECISAIS ESTUDAR MAIS.

PAREM DE ZUAR AÍ NO FUNDO DA SALA.

ESTE É UM DOS IMINENTES MINISTROS DO SUPREMO.

ELA NÃO PREVEU TODOS OS PROBLEMAS.

O CARRO DELE DEU PERCA TOTAL.

FAZEM DOIS DIAS QUE NÃO NOS VEMOS.

EU NÃO SEI AONDE ELE MORA.

 


 

Certamente, você, leitor, assustou-se com título do texto e com as frases acima.É normal o seu estranhamento, ao ver tanto destaque para frases com inadequações aberrantes, de ordem gramatical.Trouxe-as de presente neste texto, como lembrança da visita que fiz ao Museu da Língua Portuguesa, na Praça da Luz, em São Paulo.Participei do 4º Congresso de Lusofonia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) e fui conhecer a exposição intitulada:Menas: o certo do errado, o errado do certo.Logo no 1º pavimento do imponente prédio, de tantas histórias paulistanas, o visitante depara-se com um belo mural colorido com as cem frases, contendo erros gramaticais comuns do cotidiano brasileiro.A provocante exposição é mais uma homenagem à riqueza da nossa língua do que uma crítica à falta de domínio gramatical que o usuário mostra quando fala ou escreve.Digo sempre que ter domínio da língua é ser capaz de adequar seu discurso, sua fala às diferentes situações sociais.Ser uma espécie de poliglota na própria língua significa ter habilidade para entender as manifestações orais e escritas na norma considerada padrão e na norma menos prestigiada, que é a norma popular.

Existe uma teoria chamada Sociolinguística que trata da relação entre a língua que o cidadão fala e a classe social a que ele pertence.Para os sociolinguistas, não existe superioridade de uma norma em relação à outra e também não há deficiência no linguajar das pessoas não cultas, mas diferença no uso da língua.Essa teoria comprova ainda que a língua é a soma de todas as variações na fala e na escrita e que, portanto, não há o erro, mas a inadequação linguística.Assim, a exposição intitulada MENAS filia-se à teria Sociolinguística e tem como objetivo levar o visitante a refletir sobre as diferentes formas de expressão da língua, sobre a variação lingüística e a conveniência de o cidadão aprender a dominar a língua em suas diferentes normas.Defendo a posição de que a escola tem por obrigação ensinar bem a norma culta da língua a todos os seus alunos de todos os níveis de ensino como acréscimo à norma que eles já dominam no seu ambiente familiar e social, mas não como substituição ao padrão que eles adquiriram no seu meio.É essa uma estratégia acertada, conforme a minha prática de ensino tem comprovado.Tomar como ponto de partida o linguajar que a criança traz quando ingressa na escola e, com base nesse padrão, ensinar, e bem, a norma considerada mais nobre da língua.

Coloquei em destaque algumas frases da Exposição do Museu da Língua Portuguesa, para você, caro leitor, observar os erros, discutir com as pessoas a sua volta e exercitar-se com a correção delas.Meu convite é para que você volte a este mesmo espaço de O Jornal na próxima semana, para ver que eu apresentarei as mesmas frases devidamente corrigidas e comentadas. Será um prazer ter você de volta como participante do meu texto.

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Fugindo dos clichês

Publicado em 03/05/2010 15:19

Hoje estou a mil e tenho de fazer um texto quase a toque de caixa, a pedido da amiga Cristina,mas não quero que ele saia a duras penas.Quero agregar valores à minha coluna, aparando as arestas, para atingir em cheio meu público cativo com uma agenda positiva sobre o que seja um bom texto.Agora, sinto-me com a corda toda e sei que as palavras cairão como uma luva na construção das minhas frases, para que o meu dizer não deixe a desejar e eu mantenha o mesmo rigor dos meus escritos próximos passados e possamos eu e você, caro leitor, exultar de alegria com o produto final .Sei que, ao ler este texto até aqui, você ostenta um sorriso nos lábios, por sentir que há uma luz no fim do túnel e que chegaremos a um denominador comum, acertando os ponteiros dos elos de ligação das discórdias que levam a sociedade de todos os países do mundo ao fundo do poço, por falta de vontade política de seus governantes maiores.

Meu leitor, você deve estar rindo e estranhando a construção deste texto, não é verdade?
Quanta inutilidade escrevi, com uma sintaxe correta, mas com um vazio de conteúdo dos mais inimagináveis. Há quem escreva  e fale assim, sem perceber que está usando apenas clichês ou lugares-comuns.As expressões que eu utilizei foram surgindo abruptamente, em uma espécie de exercício de clichê-puxa-clichê e acabei gostando e iria até o final do texto, não fosse a necessidade de explicar o que vem a ser clichê.

A quase totalidade das expressões que usei no trecho acima são apoios falsos que dão um ar de nobreza ao texto, mas disfarçam uma terrível falta de imaginação e de conteúdo.Não se decepcione, se você não tiver percebido o que estou apontando: é que fazer o que fiz é tão comum que cria a impressão de que escrever e falar bem é se expressar dessa forma.Essas expressões constituem o que podemos chamar de clichês.Essa palavra vem do francês, cliché, que significa chapa metálica na qual se grava, em alto relevo,uma imagem a ser impressa.Corresponde ao que chamamos  de matriz.No campo da estilística da língua, significa chavão, frase-feita ou até nariz-de- cera.São expressões que surgem com certo brilho, mas que pelo excesso de uso ou mesmo pela inadequação vão perdendo a razão de ser e só são usadas pela lei do menor esforço de pensar e de criar.Nas linhas iniciais do meu texto, empreguei os seguintes clichês, para os quais faço também comentários e explicações:

estou a mil:  empenhado, dedicado;

a toque de caixa: com urgência;

a duras penas: com dificuldade;

agregar valores:somar benefícios, acrescentar coisas boas.Esse, então, é um modismo cansativo e vazio;

à minha coluna: vertebral ou jornalística?;

aparando as arestas: tirando as diferenças, diminuindo os prejuízos;

atingir em cheio: é difícil atingir em vazio, não?

público cativo:melhor seria: cativado; cativo seria preso, sem liberdade.

agenda positiva:planejamento de coisas positivas;não se faz agenda negativa.

deixe a desejar: que não satisfaça;

com a corda toda: entusiasmado,solto;

cairão como uma luva:justas como luvas bem postas;

mantenha o mesmo: manter tem de ser o mesmo, do contrário não é manter.Esse é um pleonasmo quase imperceptível.

próximos passados: por que próximos?;

exultar de alegria:não é possível exultar de tristeza, ou é?;

produto final:não há como ser produto, sem ser final;

sorriso nos lábios: fica difícil sorriso nas orelhas, por exemplo;

luz no fim do túnel: esse é o campeão dos clichês.Não se escapa dele: haja luz e túnel;

denominador comum: é o império da fração, todos entrando em acordo;

acertando os ponteiros: corrigindo divergências.Haja relojoeiros!

elos de ligação: como não ser de ligação, se são elos?

Todos os países do mundo: têm de ser do mundo, já que não existem países em outros mundos, ou existem?

Chegar ao fundo do poço: outro campeão de uso.Houvesse tantos poços, não ficaríamos sem água, não é?

Vontade política: seria difícil imaginar vontade econômica, policial, filosófica;não há motivo para ajuntar vontade a política;não se faz política sem vontade.Pelo menos, não era de se esperar que se fizesse, mas alguns fazem: eis o problema. E o último clichê:governantes maiores: governantes não aceitariam ser considerados menores, todos se consideram maiores e se orgulham de assim serem considerados, embora quase todos digam que fazem muito sacrifício, para exercer o mandato.

Sem clichês ou chavões, dou o meu texto por findo e desejo aos amigos leitores muita paz, humildade e bom humor.

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Sobre verbos e Vinícius de Moraes

Publicado em 20/04/2010 10:34

Conjugar verbos de forma correta e fazer a combinação deles nas frases são uma amostra de bom domínio da língua. Existem casos curiosos de coincidências nas conjugações verbais dignos de serem analisados com atenção.Suponhamos, leitor, que você estivesse na condição de candidato em um concurso público e se deparasse com a seguinte questão: Passe a para a 2ª pessoa do singular, fazendo as transformações necessárias, a seguinte frase: “Para você vir até a minha casa,é necessário virar à direita ao ver a torre da igreja matriz.” Vejamos o primeiro verbo: Para você vir. Está na forma verbal chamada de infinitivo pessoal, precedida da preposição para. A conjugação inteira com a preposição seria assim: para eu vir, para tu vires, para ela/ele vir, para nós virmos, para vós virdes, para elas/eles virem. Dessa forma a primeira mudança seria de: para você vir/ para tu vires.

A segunda oração a ser mudada seria: virar à direita. Na análise sintática, essa oração é classificada como: subordinada substantiva subjetiva reduzida de infinitivo. Se ela aparecesse como desenvolvida, sua forma seria: que você vire à direita. Veja a presença da conjunção integrante que , completando a expressão é necessário, que é a oração principal. A classificação de Principal não se explica pelo possível fato de ela ser a mais importante para o sentido do texto, mas, sim, porque ela não exerce nenhuma função sintática em outra oração e tem um ou mais de seus termos em forma de oração ou orações subordinadas. Ela é a principal, porque dá origem a outras orações.A mudança para a segunda pessoa do verbo dar-se-ia da seguinte forma: o verbo é virar e está também no infinitivo pessoal, formando oração reduzida. Na mudança da oração reduzida para oração desenvolvida, o verbo virar terá de aparecer no presente do subjuntivo. A conjugação nesse tempo é: que eu vire, que tu vires, que ele vire, que nós viremos, que vós vireis, que eles virem. Desse modo, a mudança de: é necessário virar à direita seria para: é necessário que tu vires à direita.

Até aqui as mudanças deram-se assim: Para tu vires até a minha casa, é necessário que tu vires à direita...

A última oração: ao ver a igreja matriz, tem o verbo VER no futuro do subjuntivo, o qual é conjugado com a conjunção temporal, quando. Recorde a conjugação completa nesse tempo: quando eu vir, quando tu vires, quando ele vir, quando nós virmos, quando vós virdes, quando eles virem. Aposto que você, leitor, já viu a coincidência. A mudança da oração da questão do concurso aconteceria dessa maneira: de ao ver a torre da igreja matriz para: quando vires a torre da igreja matriz. Novamente a forma, vires. Teríamos, então, três vezes a forma, vires, de três verbos diferentes: vir, virar e ver. Para tu vires, que tu vires, quando tu vires. A frase já reescrita seria esta: Para tu vires até a minha casa, é necessário que vires à direita, quando vires a torre da igreja matriz. Um exercício como esse nos mostra a beleza que é a língua portuguesa e comprova a necessidade de todos a dominarmos com segurança. “Tu poderás dizer-me, leitor, que não usas a forma pronominal tu.Mesmo assim, dir-te-ei que é útil estares preparado como se tivesses de usá-la um dia, porque muitos brasileiros dela se valem na escrita e na fala, na literatura e na música. Concordas comigo?”

                                             

                                              SOBRE VINÌCIUS

O que dizer de um poeta e de uma figura como Vinícius de Moraes? Eu, particularmente, sinto sua ausência pelo modo como ele encarou a vida, sempre de alto astral, sempre tomado de bom humor, disposto a fazer boa poesia e músicas inesquecíveis. Amou a vida, amou as mulheres, amou os amigos, amou a arte e amou o Brasil. Um dos poemas mais belos e sugestivos do famoso poetinha e compositor, eu deixo aqui de presente para vocês, minha leitora e meu leitor:

“Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado;

Minha irmã, conta-me histórias da infância em que eu tenha sido herói sem mácula;

Meu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a bilirrubina.

Maria, prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco quilos;

Chamem-me a massagista, a florista, o amigo fiel para as confidências.

E comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas

Alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.”

Era assim Vinícius, sempre prestes a se divertir e a celebrar a vida e a arte. Ele faz, realmente, muita falta ao cenário artístico e à sociedade brasileira.

Até a próxima, amigos leitores!

 

 

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Rindo meu riso.

Publicado em 22/03/2010 10:45

Uma figura de linguagem muito usada e interessante é o pleonasmo. Releia o título que dei a este meu texto. Foi de propósito.Quando é bem empregado, o pleonasmo  tem uma força expressiva acentuada, na construção da frase.É o caso do título da novela mais vista atualmente, não que seja a melhor: Viver a vida, de Manoel Carlos. Já o chamado pleonasmo vicioso é aquele que deve ser evitado, porque é mesmo desnecessário e até se transforma em piada. Leia uma delas: quando perguntado o que havia acontecido para estar ele com o rosto inchado e os olhos avermelhados, o conhecido ex-presidente de um clube de futebol, choramingou:- ­ Estou com terçol no olho.O jornalista riu e corrigiu o folclórico esportista: - Terçol no olho é pleonasmo, presidente.Mais tarde, um torcedor fez-lhe a mesma pergunta.E a resposta foi: -Uns falam que é terçol, outros que é pleonasmo.Já nem sei mais.

Também são motivos de riso expressões como estas: subir pra cima, entrar para dentro, sair para fora, comer com a boca. Há outros pleonasmos que são ditos ou escritos, sem que as pessoas percebam a repetição desnecessária. Outro dia, em programa de televisão um jornalista, muito cheio de pose, falou:­- É a conclusão final do que foi dito aqui.Se é conclusão, já final, não é mesmo? Também se ouvem muitos pleonasmos como os seguintes: encarar de frente; há muito tempo atrás; protagonista principal; meu filho homem; conviver junto; criar novos; surpresa inesperada; repetir de novo.

É considerada pleonasmo artístico a expressão redundante, mas que tenha finalidade de realçar o elemento a que se faz referência. No Canto V, XVIII, de Os Lusíadas, lemos estes versos:

“Vi claramente visto o lume vivo,

Que a marítima gente tem por santo. ”Essa estrofe refere-se ao fogo de Santelmo( fogo vivo), que à noite os navegantes da esquadra de Vasco da Gama avistavam à distância, à beira-mar. Veja como ficou elegante a redundância: Vi claramente visto, para enfatizar a ideia de que ele viu com certeza, com clareza, sem que pudesse despertar a descrença de outros.

Fernando Pessoa, no belo poema, Mar português, que está na segunda parte da obra, Mensagem, inicia o primeiro verso com um belo pleonasmo:

 

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

 

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

O pleonasmo, mar salgado, serve para enfatizar que o sal do mar português resultou do sacrifício e choro das mães, esposas e filhos dos marinheiros que partiram para a conquista do mar. Não é apenas o sal natural do mar. O mar é salgado pelas lágrimas das mães, esposas e filhos dos portugueses. Também não posso deixar de mencionar, deste poema, dois versos da segunda estrofe, tão citados ainda hoje, quase sempre de forma errada e para os mais diferentes pretextos. Tudo vale a pena/se a alma não é pequena.

Segunda-feira, à noite, ouvi a Bruna Lombardi em um programa de televisão dizendo: Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena. Não se podem alterar assim tão belos versos. Não é quando, é SE a alma não é pequena.Trata-se da conjunção condicional, Se e não da temporal, Quando. A troca traz mudança de significado, sim. Se a alma tem grandeza, todo sacrifício vale a pena.

Pleonasmos bonitos destacam-se também no famoso e sempre citado Soneto de Fidelidade, de Vinícius de Moraes: “E rir meu riso, e derramar meu pranto, ao seu pesar ou seu contentamento.” Você poderá dizer, leitor: mas rir tem de ser o meu riso e derramar tem de ser o meu pranto, não o do outro, não é? Eu lhe direi o seguinte: Vinícius quis no soneto realçar o riso ou o pranto do enamorado ao pesar ou ao contentamento de quem ama. 

A respeito desse soneto, é bom que se tome cuidado ao citá-lo. Não é bem a fidelidade eterna que se jura ao casar, que é citada no poema. O eu - lírico exalta a fidelidade que se deve a cada amor que se tem, não a um único amor e por toda a vida. Vinícius não foi exatamente o modelo de fidelidade amorosa. Uniu-se a pelo menos nove mulheres. Foi fiel a cada uma, provavelmente, mas só enquanto durou  o amor.Exatamente como no soneto: Enquanto dure.

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O PARTICÍPIO DUPLO: ACEITADO/ACEITO

Publicado em 10/03/2010 10:30

Existem em português alguns verbos chamados de abundantes, exatamente porque admitem mais de uma forma. Algumas não mais se usam, com é o caso de: ele construi, em vez de constrói; ele entupe, em vez de ele entope.Outras deixam o usuário, às vezes em dúvida: ele tinha aceitado ou ele tinha aceito?; ele tinha ganho ou tinha ganhado?Esses são os problemas trazidos pela abundância de formas do particípio de alguns verbos. Vou citar alguns para você

Particípio em -ado ou -ido

Particípio irregular

Tinha ou havia aceitado

Foi ou está aceito, aceite

Tinha ou havia acendido

Foi ou está aceso

Havia ou tinha anexado

Está ou foi anexo

Tinha ou havia benzido

Está ou foi bento

Tinha distinguido

Está ou é distinto

Tinha ou havia elegido

Foi ou está eleito

Havia ou tinha fritado

Está ou foi frito

Tinha ou havia ganhado

Está ou foi ganho

Havia ou tinha gastado

Está ou foi gasto

Havia ou tinha imprimido

Está ou foi impresso

Havia ou tinha incluído

Está ou foi incluso

Havia ou tinha matado

Está ou foi morto

Havia ou tinha pagado

Está ou foi pago

Havia  ou tinha pegado

Está ou foi pego

Tinha ou havia suprimido

Foi ou está supresso

Havia surpreendido

Está ou foi surpreso

Tinha ou havia tingido

Está ou foi tinto

 

Fiz questão de usar as formas completas das locuções verbais do particípio, com os verbos ter e haver e ser e estar, para você, leitor, perceber que a regra de uso, de acordo com a gramática normativa é a seguinte: as formas –ado e – ido do particípio conjugam-se com os verbos ter e haver; as formas irregulares, isto é, as que não terminam em -ado ou  -ido, conjugam-se com os verbos ser ou estar. Você poderá perguntar:— Isso vale para todos os verbos? — Boa pergunta, respondo-lhe. O que se observa é que, na fala, é comum observarmos uma hesitação no uso das formas dos particípios abundantes.Vejamos alguns exemplos: Ele havia pago ou pagado?Ele tinha ganho ou ganhado? Eu tinha gasto ou gastado todo o salário? Nesses casos, temos constatado que as formas irregulares, ganho,gasto, pago têm sido mais usadas, seja com os verbos haver e ter, seja com ser e estar.A gramática não tem sido levada em consideração, embora a  norma culta ainda recomende que se siga a regra. No caso de Chego e chegado, não pode haver dúvida: não há como aceitar a forma chego, em frases como: Eu havia chego atrasado.Ou então: Vou dar um chego à festa. Além de contrariar a norma culta, convenhamos que é muito deselegante dizer: Tinha chego.

 

                        A EXPRESSÃO DE REALCE “É QUE”

Veja que quadrinha bonita:

“As rosas é que são belas,

Os espinhos é que picam,

Mas são as rosas que morrem,

São os espinhos que ficam.”

 

Nos dois primeiros versos, a expressão é que apareceu no singular; nos dois últimos, apareceu a forma: são...que:São as rosas que.Essa é uma particularidade do português: a expressão é que, que serve para dar realce ao termo que a antecede, fica invariável. Exemplo:Nós é que fomos responsáveis pelo sucesso da festa.Se separarmos o é do pronome que, temos de fazer a concordância, a não ser quando aparece um adjunto adverbial entre os dois, como em frases assim: É nesses casos que se deve ter mais cuidado. É nesses autores que eu me apoiei. Veja que, mesmo separados um do outro, a expressão é que permaneceu invariável. Fica errado, e é comum, ouvirmos, frases como estas: São nesses momentos que nós conhecemos os amigos.São nessas obras que me baseei para dizer isso.O certo é: É nesses momentos que conhecemos os verdadeiros amigos. É nessas obras que eu me baseei para dizer isso. Falar e escrever de acordo com a gramática da norma culta é questão de leitura e observação do funcionamento da língua.A grande riqueza que você pode adquirir em relação à língua é dominá-la em todas as suas possibilidades, para ser capaz de manter uma boa prosa com falantes de todos os níveis, do menos instruído ao mais culto.Sobre a boa prosa literária, o filósofoWalter Benjamim é que deixou um belo recado: “A boa prosa tem três estágios: o musical, em que é composta;o arquitetônico, em que é construída;e o têxtil, em que é tramada.”

Para você que lê o que escrevo, um abraço. Até a próxima!.

 

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O Carnaval e a Etimologia

Publicado em 28/02/2010 07:07

Acabamos de ver e vivenciar a festa do Carnaval. Foi um espetáculo grandioso a festa momesca aqui na nossa Batatais. Deu-me vontade até de sugerir , neste texto, que uma de nossas Escolas de Samba tenha como enredo, em 2011, a Língua Portuguesa. Seria contada toda a história da língua que falamos desde o surgimento do latim até os dias atuais, com a chegada do novo Acordo Ortográfico. Fico sonhando em ver, na nossa passarela do samba, carros alegóricos com homenagens a Camões e Os Lusíadas, Machado de Assis e seus romances imortais, Carlos Drummond de Andrade e a sua poesia profunda e bela.

Também poderá ser um belo enredo a história do próprio Carnaval, desde a origem até o aparecimento das Escolas de Samba. Seria o Carnaval falando de si mesmo,ou seja, um metacarnaval, assim como temos a metalinguagem, a linguagem explicando-se a si mesma. Faço essas sugestões, porque admiro a criatividade do pessoal que comanda as grandes Escolas de Samba batataenses.

Uma das áreas de estudo mais produtivas a respeito de uma língua é a etimologia, isto é, o estudo da origem e da evolução das palavras.

De onde teria surgido a palavra Carnaval? Não há consenso entre os pesquisadores a respeito da real origem dessa palavra tão benquista por nós. Sou de opinião que a origem esteja na expressão italiana: carnevale, com o significado de :adeus carne, seja a carne como alimento, seja o prazer do amor carnal. O dicionário etimológico registra o seguinte:

Carnaval: período anual das festas profanas; os três dias imediatamente anteriores à quarta-feira de cinzas, dedicados a folias e folguedos.

Foi no século XI que a Igreja Católica implantou a Semana Santa, antecedida por um período de 40 dias de jejum e abstinência de carne.Os três dias imediatamente anteriores à quarta-feira de Cinzas passaram a ser dedicados ao que se chamou de carnevale, no italiano, depois carneval no francês, até 1652 e depois Carnaval. O carnaval tal como o conhecemos surgiu na França.

Há historiadores que defendem a ideia de que a palavra teria surgido da expressão currus navalis,ou seja, carro naval, com base nos cortejos marítimos ou carros alegóricos em forma de barcos que marcavam o início da estação da primavera, na Grécia e em Roma. Também parece ser uma boa explicação.

Há um pensador russo, chamado Mikhail Bakhtin que dedicou grande parte de sua pesquisa ao estudo do grotesco e, por isso, estudou o Carnaval na Idade Média.Veja, leitor, o que ele escreveu sobre a essa festa:

 “Na verdade, o carnaval ignora toda distinção entre atores e espectadores. Também ignora o palco, mesmo na sua forma embrionária. Pois o palco teria destruído o carnaval ( e inversamente, a destruição do palco teria destruído o espetáculo teatral).

Os espectadores não assistem ao carnaval, eles o vivem, uma vez que o carnaval

pela sua própria natureza existe para todo o povo. Enquanto dura o carnaval, não se conhece outra vida senão o carnaval. Impossível escapar a ela, pois o carnaval não tem nenhuma fronteira espacial. Durante a realização da festa só se pode viver de acordo com as suas leis, isto é, as leis da liberdade. O carnaval possui um caráter universal é um estado peculiar do mundo: o seu renascimento e a sua renovação, dos quais participa cada indivíduo. Essa é a própria essência do carnaval, e os que participam dos festejos sentem-no profundamente.”

Para esse filósofo, o Carnaval vira pelo avesso a organização social: quem é rei vira súdito.Os súditos é que se tornam os reis do espetáculo. É interessante que também o filósofo Nietzsche tem uma visão parecida com a de Bakhtin, quando se trata do Carnaval como um rito coletivo, no qual o folião fantasiado e mascarado se transforma num “outro”, numa espécie de efeito purificador e regulador do equilíbrio social.Seriam três dias de trégua, de superação da hipocrisia social e do medo do próprio corpo.

Em breve, voltarei a este tema, para apresentar a etimologia das palavras que fazem parte do universo carnavalesco.Até a próxima!.

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PALESTRA NA UNIVERSIDADE DE FRANCA

Publicado em 12/02/2010 14:07

PALESTRA E LANÇAMENTO DE LIVRO

DO MESTRADO EM LINGUÍSTICA

 

            A professora Dra Tieko Yamaguchi Miyazaki, livre docente da UNESP de São José do Rio Preto, convidada pelo Mestrado em Linguística e pelo Curso de Letras da UNIFRAN, ministrará palestra no dia 26 de fevereiro, às 19h30, no Teatro da Odontologia da UNIFRAN.

            A palestra, que inaugura o ano letivo do Mestrado em Linguística da UNIFRAN, terá como tema “A semiótica francesa e o conceito de isotopia: lugares de manifestação e suas funções”. A professora discorrerá sobre o tema utilizando como ilustração textos de diferentes linguagens, tais como a publicitária e a literária.

            Neste mesmo dia, haverá o lançamento do 4º volume da Coleção Mestrado em Linguística, cujo título é Leitura: linguagens, Representações e Práxis. Os autores do livro são professores que compõem o quadro docente do mestrado e pesquisadores de outras instituições de ensino superior.

            Desse modo, o Programa de Mestrado em Linguística da UNIFRAN, aprovado pela CAPES e em funcionamento desde 2006, mantém a tradição de lançamento de um livro a cada ano. Participe do evento.

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Sobre o hífen

Publicado em 02/02/2010 07:58

Bons dias!

Ah! como estamos precisando de bons dias e de boas notícias! Tanta chuva, tantos desastres, tantas mortes! Os anos andam começando mal, faz tempo. Prevenir é um verbo que não tem funcionado, nem na fala nem na ação humana.A natureza vai seguindo o seu curso e reagindo a toda ação dos homens.Só nós é que não percebemos, ou fingimos não perceber.Somos seres incorrigíveis e teimosos.

Mesmo assim, não dá para desistir: a vida nos convida a ficar de bem com ela sempre. A língua também. Ficar bem com ambas é sinal de sabedoria e passaporte para o bem viver. É imprescindível dominar os prefixos e manter os pés fixos na vida.

Daí, que tenho de escrever sobre o novo Acordo Ortográfico, para ajudá- lo, meu leitor, a ficar de bem com a língua.Um dos problemas mais complexos da ortografia sempre foi o emprego do sinal de pontuação chamado hífen.O novo Acordo buscou simplificar seu uso, mas não será ainda a solução.Recordo com você as novas regras.

1- Veja : anti-ibérico e micro-ônibus.Note que os prefixos anti e micro terminam em vogal e as palavras que com que eles se ajuntam também começam pela mesma vogal.Então, usa-se o hífen(-): Assim, escreveremos: anti-inflamatório, anti-inflacionário, anti-imperialista, arqui-inimigo, arqui-irmandade, micro-ondas.

Caso queira lembrar-se da regra, veja como fica: quando o prefixo terminar com uma vogal e a segunda palavra começar com a mesma vogal, o hífen será utilizado.

2- Se a vogal for diferente, não se usa  o hífen. Veja algumas palavras assim:

autoafirmação, autoajuda, autoaprendizagem, autoescola, autoestrada, autoinstrução, coautor, contraexemplo, contraindicação, contraordem, extraescolar, extraoficial, infraestrutura, intraocular, intrauterino, neoexpressionista, neoimperialista, semiaberto, semiárido, semiautomático.

3- Outra regra bastante lógica é a que manda duplicar as letras e não usar o hífen em prefixos terminados em vogal seguida de palavras iniciadas com "r" ou "s". Vejamos alguns exemplos:

antessala, autorretrato, antissocial, antirrugas, arquirrival, autorregulamentação, autossugestão, contrassenso, contrarregra, contrassenha, extrarregimento, infrassom, ultrassonografia, semirreal, suprarrenal.

4: Tome cuidado no caso de prefixo antes de palavras iniciadas por H: Nesses casos, o sinal de hífen é obrigatório.

Veja os exemplos: anti-higiênico; anti-histórico; co-herdeiro; sobre-humano; super-homem; mini-hotel.Aqui há uma única exceção: subumano, como na expressão: condições subumanas; humano aqui perde a letra H, para formar o composto.

5: Com os prefixos pós , pré e pró, tão usados, veja como escrever: pós-graduação;pré-natal;pré-escolar;pró-africano.Assim se deve escrever, porque a palavra depois do prefixo tem autonomia separadamente.

6- Quando o prefixo terminar com consoante e se essa for a mesma da palavra seguinte, deveremos usar hífen.Veja exemplos: inter-regional,sub-bibliotecário.

7- Já no caso dos prefixos inter e super , veja como deveremos escrever palavras como: interestadual ,superinteressante.Isso, porque os prefixos: inter e super estão diante de palavras iniciadas por vogal.

8- Diante de palavras começadas por r, os prefixos hiper , inter e super devem ser separados por hífen, como nas palavras: hiper-requintadas,inter-regionais,super-resistentes.

9- Os prefixos mal e bem merecem cuidado:
No caso do prefixo mal, veja estas palavras: mal-educado, mal-educada,mal-amada,mal-afortunado, mal-estar, mal-humorado. Você concluirá que o hífen apareceu, porque as palavras começaram por vogal ou por h.
Sendo assim, em palavras como: malcriado, malditoso, malfalante, malmandado, malnascido, malsoante, malvisto, o hífen não será usado, já que depois do prefixo mal, vêm palavras iniciadas sem vogal ou h.
O prefixo bem também requer atenção. Veja com atenção: bem-aventurado, bem-estar, bem-humorado, bem-criado, bem-ditoso, bem-falante, bem-nascido, bem-mandado, bem-soante, bem-visto, bem-vindo. O prefixo bem separa-se da palavra seguinte, não importando se ela começa por vogal ou por qualquer consoante,mesmo que seja o h.
Note bem: As palavras,bendito, bendizer, benfazejo, benfeitor, benfeitoria, benquerença e benquisto, devem ser escritas sem hífen. Isso se deve ao fato de serem palavras já consagradas pelo uso, há muito tempo. Agora, apresento a você casos de hífen com os sufixos de origem tupi-guarani: açu, guaçu e mirim,não tão comuns entre nós: Amoré-guaçu, anajá-mirim, andá-açu, capim-açu, Ceará-Mirim. Explicação:Quando o primeiro elemento terminar por vogal acentuada graficamente, ou quando a pronúncia exigir a distinção gráfica dos dois elementos, o hífen deverá ser empregado.

Quis voltar ao Acordo Ortográfico, porque sei que há muitas dúvidas ainda sobre casos não tão bem resolvidos, como o do emprego do hífen. É assim mesmo: toda mudança requer adaptações. Aprender a escrita é, sobretudo, guardar a imagem da palavra.Não se decoram todas as regras, nem é preciso.Importante mesmo é saber ler, buscando a mensagem e aprendendo como se grafam e se gravam na memória as nossas companheiras de todas as horas: as palavras.“Ai, palavras, ai palavras/ Estranha potência a vossa.” Assim versejou Cecília Meireles. Até a próxima, leitor e leitora estimada.

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Cuidado com os jornais

Publicado em 20/01/2010 07:05

PARA LER BEM OS JORNAIS

Bons dias!

 

Ler um jornal é uma atividade agradável e necessária para a nossa vida em sociedade.Quem tem a informação, pode participar melhor do jogo social. Mas é preciso cuidado na leitura dos nossos jornais, principalmente daqueles chamados de “grande imprensa”, entre os quais se destacam: Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de São Paulo.Digo que é preciso ter cuidado na leitura deles, porque não se preocupam apenas em informar, mas também em manipular a opinião do leitor, de acordo com o receituário ideológico deles. Digo a você, leitor, que o recomendável é desconfiar do que se lê e do que se ouve.Guimarães Rosa diz no fabuloso Grande Sertão:Veredas: —Quem desconfia fica sábio. Não é apenas um dizer literário. Quem não duvida não aprende a viver, não fica de bem com a vida.

Interpretar é preciso. Descobrir a intenção do dizer de cada texto.Na leitura dos jornais, é preciso ficar atento desde as manchetes até o corpo da notícia.Tudo é intencional e exige capacidade de percepção do conteúdo ideológico do texto.Um exercício interessante é comparar as manchetes dos diferentes jornais sobre o mesmo acontecimento.Na diferença do uso da língua, já se percebe para onde o jornalista quer levar o leitor.Muitas vezes, quando estou lendo notícias e editoriais, fico a pensar se os redatores não percebem que podem estar sendo ridículos ao se manifestarem como se fossem donos da verdade.Não é assim que a imprensa cumpre o seu papel.A imprensa tem um papel inestimável de bem informar, fiscalizar, investigar o fato e ajudar o leitor a formar a sua própria opinião.Não é papel dela agir como um partido político.Infelizmente, é o que tem acontecido com a chamada grande imprensa, formada pelos jornais a que me referi acima, pelas revistas semanais de maior circulação e pelos telejornais das grandes redes de TV.

Para interpretar bem, é imprescindível um bom conhecimento da língua.Ler nas entrelinhas do texto, buscar no jogo das palavras a intenção de quem escreve é o segredo da boa leitura.Gosto muito de ler as cartas de leitores para os jornais e revistas.É pena que o espaço reservado para a manifestação dos leitores seja tão reduzido.

                                         BELO TEXTO JORNALÍSTICO

 

O que li de mais belo e aproveitável nos dias finais de 2009 foi o texto do Frei Betto para o jornal Folha de S.Paulo.No texto do notável frade dominicano, o conceito de felicidade é tratado de forma humanista e justa. Todos temos direito à felicidade. Quer dizer, a felicidade é um direito do homem.A poeta Adélia Prado já havia dito que todos “viemos para ser arrasadoramente felizes”, enfatizando o advérbio de modo: arrasadoramente.Nada mais verdadeiro e desejável..Agora, vem o Frei Betto e produz um discurso tão carregado de significação.A certa altura do texto, datado de 31 de dezembro último, ele diz:

“Melhor seria um mundo sem miséria, sem desigualdade, sem degradação ambiental, sem políticos corruptos!
Essa infeliz realidade que nos circunda, e da qual somos responsáveis, por opção ou por omissão, se constitui num gritante apelo para nos engajarmos na busca de "um outro mundo possível". Contudo, ainda não será o feliz ano novo.
O ano será novo se, em nós e à nossa volta, superarmos o velho. E velho é tudo aquilo que já não contribui para tornar a felicidade um direito de todos. À luz de um novo marco civilizatório, há que se superar o modelo produtivista-consumista e introduzir, no lugar do PIB, a FIB (Felicidade Interna Bruta), fundada numa economia solidária

Esse, sim, é um texto saído do fundo da alma, inspirado nas mais belas lições de humanismo e justiça social. É um chamado à ação individual e coletiva.As ações começam pelas palavras. Em vez de PIB, a FIB. A grande tarefa de cada um de nós é lutar pela felicidade de todos os seres criados por Deus. Albert Camus, o grande  autor do livro: A Peste, disse: - O bem público é feito com a felicidade de cada um. Esse deve ser o princípio norteador de qualquer atividade de administração pública.Todo agente político deveria ter como lema de seu trabalho social essa mensagem.

                              

                          VERGONHOSO TEXTO JORNALÍSTICO

 

Não posso deixar de mencionar a manifestação inqualificável do jornalista e apresentador de telejornal, Boris Casoy, sobre a mensagem dos dois garis na televisão, desejando Feliz ano Novo, para todo o povo brasileiro. Se você não viu, leitor, peça para alguém lhe contar ou tente ver na internet. O seu pedido de desculpas, classificando de infeliz a frase que ele produziu, sem saber que estava indo ao ar, em nada diminuiu a pequenez de seu texto, revelador de uma personalidade preconceituosa. O que ele disse “foi uma vergonha”.

Até a próxima.                                

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Um prova bem elaborada

Publicado em 13/12/2009 07:52

Prometi e volto ao assunto do ENEM ( Exame Nacional do Ensino Médio).Li e fiz todas as questões da prova de Linguagens e Códigos e suas Tecnologias, para conhecer e sentir as reais dificuldades dos alunos. Gostei das questões e digo que foram bem elaboradas. Não é fácil produzir uma boa questão de múltipla-escolha.Quando bem feita, ela testa tanto quanto uma questão operatória ou aberta. Ou até melhor. Só que, para chegar a um bom nível de seleção, não se pode ficar em um número reduzido de questões objetivas, em se tratando de um número tão grande de candidatos.O grande número de perguntas, embora cansativo, é mesmo uma necessidade para o propósito de um exame como esse.

Convido você, que lê agora este meu texto, a tentar resolver uma questão que fez parte da prova de domingo, 6 de dezembro, e a proposta de Redação. Veja a questão a seguir:

 

Cuitelinho

Cheguei na bera do porto

Onde as onda se espaia.

As garça dá meia volta,

Senta na bera da praia.

E o cuitelinho não gosta

Que o botão da rosa caia.

Quando eu vim da minha terra,

Despedi da parentaia.

Eu entrei em Mato Grosso,

Dei em terras paraguaia.

Lá tinha revolução,

Enfrentei fortes bataia.

A tua saudade corta

Como o aço de navaia.

O coração fica aflito,

Bate uma e outra faia.

E os oio se enche d’água

Que até a vista se atrapaia.

Folclore recolhido por Paulo Vanzolini e Antônio Xandó.

(BORTONI-RICARDO, S. M. Educação em língua materna. São Paulo: Parábola, 2004).

 

O contexto e o enunciado da questão foram estes:: “Transmitida por gerações, a canção Cuitelinho manifesta aspectos culturais de um povo, nos quais se inclui sua forma de falar, além de registrar um momento histórico. Depreende-se disso que a importância em preservar a produção cultural de uma nação consiste no fato de que produções como a canção Cuitelinho evidenciam a

a) recriação da realidade brasileira de forma ficcional.

b) criação neológica na língua portuguesa.

c) formação da identidade nacional por meio da tradição oral.

d) incorreção da língua portuguesa que é falada por pessoas do interior do Brasil.

e)padronização de palavras que variam regionalmente, mas possuem mesmo   significado.

Recordo com você, meu leitor, que essa é a letra da música gravada pela dupla, Pena Branca e Xavantinho.Caso estivesse na situação de candidatos, qual das alternativas você marcaria? Veja que ao apontar que essa composição faz parte do nosso folclore, o elaborador já forneceu uma boa pista para a resposta. Trata-se da tradição oral brasileira, que ajuda a preservar a nossa cultura. Isso confere identidade a uma nação. A alternativa que responde, de forma correta, ao que se pede só pode ser a da letra C.Não é uma questão de difícil acerto e ela mostra um caminho para o que a escola também deve propiciar aos alunos: respeito às tradições do país e ao linguajar do povo.

 

A prova de Redação.

Com base na leitura dos textos motivadores seguintes e nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo em norma culta escrita da língua portuguesa sobre o tema O indivíduo frente à ética nacional, apresentando proposta de ação social, que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione coerentemente argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

Millôr Fernandes

Disponível em http://www2.uol.com.br/millor. Acesso em: 14 jul.2009.

 

“Andamos demais acomodados, todo mundo reclamando em voz baixa como se fosse errado indignar-se.Sem ufanismo, porque dele estou cansada, sem dizer que este é um país rico, de gente boa e cordata, com natureza (a que sobrou) belíssima e generosa, sem fantasiar nem botar óculos cor-de-rosa, que o momento não permite, eu me pergunto o que anda acontecendo com a gente.

Tenho medo disso que nos tornamos ou em que estamos nos transformando, achando

bonita a ignorância eloquente, engraçado o cinismo bem-vestido, interessante o banditismo arrojado, normal o abismo em cuja beira nos equilibramos – não malabaristas, mas palhaços.”

LUFT, L. Ponto de vista. Veja. Ed. 1988, 27 dez. 2006 (adaptado).

 

“Qual é o efeito em nós do “eles são todos corruptos”?

“As denúncias que assolam nosso cotidiano podem dar lugar a uma vontade de transformar o mundo só se nossa indignação não afetar o mundo inteiro. “Eles são TODOS corruptos” é um pensamento que serve apenas para “confirmar” a “integridade” de quem se indigna.

O lugar-comum sobre a corrupção generalizada não é uma armadilha para os corruptos:eles continuam iguais e livres, enquanto, fechados em casa, festejamos nossa esplendorosa retidão.

O dito lugar-comum é uma armadilha que amarra e imobiliza os mesmos que denunciam a imperfeição do mundo inteiro.”

CALLIGARIS, C. A armadilha da corrupção. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br (adaptado).

O candidato teria de ler bem os fragmentos de textos de Lya Luft e de Contardo Caligaris e examinar, com atenção, o que Millôr Fernandes apresentou em texto verbal e não verbal. Chama a atenção, na frase de Millôr, a junção de Só Lidar. Ele quis criar também o efeito de sentido que seria provocado pela palavra : Solidário.Então teríamos: Solidário, com gente honesta, meu Deus,que solidão! Como se dissesse: são tão poucos os honestos! Veja que os textos de apoio conduzem o candidato a refletir sobre a falta de ética e à  acomodação diante da desonestidade tão generalizada nos dias de hoje.Ao dizer: eles são TODOS corruptos, eu acabo me acomodando, pensando que basta que eu seja honesto. Não adianta indignar-me, muito menos lutar por transformação, já que TODOS eles são corruptos mesmo! Não é e não pode ser esse o caminho.Temos todos de exigir, de cobrar ética em todas as atividades humanas, principalmente na política.É de fazer rir e chorar o dinheiro nas meias Democráticas arrudianas, não é?

O que a banca examinadora espera é que os alunos concluintes do ensino médio brasileiro tenham recebido uma formação integral do caráter , aliada a uma boa instrução, ou seja, uma boa educação, que lhes tenha possibilitado produzir um  texto dissertativo, marcado por um posicionamento pessoal claro a favor da ética e da indignação diante de tanto comportamento antiético na sociedade brasileira.

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O ENEM é um bom exame

Publicado em 13/12/2009 07:51

Hoje escrevi com o meu pensamento concentrado nos jovens que vão submeter-se ao novo ENEM de dezembro. Penso também nos pais desses alunos que sofrem tanto ou mais que os filhos em circunstâncias como essas. Eles também se sentem avaliados e julgados. As questões do ENEM são bem elaboradas e se concentram em temas que deveriam ser de domínio dos alunos que, nesta fase de suas vidas, já terão completado, pelo menos, doze anos de escolarização. É bastante tempo, não é mesmo? O princípio orientador deste exame interdisciplinar é que as questões avaliem a capacidade de leitura, compreensão de textos e de aplicação de conhecimentos.

Ontem, um pai de aluno, leitor dos meus textos semanais para o nosso O Jornal, perguntou-me o que significa a sigla ENEM. E eu lhe expliquei: Exame Nacional do Ensino Médio. Ele, bem humorado, comentou que a sigla daria uma piada. E acabou construindo uma piada linguística. Veja como surgem as piadas:

Uma jovem pergunta para um rapaz: — Você vai prestar o Enem amanhã? O jovem responde: — Não. Não aguento tanta prova. O moço, espirituoso, comenta: — Você não vai e nem eu.

Cá entre nós, com um pouco de boa vontade, dá para rir, não é? O gatilho do riso foi disparado pela junção de duas conjunções: E e NEM, tão frequente na fala das pessoas. Gostei da presença de espírito desse pai e concluí que, se o filho dele for para a prova com esse mesmo senso de humor, terá grande possibilidade de fazer uma bela prova. Está faltando humor no mundo. As cobranças são tantas que as pessoas andam rindo pouco.Saber rir das situações e, principalmente, de si próprio é uma garantia de bem viver. Os seres humanos somos muito engraçados , mas fomos educados para nos levar exageradamente a sério, sem perceber a hipocrisia, a falsidade, a vaidade à nossa volta. Acabei de usar, na frase anterior, uma figura de linguagem chamada de silepse de pessoa: os seres humanos somos.Bonita figura, não? Voltando ao Enem, o que posso dizer a quem vai prestá-lo é que o importante dessa prova é a boa leitura dos enunciados das questões e a capacidade de interpretação. Se o candidato compreender bem o texto, com certeza, acertará as respostas. A elaboração das questões exige dos examinadores um domínio dos princípios que regem a elaboração de um boa questão de escolha-múltipla.Por muitos anos, fiz parte da equipe de elaboradores das provas da VUNESP e sei como é o trabalho de um elaborador desse tipo de provas. Quem prestar o Enem, observará em todas as questões os seguintes princípios:

- As opções são construídas de modo a impedir que os alunos acertem a questão por exclusão. Se não for feita uma leitura atenta do enunciado da questão, dificilmente a resposta será correta.

- As alternativas que explicitam as respostas apresentam aproximadamente a mesma extensão na escrita. Não há perigo de haver uma resposta mais longa para levar o candidato a escolhê-la como a mais provável.

- O que já foi afirmado em uma resposta não aparece  em outra alternativa.

- As questões são elaboradas de maneira a propiciar um diálogo do aluno com o conhecimento e não são dúbias ou capciosas, ou seja, não há pegadinhas na prova.

O novo Enem terá 180 questões de múltipla - escolha, divididas em quatro áreas de conhecimento: linguagens, códigos e suas tecnologias (incluindo redação); ciências humanas e suas tecnologias; ciências da natureza e suas tecnologias e matemáticas e suas tecnologias. Cada grupo de testes será composto por 45 itens de múltipla escolha, aplicados em dois dias.

Na prova de Linguagens e Códigos também haverá avaliação do domínio de  linguagem não-verbal . Será avaliado o modo como os alunos interpretam e contextualizam artes, desenhos e símbolos. Algumas questões terão charges, cartuns e tirinhas. É também uma forma de a arte focalizar o cotidiano.

Na Redação, o foco será um tema social como: direitos humanos, velhice, infância, efeito estufa, violência urbana e familiar, aborto, cirurgias para embelezamento, etc.

O modelo de prova do Enem tem- se mostrado eficiente, para medir o nível de leitura e interpretação de textos dos candidatos e a capacidade de raciocinar bem. Os resultados têm mostrado a necessidade de um acesso maior à escolarização e aos bens culturais pelas classes sociais menos privilegiadas, ou seja, os pobres. Os alunos de escolas públicas têm menos condições de acesso à leitura de jornais, revistas e livros, a cinema e a teatro. Precisamos melhorar muito ainda a escola brasileira e prestigiar a figura do professor. Uma certeza você, leitor, pode ter: o professor é o menos culpado pelo que ainda não melhorou no ensino brasileiro.

 Diferentemente dos exames vestibulares, o Enem não avalia conhecimentos específicos de maneira aprofundada. Esses conhecimentos específicos são abordados de maneira interdisciplinar. Isso é que o torna mais atraente e adequado. Prometo acompanhar a prova e escrever alguns comentários na próxima semana, aqui neste mesmo espaço do jornal. Até lá.

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As piadas e o gatilho do riso

Publicado em 28/11/2009 07:07

Não sei contar, mas gosto muito de ouvir ou de ler uma boa piada. Mas onde está o segredo de uma piada? Por que ela faz rir? É sobre isso que eu quero escrever nesta crônica. Para rir de uma piada, até com mais gosto, é bom descobrir também o motivo do riso, ou seja, o trecho do texto que apresenta o que é chamado de “gatilho”. Quem criou essa expressão foi o linguista russo, Victor Raskin, em um livro clássico, não traduzido para o português, intitulado: Semantic mechanisms of humor.  Segundo ele, o gatilho é a parte do texto que engatilha e dispara o efeito de humor.Veja na piada abaixo como isso acontece.

No Paraíso, Eva disse a Adão: — Adão, você me ama? E ele prontamente responde: — E eu lá tenho escolha?

O gatilho do riso nessa piada é disparado pela palavra: escolha e pelo conhecimento prévio que se tem do fato bíblico de que o casal era o único na face da Terra.O conhecimento anterior e compartilhado entre os interlocutores é decisivo para o sucesso de uma piada.

Estudar piadas, além de ser uma fonte de maior conhecimento e domínio da língua é também uma forma de conhecer melhor a sociedade, os preconceitos, as representações que se fazem de pessoas, de classes, de crenças etc.Para os estudiosos da língua as piadas são um campo fértil para pesquisa sobre uso das palavras, sobre a construção e a interpretação de textos.

Na piada seguinte, o importante será o uso que se faz dos significados das palavras e da definição da própria linguagem. .

Uma vovó recomenda à netinha: — Benzinho, existem duas palavras que eu quero que você prometa nunca mais dizer. Uma é bacana e a outra é nojenta. Você promete?

— Claro, vovó. E quais são as palavras?

Enquanto a vovó faz referência a duas palavras de que não gosta, por considerá-las grosseiras e vulgares, a netinha joga com a abrangência do significado delas.

Agora, veja na piada seguinte, onde está o gatilho do riso:

Uma senhora diz para uma garota:

— Não deixe sua cadela entrar na minha casa de novo. Ela está cheia de pulgas. A garota diz para a cachorrinha:—Mel, não entre nessa casa de novo. Ela está cheia de pulgas.

O que faz rir nessa piada é a ambiguidade provocada pelo uso do pronome ela. Para a garotinha , ela refere-se à casa da mulher, não à sua cadelinha.Nós rimos, por causa da confusão com o uso do pronome e porque sabemos que  normalmente cachorros é que têm  pulgas.

Leia e perceba como o segredo da piada pode ser desvendado, com base no conhecimento gramatical.

Um dia, uma menina estava sentada observando sua mãe lavar os pratos na

cozinha. De repente, percebeu que sua mãe tinha vários cabelos brancos que

sobressaíam entre a sua cabeleira escura. Olhou para sua mãe e lhe perguntou:

- "Porque você tem tantos cabelos brancos, mamãe?"

A mãe respondeu:

- "Bom, cada vez que você faz algo de ruim e me faz chorar ou me faz triste, um

de meus cabelos fica branco."

A menina ficou pensativa, por alguns instantes, e depois perguntou:

- "Mamãe, porque TODOS os cabelos de minha avó estão brancos?"

O gatilho do riso foi disparado pelo emprego do pronome: todos, na última intervenção da garota, quando ela joga sobre a mãe a culpa pelo embranquecimento de todos os fios de cabelo da avó. Certamente ela quis dizer que a sua mãe era muito mais malcriada do que ela.

Às vezes, o gatilho do riso é disparado pela simples mudança de ênfase para um termo da frase que, de tão usual, não chama a atenção. Veja isso na piada a seguir:

— Então o senhor sofre de artrite?

— É claro! O que o senhor queria? Que eu desfrutasse de artrite?,

Que eu usufruísse artrite? Que eu me beneficiasse de artrite?

O que provoca o riso é o jogo que se faz com os verbos e não com a doença.Caso a pergunta  fosse baseada no verbo ter e não no verbo sofrer, a piada não existiria.Não haveria o gatilho do riso. Para o paciente, a pergunta foi infeliz, porque o fato mais lógico é sofrer por causa de uma doença. Ninguém desfruta ou se beneficia de uma doença.

O mesmo pode ser dito da piada sobre casamento por interesse financeiro, que eu escrevo a seguir:

— Desculpe, querida, mas eu tenho a impressão de que você quer se

casar comigo só porque eu herdei uma fortuna do meu tio.

— Imagina, meu bem! Eu me casaria com você, mesmo que tivesse

herdado a fortuna de outro parente qualquer!

O motivo do riso está na fonte da herança: a fortuna poderia ser de qualquer parente, que a querida interesseira a que se refere a piada se casaria.Perceba que o segredo da piada está no entrecruzamento de referências da fala.Se a fala do futuro marido parasse em fortuna, não haveria a piada.O jogo de palavras que faz rir é: fortuna do meu tio e fortuna de outro parente qualquer.

Um dos temas mais comuns em piadas é a figura da sogra.Vamos a uma delas:

A mulher comenta com o marido:

- Querido, hoje o relógio caiu da parede da sala e por pouco não bateu na cabeça da

mamãe...

- Maldito relógio! Sempre atrasado...

O gatilho do riso foi provocado pelo atraso do relógio. Ele atrasava para marcar horas e atrasou-se para cair sobre a cabeça da pouco amada sogra.

Por aqui, vou-me despedindo de você e encerrando esta crônica, não sem antes contar um fato real que é uma piada. O gerente do banco liga para o cliente:

— Sua conta está descoberta. Venha aqui agora mesmo, por favor.

Daí a pouco, o cliente chega com um edredon debaixo do braço e, sem nada dizer, entrega para o gerente.

Descobriu o gatilho do riso?

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Poesia de Drummond quando jovem

Publicado em 14/11/2009 15:59

 

POESIA DE DRUMMOND QUANDO JOVEM

Bons dias!

 

O título desta crônica é uma homenagem à primeira obra de James Joyce, o genial autor de Ulisses, que escreveu o romance: Retrato do artista quando jovem. Inspirado por esse título, quero escrever sobre os  versos de Carlos Drummond de Andrade, quando jovem. Por estes dias, estarão vindo a público, em belo livro, 25 poemas seus, entre os quais doze inéditos, reunidos sob o título de: Os 25 Poemas da Triste Alegria.

Todos eles foram produzidos no início da década de 1920, quando o poeta tinha ainda dezoito anos. Em 1918, Drummond estudava no Colégio Anchieta, dirigido por padres jesuítas, em Nova Friburgo, estado do Rio de Janeiro.De lá foi expulso em 1920, por “excessiva independência de espírito”.Sua família mudou-se, então, para Belo Horizonte, para que ele pudesse continuar seus estudos.Fez o curso de Farmácia, mas nunca exerceu a profissão. O conhecimento farmacêutico só lhe rendeu alguns poemas prodigiosos sobre remédios e seus nomes. Sobre esse fato, já escrevi uma crônica aqui  mesmo neste espaço, no dia 16 de maio do corrente ano. Na capital mineira, o aprendiz de poeta começou a versejar e a publicar em jornais seus primeiros poemas, alguns dos quais eu mostro agora a meu leitor.

É um jovem que começa a namorar, a participar de rodas de amigos e de saraus de poesia.A sua primeira namorada em Belo Horizonte foi Mariquinhas Vivacqua, em casa  de quem eram organizados encontros literários, com a participação de Pedro Nava, amigo inseparável do jovem Carlos Drummond de Andrade. Nos primeiros arroubos poéticos de Drummond, percebe-se a influência dos versos parnasianos, de Bilac  e simbolistas, de Cruz e Souza. Os poemas a serem publicados agora pelo professor Antonio Carlos Sechin são uma descoberta magnífica não só para os estudiosos de literatura e admiradores do autor de Alguma poesia, mas também  para os que, sem serem famosos nem terem pretensão à consagração literária, dedicam-se a fazer versos. Embora sejam versos juvenis, já prenunciam o grande poeta que surgiria com a poesia de No meio do caminho. Entretanto, é de se notar que o jovem poeta começa ainda a descobrir a arte de versejar, está preso a modelos do passado, usa um vocabulário poético semelhante ao de um poeta como Cruz e Souza, porém sem a destreza deste. Se não se conhecesse a autoria desses versos , jamais se poderia supor serem da lavra de Drummond.Vou tomar como exemplo do que venho dizendo alguns  versos que farão parte do livro a ser lançado.

 

1-CANÇÃO DO GREGO DESENCANTADO

Ó tocadoras de flauta, nos doces,

nos apagados festins de Alexandria...

Vós que tínheis o corpo branco como um lírio,

e vos perfumáveis de nardo, e sândalo e verbena!

Há muito que vos não ouço, há muito tempo que,

reclinado no meu leito de rosas,

aguardo o vosso regresso! (...)

Mais tarde, relendo esses versos dessa fase de encontro com a poesia, o autor, poeta- aprendiz ainda, comenta de forma bem humorada , mas rigorosa e acertada: "Se um inimigo apanhasse esses versos...".Ah! como esses versos cairiam bem num festim de plantas: lírio, nardo,sândalo, verbena e rosas. Haja flores e perfumes.São versos do mais legítimo derramamento simbolista.

 

2-UMA LÂMPADA BRILHA

(...) Aquela casa, como envelheceu!

(A casa onde morava Carolina.)

E a lâmpada olha tudo, indiferente.

Ah! o abandono dessa lâmpada!

O abandono desse olho imoto, amarelo,

brilhando sem desejo,

sozinho,

no alto do poste fino e lírico!

Ao comentar seus próprios versos, o poeta chama a atenção para a sua tendência em materializar, nos nomes próprios, a realidade: "Sempre gostei de botar nomes próprios, principalmente de mulher, em meus poemas. (...) Suponho que eles indiquem em mim uma tal ou qual preocupação de referir a minha poesia à vida real, representada menos nos fatos ocorrentes do que nesses nomes usuais que têm para mim um forte poder de materialização. Carolina deve ter surgido aqui com essa intenção. Ou como reminiscência de Machado de Assis...?"

Leiam comigo, leitora e leitor, os versos do poema abaixo, que só se diferencia de um poema simbolista pelos versos livres:

3- MATINAL

Seios aromados do meu amor,
na manhã cheirando a lírios!

Volúpia das flores, volúpia das almas!

Um vento leve nas folhas,
um céu de porcelana, muito fino,
e a manhã cheirando a lírios!

A vida é bela porque sois belos
e sorri ante a vossa beleza,
ó brancos e redondos
seios aromados do meu amor.

Em uma análise mais rigorosa, vê-se nesse poema,uma luta inglória com as palavras, em busca do dizer poético criativo, original e elegante.Percebe-se uma falta de vibração amorosa e sensual na atmosfera que se tenta criar, para falar do amor e da amada.O primeiro verso, por exemplo, é de uma artificialismo a toda prova: aromados e amor, em jogo de quase anagrama:aroma é quase a inversão de amor; manhã cheirando a lírios: nada original e bem exagerado o cheiro de lírios da manhã.Volúpia das flores, volúpia das almas: volúpia é uma palavra muito usada nos versos de Cruz e Souza, para sugerir sensação do prazer, em versos como: “Vozes veladas, veludosas vozes/Volúpia dos violões, vozes veladas/vagam nos vórtices velozes dos ventos/vivas,vãs,vulcanizadas.” É uma palavra poética, com uma carga semântica forte, mas desgastada pelo uso excessivo na poesia simbolista. Dificilmente, Drummond a empregará em versos de sua poesia, a partir de 1930.Vento leve nas folhas, céu de porcelana, muito fino: sem dúvida, são versos pobres na escolha lexical e sem nenhuma marca do tom a ser imprimido à sua poesia da fase modernista. Se Drummond perseverasse na poesia parnasiana ou simbolista, talvez não alcançasse o talento de Bilac e de Cruz e Souza, expoentes do fazer poético característico das escolas a que se filiaram.

Poderíamos prosseguir na análise rigorosa, verso a verso, de sua obra juvenil, sem que isso afetasse a grandeza de sua produção posterior. O encontro com esses versos iniciais de sua trajetória poética serve para realçar ainda mais a genialidade do conjunto de sua criação literária . Aguardo ansioso a publicação dos versos de Os 25 poemas da triste alegria, para aumentar ainda mais a minha admiração pelo poeta que me ensinou a sentir a poesia do perigoso jogo da vida.

Boas noites!

 

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Dez frases perigosas

Publicado em 04/11/2009 09:19

Hoje, acordei com vontade de escrever sobre alguns problemas da língua falada.Falar é bom e necessário, embora ouvir seja ,às vezes, mais interessante e até aconselhável. Há um livro gostoso de ser lido cujo título é: A arte de calar, da editora Martins Fontes, lançado em 2001.O autor foi um abade francês chamado Dinouart, Abbé Dinouart, que nesta obra valiosa, datada de 1771, fala do silêncio, dos tipos de silêncio e explica quando o silêncio é importante e significativo.Há mesmo hora de falar e hora de calar.O equilíbrio é que é essencial.Gosto de ouvir as pessoas falarem e de prestar atenção ao modo de expressão tão variado. O preconceito linguístico é o mais evidente dentre todos e atinge todas as classes sociais e as diferentes ideologias.Aliás, é o único preconceito que não consta da lista de proibições da Constituição Brasileira.Na nossa sociedade, desqualificam- se pessoas, por cometerem um deslize na escrita ou na fala.De minha parte, defendo a tolerância linguística e luto por um melhor ensino da língua portuguesa.Entretanto, não posso de deixar de lamentar a falta de zelo pela língua, em muitas situações de fala.De quando em vez, deparo-me com algumas frases ditas próximas de mim ou nos meios de comunicação, que fazem doer os ouvidos e até os dentes.Leitor, você também já deve ter ouvido frases como as que seguem:

1- Quero que ela seje feliz.

2- Se ela dispor de tempo, vai acertar todas as questões.

3- Fazem duas horas que estou aqui.

4- Ela  anda meia nervosa.

5- A entrada é gratuíta. ( Com acento tônico no i)

 6- Houveram muitos casos de corrupção.

7- O governo interviu no câmbio.

8- Eu não adapito com esse horário de verão.

9- Professor, eu quero falar consigo.

10-Ao meu ver, está tudo errado.

 

Cá, entre nós, frases como essas comprometem a imagem social das pessoas e até o sucesso profissional delas.Tenho certeza de que você mesmo fica com vontade de corrigir a pessoa que fala uma ou mais dessas “pérolas” de linguagem.Às vezes, dá vontade é de rir mesmo.Pois ria interiormente, que faz bem.Faço questão de reafirmar que não sou ranzinza quanto à variação linguística.Entendo as diferentes possibilidades de expressão linguística como uma riqueza da língua.Entretanto, é difícil aceitar que uma pessoa que tenha frequentado a escola, pelo menos, até o ensino fundamental, não tenha consciência do disparate  que está cometendo.Vamos juntos observar como as frases deveriam ter sido ditas e a possível explicação para essas frases tão diferentes do que é aconselhável pela gramática da norma considerada culta.

A diferença entre o linguista e o gramático está no fato de este preocupar-se mais com a prescrição dos modos de dizer do que com a descrição dos usos na fala e na escrita.O linguista preocupa-se em descrever como as pessoas falam e escrevem e busca as explicações para os chamados erros gramaticais. Sou gramático e linguista.Considero importante que as pessoas sejam, de verdade, donas da língua, dominem as diferentes variedades de expressão, sejam poliglotas na própria língua e tento encontrar as razões até para os deslizes gramaticais em frases como as que apontei acima. Privilegio muito a gramática nos meus estudos e no meu trabalho e digo que ela não tem culpa pelo mau uso que fazem dela.Todos os alunos deveriam ser presenteados com uma bela gramática.Já imaginou alguém levar como presente em uma festa de aniversário de uma pessoa da chamada elite social uma gramática ou um dicionário? Que utopia, professor! Então, vamos lá, leitor amigo: acompanhe as minhas observações sobre as dez frases.

1-Quero que ela seja feliz.Quando alguém diz seje, o fato é explicado pela analogia,comparação, que se faz com: deseje, ceie, passeie, planeje e outros verbos parecidos.

2-Se ela dispuser de tempo, vai acertar (ou, acertará) todas as questões. Ao dizer inadequadamente: se eu  dispor, propor, compor, etc., a pessoa que fala está-se lembrando de: se eu for.  

3-Faz duas horas que estou aqui.( O certo é no singular mesmo).Aqui, o falante considera estranho não usar o plural, quando o número de horas é plural.Estranho para ele é o singular.

4- Ela anda meio nervosa. Como existe: meia hora, meia banana, a pessoa diz: meia assustada, e acaba assustando o seu ouvinte, não é?

5- A entrada é gratuita hoje. ( Sem acentuar o i).É como se houvesse acento na letra u

6-Houve muitos casos de corrupção.Quem fala acha chocante o singular, e agradável e o plural.Lembre-se: poucas vezes você deverá usar: Houveram. Quando significar: ser bem sucedido, por exemplo.Aí você dirá: Eles se houveram bem no concurso.Assim, o uso é certo.

7-O governo interveio no câmbio.Assim como diz: feriu, partiu, a pessoa acha que dizer interviu é  correto, mas não é.

8-Eu não me adapto (pronuncia-se como se fosse acentuada a palavra: adápto).Da mesma forma que ouve:  compito, apito, o desprevenido falante diz: adapito.É de doer o ouvido e até o dente.

9-Professor, eu quero falar com o senhor (ou, com você).Não diga consigo nem contigo.   Consigo tem valor reflexivo: Dizer: ele pensou consigo mesmo, é correto. Consigo não pode substituir com você, com o senhor. Diga: quero falar com você, vou com o senhor. Assim também você deverá dizer: Isto é para o senhor (e não "para si").

10- A meu ver, está tudo errado. Não se usa artigo nessas expressões.O correto é: A meu ver, a seu ver, a nosso ver, a par.

Para encerrar, recordo com você a forma escrita correta das seguintes palavras que levam muitas pessoas a um certo desconforto, quando escrevem ou falam: paralisar,beneficente,chuchu,privilégio,vultosa,cinquenta,adivinhar,opinião, paralisar,exceção, invólucro, frustração, empecilho, ascensão, assunção, estorno.

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Aos que escrevem e aos que leem

Publicado em 27/10/2009 10:01

AOS QUE ESCREVEM E AOS QUE LEEM

Bons dias!

Nesta crônica, quero presentear meu leitor com frases de grandes escritores sobre o que significa escrever e as dificuldades que eles mesmos enfrentaram ao escrever suas obras.

Clarice Lispector escreveu o seguinte: “Não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Palavras muito puras, gotas de cristal. Sinto a forma brilhante e úmida debatendo-se dentro de mim.” A inimitável Clarice reverencia a força e a delicadeza da palavra.

Guimarães Rosa, imagine, disse o seguinte em entrevista “Tenho muita dificuldade para escrever. Custo a começar. Enquanto não ocupo o papel, é tudo difícil. Depois que eu ocupo o papel em branco, aí então começo a melhorar o que escrevi. O meu problema é ocupar o papel.” O criador de Grande Sertão: Veredas diz que a arte de escrever está em saber cortar, mexer no que se escreveu sob o impulso da criação.

É interessante que não se encontra um escritor que afirme que escrever é tarefa das mais fáceis.O enfrentamento da palavra , para construir o texto, em prosa ou em verso, é mesmo complicado. Aparentemente, falar é mais fácil do que escrever.Talvez por que se vigie menos o que se fala e o modo como se fala.O perigo é o mesmo, entretanto.A permanência é que é diferente. O que se fala é mais volátil.A escrita é duradoura.

O poeta de José, no livro Alguma poesia, discursa sobre o fazer da arte poética:

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair
.

Eis aí Carlos Drummond de Andrade, com toda a sua verve poética, confessando a dificuldade de escrever um verso já pensado, mas sem a forma escrita.

Pablo Neruda, simplifica , sem deixar de ser profundo:"Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca idéias." A dificuldade está no modo de se colocarem as idéias.A essência da arte está no modo como se diz o que se quer dizer.A originalidade no dizer é que faz a arte acontecer.

Voltando a Clarice Lispector, encontramos esta confissão reveladora:"Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida." Explica-se, assim, a carga emotiva que se sente nos textos da autora de Laços de família.

Ernest Hemingway, o perfeccionista autor do imortal, O velho e o mar, revela: "Reescrevi 30 vezes o último parágrafo de 'Adeus às Armas' antes de me sentir satisfeito." Não poderia ser mais belo o final desse romance.Depois que se termina a leitura dele, fica-se mesmo com a certeza da elaboração paciente do escritor.Um final marcante de um romance eterno.

Uma experiência das mais saborosas é comparar os inícios e os finais dos romances que já lemos.Há alguns anos, o jornal Folha de S.Paulo convidou dez escritores brasileiros para reescreverem o início de Metamorfose, de Franz Kafka. O trecho inicial do livro é este: “Um dia de manhã, ao acordar dos seus sonhos inquietos, Gregor Samsa deu por si em cima da cama, transformado num insecto monstruoso. Estava deitado de costas, sentia a carapaça dura e, ao elevar um pouco a cabeça, via a barriga arredondada, de cor castanha, dividida em faixas rígidas arqueadas, e no alto dela a coberta da cama em equilíbrio instável, quase a resvalar. As muitas pernas, penosamente finas em comparação com a sua actual corpulência, tremiam diante dos seus olhos perplexos.” Não há início mais intrigante do que esse que Kafka criou para sua novela. Os escritores convidados pelo jornal conseguiram fazer dez inícios bem diferentes e criativos, mas nada comparáveis ao que o originalíssimo escritor tcheco produziu.

E o que dizem os grandes criadores sobre o modo de se escrever? A grande lição vem de Graciliano Ramos, romancista dos maiores de nossa literatura.Veja que bela e acertada comparação o conciso escritor faz da escrita com  o trabalho das lavadeiras à beira ou mesmo dentro dos córregos a lavar a roupa das famílias:

“Quem escreve deve ter todo cuidado para a coisa não sair molhada. Quero dizer que da página que foi escrita não deve pingar nenhuma palavra, a não ser as desnecessárias. É como pano lavado que se estira no varal. Naquela maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lava. Molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Depois colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Depois batem o pano na laje ou na pedra limpa e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer”.

Juan  Rulfo, considerado o maior escritor mexicano, autor de  Pedro Páramo, explicou poeticamente o ato de escrever:

“No começo, você deve escrever levado pelo vento, até sentir que está voando. A partir daí, o ritmo e a atmosfera se desenham sozinhos. É só seguir o voo. Quando você achar que chegou aonde queria chegar, é que começa o verdadeiro trabalho: cortar, cortar muito”.

A síntese de tudo o que se pode descobrir sobre o que seja a  arte literária foi feita por Roland Barthes: "Escrever é sacudir o sentido do mundo." Concordo com o notável semiólogo francês  e espero que você tenha gostado do que leu nesta minha singela crônica de homenagem à literatura e aos escritores.

 

Juscelino Pernambuco é Doutor pela Universidade de São Paulo(USP) e Mestre aposentado pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”(UNESP.).Atualmente é professor do curso de Mestrado em Linguística da Universidade de Franca

 

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Ler para viver melhor

Publicado em 20/10/2009 07:35

Entendo que a literatura, ao criar universos fictícios, isto é, mundos produzidos pela imaginação, com base na realidade, muito mais do que um entretenimento, uma diversão, é uma arte que pode ajudar o homem na busca de soluções de conflitos e contradições históricas reais. A leitura de um romance pode dar sentido à vida do leitor, pode ajudá-lo a achar saída para um problema existencial que esteja vivendo Daí a importância de um bom ensino de leitura e literatura.A escola de que precisamos é a que ensine o aluno a ler e a escrever. Não é tarefa da escola ensinar como se fosse para formar novos gramáticos ou escritores. O ensino não é para isso, mas, sim,para ampliar a habilidade de leitura e escrita dos alunos. Saber ler significa compreender o  que se leu, percebendo os mecanismos que foram capazes de fazer o texto dizer o que quis dizer. Professor de leitura é o que sabe como se produz e como se lê o texto em busca do que dizer e do como dizer. O trabalho com o texto, pelo texto e para o texto que defendo em sala de aula tem por objetivo levar o aluno a ter uma visão crítica da realidade, com percepção dos conteúdos ideológicos destinados a mascarar a essência do real. O que este texto quer fazer comigo e o que eu posso fazer com ele? Essas são as duas questões básicas que devem orientar o leitor no ato da leitura.Para ensinar literatura , o professor deverá ser um bom leitor, um leitor maduro que tenha bastante intimidade com os mais variados textos. Professor de leitura não é o que apenas consome ou frui o texto, mas é aquele que repensa o texto, em relação ao que ele significa e ao modo como ele consegue significar.

Mario Vargas Llosa, o romancista peruano, autor, entre outros, do romance: Pantaleón e as visitadoras, em um artigo para o jornal "El País" escreveu o seguinte sobre  literatura: “Condenados a uma existência que nunca está à altura de seus sonhos, os seres humanos tiveram que inventar um subterfúgio para escapar de seu confinamento dentro dos limites do possível: a ficção. Ela lhes permite viver mais e melhor, ser outros sem deixar de ser o que  já são, deslocar-se no espaço e no tempo sem sair de seu lugar, nem de sua hora e viver as mais ousadas aventuras do corpo, da mente e das paixões, sem perder o juízo ou trair o coração.

A ficção é compensação e consolo pelas muitas limitações e frustrações que fazem parte de todo destino individual e fonte perpétua de insatisfação, pois nada mostra de forma tão clara o quão minguada e inconsistente é a vida real quanto retornar a ela, depois de haver vivido, nem que seja de modo fugaz, a outra vida- a fictícia, criada pela imaginação à medida de nossos desejos."

Na edição de outubro da revista Piauí, o mesmo Vargas Llosa escreve de forma lúcida um artigo intitulado: Em defesa do romance. É um trabalho importante e belo sobre a importância do romance. Não me importa a posição política um tanto conservadora desse notável romancista; admiro a sua habilidade literária e a defesa ardorosa que ele faz do gênero romanesco. Em certo trecho ele diz:

“A literatura, ao contrário, diferentemente da ciência e da técnica, é, foi e continuará sendo, enquanto existir, um desses denominadores comuns da experiência humana, graças ao qual os seres vivos se reconhecem e dialogam, independentemente de quão distintas sejam suas ocupações e seus desígnios vitais, as geografias, as circunstâncias em que se encontram e as conjunturas históricas que lhes determinam o horizonte.” Todos nós necessitamos, de quando em vez, fugir para outros mundos que nos acolham sem sustos e sem abandonos, sem julgamentos e recriminações.A literatura, em verdade, fala da realidade, por meio do imaginário. Finge que mente, para dizer verdade maior. Ela tem mesmo um caráter claramente conscientizador.Dá ao leitor condições apropriadas de ver com mais lucidez a realidade, depois de ter vivido a vida e o drama de personagens que em tudo se assemelham aos que conhecemos na vida diária. Quem vive melhor, fica mais esperto, mais lúcido, para participar do jogo social.

Sempre tive o hábito de anotar os livros que leio e deles retirar frases que me chamem a atenção pelo significado e pelo arranjo literário e linguístico. Tenho um caderno, já corroído pelo tempo, em que trago títulos de livros lidos e frases que me provocaram encantamento.Houve um ano em que eu li e anotei a leitura de trinta e cinco romances, fora os livros didáticos que tive de estudar. Fiz-me leitor e não sei viver sem ler.Aqui, agora,enquanto escrevo, vejo em minha mesa, três romances que aguardam a hora e a vez de serem lidos: O filho da mãe, de Bernardo Carvalho;Flores azuis, de Carola Saavedra e No teu deserto, de Miguel Sousa Tavares. Não vejo a hora de poder lê-los com calma e com o mais saudável dos prazeres.Li, na semana passada: A chave da casa, de Tatiana Salem Levy. Um belo romance de uma jovem e talentosa romancista. Você começa a ler e não consegue parar. Como escreve bem! Digo mais: é um livro bastante profundo que leva o leitor a refletir sobre a viagem da existência e a busca da chave do viver. Ao dizermos que uma obra é profunda, estamos afirmando que nos sentimos interpretados por ela. Quem de fato termina uma obra é o leitor, não o autor. Escrever é tão só um projeto de criar. O escritor cria e o que ele cria o cria também.

O meu convite é para vocês terem sempre por perto um bom romance.É uma companhia e tanto, tenham certeza, minha cara leitora, meu prezado leitor. Até a próxima.

 

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Para escrever e descrever bem

Publicado em 12/10/2009 10:06

Bons dias!

O novo Acordo Ortográfico já deu certo, apesar de alguns protestos descabidos e inúteis.Nossa língua portuguesa ganha o mundo, agora com características mais brasileiras.Lá em Portugal, também há uma grande aceitação do novo Acordo, mesmo que algumas pessoas teimem em querer desconsiderar as mudanças.Para reavivar a nossa memória, vamos relembrar juntos, você e eu, leitor, algumas das mudanças  já em pleno vigor, sem que tenham causado susto ou espanto.

Alfabeto

O alfabeto agora é  formado por 26 letras com a inclusão do“k”( a pronúncia é capa ou cá), “w” (  dáblio) e “y”(ípsilon)

Essas letras servem para siglas e unidades de medida, nomes próprios vindos de outras línguas e seus derivados.Exemplos: TWA,Franklin, Byron, byroniano,km( quilômetro), kg( quilograma), kw(kilowatt), playground, Kafka, kafkiano, yd( jarda).  

Trema

Não se usa mais o sinal de trema em palavras como:

Linguista, aguentar, consequência, cinquenta, frequência, tranquilo, linguiça, bilíngue.

O trema é reservado para nomes estrangeiros e seus derivados. Exemplo: Müller, mülleriano.

Acentuação – ditongos “ei” e “oi”

Não se acentuam os  ditongos abertos “ei” e “oi”, em palavras paroxítonas.

Temos de escrever assim: assembleia, plateia, ideia, colmeia, boleia, Coreia, boia, paranoia, jiboia, apoio, heroico, paranoico.

Atenção: Nos ditongos abertos de palavras oxítonas terminadas em éi, éu e ói e monossílabas, o acento aparece: anéis, pastéis,herói, constrói, dói, papéis, troféu, céu, chapéu.

Acentuação – “i” e “u” formando hiato

Não se acentuam  mais o "i" e o "u" tônicos que formem hiato depois de ditongo

Exemplos: baiuca, boiuna, feiura, feiume, bocaiuva

Atenção:Se a palavra for oxítona e o “i” ou “u” estiverem em posição final, o acento é obrigatório: tuiuiú, Piauí. Se o “i” e o “u” forem tônicos, formando hiato, o acento continua. Exemplo: juízo,saúde, saída, gaúcho.

Hiato

Os hiatos "oo" e "ee" não são acentuados:

Exemplos: enjoo, voo, perdoo, abençoo, povoo, creem, deem, leem, veem, redeem, prevêem, releem,anteveem,coo,moo.

Palavras homônimas

Em palavras homônimas homógrafas, isto é, as que têm a mesma escrita, como as seguintes: para (do verbo parar e a preposição), pela (do verbo pelar e a preposição), pelo( do verbo  pelar, o pelo do corpo e a preposição), pera ( a fruta, a peça elétrica e a preposição antiga) e  polo( o jogo e ponto extremo).Veja que exemplo sem graça, mas útil para aprender como escrever :Ele foi para o polo norte jogar polo e pelo que ficamos sabendo não aparou o pelo, por causa do frio, e levou muitas peras para jogar para os ursos. Agora, leitor, para para rir da notícia. Não é uma frase boa para o fim de semana?

Exceção: O acento diferencial ainda permanece no verbo poder (pôde), para não haver confusão com pode, no presente do indicativo, e no verbo pôr, para evitar que se confunda com a preposição: por.

Note bem: para diferenciar forma, de fôrma, permite-se, mas não se obriga, o uso do acento diferencial. Imagine uma frase como: Ela não sabe como é a forma da forma do sapato que o marido trará de Paris. Poderia haver dificuldade na leitura e na compreensão, não é verdade?

                                               COMO DESCREVER BEM

O padre Manuel Aires de Casal escreveu uma obra de viagem intitulada Corografia Brasílica ou Relação Histórico- Geográfica do Reino do Brasil que se tornou o primeiro livro editado no Brasil, no ano de 1817.Nos  dois volumes, ele relata ao Rei de Portugal a história do descobrimento do Brasil. Suas descrições de animais e plantas foram elogiadas por Caio Prado que fez  o prefácio à edição fac-similada dessa valiosa obra. Confesso a você, leitor, que fico encantado com a capacidade de observação do ilustre historiador. Acompanhe comigo a descrição que ele faz de uma deliciosa fruta nossa.Veja se você vai percebendo de que fruto ele trata na descrição.

 “Seu fruto singular é do tamanho e figura de pimentão roliço, de pele fina, lisa, avermelhada ou amarelada, e às vezes d’ambas estas cores, com uma substância branca , esponjosa, assaz suculenta, agridoce, sem caroço, nem pevides; e tem na extremidade um apêndice duro, com forma de rim de lebre, e casca cinzenta, cheia de óleo cáustico, e que cobre uma substância alva e oleosa: dão-lhe com propriedade o nome de castanha, porque se come assado, e seu sabor nada difere do de castanha européia, quando assada

Leia de novo, caro leitor, e veja como é perfeita a descrição que ele faz do nosso belo e saboroso caju.

Agora, delicie-se com a beleza da descrição que ele faz de um pássaro encantador e que inspira muita paz quando vem ao nosso jardim.

“ Quando virado para o observador, a garganta e o peito tomam num instante várias cores, segundo os movimentos do passarinho;umas vezes a da aurora, quando mais rutilante ou de oiro derretido no cadinho, fugindo de repente umas vezes para verde, outras para azul, outras para branco, sem nunca perder um brilhante tão inimitável como inexpressável; a cabeça, que é negra, e ornada com um penachinho da mesma cor quando a ave está de lado para a gente , parece cravejada de cintilantes rubis quando lhe apresenta a dianteira; ou toda dum escarlate brilhante que insensivelmente passa a um amarelo refulgente

Descobriu que ele descreve um beija-flor? Pois é, o escritor Aires de Casal tinha paciência para observar os animais e as plantas e soube usar as riquezas da língua para compor um retrato literário atraente de tão formoso passarinho e de tão gostosa fruta. Para agradecer a sua generosidade de me acompanhar até aqui, nesta crônica, paciente leitor, apresento, como arremate, uns versinhos de Mário Quintana, no seu Poeminho do contra:

Todos estes que aí estão/Atravancando o meu caminho, /Eles passarão, /Eu passarinho!

Até a próxima!

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Uma aula de composição

Publicado em 06/10/2009 08:09

Bons dias, leitor!

Convido-o a ler comigo trechos da carta-resposta que Chico escreveu para Vinícius, com a intenção de discutir a letra da música Valsinha, para o disco, Construção, de 1971. Você que acompanhou o meu último texto no blog lembra-se de que eu apresentei a carta de Vinícius para o parceiro Chico Buarque, propondo algumas alterações da letra de Valsinha. Se você a tiver em mãos e puder ouvir a música, enquanto estiver lendo o que escrevi, o efeito de sentido que planejei obter no meu texto será plenamente alcançado. A carta de Chico foi publicada pelo jornal O Estado de São Paulo, edição de 19/03/1995. Observe como o poeta conseguiu defender seu posicionamento, de modo firme e respeitoso.

“Caro Poeta,

- Valsa Hippie é um título forte. É bonito, mas pode parecer forçação de barra, com tudo o que há de hippie à venda por aí. Valsa Hippie, ligado à filosofia hippie como você o ligou, é um título perfeito. Mas hippie, para o grande público, já deixou de ser a filosofia para ser a moda pra frente de se usar roupa e cabelo. Aí já não tem nada a ver. Pela mesma razão eu prefiro que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia. A solução é mais bonita e completa, mas eu acho que ela diminui o efeito do que segue. Esse homem da primeira estrofe é o anti-hippie. Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio e está sempre mandando sua mulher à merda Quer dizer, neste dia ele chegou diferente, não maldisse (ou xingou mesmo) a vida tanto e convidou-a pra rodar. Convidou-a pra rodar eu gosto muito, poeta, deixa ficar. Rodar que é dar um passeio e é dançar. Depois eu acho que, se ele já for convidando a coitada para amar, perde-se o suspense do vestido no armário e o tesão da t... final. "pra seu grande espanto", você tem razão, é melhor que "pra seu espanto". Só que eu esqueci que ia por itens. Vamos lá:

- Apesar do Orestes (vestido dourado é lindo), eu gosto muito do som do vestido decotado. (Aqui, Chico faz referência à eterna canção: Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas). É gostoso de cantar vestido decotado. E para ficar dourado o vestido fica com o acento tendendo para a primeira sílaba. Não chega a ser um acento, mas é quase. Esse verso é, aliás, o que mais agrada, em geral. E eu também gosto do decotado ligado ao "ousar" que ela não queria por causa do marido chato e quadrado. Escuta, ó poeta, não leve a mal a minha impertinência, mas você precisa estar aqui para sentir como a turma gosta, e o jeito dela gostar desta valsa, assim à primeira vista É por isso que estou puxando a sardinha para o lado da minha letra, que é mais simplória, do que pelas suas modificações que, enriquecendo os versos, também dificultem um pouco a compreensão imediata. E essa valsinha tem um apelo popular que nós não suspeitávamos.”

E vai por aí em frente, defendendo sua letra com argumentos bem construídos, visando a persuadir o parceiro Vinícius de Moraes. A argumentação do compositor, tão jovem ainda, com apenas 24 anos, é digna de nota.Mostra um domínio extraordinário da língua materna, no que se refere à seleção do vocabulário e à combinação das palavras. Sabia o que dizer e como dizer. Chico é, de fato, um grande compositor e escritor. Tem produzido também  belos romances, tal como: Leite Derramado, o mais recente. As duas cartas comprovam que o processo de criação de um texto poético não se dá apenas por inspiração. É mais trabalho, mais transpiração, do que inspiração.Escrever não é uma tarefa das mais fáceis.Escritores, como Clarice Lispector, confirmam isso.Ela disse: “É duro como quebra rochas.” É necessário ter bom domínio da língua, estar de bem com a língua, como eu costumo dizer. Requer treino, paciência, observação do modo de escrever de outros escritores e, sobretudo, muita leitura. Quem não lê não escreve.Não tem o que dizer nem sabe como dizer.Não se escreve, por querer dizer; escreve-se, por ter o que dizer. Um bom texto só é construído quando se tem o que dizer. Essa assertiva vale também para texto falado. Nada é gratuito na fala ou na escrita.Falar por falar, pode trazer mais desgosto do que satisfação.Calar também é uma arte.Pena que tantas pessoas não saibam disso.

Veja como Chico Buarque encaminha a argumentação final e se despede do amigo poeta.

“- Ainda baseado no argumento acima, prefiro o abraçar ao bailar. Em suma, eu não mexeria na segunda estrofe.

- A terceira é que mais me preocupa. Você está certo quanto ao "o mundo" em vez de "a gente". Ah, voltando à estrofe anterior, gostei do último verso onde você diz "e cheio de ternura e graça" em vez de "e foram-se cheios de graça". Agora estou pensando em retomar uma idéia anterior, quando eu pensava em colocá-los em estado de graça. Aproveitando a sua ternura, poderíamos fazer "Em estado de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar". Só tem o probleminha da junção "em-estado", o em-e numa sílaba só. Que é o mesmo problema do começaram-a. Mas você me disse que o probleminha desaparece, dependendo da maneira de se cantar. E eu tenho cantado "começaram a se abraçar" sem maiores danos. Enfim, veja aí o que você acha de tudo isso, desculpe a encheção de saco e responda urgente.

Essa carta é uma bela aula de composição. Os argumentos são bem construídos e Chico Buarque termina o texto com uma agradável demonstração de intimidade com o seu parceiro querido, Vinícius de Moraes. Até a próxima, leitor!

 

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Valsinha: a parceria de Chico e Vinícius

Publicado em 27/09/2009 19:57

   

Uma das parcerias musicais mais bem sucedidas foi a de Chico Buarque com Vinícius de Moraes. O poeta sentia-se rejuvenescido com a amizade do jovem compositor e não escondia esse fato em suas entrevistas. Houve até episódios engraçados entre eles, como o da parceria na famosa Canção de Orly.Toquinho é que conta isso em shows. Quando esteve na Itália, compondo com Chico, este exilado pela Ditadura Militar, Toquinho deixou com ele uma melodia sem letra. Chico colocou os versos na canção e, de volta ao Brasil, pediu a opinião de Vinícius de Moraes que, depois de ler o texto ,disse: “o sambinha não é ruim, não, mas está precisando de alguma coisa”. Alguns minutos depois, voltou com a letra, alterada em apenas um verso. “ Agora sim: é um samba composto a seis mãos”, disse ele, feliz, por assinar uma composição com Chico. Como era obrigatório no governo da Ditadura, a música teve de ser submetida à Censura que vetou apenas uma frase, exatamente a que Vinícius havia incluído. Toquinho ligou para Vinícius e contou o acontecido.Adivinhe o que o poeta respondeu? “ Olha, pode tirar a frase do samba.Mas da parceria não saio mais.” Coisas do Vinícius.

                                      Processo de Elaboração do Texto

A música Valsinha passou por um processo interessantíssimo de composição.Depois de a música já estar sendo tocada em público pelo conjunto MPB4,Vinícius escreveu uma carta para Chico Buarque, com  proposta de mudança da letra. Leia o que o poeta propôs:

                                   Carta de Vinícius de Moraes para Chico Buarque

Mar del Plata, 24 de janeiro de 1971

Chiquérrimo,
Dei uma apertada linda na sua letra, depois que você partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela, sobre aqueles hiatos que havia, adicionando duas ou três idéias que tive. Mandei-a em carta a você, mas Toquinho, com a cara mais séria do mundo, me disse que Sérgio [Buarque de Hollanda] morava em Buri, 11, e se foi a carta para Buri, 11.
Mas, como você me disse no telefone que não tinha recebido, estou mandando
outra para ver se você concorda com as modificações feitas.
Claro que a letra é sua, e eu nada mais fiz que dar uma aparafusada geral. Às vezes o cara de fora melhor essas coisas. Enfim, porra, vai ela. Dei-lhe o nome de "Valsa hippie", porque parece-me que tua letra tem esse elemento hippie queum encanto todo moderno à valsa, brasileira e antigona. Que é que você acha? O pessoal aqui, no princípio, estranhou um pouco, mas depois se amarrou na idéia. Escreva logo, dizendo o que você achou.

Se Chico Buarque tivesse aceitado a proposta de mudança, a letra de Valsinha teria ficado assim:

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito mais quente do que comumente costumava olhar
E não falou mal da poesia como mania sua de falar
E nem deixou-a num canto; pra seu grande espanto disse:
vamos nos amar...
ela se recordou do tempo em que saíam para namorar
E pôs seu vestido dourado cheirando a guardado de tanto
esperar
Depois os dois deram-se os braços como a gente antiga
costumava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a
bailar...
E logo toda a vizinhança ao som daquela dança foi e despertou
E veio para a praça escura, e muita gente jura que se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não
se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz.

 

Chico, apesar de todo o respeito que tinha pelo poetinha, não acatou a sugestão. Escreveu, como resposta, uma carta com explicações de ordem poética e musical, e Valsinha consagrou-se com a letra abaixo, que você conhece bem, meu leitor.Tão logo possa, ouça Valsinha e atente para as mudanças que não foram feitas pelo compositor. Em outra crônica, apresentarei a carta original de Chico para Vinícius.  É preciso que eu escreva e afirme que as duas letras são belas e significativas. Compare-as, meu leitor.

 Valsinha

(Chico Buarque e Vinícius de Moraes)

Um dia ele chegou tão diferente

Do seu jeito de sempre chegar

Olhou-a dum jeito muito mais quente

Do que sempre costumava olhar

E não maldisse a vida tanto

Quanto era seu jeito de sempre falar

E nem deixou-a num canto

Pra seu grande espanto

Convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita

Comomuito tempo

Não queria ousar

Com seu vestido decotado

Cheirando a guardado

De tanto esperar

Depois os dois deram-se os braços

Comomuito tempo

Não se usava dar

E cheios de ternura e graça

Foram para a praça

E começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança

Que a vizinhança toda despertou

E foi tanta felicidade

Que toda a cidade

Se iluminou

E foram tantos beijos loucos

Tantos gritos roucos

Como não se ouviam mais

Que o mundo compreendeu

E o dia amanheceu em paz.

Valsinha tem como tema o cotidiano do amor entre os casais. A rotina vai pouco a pouco sufocando a chama amorosa e o amor tende a morrer. Um dos dois, ou melhor ainda, o casal, deverá tomar a iniciativa de mudança.

No caso de Valsinha, é o homem que percebe estar agindo mal e resolve mudar.Um dia, ele volta diferente para casa, depois do trabalho.Chega carinhoso e disposto a recuperar o carinho da mulher amada.A reação dela é surpreendente. Faz-se bonita , até ousa no vestir-se e vai com ele rodar. Essa mudança no comportamento do casal faz ressurgir o amor, até então adormecido e caminhando para o fim. Uma canção como Valsinha é eterna, e só temos de agradecer à incrível parceria de Chico Buarque de Hollanda e Vinícius de Moraes. Até a próxima!

 

 

 

           

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Análise da letra de Grávida, de Marina.

Publicado em 21/09/2009 16:08

Bons dias!

Venho apresentando, há algum tempo, um programa de rádio intitulado: Análise Musical, na Rádio Claretiana FM, do Centro Universitário Claretiano. O programa acontece às terças-feiras, logo de manhã. Apresento a música, a sua história e contexto de gravação e também dados sobre o trabalho do artista. Logo após a apresentação, o programa vai para o arquivo em podcast e pode ser acessado no site da rádio www.claretianafm.com.br e no meu site www.professorjuscelino.com.br . Tenho recebido a visita de internautas de todos os estados brasileiros e tem sido emocionante interagir com pessoas tão distantes e tão interessadas em discutir as letras das músicas. Já tenho em arquivo no podcast dezenas de análises de músicas brasileiras de todos os gêneros musicais e dos mais diferentes cantores.

Nesta crônica, transcreverei, em parte, uma das análises que fiz, para dar a conhecer ao meu leitor, meu modo de analisar uma letra de música. Tomarei como exemplo a canção: Grávida, composição musical de Marina Lima e Arnaldo Antunes  e gravação de Marina Lima. Considero essa artista, uma boa intérprete e compositora.Tem um repertório musical bem selecionado e conta, quase sempre, com a colaboração criativa do seu irmão, poeta e filósofo destacado, Antônio Cícero.

Veja a letra da música e como eu a analisei.

GRÁVIDA
(Marina Lima/Arnaldo Antunes)


Eu tô grávida
Grávida de um beija-flor
Grávida de terra
De um liquidificador
E vou parir
Um terremoto, uma bomba, uma cor
Uma locomotiva a vapor
Um corredor

Eu tô grávida
Esperando um avião
Cada vez mais grávida
Estou grávida de chão
E vou parir
Sobre a cidade
Quando a noite contrair
E quando o sol dilatar
Dar à luz

Eu tô grávida
De uma nota musical
De um automóvel
De uma árvore de Natal
E vou parir
Uma montanha, um cordão umbilical, um anticoncepcional
Um cartão postal

Eu tô grávida
Esperando um furacão, um fio de cabelo, uma bolha de sabão
E vou parir
Sobre a cidade
Quando a noite contrair
E quando o sol dilatar
Vou dar a luz


A chave da significação desta canção está no adjetivo grávida. O título de um texto já é uma primeira pista para a sua interpretação.Por que o título: grávida, para a canção? Começo por dizer que as palavras podem ser usadas em dois sentidos diferentes. O primeiro é o sentido real, concreto, o significado do dicionário, é o sentido chamado de  denotativo. Quando digo grávida, refiro-me à mulher que concebeu um filho, que está no estado de gestação de um bebê, que se prepara para dar à luz uma criança.Observem que a expressão é: dar à luz um filho –  sinal de crase aqui é decisivo– isto é, ela vai dar para a luz do dia um filho, um ser. O segundo sentido é o conotativo, é o sentido figurado, poético, subjetivo. É nesse sentido que está empregado o adjetivo grávida da canção de Marina Lima e Arnaldo Antunes.

A mulher que fala no poema está encantada, repleta de luz, cheia de alegria, por ver as coisas como estão.Assim, um beija-flor vai engravidá-la, e ela vai parir uma cor; está grávida de terra e vai parir um terremoto”; grávida de um liquidificador, e vai parir uma bomba, uma locomotiva a vapor, um corredor”.

No texto há um jogo de palavras bastante original e é nesse jogo que reside a riqueza do poema. Fazer um texto é ter o que dizer e descobrir como dizer.Integrar a organização do pensamento com a expressão verbal. Saber escolher as palavras e organizá-las textualmente. Nesta canção, percebe-se uma combinação original entre letra e música, palavra e canto. O universo vocabular é surpreendente pelas combinações insólitas: Eu tô grávida, de um beija-flor, de terra, de liquidificador, e vou parir um terremoto, uma bomba,uma cor. Poesia tem de ser isso mesmo, tem de surpreender, provocar estranhamento, surpresa, fazer pensar. Por isso é arte, é transfiguração da realidade.Veja os contrastes de palavras: grávida,esperando um avião/ grávida de chão e vou parir
sobre a cidade, quando a noite contrair e quando o sol dilatar:
“avião/ chão”, “contrair/ dilatar”. A mulher grávida está contraída de beleza, quer chegar ao momento da dilatação para dar à luz. Aqui nesta segunda estrofe, “dar à luz”, com crase, isto é, dar para a luz, gerar algo para a luz do dia.

Já nos últimos versos: “quando a noite contrair” e “quando o sol dilatar”, “vou dar a luz”,agora sem crase, para significar: dar a luz, como resultado de todo o seu encantamento, de sua gravidez, gravidez da beleza das coisas, do mundo e da beleza de tudo aquilo que a está  encantando. Está grávida de beleza, radiante de beleza e quer parir luz, encantamento.

Interpretar um texto não é adivinhar, é observar as pistas que estão nele mesmo. O texto é um jogo de palavras e de idéias: o que eu leio é o texto; o que eu penso é o discurso.Temos que perceber o jogo das palavras, como elas combinam umas com as outras, reconhecer seus significados, e descobrir o querer dizer do texto, a  intenção textual de dizer. Marina Lima estava feliz nessa época, estava grávida da beleza da vida e queria transmitir às pessoas essa felicidade. Foi isso que ela mesma disse em entrevista, no lançamento de seu novo CD-ROM.O que um artista diz sobre a sua criação, fora da obra, pode ajudar o leitor ou ouvinte a interpretar melhor o que diz  o seu texto, a sua produção.

Era o que eu queria escrever nesta crônica, minha estimada leitora, meu caro leitor. Boas noites!

 

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As crônicas de Otto Lara Resende

Publicado em 15/09/2009 14:45

AS CRÔNICAS DE OTTO: MODELOS DE ESCRITA

Bons dias!

Esta crônica de hoje eu a escrevo, para apresentar, sobretudo, aos mais jovens o cronista Otto Lara Resende, de quem já falei aqui neste espaço de O Jornal. Como escrevia bem, o Otto! E quanta sabedoria e argúcia para analisar o Brasil! Suas crônicas na Folha de São Paulo eram de leitura obrigatória.

A crônica é um gênero do discurso que tem como característica ser datada, como se fosse para valer só para o momento em que foi escrita.Quando, porém, se trata de um texto bem escrito, com um posicionamento pessoal bem definido,carregado de humor, leveza, ironia fina e cortante, aliados a uma forma artística, alicerçada em pleno domínio dos recursos da língua, não há por que ela não se eternizar, deixando de ser temporal, para ser lida com sabor em qualquer época. É o caso das crônicas de Otto Lara Resende. Quero dar um exemplo do que venho escrevendo e, a seguir, apresento aos meus leitores uma delas. Leiam-na comigo e,depois, acompanhem minha análise.

 SAUDADES DE GOMORRA

 A corrupção do mundo é antiquíssima, me disse o Murilo Mendes com um gesto teatral que acentuava a ênfase da declaração. não me lembro de que falávamos, mas devia ser sobre a política brasileira. Murilo era um poeta religioso, um espírito metafísico, mas nunca dispensava o senso de humor. Um poeta é capaz desta proeza de ser dramático sem deixar de achar graça em tudo. Autor de uma “História do Brasil”, Murilo foi também um profeta.

E um profeta bem-humorado, como está evidente nos versos brincalhões que escreveu a propósito dos fastos da nossa história, tratada quase sempre com excesso de retórica e escassez de documentos e de pesquisa. Publicada em 1932, numa edição modesta, a “História do Brasil” tem, por exemplo, um “Hino do Deputado”, que começa assim: “Chora, meu filho, chora. Ai quem não chora não mama, Quem não mama fica fraco”. E vai por afora.

Pode haver coisa mais atual? Como o José Dias do Machado de Assis, o Murilo tinha o gosto do superlativo. Tendo morrido a 13 de agosto de 1980, em Lisboa, fico imaginando onde é que o poeta iria hoje buscar superlativos superlativíssimos para falar do Brasil deste ano da graça de 1991. De para , mais do que antiquíssima, a corrupção se tornou atualíssima. Tirei o “p” da palavra “corrupção” porque o Murilo não o pronunciava. devia ter sido furtado por algum reformador ortográfico.

Com “p” ou sem “p”, antiquíssima, a corrupção sempre existiu. está no Gênesis que, assim que os homens começaram a se multiplicar, o Senhor viu que a maldade deles era grande. Ferido de íntima dor, arrependeu-se de ter criado o homem. E veio o dilúvio. Pois ainda assim a bandalheira continuou de tal forma que foi preciso mandar uma chuva de enxofre e de fogo para destruir Sodoma e Gomorra.

Quem acompanha hoje a vida pública brasileira deve achar uma injustiça o que o Senhor fez com Sodoma e Gomorra. Nem o vocabulário do Vieira e do Ruy, nem os superlativos do José Dias e do Murilo Mendes, nada é capaz de dar uma idéia do que se e se ouve por . No cochicho, ao do ouvido, a missão foi substituída pela comissão. Os honestos são percentauros: metade missão, metade comissão. Se 10% do que se diz é verdade, ai que saudades de Sodoma e Gomorra!

(Folha de S. Paulo,31-07-91)

O tema da crônica é a corrupção e o cronista queria mostrar que ela sempre existiu e, pior, não vai acabar. O que é verdade, não é mesmo? Ela está perto e longe de nós. Nós só a enxergamos lá longe, mas onde está o ser humano, há o perigo de ela se fazer presente. A corrupção se instala em todos os setores das atividades humanas. Que triste verdade!

 Para construir seu texto, Otto tinha de fazer o tema progredir, o que é o grande segredo do texto. Um texto bem organizado é aquele que mantém o tema e, ao mesmo tempo, o faz progredir, avançar, com informações novas. Observem que ele fez o tema da corrupção progredir de forma constante, parágrafo por parágrafo, do princípio ao fim.Trouxe para a cena, Ruy Barbosa, Padre Vieira, o poeta Murilo Mendes, por causa do livro do poeta: História do Brasil e Machado de Assis, com o personagem José Dias, do romance Capitu. Nesse livro o agregado Dias aparece como símbolo das pessoas que usam constantemente o grau superlativo dos adjetivos: íssimo.Para os corruptos de hoje, ele diria: corruptíssimos.

Nesta bela crônica, de 5 parágrafos, sendo 4 de 7 linhas e 1, de 6 linhas, o que é uma marca de boa organização textual, com parágrafos bem distribuídos,o cronista mineiro, de São João Del Rei, constrói com fina ironia e não pouca indignação, o retrato da corrupção do Brasil de ontem e dos anos noventa, em que ele vivia. O retrato é atualíssimo. É como se ele estivesse escrevendo agora. Como seria bom que o texto de Otto Lara Resende não servisse para o Brasil de amanhã!Dá para imaginar nosso país inteiro livre dessa mazela que é a corrupção? Dificílimo, não é leitores?

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Professor Juscelino.com.br

" De bem com a língua, de bem com a vida "