Publicado em 04/09/2010 09:42
Chego hoje à marca de 77 textos publicados aqui neste espaço de O Jornal e me assusto, não com a quantidade, mas com a rapidez do tempo. Foram setenta e sete sábados, nos quais estivemos juntos, até agora ( e espero estar por aqui, por um longo tempo), unidos pelas palavras, pensadas e escritas por mim, para produzir significação. O prazer de escrever e estar tão próximo dos leitores é diferente do que acontece com um escritor de romances que apenas pode construir a imagem de seus possíveis leitores. Aqui, escrevo buscando estar em sintonia com quem lê meus textos e conversa comigo sobre o que lê. E gosto muito, quando tantos leitores falam comigo sobre o que representa para eles o que escrevo.Também é gostoso, quando leitores consultam-me sobre alguma expressão da língua.Sinto-me útil e dou mais valor ainda ao meu esforço intelectual despendido no estudo da língua portuguesa.Não sou daqueles que se valem de algum conhecimento a mais a respeito da língua, para torná-la mais difícil e misteriosa.A tarefa de quem escreve sobre a língua ou a ensina na escola é fazer que todos se sintam donos dela.A língua existe para ser amada, não temida; ela é o nosso instrumento de ação no mundo.Quando falamos ou escrevemos, estamos agindo, dando respostas à vida.Viver é conviver e dar respostas à vida.Viver é perigoso, como escreveu o Guimarães Rosa. Vejam como a literatura é também importante para se conhecer um pouco mais o sentido da vida.Outro dia, um leitor destes meus escritos semanais, disse-me que havia lido, em algum lugar, a palavra embrejada. Antes de buscá-la em dicionários ( depois vi que não são todos que a agasalham), fui à literatura de Guimarães Rosa e lá encontrei no Grande Sertão: Veredas, página
Estou contando ao
Que belo e significativo uso para embrejado! A vida é cheia de brejos, é escorregadia, pantanosa, traiçoeira, surpreendente, perigosa como um brejo. Chama a atenção nessa fala o emprego da palavra senvergonhice.O grande escritor escreveu-a , assim mesmo, emendada, e com a letra N.Ficou mais bonita, embora não esteja escrita dessa forma nos dicionários.Ele, o Guimarães, pode.
Essa palavra, que deve ser escrita por nós, assim: sem-vergonha e que pode ter como sinônimos:sem-vergonhez,sem-vergonheza,sem-vergonhismo( no plural,seriam: sem- vergonhezes,sem-vergonhezas, sem-vergonismos) vejam que prodigalidade para a falta de vergonha anda tendo muita validade e aplicação nos tempos modernos. Em época de eleições, então, nem se fala! Valho-me ainda de Guimarães Rosa, para falar de eleições. Vejam o que Riobaldo diz no romance:
Uma
Governar um país, uma cidade, um Estado, não é tarefa para qualquer um mesmo!Já que estou nesta trilha, sigo mais um pouco com o livro de Guimarães Rosa e vou citando frases dele , para dar um pouco mais de graça e trazer ensinamento para a nossa vida. Literatura ajuda a viver melhor.
O
O
São tão límpidas as frases roseanas, tão poéticas e filosóficas, que nem é preciso que eu as comente. Tirar-lhes-ia a graça.A literatura de Guimarães Rosa tem uma função conscientizadora muito clara e é disso que precisamos.O homem precisa voltar para dentro de si mesmo e analisar o papel que anda cumprindo no mundo.Viver é buscar competência para estar no mundo.Existe a teoria da incompetência alheia, mas não se exercita a teoria da incompetência de si mesmo.Só costumamos ver incompetência nos outros, mas não enxergamos ,às vezes, a nossa própria incompetência no ato responsável de viver e julgar e participar.
Termino, prazerosamente,com Guimarães, filosofando sobre a vida:
Cá entre nós, esse aprendizado sobre o ato de viver é tão bom, que nem precisamos ter pressa para terminar o curso e receber o diploma, não é verdade?Até a próxima, leitor e parceiro dos meus textos.
Publicado em 15/08/2010 10:07
Acordei com vontade de falar da beleza da língua portuguesa em todas as suas formas, mesmo naquelas não privilegiadas pela sociedade.Uma língua é o conjunto de todas as suas variedades, registros e dialetos.Quanto mais variedades da língua uma pessoa dominar e usar, tanto melhor para a sua vida social.
Na crônica da semana passada, eu tratava da Gramática e dizia que ela não surgiu para ser tratada como se fosse rainha do uso da língua, mas apenas uma serviçal do uso da língua.Precisamos aprender a ver a Gramática como um indispensável manual de consulta sobre as possibilidades de usos da língua, na norma que é privilegiada histórica e socialmente.Não adianta querermos mudar este fato: sempre haverá uma norma gramatical preponderante na vida social.A Gramática dessa norma, mesmo com suas imperfeições e até desacertos, constitui ainda a principal fonte de referência da normatização da linguagem-padrão falada e escrita do país.
A Gramática no Brasil tem uma história bonita e digna de ser conhecida.Vejamos um pouco da história das nossas gramáticas e dos nossos gramáticos.
Nosso primeiro gramático, Júlio Ribeiro, professor de Português no tradicionalíssimo colégio de Campinas, SP., Culto à Ciência,no qual também tive a honra de lecionar em 1978 e 1979, na pioneira Gramática Portuguesa(1881), propõe a gramática como um compêndio que exponha metodicamente os fatos da língua, para serem aprendidos com facilidade.
Outro gramático, João Ribeiro (1887), professor do Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro, elabora a sua Gramática da Língua Portuguesa, considerando-a como coordenadora e expositora dos fatos das regras da linguagem. Notemos que nela também é preponderante a preocupação com as regras de bem dizer e escrever.
Ainda no mesmo ano de 1887, Maximino Maciel, professor titular do Colégio Militar do Rio de Janeiro,publica a Gramática Analítica(Descritiva) e Pacheco Silva e Lameira de Andrade, com preocupação voltada para o ensino de português nos ginásios, liceus e escolas normais, estas concentradas na formação de professoras para os antigos Grupos Escolares, de 1ª a 4ª séries, dão a público a Gramática da Língua Portuguesa.
Em 1907, vem a lume a 1ª edição da gramática que já foi editada mais de cem vezes: Gramática Expositiva, curso superior, de Eduardo Carlos Pereira.Esse estudioso mineiro da língua portuguesa revelou uma grande capacidade de coleta de fatos da língua , para ordená-los e expô-los metodicamente, segundo ele.Sua gramática manifesta alguma preocupação de nível pedagógico, pois que entende o ensino gramatical com fator de manutenção da unidade nacional, mas não apresenta uma vinculação científica à teoria marcadamente linguística.O cunho é mesmo normativo e visa à correção na escrita e na fala, o que por si só, não pode ser objeto de condenação dos lingüistas.
Outras Gramáticas têm alcançado também sucessivas e renovadas edições no Brasil. Entre elas podemos destacar a Gramática Metódica da Língua Portuguesa, de Napoleão Mendes de Almeida, muito adotada nos antigos internatos masculinos e femininos e seminários para formação de padres. Essa gramática alcançou a 45ª edição, em 2005.Também merece destaque a Gramática Normativa da Língua Portuguesa, do professor Carlos Henrique da Rocha Lima, cuja edição mais recente é a de número 45, de 2006.O professor Celso Cunha também alcançou sucesso com a sua Gramática do Português Contemporâneo, datada de 1970, que vem sendo constantemente editada , agora com o título de Nova Gramática do Português Contemporâneo, em co-autoria com Lindley Cintra.O prof. Evanildo Bechara, um dos artífices do Acordo Ortográfico de 1990, já em pleno vigor no Brasil, é nos anos mais recentes o mais bem sucedido de nossos gramáticos normativos.Sua Moderna Gramática Portuguesa, de 1961, é a mais vendida e a mais atualizada, com uma edição, a 37ª, de 2009.Além dessa, ele elaborou e lançou em
Para quem deseja conhecer também importantes gramáticas descritivas do português brasileiro indico as que se seguem: Nova gramática do Português Brasileiro, de Ataliba Teixeira de Castilho;Gramática do Português Brasileiro, de Mário Alberto Perini e a Gramática Houaiss da Língua Portuguesa, de José Carlos Azeredo.São todas elas de alto nível científico e resultantes de vários anos de pesquisas de seus autores e acabam de ser lançadas no mercado editorial.Um pouco antes dessas três, surgiu a bela e competente Gramática de Usos do Português, de autoria da professora Maria Helena de Moura Neves, de quem tive a honra de ser aluno e depois colega na UNESP, de Araraquara.
Muito mais eu ainda poderia dizer sobre gramáticas, porém prefiro dar por findo este texto, na esperança de poder contar sempre com a sua companhia, minha cara leitora, meu prezado leitor.Até a próxima.
Publicado em 09/08/2010 15:30
Fiquei ausente deste espaço de O Jornal, por algumas semanas, e recebi muitas mensagens de leitoras e leitores, que me perguntavam, preocupados, se eu não mais escreveria minhas crônicas semanais. Essa preocupação deixou-me feliz, pela afirmação de que o meu trabalho tem importância para muitas pessoas. Pois bem, estou de volta, com muita disposição e prazer. Estava em férias (também poderia escrever, estava de férias), ou seja, não tive de dar aulas, cumprir horários, corrigir trabalhos, enfim, tarefas do professor. Entretanto, não me afastei da vida intelectual, o que espero possa acontecer até o final dos meus dias. Participei de Congressos, apresentei trabalhos e escrevi bastante. Em um desses Congressos, na bela cidade de São Carlos, saí em defesa da Gramática. Pois é, leitor amigo, a nossa gramática anda precisando de defesa. Quem a anda atacando? você poderá perguntar-me.E eu lhe direi, alguns linguistas amigos e colegas meus e mais algumas pessoas do meio acadêmico. Esse fato vem causando algum desconforto para os professores do ensino fundamental e médio. Estes ficam inseguros quanto a ensinar ou não gramática. Devo dizer que Gramática não é sinônimo de língua; é apenas um retrato da língua.Aprender uma gramática não significa aprender uma língua. A gramática, tal como foi idealizada desde a Grécia antiga, tem o objetivo de organizar os recursos da língua escrita e efetuar a exposição deles, de forma metódica, para que possam servir de manual de consulta aos usuários. A gramática , apesar de suas imperfeições e até incoerências constitui ainda a principal fonte de referência da normatização da linguagem-padrão falada e escrita do país.O grande linguista e professor, Edward Lopes, esclarece que não cabe ao linguista ser contra a normatividade, ou a favor dela.Segundo esse pioneiro da linguística brasileira, o que compete ao linguista é insistir no fato de que o problema da gramaticalidade é matéria puramente linguística, pois as línguas são produtos das convenções e dos valores sociais, de onde derivam as regras para que haja intercomunicação. Qualquer utilização da língua por um falante tem que ser por ele planejada para que atinja seus objetivos. As regras linguísticas são regras do comportamento social dos indivíduos e por isso são transmitidas de uma geração a outra. O problema da gramaticalidade da norma culta de uma língua é, do ponto de vista histórico-geográfico, apenas o falar próprio de uma região, e do ponto de vista social, é apenas o falar de um grupo.
Eu faço questão de afirmar que não interessa ao locutor, quando fala ou escreve, discutir o gênero e o número de uma palavra como lua, por exemplo.Interessa, isto sim, que ele tenha percepção do potencial significativo dessa palavra que inspirou versos como estes de Carlos Drummond de Andrade no Poema de Sete Faces :
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
deixam a gente comovido como o diabo.
Não se ensina gramática como um fim em si mesma; gramática é meio, não fim. A língua não se resume ao conhecimento gramatical. Ela, a gramática, tem de ser o que ela pretende ser: serva do uso da língua. Ela também não tem culpa pelo que fazem com ela, quando a colocam no centro do ensino da língua.Luis Fernando Veríssimo disse em uma crônica bonita que a gramática precisa apanhar todos os dias para saber de seu lugar.Digo que, se alguém precisa apanhar, ( aliás, ninguém deve apanhar) não é a gramática; é, sim, quem não sabe o que ela é e para que ela serve.
O QUE FAZEM DA LÍNGUA
Transcrevo a seguir, de forma literal, algumas frases de Relatórios de Fiscais do antigo Crédito Rural. Como pesquisador, busco conhecer manifestações escritas e faladas de pessoas de diferentes classes sociais e de diferentes profissões.
Você, leitor, haverá de notar que se trata da escrita de pessoas que têm pouco domínio dos recursos da língua portuguesa considerada padrão. Como professor, apresento essas frases e proponho que você, depois de lê-las e, certamente, de considerá-las engraçadas ( duvido que você não vá rir delas), tente reescrevê-las ou discutir com pessoas de sua convivência. Vamos às frases desses fiscais zelosos do dinheiro do Banco, porém devedores da gramática da língua portuguesa.
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1-Nada mais vi a não ser um recibo de bezerros mamando a 200. |
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2-A casa de farinha não foi para frente porque o mutuário deu para tráz e nunca mais se levantou. |
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3-O reprodutor MARCO POLO e a vaca TEREZA foram vendidos ao sr.José Airton que está pronto a esclarecer o assunto pela importância de Cr$ 10.000,00. |
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4-Cliente aguarda a capilaridade pluviométrica da zona para efetuar o mister. |
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5-O cavalo está ajudando nos serviços da fazenda.Ele liquidou o financiamento com a mandioca particular que está sendo carregada para a casa de farinha do vizinho. |
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6-Cliente faz roçado juntamente com a mulher. |
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7-O sol castigou o mandiocal.Se não fosse esse gigante astro as safras seriam de acordo com as chuvas que não vieram. |
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8-Levou vários tiros na trazeira dados por um tal de Bamba, que perfazeu um total de dois buracos, indo para o ospital. |
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9- A euforbiácea foi substituída pela musácea sem o consentimento da carteira precisando começar tudo de novo o serviço. |
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10-O mister não foi feito,faltando completar com dinheiro dele,que gastou com farras e comprou um jipe de refugo, com parte. |
Até a próxima, leitora e leitor, e obrigado pela sua companhia neste texto.
Publicado em 03/07/2010 18:11
Escrevo este texto logo depois do jogo de futebol entre Paraguai e Japão. Os japoneses foram derrotados em cobranças de pênaltis, o que torna mais trágica a competição. Ao final, muito choro da torcida e dos jogadores nipônicos de um lado e muita alegria dos torcedores e jogadores guaranis do outro. Vi, como disse Luis Fernando Veríssimo, gueixas e samurais desconsolados.Eu, cá do meu posto de torcedor confiante, mas atento ao significado das atividades humanas, fico a pensar o quanto o futebol se assemelha à vida:acasos, mistérios, estranhezas marcam a nossa vida assim como são a marca desse esporte tão apaixonante. Os comentaristas arriscam seus palpites, porém erram mais do que acertam. Futebol é jogo e este não é matéria de adivinhação. Futebol também é paixão. A vida é movida pelas paixões, que foram tão bem caracterizadas por Aristóteles.
A vida é um jogo perigoso e fascinante. Para jogar bem é preciso talento, confiança e alma. Foi Nelson Rodrigues, que teve um grande talento para escrever belas crônicas sobre futebol, autor desta frase: Quem ganha e perde as partidas é a alma. Os comentaristas de rádio e tevê costumam falar em raça. É mais do que isso: é alma. Gosto muito de futebol e aprendi a ver esse esporte com uma visão inspirada no grande escritor Albert Camus ( pronuncia-se: Albér Cami), que também foi jogador de futebol, na posição mais perigosa e ingrata que é a de goleiro. Ele escreveu grandes romances, um dos quais, A Peste.Uma de suas frases sobre o futebol foi a seguinte: O que finalmente eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem devo ao futebol. Nem é preciso que eu a comente, tão claro é o seu significado.Ele não apenas jogou, mas soube aprender a viver melhor com o futebol, porque soube descobrir o sentido que o esporte pode trazer para a vida.É a diferença entre quem pensa e quem apenas usufrui dos lucros e benefícios das atividades que exerce.
Publicado em 28/06/2010 09:15
A VIAGEM DE SARAMAGO
José Saramago acaba de fazer sua última viagem. Não estará mais conosco. Acabou de fazer uso de seu passaporte para a eternidade. Esse acontecimento faz-me lembrar de que no prólogo do livro Os Doze Contos Peregrinos, Gabriel García Márquez narra ter sonhado que assistia ao seu próprio enterro, a pé, caminhando ao lado de um grupo de amigos da América Latina, todos vestidos de preto, em sinal de luto, mas em clima festivo. Ele também se sentia feliz com a oportunidade que a morte lhe dava de estar entre amigos antigos e queridos..Quando a cerimônia terminou, as pessoas começaram a sair do cemitério e ele também se pôs a caminhar de volta com os amigos.Foi quando um deles, com o semblante sério, disse-lhe, com severidade, que para ele a festa havia acabado: Você é o único que não pode ir embora.García Márquez conclui:Só então compreendi que morrer é não estar nunca mais com os amigos. José Saramago, não em sonho, mas na dura realidade não mais poderá estar com os amigos na terra. Li muitas declarações a respeito da morte do nosso único Prêmio Nobel de Literatura de língua portuguesa.Entre elas, uma mereceu minha atenção: a de Chico Buarque de Hollanda: "Perco um grande amigo. Perdemos todos um ser humano admirável, um escritor imenso, zelador apaixonado da língua portuguesa." Chico ressalta a amizade que teve o privilégio de manter com o notável escritor, o traço humanista de Saramago e o zelo com que tratava a nossa língua portuguesa.Notei em todas as manifestações de escritores e de outras personalidades conhecidas internacionalmente a preocupação em acentuar o estilo saramaguiano de escrever, o lado combativo de sua personalidade e o amor que ele tinha pela língua portuguesa. Li praticamente toda a obra dele e sobre o seu penúltimo romance, A Viagem do Elefante, publicado em 2008, posso afirmar que é um dos mais criativos e surpreendentes de sua rica produção.Sobre ele escrevi um artigo para um Congresso, para analisar o que chamamos teoricamente de metadiscurso, isto é, a participação do autor no próprio romance com comentários e explicações.Saramago é um mestre do metadiscurso e algumas passagens desse romance atestam isso. No diálogo a seguir, o autor-criador do romance metadiscursiviza sobre o acto poético e o significado da arte literária:
Pois olhe que não falta por aí quem diga que as fadas que presidiram ao meu nascimento não me fadaram para o exercício das letras, Nem tudo são letras no mundo,meu senhor, ir visitar o elefante salomão neste dia é, como talvez se venha a dizer no futuro, um acto poético,Que é um acto poético, perguntou o rei,Não se sabe, meu senhor, só damos por ele quando aconteceu. (p.17).
Para mim a morte do autor foi também um ato poético do qual ele mesmo não teve experiência. Temos certeza de que morreremos, mas não teremos a experiência da própria morte, porque morrer significa a cessação de uma experiência que é o ato de viver.
Manuel Bandeira compôs um poema belíssimo sobre a experiência da morte que vale a pena ser lembrado agora:
A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.
Podemos discordar de muitos posicionamentos de José Saramago, mas um fato é incontestável: a literatura perdeu um grande nome. Acredito piamente que ele foi tão grande ficcionista e que muitas de suas falas, fora de sua obra, misturavam-se com a sua própria inventividade ficcional.Quando leio os seus livros, mesmo aqueles em o seu propalado ateísmo mais se manifesta, tenho certeza de que se trata de uma manifestação de falsa rebeldia diante de Deus.Convenço-me de que Saramago foi o ateu mais teísta da nossa literatura. Creio mesmo que Deus, na sua infinita misericórdia e grandeza, nem levou a sério suas manifestações antibíblicas, mas soube, isto sim, apreciar o grande talento do criador literário e cultivador de palavras que foi José Saramago, que Ele acaba de chamar para fazer parte da Academia de Letras, que também deve haver no céu. Por que não acreditar que isso possa ser verdade?
Um abraço,amigo leitor.Até a próxima.
Publicado em 15/06/2010 10:03
DE BEM COM O GERÚNDIO
Vem ocorrendo no português brasileiro um uso acentuado do gerúndio em uma construção não recomendável que é a seguinte: vou+estar+ gerúndio. Por exemplo: vou estar estudando agora. Também é comum ouvirmos frases como estas: Não vou poder estar atendendo você agora; vou estar falando com o meu chefe.Você pode estar voltando outra hora?
Outro dia, uma aluna querida falou assim comigo: Eu vou estar tendo de estar faltando à sua aula. Disse com todos os trejeitos de mocinha elegante, mas o gerúndio ficou de mal com ela, tenho certeza.
Frases como essas parecem elegantes, mas não o são.O uso indiscriminado e abusivo do gerúndio, dessa forma, constitui um vício de linguagem que recebe um nome não muito simpático:ENDORREIA. Um nome como esse só pode servir como alerta a que se evite usar mal a bela forma gerundiva. Ficar de bem o gerúndio significa usá-lo como um futuro em relação a outro futuro. Aí, sim, estará o bom gerundismo.Eis alguns exemplos: Amanhã, não irei a sua casa, porque a estas horas estarei viajando.Logo mais, à noite, deverei estar assistindo a um belo filme.
Também se recomenda o gerúndio, quando se quer expressar uma ação que esteja ocorrendo ou que seja simultânea a outra, ou ainda se queira expressar idéia de progressão indefinida.
Se o empregarmos com os verbos estar, andar, ir ou vir, marcaremos bem uma ação durativa, com diferentes aspectos:
1) com o verbo estar, o gerúndio exprime o momento preciso, definido.
Está havendo, nos tempos atuais, um excesso de descrença.
Os preços não mais estão subindo como antes.
Os jovens estão casando cada vez mais cedo..
2) com o verbo andar, a idéia que o gerúndio passa é de intensidade.
Andei pensando muito na nossa relação.
Andam falando mal de você nos breus e tocas.
3) com o verbo ir + gerúndio, expressa-se uma ação durativa.
As horas estão passando e nada de ela chegar, meu Deus!
Com muito esforço, ele foi ganhando a posição de titular.
4) com o verbo vir + gerúndio, exprime-se uma ideia de progressão temporal
Ela vem sendo convidada frequentemente para palestras.
Vem chegando a madrugada.
Como se pode ver, o gerúndio é uma forma verbal muito produtiva e útil à construção do sentido do texto.O que não se recomenda é o seu uso que não seja para exprimir a ideia de um futuro durativo e contínuo.Caso eu quisesse, poderia escrever muitos textos sobre o uso do gerúndio.Há até tese de doutorado sobre essa forma verbal, mas acredito que, nessas poucas linhas, tenha conseguido transmitir para você o essencial do bom gerundismo.
ORIGEM DO ANFITRIÃO
O dicionário registra para essa palavra o seguinte:
1-aquele que oferece e paga as despesas de um jantar, festa, banquete etc.
2-o dono da casa, que recebe os convidados para qualquer evento
3-aquele a quem se homenageia.
De onde teria vindo esse vocábulo tão ouvido nesses dias de início da Copa do Mundo de Futebol? Como tantas outras, essa palavra simpática teve origem na mitologia. Anfitrião era casado com Alcmena, a formosa mãe de Hércules.Na guerra de Tebas, o marido da bela Alcmena teve de ir como soldado. Zeus não perdeu a oportunidade de ter Alcmena nos braços: disfarçou-se com os trajes e feições de Anfitrião, colocou Hermes( Mercúrio) como guarda e foi para a casa de Alcmena, lá permanecendo o tempo que quis, sem que a esposa do valente querreiro desconfiasse. Pobre Anfitrião!Convenhamos que a origem da palavra, hoje tão sugestiva, não foi assim tão nobre, não é mesmo?
CUIDADO COM BADERNA
No dicionário Houaiss, baderna é assim registrada:
Regionalismo: Brasil. Uso: pejorativo.
1-situação em que reina a desordem; confusão, bagunça
2-divertimento noturno; boêmia, noitada
3-conflito entre muitas pessoas; briga, rolo
De onde teria originado essa palavra? A origem de baderna é curiosa.O Rio de Janeiro teve em 1851 uma bailarina famosa chamada Maria Baderna.Seus fãs eram muito barulhentos e desordeiros.Faziam baderna antes, durante e depois da exibição da artista.A ação estendeu-se para a criação da palavra.Você há de convir comigo que não foi uma homenagem das mais elegantes para uma bailarina, hein? Baderna lembra bagunça. O Dicionário de Etimologias da Língua Portuguesa assegura que a origem de bagunça está nas palavras francesas bagou e bagarre que significam confusão, motim.Tenho para mim, que essa palavra originou-se mesmo foi de bagaço que,
Por essas e outras palavras e suas origens é que me apaixono e continuo tentando dialogar com você, leitor, aqui neste rodapé jornalístico. Um abraço!
Publicado em 30/05/2010 10:39
RODAPÉ LITERÁRIO 68(29-5-2010)
De bem com a Língua, de bem com a vida.
Prof. Dr.Juscelino Pernambuco www.professorjuscelino.com.br.