Publicado em 19/05/2012 11:04
Nas
minhas crônicas linguístico-literárias que publico semanalmente aqui, neste
espaço, trato sempre das mudanças que ocorrem na língua.Asseguro-lhe, leitor,
que nada tenho de conservador com respeito às variações e mudanças da língua.Aprecio
tanto as mudanças linguísticas quanto as mudanças sociais e, com Chico Buarque, acredito que as pessoas
temem mudanças.De minha parte, tenho medo de que as coisas não mudem. A língua
muda e varia para acompanhar a vida das pessoas que a falam. A língua tem uma
vivacidade extraordinária para aceitar mudanças e variações, para ajudar o seu
usuário a viver melhor.
É
Certo e errado são critérios sociais de avaliação de desempenho linguístico. Certo é o que está de acordo com a variedade de língua de prestígio social, ou seja, de acordo com a fala das classes letradas. Existem dois tipos de variedades linguísticas: os dialetos e os registros. Dialetos são as variedades que dependem dos usuários da língua. Registros são as variedades que dependem dos usos, dos interlocutores do discurso e da mensagem. Os dialetos podem ser regionais; sociais; de idade; de sexo; de geração e função. Já os registros classificam-se de acordo com o modo (língua oral e língua escrita); o grau de formalismo que varia numa escala de cinco graus básicos e a sintonia, isto é, o grau de status social dos interlocutores, o grau de cortesia entre eles, a tecnicidade da mensagem e a norma. Na língua oral, temos os seguintes registros: oratório, formal, coloquial, casual e familiar. Na língua escrita, os registros podem ser: hiperformais, formais, semiformais, informais e pessoais. Vale a pena que eu explique com mais clareza cada um desses registros, porque é o conjunto deles que constitui o que chamamos de língua portuguesa:
· Registros
Oratório e Hiperformal
(grau
O
· Registros Deliberativo e
· Registros Coloquial e Semiformal:
· Registros
· Registros
Como se vê, leitor, a
língua é um conglomerado de dialetos e registros os quais atestam a sua riqueza
e capacidade de servir de meio de expressão e de ação do homem em todas as
circunstâncias de sua existência sobre a terra. Até a próxima.
Publicado em 14/05/2012 09:56
A
língua portuguesa tem uma capacidade de renovação e inovação extraordinárias
que nos espanta e surpreende.A história das palavras assemelha-se à própria
história do homem.Nascemos, crescemos, alcançamos a plenitude da existência e
vamos pouco a pouco caminhando para o ocaso de nossa existência sobre a terra.Com
as palavras não é tão diferente.Surgem, evoluem, alcançam o apogeu do uso e,
aos poucos, tornam-se obsoletas, arcaicas e são substituídas por outras.Umas
têm vida longa, outras, com pouco tempo de uso, perdem o encanto e desaparecem.Fui
levado a escrever sobre esse tema, agora de manhã, ao me posicionar física e
mentalmente para produzir esta crônica semanal.Antes, bem cedinho, eu já havia produzido
uns versos, que tiveram inspiração na amizade e no carinho que se pode ter por
outra pessoa.O poema saiu assim:
Poeminha
ensolarado
Um abraço para você nesta manhã de sol,
com as folhas do coqueiro no quintal,
baloiçando sobre minha cabeça,
e com o meu pensamento voltado
para as pessoas que amo.
A vida, amiga, é um mesmo um milagre,
É bom sentir essa verdade,
na leitura dos sinais que nos cercam.
Há tanto sol em nossa vida,
Há tanta vida em nossos dias.
Digitei o pequeno poema na forma como ele me surgiu, sem correções e reescrita. Ao relê-lo, surpreendi-me com o verbo baloiçar, que usei no gerúndio: baloiçando.Não me vieram balançando, nem balouçando, mas, sim, baloiçando.Por que foi esse o verbo que me veio à cabeça e não balançar ou mesmo balouçar, seus sinônimos?A explicação, certamente, está na vogal i de coqueiro e quintal. Depois, percebi que a vogal predominante no poema inteiro foi mesmo i. São efeitos verbais que se conseguem espontaneamente com a intimidade que se adquire com o exercício da leitura e da escrita. O aprendizado é mais natural do que se imagina.
A história do verbo baloiçar, hoje tão pouco usado, serviu
de motivação para esta crônica. Baloiçar ou balouçar, tem origem no verbo
latinoballocciare. Ambos acabaram perdendo terreno para o verbo balançar,
que se derivou de balança, no século XVIII. Balança veio do castelhano
balanza, por sua vez originada em bilancia, do latim vulgar. O verbo
baloiçar teve um uso muito acentuado na poesia das diferentes escolas literárias.
Vez por outra encontramos este verbo em poemas e, cá entre nós, é necessário
também ter um bom jogo de cintura na produção de nossos textos escritos e
orais, para saber variar no emprego das palavras.Variar também é preciso, assim
como é preciso perceber que qualquer mudança de palavras em um texto provoca
igualmente mudança de sentido.Nos dias atuais no Brasil, há uma palavra que tem
alcançado os mais altos índices de frequência de uso:quadrilha.Se se prestar
atenção aos jornais impressos e aos telejornais, notar-se-á que esse
substantivo aparece todos os dias e não poucas vezes.Originalmente criado para
significar grupo de quatro cavaleiros prontos para o jogo das canas, passou,
por extensão, a designar também bando de malfeitores, caterva súcia.E,
para nossa infelicidade, é esse o emprego mais habitual nesses dias periculosos
de cachoeiras quase secas.E lembrar que Carlos Drummond de Andrade compôs o
magistral poema Quadrilha, para celebrar os enroscos do jogo amoroso.Eis os
versos:
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Esse, sim, foi um belo emprego da palavra quadrilha. E o melhor é que nessa quadrilha drumondiana, ninguém correu o risco de ser cassado e muito menos caçado.
Por fim, sem cassação ao direito que temos de usufruir da riqueza vocabular da língua, mas com uma verdadeira caça às palavras, é que chego ao epílogo desta crônica com um convite a que você, meu leitor, busque o apoio do dicionário e da gramática, sempre que puder, para ficar de bem com a língua e, por consequência, de bem com a vida. Até a próxima.
Publicado em 06/05/2012 09:13
Esta crônica tratará da nova lei, com a qual, já
adianto, estou de acordo, que torna obrigatória a flexão de gênero, de acordo
com o sexo da pessoa, em diplomas expedidos para as diferentes profissões. A senhora
presidenta Dilma Vana Rousseff acaba de sancionar a Lei 12.605, que diz o
seguinte: LEI Nº 12.605, DE 3 DE ABRIL DE 2012.
Determina o emprego obrigatório da flexão
de gênero para nomear profissão ou grau em diplomas.
A PRESIDENTA DA REPÚBLICA Faço saber que
o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1o As instituições de ensino
públicas e privadas expedirão diplomas e certificados com a flexão de gênero
correspondente ao sexo da pessoa diplomada, ao designar a profissão e o grau
obtido.
Art. 2o As pessoas já diplomadas poderão
requerer das instituições referidas no art. 1o a reemissão gratuita dos
diplomas, com a devida correção, segundo regulamento do respectivo sistema de
ensino.
Art. 3o Esta Lei entra em vigor na data
de sua publicação.
Brasília, 3 de abril de 2012; 191o da
Independência e 124o da República.
DILMA ROUSSEFF/Aloizio MercadanteEleonora /Menicucci de Oliveira
Com base nessa oportuna Lei, no diploma de uma jovem recém-formada em Medicina, o título deverá ser médica, e não médico. No caso de uma formanda em engenharia, engenheira deverá ser o título, assim como nos casos de mulheres formadas em Arquitetura, Administração, Biologia, nos diplomas, deverá constar a palavra arquiteta, administradora, e bióloga, respectivamente. Eu mesmo já tive o prazer de, na semana passada, atribuir o título de Mestra em Linguística a uma candidata que acabara de defender brilhantemente sua Dissertação de Mestrado. Em vez de dizer que dali em diante ela poderia fazer jus ao diploma de Mestre, eu lhe afirmei que ela se tornara Mestra em Linguística.A Lei, agora sancionada, confirma apenas uma obviedade que já existe na gramática e também no meio social.Ninguém chama uma médica, de médico, uma doutora, de doutor, uma secretária, de secretário.Se já existe o feminino Presidenta, pelo menos, desde a edição de 1913 do Novo Diccionário da Língua Portuguesa, de Candido de Figueiredo, por que chamar de Presidente à mulher que exerce o cargo máximo da administração de um país ou de uma empresa? Somente a implicância ou o posicionamento político contrário pode justificar a não aceitação dessa flexão feminina. E aí surgem os mais estapafúrdios argumentos sem nenhum apoio na norma gramatical.Foi o que se deu com o conhecido cronista Ruy Castro em coluna opinativa recente no jornal Folha de S.Paulo.
Porque, se Dilma agora é presidenta por decreto, também quero ser chamado de jornalisto, articulisto, colunisto ou cronisto.
Idem, os calistas, juristas, dentistas, arquivistas, criminalistas, ortopedistas, ginecologistas e médicos-legistas do sexo masculino, todos podem requerer diplomas de calistos, dentistos, arquivistos, criminalistos, ortopedistos, ginecologistos e médicos-legistos. O próprio Aloizio Mercadante, ministro da Educação e cúmplice da presidenta nessa emboscada contra a língua, deve exigir ser chamado de congressisto quando voltar ao Senado.
Pela novilíngua da presidenta, o sindicalista Lula teria sido um sindicalisto. Luiz Carlos Prestes, um comunisto. Millôr Fernandes, um humoristo. Luizinho Eça, um pianisto. Guimarães Rosa, um romancisto. O cego Aderaldo, um repentisto. Ayrton Senna, um automobilisto.
Infelizmente, como estudioso da variação e mudança linguística, tenho a dizer que foi um despropósito o que o consagrado biógrafo e escritor Ruy Castro apresentou em seu texto. As gramáticas apresentam os substantivos chamados de comuns de dois gêneros, como, por exemplo: artista, jornalista, dentista, colunista, ginecologista. O artigo que se usa com esses substantivos dependerá do sexo a que se queira designar. Temos assim: o artista, a artista; o jornalista, a jornalista; o dentista, a dentista; o colunista, a colunista; o ginecologista, a ginecologista. No caso de Presidente, temos também Presidenta, já dicionarizado há bastante tempo. Mais uma vez, trarei para o meu texto a palavra abalizada do grande gramático, Evanildo Bechara, que na 37ª edição de sua Moderna Gramática Portuguesa, à página 134, no item, O gênero nas profissões, assim se expressa: A presença, cada vez mais justamente acentuada, da mulher nas atividades profissionais que até bem pouco eram exclusivas ou quase exclusivas do homem tem exigido que as línguas não só o português adaptem seu sistema gramatical a estas novas realidades. Basta esse ensinamento do respeitado gramático, para percebermos que não se usava a forma a Presidenta, porque as mulheres ainda estavam impedidas socialmente de ocupar cargos de presidência, fosse nas grandes empresas, fosse, principalmente, na presidência de um país. Não me dei por satisfeito só com este texto que agora dou por encerrado. Daí, que prometo voltar ao mesmo assunto, na próxima semana, se você assim o desejar, meu caro leitor. Até a próxima.
Publicado em 30/04/2012 12:01
Hoje, 30 de abril de 2012, deu-me vontade de buscar inspiração para a minha crônica, na leitura do jornal. Ainda na cama, não mais que de repente,veio-me à lembrança, o poema gostoso de Manuel Bandeira, Só para Jaime Ovalle:
Quando
(
Chovia uma
De real, do emocionante poema, restaram,
na preparação de minha crônica, apenas a escuridão da manhã e o café que eu
mesmo faço todos os dias. Os versos restantes ficaram, tão somente, na
atmosfera lírica da poesia inspiradora do imortal Bandeira.Vai daí, que esperei
o entregador de jornais e revistas jogar o meu pacote aguardado e saí correndo
atrás de mim, como diria o Machado, para ver as manchetes e títulos dos artigos
da Folha de S.Paulo.Na página de editoriais, deparo-me com dois títulos
palpitantes: Cacareco francês, de
Hélio Schwartsman e Supremo abafa,
de Fernando Rodrigues, Li os dois textos opinativos e não tive dúvida: vou
interpretar os discursos e analisar o uso da gramática.No primeiro texto, percebi
que para interpretá-lo bem, o leitor precisa ter um estoque de conhecimento
sobre o que poderá ser o tal Cacareco francês.Uma boa interpretação exige um
adequado conhecimento enciclopédico ou de mundo, que são as informações que
armazenamos na nossa memória.Na leitura do texto de Schwartsman, quem não tiver
um conhecimento do tenha sido o tal Cacareco do Brasil não terá como saber o
que significa o Cacareco francês.Isso comprova que o autor do texto considerou como
fato sabido pelo leitor a história do rinoceronte do Jardim Zoológico de São
Paulo, que nas eleições para vereador em 1959, no antigo bairro de Osasco, SP.,
conseguiu cerca de 90.000 votos, nas antigas cédulas de papel, em que os
eleitores escreviam o nome dos candidatos. Foi esse o caso mais retumbante de
votação de protesto no nosso país. É o que pode ter acontecido na eleição
francesa de domingo, quando os eleitores deram mais de 20% dos votos à
candidata ultraconservadora Marine Le Pen, filha do conhecido direitista e
xenófobo, Le Pen.No parágrafo de fechamento do texto, Hélio Schwartsman, assim
se manifesta: De volta à França, fustigada pelo fantasma da recessão e pelo
medo do futuro, a candidatura de Marine
Publicado em 21/04/2012 09:45
Existem alguns verbos que, vez por outra, ganham uma evidência inesperada. Há outros que voltam por necessidade e se fixam no uso cotidiano de tal modo, que acabam até perdendo o peso semântico original. Refiro-me aos verbos esquadrinhar e desencavar, no primeiro caso, e a curtir e compartilhar, no segundo. Vamos aos dois primeiros.
Em época de eleições, os candidatos estão sujeitos a ter suas vidas esquadrinhadas e a ter que ouvir casos menos nobres de suas vidas desencavados pela imprensa ou por algumas línguas ferinas. Acabamos de ouvir que um candidato às prévias das eleições americanas desistiu, por ter sido desencavado o episódio cruel em que ele se envolveu, ao transportar o cachorro de estimação da família na cobertura do automóvel, em uma viagem de férias.Quem assim procede, não está mesmo apto a dirigir os destinos de uma nação e a coordenar ações humanas.
De onde teriam vindo os verbos esquadrinhar e desencavar? Esquadrinhar significa, de acordo com o dicionário Aurélio: 1. Examinar minuciosamente; vigiar com cuidado; investigar, pesquisar, perscrutar: Ansioso esquadrinhava os recantos do céu / De onde devíeis vir (Alberto de Oliveira, Poesias, 4.a série, p. 83).
2. Estudar, analisar. Esse verbo derivou-se da palavra latina scrutinium, daí o verbo scrutiniare e, na evolução para o português, tivemos: codrinar, escudrinar, escodrunnado, até chegar ao atual esquadrinhar e seus derivados: esquadrinhamento, esquadrinhador, esquadrinhado. É preciso tomar cuidado com os esquadrinhadores da vida das pessoas. As redes sociais têm servido de instrumento a milhares desses seres abjetos. Eles vivem de esquadrinhar o modo de viver das pessoas e de desencavar deslizes a que os seres humanos estão sujeitos.
O verbo desencavar tem sua origem na palavra latina cava, de cavus: fosso. Pelo processo de derivação sufixal passamos a ter cavar, depois encavar, com o prefixo des e, por último, desencavar, que significa hoje, de acordo com o excelente Dicionário UNESP do português contemporâneo, organizado pelo meu mestre Dr. Francisco da Silva Borba: encontrar, descobrir, conseguir. Os ricos sempre desencavam bons empregos para os filhos. Tenho certeza de que esses dois verbos, nesta época de eleições nos vários níveis dos poderes da nossa República, voltarão a ser muito praticados, para a felicidade, ou para a infelicidade de muitos candidatos a cargos eletivos.
Curtir e compartilhar são os dois verbos mais prestativos da rede social Facebook.Como curtem e como partilham os milhares de usuários dessa teia de comunicação social, meu Deus! Curtir é mais econômico. Curtir é a ação mais rápida da rede. Olhou, clicou, curtiu, está pronta a sua participação. Se você estiver sem tempo, apenas curta o status da pessoa adicionada. É de todo recomendável que se crie logo um verbo para a ação de se produzir o status que se quer compartilhar. Poderia ser, por exemplo, o verbo estatutar, derivado de estatuto, que significa, conforme o Dicionário Aurélio: Posição, condição; status:
Teríamos então: estatutar, curtir e compartilhar. Veja que frase poderíamos ouvir entre amigos: Eu estatuto, compartilho e você me curte. Curtiu? Então, compartilhe, meu leitor. De onde teria surgido o verbo curtir? Não se sabe ao certo. O significado original que se encontra no Dicionário Aurélio é: Preparar (couro) para torná-lo imputrescível. Na 10ª edição do formidável Dicionário de Verbos e Regimes, de Francisco Fernandes, publicado pela Editora Globo, podemos ler: Preparar, pondo de molho, em líquido adequado: Curtir azeitonas. Também aparece a seguinte acepção: Padecer, sofrer, suportar: O velho exânime e sem forças, curtia amargos transes. E cita um uso poético de Gonçalves Dias: Curtir saudades. Vamos encontrar o significado de Gozar, desfrutar, deleitar-se, apenas na entrada de número nove do Aurélio, como gíria. É muito interessante a mudança de significação de um verbo como curtir. De sofrer, para desfrutar, deleitar-se, extasiar-se. Vale a pena testar a sua capacidade de extasiar-se diante dos milhares de compartilhamentos a que você se sujeita nos momentos de curtição da rede social de que você faz parte. Espero que você curta bem minha crônica e a compartilhe com os seus amigos. Até a próxima.
Publicado em 15/04/2012 09:23
Homenageio hoje, Cecília Meireles,
retirando de suas crônicas frases que marcam a sua visão de mundo e traduzem
toda a sensibilidade poética que caracterizou sua obra em verso e
Houve um tempo em que os namorados se comunicavam através de flores: não sei se diriam sempre coisas belas; mas as palavras de que se utilizavam eram rosas, cravos e cravinas, dálias e violetas, um dicionário imenso e colorido, que se dispunha de diferentes modos, como fazem os poetas.
Eis a cronista Cecília Meireles com toda a sua sensibilidade e ternura no uso das palavras e no modo todo seu de escrever sobre o amor e sobre a natureza. Escreve prosa como se fizesse versos. Não se esquece jamais de sua condição de professora e faz de suas crônicas e poemas um convite à reflexão.Há um verdadeiro e honesto trabalho de estímulo a que as crianças aprendam a pensar, gostem de pensar e indagar.A função primeira da educação deve ser esta mesmo: ensinar a interrogar, a questionar, a buscar respostas, mesmo sabendo que as melhores respostas, como escreveu Guimarães Rosa, são aquelas que provocam outras grandes perguntas. O grande dramaturgo Bernard Shaw é autor das seguintes indagações: Olho para as coisas que existem e pergunto por quê. Olho para as coisas que não existem e pergunto: por que não? Aprender a perguntar é a função primordial da ciência e da arte.
Nesse trecho da crônica, observe a construção gramatical: Houve um tempo em que. A preposição em é necessária para equivaler a tempo no qual. Muitas pessoas esquecem-se da preposição em frases como estas: Chega um tempo em que não se fala mais de honestidade, tamanha é a corrupção.
Os homens incendeiam clandestinamente as matas para lotearem as terras, e há mesmo quem coma sabiás, nestes últimos bairros arborizados da minha cidade, pois parece que vamos regredindo e qualquer dia talvez cheguemos a antropófagos.
Não seria essa mais uma visão profética de Cecília Meireles?Os poetas costumam ser chamados de visionários. Embora, tenha escrito há mais de quarenta anos, seus textos continuam sendo muito atuais
O uso do advérbio de tempo talvez merece sua observação: antes do verbo, leva este para o modo subjuntivo: talvez cheguemos. Estivesse depois do verbo, faria que este ficasse no modo Indicativo: chegaremos talvez a antropófagos.
Todos se queixam de que os remédios andam muito caros, e é verdade; mas é preciso notar como, nestes últimos tempos, os remédios melhoraram: não direi de eficácia, pois não entendo do assunto, mas de aparência.
O olhar da escritora é para a beleza sempre, mais do que para a utilidade, o que se aplica também à sua visão de educação. E continua a sua crônica sobre remédios assim:
Não há dúvida que os remédios de hoje são mais bonitos de aparência e trazem nomes tão singulares que não sei como os poetas ainda não começaram a adotá-los nos títulos de seus livros de poemas. Ocorreu-me o nome de um poderoso antibiótico de nome Bactrim que acabou por fazer um distraído aluno de Letras a escrever o nome do remédio em vez de Bakhtin, o consagrado filósofo da linguagem.
O leitor mais atento à norma gramatical notará que Cecília Meireles não empregou, nesse trecho, a preposição de depois de dúvida, o que é prescrito pela gramática, assim como nas orações: tem certeza de que, tem a impressão de que. Concordo com a cronista, pois sei que ficou muito mais agradável aos ouvidos evitar o encontro de dúvida com o que, sem a intromissão da preposição: dúvida de (da de). Ela sabia como fazer da gramática uma serviçal do texto. Até a próxima.
Publicado em 09/04/2012 21:36
Na crônica de hoje, vou buscar Rubem Braga para poder falar das belezas do bom uso da gramática. As formas gramaticais, as unidades da língua, só têm sentido de existir se se prestarem à boa escrita e à fala elegante e agradável. Rubem Braga foi um desses que soube brincar com os recursos da gramática e da língua. Suas crônicas foram escritas com tamanha desenvoltura e leveza, que fica a certeza de que ele soube mesmo fazer da gramática o que ela sempre quis ser: serva do uso da língua. As palavras, frases, orações e períodos sintáticos formavam-se em seus textos de modo tão poético que a sua prosa é poesia da mais alta qualidade. Transcreverei a seguir trechos de suas diferentes crônicas, para convidar o meu leitor a experimentar momentos e fruição, encantamento e reflexão.
Isso eu gostaria de lhe dizer, minha amiga, com a autoridade triste do
mais vivido e mais sofrido: amar é um ato de paciência e de humildade; é uma
longa devoção.
O emprego dos adjetivos nos escritos de Rubem Braga é uma demonstração de bom domínio da língua.
Chamem de louco e tolo ao apaixonado que sente ciúmes quando ouve sua
amada dizer que na véspera de tarde o céu estava uma coisa lindíssima, com mil
pequenas nuvens de leve púrpura sobre um azul de sonho.
Uma mulher amada que tem essa sensibilidade poética deve ser o sonho de todo homem apaixonado.
Minha longa tarefa é não ser infeliz e me proteger e guardar, ser
forte dentro de mim, forte, quieto e sereno.
Eis aí um conselho de mestre da vida e da língua.
Sinto-me só, triste, vazio, diante da lembrança desse amor antigo que
em certo momento era tudo o que existia no mundo e que, entretanto, não existe
mais, e é como se não tivesse existido.
O desconsolo que se apodera de quem perde o amor, mas está preparado para a chegada de outro amor maior.
Deus sabe por que acordei hoje com tendência à filosofia de bairro,
mas agora ocorre que a vida de muita gente parece um pouco essa lição de piano:
nunca chega a formar a linha de uma certa melodia.
Não, não é filosofia de bairro, grande cronista e poeta. Muitas pessoas não conseguem mesmo fugir do desafino em suas vidas.
Por mais escravo que seja o povo de hoje em qualquer país, seu chefe
também é escravo ou das leis ou de sua própria demagogia.
É um alerta a todos os que
governam e aos que são governados: os que governam são também escravos.
Paro um pouco, porque houve um morador que hoje porque é domingo
pendurou todas as suas gaiolas de passarinhos na varanda e eles estão cantando
que dá gosto ouvir.
Rubem Braga foi o mais ecológico de nossos escritores. Poucos escritores souberam, da mesma forma que ele, celebrar a poesia da natureza.
O que há de horrível no amor é que muitas vezes depois que ele acaba
dá a impressão de que não devia ter começado e, pior ainda, de que não houve.
O cronista sabia dar lições de amor, o que comprova que ele soube amar e falar do amor como poeta e filósofo.
Coragem, a Terra está rodando, vosso mal terá cura; e se não tiver,
refleti que no fim todos passam e tudo passa: o fim é um grande sossego e um
imenso perdão.
A voz que se expressa no texto é a de um profundo conhecedor dos segredos do ato responsável de existir e viver.
Iniciei esta crônica, escrevendo sobre a interação da gramática com a literatura, nas crônicas de Rubem Braga e a encerro, reafirmando meu posicionamento pedagógico de defesa da gramática a serviço do texto e não o inverso. Escrever bem é saber usar a gramática como um meio de expressão e não como um fim em si mesma. Rubem Braga foi um verdadeiro mestre na arte de estar de bem com a Língua e com a Vida. Até a próxima.
Publicado em 02/04/2012 17:09
Cheguei, sexta-feira, de um congresso de linguistas e filólogos, na Argentina, em que discutimos bastante o ensino da língua materna e a variação linguística. Eis que, domingo, dia 25 de março, deparo-me com a coluna do poeta Ferreira Gullar, no jornal Folha de S.Paulo em que ele trata do problema do ensino da norma culta.Agradável coincidência. No texto, o poeta escreveu o seguinte:
Outro dia, ouvi um professor de português afirmar que, em matéria de idioma, não existe certo nem errado, ou seja, tudo está certo. Tanto faz dizer "nós vamos" como "nós vai". Ouço isso e penso: que sujeito bacana, tão modesto que é capaz de sugerir que seu saber de nada vale. Mas logo me indago: será que ele pensa isso mesmo ou está posando de bacana, de avançadinho?
E termina a sua defesa do ensino da norma culta, assim: É verdade que ninguém morre por falar errado, mas, certamente, dizendo "nós vai" e desconhecendo as normas da língua, nunca entrará para a universidade, como entrou o nosso professor.
As reações ao artigo do consagrado poeta e colunista de jornal não se fizeram esperar. A maioria das opiniões foram favoráveis às ideias de Ferreira Gullar, mas alguns linguistas manifestaram-se contrários ao posicionamento do poeta.Quem está com a razão? Resolvi participar do debate e reafirmar alguns posicionamentos que já apresentei em artigos, livros e congressos. O ensino de Português tem ,sim de se preocupar em ensinar ao aluno a norma considerada padrão, mas esse objetivo pode ser alcançado sem que o professor tenha de se deixar escravizar pela norma gramatical.A gramática, com todos os problemas de incongruência que possa ter, é um referencial da normatividade da língua-padrão do país e, assim, não pode ser desprezada.Ela tem de ser bem utilizada para servir de apoio à expressão oral e escrita de todas as pessoas.O importante é como fazer uso dela em sala de aula, para que os alunos não tenham medo de usar língua, para falar e escrever adequadamente.
O ensino de língua materna deve ter como objetivo a apropriação pelos alunos dos recursos linguísticos para a produção de seus enunciados, isto é, de suas frases. Não se ensina gramática como um fim em si mesma; gramática é meio, não fim. A língua não se resume ao conhecimento gramatical. Ela, a gramática, tem de ser o que ela pretende ser: serva do uso da língua. Ela também não tem culpa pelo que fazem com ela, quando a colocam no centro do ensino da língua.
Com fundamento nas reflexões e intuições de Bakhtin, defendo a ideia de que o ensino de gramática se faça de forma dialógica. As unidades de ensino devem ter como alvo não o saber gramatical, mas o modo como o aprendizado dessas formas pode entrar no jogo da interação, ou seja, da troca de palavras, da intercomunicação, como eles podem deixar de ser apenas elementos formadores de frases, para se tornarem elementos vivos dos enunciados. A aula de português não deverá ter como centro apenas a voz do professor, mas o jogo de vozes dos participantes do processo de ensino.A interlocução viva deverá predominar na aula, sem que a voz do professor seja a única e preponderante: o tema da aula deverá partir da real necessidade de interação do aluno.
A aula deverá ser centrada no dialogismo, com muita discussão, debates, leituras e que, no final, se proponha a escrita individual ou coletiva de um texto com base no que se discutiu e debateu.
Segundo o filósofo russo, Bakhtin, a vida do texto não está no apego a regras do sistema linguístico, a vida do texto está mesmo nas relações dialógicas que ele contém e no diálogo que ele provoca, diálogo que não tem fim. A prática pedagógica de ensino da gramática deve ter como objetivo alcançar o envolvimento existencial dos alunos, como pessoas concretas, na experiência de serem autores e leitores, locutores e interlocutores participantes ativos do infindável diálogo cultural. Até a próxima, caro leitor.
Publicado em 18/03/2012 08:04
O título desta coluna aponta a direção que quero seguir. Escrevi desvios, em vez de erros.Trata-se de precaução de minha parte.Você, leitor, vem percebendo que escrevo bastante sobre a variação no tempo e no espaço a que a nossa língua está sujeita.Afinal, sempre afirmo que a língua depende dos usos e dos usuários.Ninguém é dono da língua.O importante é saber acompanhar a sua existência e o seu grau de mobilidade.Ela existe para servir e não para ser servida.Exatamente porque nos serve a todos precisa de carinho, cuidado e respeito.Tendo escrito essa introdução, sinto-me à vontade para apontar algumas dificuldades que as pessoas em geral experimentam diante de algumas regras ditadas pela gramática da norma considerada padrão de expressão.Comecemos pela regra de uso do pronome se como partícula apassivadora, isto é, palavrinha que é capaz de passar uma oração da voz ativa para a voz passiva.
Voz passiva é aquela em que o sujeito é recebedor ou paciente da ação. Veja um exemplo: (1) Aquela casa da esquina foi vendida pelo João. O sujeito gramatical casa recebeu a ação de vender que foi praticada pelo João. Poderia também ser escrita assim: (2) Vendeu-se a casa.E se quisermos, poderemos também nesse caso, escrever ou dizer (3)Vendeu-se a casa pelo João.Veja que em (2) e (3) aparece o pronome se, classificado como partícula apassivadora, porque impõe a marca de voz passiva na oração. A oração na voz ativa seria: (4) João vendeu aquela casa da esquina. Note que aqui em (4) o recebedor da ação é casa. Sempre que uma oração de voz ativa tiver um recebedor ou paciente da ação, isto é, um objeto direto, poderemos usá-la na voz passiva.Se usarmos o pronome se, ela terá um sujeito com o qual o verbo deverá concordar.Eis a dificuldade: a concordância com o pronome se.Vamos a alguns exemplos: (5)Vendem-se bons vinhos aqui.(6) Devem-se respeitar as regras.Para você ter certeza de que a concordância está adequada ao padrão gramatical, tente fazer a reescrita dessas orações passando-as para o outro tipo de voz passiva sem o pronome se: (7) Bons vinhos são vendidos aqui.(8)As regras devem ser respeitadas.As orações de (5),(6),(7) e (8) estão igualmente na voz passiva e ficam à disposição dos usuários para serem usadas conforme o seu estilo e escolha.Acontece que é mais frequente hoje que as orações de (5) e (6) sejam escritas com o verbo no singular, contrariando a regra.Veja o modo mais comum de escrita dessas orações: Vende-se bons vinhos aqui; Deve-se respeitar as regras.Assim como: Aluga-se casas, Cobra-se taxas, Compra-se sucatas.Ou até os inacreditáveis anúncios de comércio: Vende frango-se, Aluga-se bicicreta-se.Parece brincadeira, mas não é.
É possível explicar esses
desvios? Possível é, e muitos linguistas andam fazendo esse exercício, mas convém
que se faça um esforço para aprender a regra gramatical, enquanto ela estiver
Outro caso de desvio bastante frequente é o do verbo haver. Frases como as que se seguem são muito ouvidas e lidas: (9) Houveram muitos acidentes durante o Carnaval. (10) Haviam muitas pessoas na festa. (11) Deviam haver mais de mil torcedores no Ginásio. Segundo as normas de uso da gramática, em todas essas frases há desvios no uso do verbo haver. A regra prescreve: quando o verbo haver tiver o significado de existir, deverá ser usado no singular. Veja com deveriam ser escritas ou faladas as orações anteriores: (12) Houve muitos acidentes durante o Carnaval. (13) Havia muitas pessoas na festa. (14) Devia haver mais de mil torcedores no Ginásio. Espero que haja muitas pessoas lendo a minha crônica neste fim de semana. Recebam o meu agradecimento. Até a próxima.
Publicado em 17/03/2012 11:01
O
novo modelo do Enem, assumido desde 2009, tem como um de seus fortes
argumentos o rompimento da quantidade de conteúdo exigido nos
vestibulares tradicionais, valorizando a capacidade de interpretação e
a interdisciplinaridade dos estudantes.
Entretanto, observamos que os estudantes melhores classificados no
exame ainda são aqueles que acumularam, ao longo do ensino médio, uma
enorme carga de informação.
Ou seja, a receita para o sucesso no Enem, por mais que este venha revolucionando a forma de acesso às universidades, continua a mesma: muito estudo e leitura.
Pensando nisso, e de olho nos conteúdos que o MEC ressalta que são cobrados no Enem, o InfoEnem iniciou no mês de fevereiro uma série de publicações semanais que destaca os 10 melhores sites e os 10 melhores blogs de cada disciplina. Assim separamos devido as diferentes propostas. Os sites trazem os conteúdos mais fixos. Já os blogs, atualizações e boas matérias.
Vale ressaltar que todos os sites e blogs recomendados em nossa série, de uma maneira ou de outra, podem ajudar nos estudos dos vestibulandos.
Evidentemente, devido a grande quantidade de informação que a internet trás, alguns sites e/ou blogs podem injustamente ficar de fora. Deixe seu comentário sugerindo outros espaços e/ou criticando nossas escolhas. Concordando ou discordando de nossa lista e notas, sua opinião é muito importante.
Hoje é o dia da Gramática.
Os 10 melhores sites de Gramática do Brasil:
Para os sites, nosso critério de escolha leva em consideração 5 tópicos que julgamos serem imprescindíveis e que atribuímos uma nota de zero a dez. Após a tabela, segue a descrição do que foi avaliado em cada tópico.
Para o InfoEnem, esses são os 10 melhores sites de Gramática.
| Site | Conteúdo | Navegação | Aparência | Interatividade | Atualização |
|---|---|---|---|---|---|
| www.gramaticaonline.com.br | 10 | 10 | 9 | 9 | 9 |
| www.portugues.com.br | 10 | 10 | 8 | 9 | 8 |
| www.brazilianportugues.com | 10 | 9 | 9 | 8 | 8 |
| www.soportugues.com.br/secoes/gramatica | 10 | 9 | 9 | 9 | 8 |
| www.brasilescola.com/gramatica | 9 | 8 | 8 | 8 | 7 |
| www.colegioweb.com.br/portugues | 8 | 8 | 8 | 7 | 8 |
| marcosbagno.com.br | 9 | 8 | 9 | 7 | 7 |
| www.paulohernandes.pro.br/glossario | 9 | 8 | 7 | 7 | 7 |
| www.radames.manosso.nom.br/gramatica | 10 | 8 | 8 | 7 | 7 |
| www.portuguesfacil.net | 8 | 8 | 8 | 7 | 6 |
| Blog | Conteúdo | Aparência | Atualização |
|---|---|---|---|
| www.professorjuscelino.com.br | 10 | 9 | 9 |
| dilsoncatarino.blogspot.com | 9 | 8 | 9 |
| blogdogramaticando.blogspot.com | 10 | 10 | 8 |
| aescritanasentrelinhas.d3estudio.com.br | 9 | 9 | 7 |
| wp.clicrbs.com.br/sualingua | 10 | 9 | 9 |
| g1.globo.com/platb/portugues | 10 | 9 | 10 |
| conversadeportugues.com.br | 8 | 8 | 10 |
| www.odiario.com/blogs/blogdalingua | 8 | 8 | 5 |
| gramaticaelinguagem.dihitt.com.br | 8 | 7 | 7 |
| showdegramatica.blogspot.com | 8 | 9 | 5 |
Publicado em 11/03/2012 11:34
Há algumas palavras que, às vezes,
desaparecem do uso cotidiano e, de repente, são ressuscitadas e ganham uma
força incomum. Nem sempre têm uma origem definida e são, em alguns casos,
consideradas de origem duvidosa. Uma dessas palavras que vem sendo usada à
exaustão, sobretudo no ambiente do futebol, é o adjetivo baita.Não há um
programa sobre futebol ou um texto jornalístico da área esportiva em que não se
ouça ou não se leia: baita jogador, baita jogo, baita técnico. Já virou
modismo. Como teria sido a volta dessa palavra?Identifiquei a origem dessa ressurreição:
um comentarista esportivo, antigo jogador, que não prima pelo domínio da norma
culta da língua, mas que, agora, de forma digna de elogio, anda recebendo aulas
de português, é que, sem perceber, acabou jogando baita para o meio esportivo.
O futebol é o esporte mais popular do Brasil e, evidentemente, que a linguagem
desse meio merece a atenção de todos os que temos a língua portuguesa como
nosso meio de comunicação e ação. Em um domingo desses, em que se resolve mesmo
deixar de lado todas as preocupações e obrigações domésticas e profissionais,
entreguei-me à leitura de jornais pela manhã, fui a um campo de futebol de
várzea, conversei com os futebolistas de fim de semana, assisti a jogos de
futebol, pela televisão, à tarde, e ouvi muitos narradores e comentaristas
esportivos. Pois bem, leitor, nessa maratona futebolística, procurei anotar a
quantidade de vezes em que ouvi o adjetivo baita. Você não vai acreditar:
quarenta e sete vezes.Isso mesmo, com anotações de exemplos.Só me falta
escrever: que baita pesquisa! Você poderá pensar que estou implicando com o
excesso de uso dessa palavra. Não é isso: estou apenas constatando e lhe mostrando
como as palavras vivem e sobrevivem, depois que surgem na língua. Não posso
deixar de afirmar e antecipar que a ressurreição do adjetivo baita da forma
como se deu e a repetição exagerada de seu uso, fatalmente, o condenará ao
limbo dentro
1. anunciar (um acontecimento) sem indícios racionais para isso; predizer; vaticinar, prognosticar-Ex.: desde cedo, todos lhe fadaram um brilhante destino
bitransitivo
2. determinar antecipadamente; votar, predestinar
Ex.: o pecado de Adão e Eva fadou o homem a uma vida de lutas
transitivo direto e bitransitivo
Esse verbo teve origem no século XIII e, com base nele, surgiu em Portugal, no século XV o famoso e bonito fado, que se consagrou pelo seu caráter de lamento e melancolia. No mesmo comentário em que ouvi esse deslize vocabular, ocorreu a seguinte expressão: correr atrás do prejuízo. Seria mais lógico correr atrás do lucro, não é? É mais uma, entre tantas manifestações do linguajar futebolístico.A mais recente, ouvi ontem: O zagueiro saiu chapelando o atacante. Sabe de onde o locutor tirou o novo verbo chapelar?De chapéu, que é um conhecido drible em que o jogador consegue faz a bola encobrir o corpo do adversário e a apanha do outro lado. Faltava o verbo, o inventor não teve dúvida: criou chapelar, sem se importar com o fato de chapéu ser escrito com u. Se ouvir narrações de jogos de futebol, fique atento: você ouvirá o verbo: chapelar. É a linguagem do futebol com as suas gírias e seus clichês.Até a próxima.
Publicado em 04/03/2012 10:38
Tenho muita saudade dos meus primeiros anos de estudante na Escolas Reunidas Dr. Lycurgo Leite, de Jureia, MG. Esse era o nome do grupo escolar no qual fui aluno por quatro anos. Sempre me lembro de que uma das tarefas mais gostosas nas aulas era a conjugação de verbos. Quando a professora pronunciava o meu nome e me pedia para conjugar um verbo em determinado tempo e modo, eu me deliciava e falava com tamanha segurança que a classe toda ficava exultante e admirada.É claro, que eu me exercitava em voz alta em casa por muitas horas, antes de jogar futebol no nosso campinho de terra batida, chamado de triango, já que não conseguíamos falar triângulo.
Só poderia tornar-me mesmo professor de português, embora isso só tenha acontecido por acaso, bem mais cedo do que eu pudesse imaginar. Um dia, conto essa história pessoal. Assim como a tabuada, também a conjugação de verbos pode, sim, continuar sendo uma prática pedagógica produtiva na escola, sem ferir qualquer princípio mais moderno de aprendizado. Quem memoriza bem esses fundamentos da matemática e da gramática sai em vantagem em relação àqueles alunos que não são exigidos em nome da modernidade dos parâmetros curriculares.Pois bem, acaba de ser lançado na internet o chamado Conjugador Verbal Cilenis. Digita-se o verbo existente, ou o que você quiser inventar, no modo Infinitivo e surge na tela a conjugação inteira. Testei-o, confesso, em busca de defeitos e erros e encontrei-os em grande número, a começar pela nomenclatura usada.Os nomes dos tempos verbais, por exemplo, não são os mesmos da Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB). Depois, descobri que o site foi criado e é gerenciado por um grupo de pesquisadores da Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha. O objetivo da nova empresa é desenvolver produtos e encontrar soluções baseadas nas mais avançadas tendências do Processamento da Linguagem Natural e da Engenharia Linguística. O Conjugador é capaz de gerar automaticamente conjugações verbais de verbos existentes e de verbos inventados em português.
Venha comigo, leitor, ao http://conjugador.cilenis.com e acompanhe a consulta que fiz. Digitei curtir, o verbo mais usado na rede social Facebook, e surgiu a conjugação completa e correta, com erros apenas nos nomes dos tempos.
Digitei o verbo inexistente teadorar, inventado pelo poeta magistral Manuel
Bandeira e achei a conjugação completa também. O poema belíssimo e original intitula-se
Neologismo e seus versos são estes:
Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.
No Cilenis Conjugador, o Presente do Indicativo do neologismo, teadorar, assim se apresentou: Teadoro/ teadoras/ teadora/ teadoramos/ teadorais/ teadoram. Se você digitar teodorar, virá a seguinte conjugação: teodoro/teodoras/ teodora/ teodoramos/ teodorais/ teodoram.
Veja, leitor, o que a tecnologia é capaz de fazer, para o bem e para o mal. Tenho tentado estar em dia com todos os avanços tecnológicos e defendo a posição de que a escola não pode mesmo ignorar o refinamento tecnológico que o homem conseguiu alcançar.Se ela quiser mesmo renovar-se e essa é uma tarefa urgente tem de colocar a tecnologia a seu serviço e a serviço do ensino.È preciso, porém muito cuidado: a tecnologia existe para servir, não para escravizar o homem.Quem não souber que a invenção do Cilenis Conjugador é resultante de profundos estudos sobre os modos de processamento da linguagem no cérebro humano, não perceberá a finalidade de uma empreitada científica desse vulto e não saberá usufruir dos resultados que ele apresenta. O Conjugador de Verbos não é, propriamente, para ser usado como facilitador de conjugação de verbos pelas pessoas que não aprenderam a conjugar bem os verbos na escola. Para suprir essa falta, aconselho o uso dos nossos bons dicionários e gramáticas. Até a próxima.
Publicado em 27/02/2012 14:29
A crônica de
hoje traz para você, prezado leitor, um aspecto fascinante da obra e da vida de
João Guimarães Rosa, considerado um dos maiores escritores brasileiros. Médico,
foi também diplomata, mas sua grande paixão foi mesmo a escrita literária. Assim
que formado, foi exercer a Medicina no distrito de Itaguara, pertencente ao
município de Itaúna, estado de Minas Gerais. Lá ficou por dois anos e esse
período ele aproveitou de forma bastante peculiar. Chegou a confessar que não tinha
ainda segurança para a prática da Medicina, embora estivesse seguro do seu
conhecimento teórico. Fez amizade com os médicos de Itaúna, já que no distrito
de Itaguara nem hospital havia, e para lá encaminhava seus pacientes sempre que
necessário, fazendo questão de ir junto com eles até
Em suas freqüências à farmácia de Ary Coutinho, Guimarães Rosa passa a impressioná-lo: caráter meticuloso. Faz questão de fórmulas que sejam bem apresentadas, inclusive no que diz respeito à cor, gosto e aspecto. Para ele, não é suficiente a eficiência do remédio. Quer também que ele tenha uma apresentação sugestiva.
Seu romance maior, Grande Sertão: Veredas, é uma espécie de multiobra: contém aventuras, paixão amorosa, transcendentalismo, prosa mitopoética, filosofia oriental e sincretismo religioso. A fala de Riobaldo, o narrador, traduz toda a plasticidade da linguagem da fala poetizada do sertanejo mineiro e toda a religiosidade e preocupação existencial, a angústia metafísica do autor-criador.
Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar - é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. (...) Deus existe mesmo quando não há. (...) Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. (p. 48).
A religiosidade
do narrador domina toda a narrativa, mostrando a sua crença
Eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero todos os pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado... Até a próxima.
Publicado em 19/02/2012 12:33
Um dos processos mais produtivos de formação de palavras na língua é a composição. Podemos simplesmente justapor palavras já existentes ou aglutiná-las de tal forma que perdem sua integridade fonética. Teremos sempre palavras novas, novos significados.No primeiro caso temos a composição por justaposição e, no segundo, a composição por aglutinação, como se dá em embora (em boa hora) fidalgo (filho de algo), Fonseca (fonte seca), aguardente (água ardente).Com a vigência do novo Acordo Ortográfico, palavras que se escreviam separadamente e com hífen mudaram sua forma de escrever e tornaram-se compostas por aglutinação. A orientação está na base XV do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990).
É nessa base que concentrarei minha crônica de hoje. Aqui neste Rodapé, cujo título De bem com a língua, de bem com a vida eu escolhi intencionalmente, gosto de exercitar um pouco do meu conhecimento linguístico e literário em seu benefício, meu leitor.A língua quer ser amada, nunca temida, quer ser útil e indispensável à nossa existência.
Pois bem, recebi, no meu site www.professorjuscelino.com.br, a consulta de um internauta sobre o modo de se grafarem as seguintes palavras: café com leite, dia a dia, fim de semana e água-de-colônia. Vamos juntos à orientação da referida Base XV do Acordo que diz no artigo 1º que se deve empregar o hífen nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio, podendo dar-se o caso de o primeiro elemento estar reduzido.Veja algumas palavras que se encaixam na regra:
arco-íris, decreto-lei, médico-cirurgião, tenente-coronel, tio-avô, turma-piloto; alcaide-mor, guarda-noturno, mato-grossense, norte-americano, porto-alegrense,
sul-africano; azul-escuro, luso-brasileiro, segunda-feira.
Obs.: Certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a
noção de composição, grafam-se aglutinadamente: girassol, madressilva, mandachuva,
pontapé, paraquedas, paraquedista, etc.
No caso de café com leite, não haverá mais distinção entre o saboroso café com leite das nossas manhãs e a política café com leite resultante de acordos de matreiros políticos mineiros com os tradicionais políticos paulistas. Escrever-se-á em ambas as situações: café com leite, sem hífen. O mesmo se dará para a expressão dia a dia.Antes distinguíamos com hífen o nosso dia-a-dia,com o significado de cotidiano(substantivo) do dia a dia, indicando a circunstância temporal de dia após dia.Agora, não: em ambas as situações de escrita, o hífen não mais aparecerá.O namorado escreverá para a amada: Dia a dia, há mais sol em nossas vidas,
há cada vez mais vida em nosso dia a dia.
Quanto ao fim de semana, dispensa-se o hífen, de acordo com artigo 6º da Base XV do Acordo que preconiza:
Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais,
adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o
hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-
de-colônia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia,
ao deus-dará, à queima-roupa). Sirvam, pois, de exemplo de emprego sem
hífen as seguintes locuções:
a) Substantivas: cão de guarda, fim de semana, sala de jantar;
b) Adjetivas: cor de açafrão, cor de café com leite, cor de vinho.
c) Pronominais: cada um, ele próprio, nós mesmos, quem quer que seja;
d) Adverbiais: à parte (note-se o substantivo aparte), à vontade, de mais (locução
que se contrapõe a de menos; note-se demais, advérbio, conjunção, etc.), depois
de amanhã, em cima, por isso;
Gostei muito de transmitir essas orientações para você, leitor amigo, e confesso que, ao escrever a crônica, também eu fui reaprendendo e fixando as novas regras e exceções. É um exercício saboroso e divertido para quem tem a língua portuguesa como um bem valioso a ser cultivado com carinho. Até a próxima.
Publicado em 24/01/2012 11:11
Estamos de volta ao trabalho e à alegria do contato com os leitores. Escrever só se justifica, se for para ter a sensação de convivência com o leitor.Enquanto se escreve, tem-se em mente a imagem de alguém que lerá seu texto.Assim, o diálogo acontece.Vamos à crônica de hoje, você e eu.
Acabo de ler um texto de opinião do jornal Folha de S.Paulo sobre as tragédias das chuvas e da seca simultâneas em nosso grande país. Em determinado parágrafo, algumas frases chamaram-me a atenção:
Subitamente, verbas não faltam. E sobem a cada novo
deslizamento, a cada família desabrigada, a cada morto registrado nas telas de
TV. Crie-se uma força tarefa! Antecipe-se o Bolsa Família! Abra-se o FGTS!
Flexibilize-se o Orçamento! Aja-se imediatamente diante das câmeras!
Leia, de novo, as cinco últimas frases, leitor amigo, e
observe os verbos acompanhados do pronome se: crie-se; antecipe-se; flexibilize-se;
aja-se. Criar,antecipar,abrir e flexibilizar são verbos chamados de transitivos
diretos,, isto é, pedem um objeto direto quando estão na voz ativa.Quem cria,
cria algo;quem antecipa, antecipa algo e, assim, também com abrir e
flexibilizar. Quando um verbo é transitivo direto, podemos construir a oração
na voz passiva sintética com a partícula apassivadora se, e o termo que era
objeto direto na voz ativa passa a exercer a função de sujeito na voz passiva. Vejamos
as orações do texto jornalístico da Folha de S.Paulo, como seriam na voz ativa:
(1) É preciso criar uma força tarefa.(2) É preciso antecipar o Bolsa
Família.(3) É urgente abrir o FGTS.(4) Vamos flexibilizar o orçamento.Para dar
mais ênfase à necessidade das ações e ironizar o atraso das medidas
preventivas, a articulista usou os verbos na terceira pessoa do Presente do
Subjuntivo, com ares de Imperativo.Essas mesmas orações poderiam ser
convertidas em voz passiva analítica e ficariam assim:(1)Que seja criada uma
força tarefa! (2) Que seja antecipado o Bolsa Família!(3) Seja aberto o FTS!
(4) Que seja flexibilizado o Orçamento!
Até aí, tudo certo gramaticalmente escrevendo e falando. Mas
e a frase: Aja-se imediatamente diante das câmeras? Nesse caso, a pressa da
escrita levou a jornalista a um equívoco gramatical. Agir não é um verbo
transitivo direto, portanto, não poderia ser empregado como se tivesse a mesma
regência ou regime dos demais.Na voz ativa., teríamos um frase como essa: É
preciso agir bem diante das câmeras.Não poderíamos passar a oração para a voz
passiva, porque na voz ativa não há objeto direto.A oração na voz passiva
sintética ficaria sem o sujeito.Também não se poderia converter essa oração
iniciada com aja-se em voz passiva analítica: seja agido.Agir é um verbo
intransitivo e constrói-se com adjunto adverbial: Agir bem ou mal, com cautela
ou com afoiteza, etc.
Houve, sem dúvida, uma mistura de regências verbais, nesse
parágrafo, o que se explica pelo fato de os jornalistas terem de produzir seus
textos diários em muito pouco tempo, para o fechamento das edições.
No mesmo texto do jornal, aparece uma expressão bastante
corriqueira e originada em transmissões de jogos de futebol. Vamos ao parágrafo:
Ano após ano, a história se repete, com o mesmo
corre-corre, e os que não preveniram não apenas correm atrás do prejuízo como
ficam matutando como reduzir os danos políticos e ainda tirar alguma casquinha.
Correr atrás do prejuízo é um modismo que surgiu no
futebol. Nas entrevistas concedidas por jogadores , quando seus times estão em
desvantagem, é comum ouvir-se frases como estas: Vamos correr atrás do
prejuízo, no segundo tempo. O campeonato é longo e ainda dá para correr atrás
do prejuízo. O chavão futebolístico ganhou força e se espalhou para a
linguagem padrão. Algumas pessoas criticam essa construção gramatical, com o
argumento de que não se corre atrás de prejuízo, mas de lucro.Explico que não
vejo absurdo nessa expressão do meio esportivo porque nela está subentendido um
verbo que pode ser: derrotar, acabar com, superar.Seria como: correr atrás de
superar o prejuízo.
Por isso, eu também vou por aqui terminando meu texto, para
não curtir o prejuízo da perda de um leitor como você. Até a próxima!
Publicado em 24/01/2012 11:04
Muito se fala sobre a leitura dinâmica e a ajuda que ela pode prestar às pessoas que gostam de ler muitos livros em curto período de tempo ou àquelas (atenção para o sinal de crase) que têm de ler muitas apostilas para concursos, por exemplo. Conversemos um pouco sobre essa prática, leitor amigo.
Segundo pesquisas, um leitor médio consegue ler até 150 palavras por minuto e compreender 60% do que lê. Com o domínio avançado da leitura dinâmica, de acordo com os defensores desse método, a velocidade de leitura poderá chegar até a 800 palavras por minuto e o nível de compreensão poderá ser de até 90%.Os neurocientistas não são tão entusiasmados com toda esse aumento de velocidade na leitura e com esse nível alto de compreensão do texto, mas admitem que é possível que se aumente a velocidade da leitura pela mudança na forma de ler. Também eu concordo com o aumento da rapidez da leitura pelo domínio da técnica, porém não a aconselho como método de estudo ou de memorização.
O princípio básico da leitura dinâmica é a leitura sem a pronúncia mental que todos nós nos acostumamos a fazer. Enquanto nossos olhos percorrem a forma da palavra escrita, vamos pronunciando mentalmente as sílabas e as palavras.Se conseguirmos parar de pronunciar as palavras no ato de leitura e as reconhecermos apenas na sua forma ou desenho, o significado delas será assimilado diretamente e com maior rapidez. Outra técnica é aumentar o foco do campo visual na leitura: tentar abarcar o maior número possível de palavras. Quem se habitua a ler muito em voz alta ou em silêncio, normalmente vai aumentando a capacidade de ler com maior rapidez.Na sala de aula, o professor consegue perceber o progresso dos alunos na leitura, com muita propriedade.Aconselho sempre, nos meus cursos para professores, o uso da leitura em voz alta. E não só nas aulas de português, mas em todas as disciplinas. Todos os professores são também professores de leitura.Quem lê bem em voz alta demonstra que sabe ler bem em silêncio e compreender o sentido do que lê.Para quem já é bastante habituado à leitura, acredito que a técnica da leitura dinâmica seja mais produtiva.O que tenho conseguido perceber é que a vocalização mental do que lemos ajuda-nos a concentrar a atenção no texto e a perceber melhor seu sentido.
Como leitor apaixonado dos mais variados gêneros e tipos textuais, consigo ler em poucos dias de férias vários romances, jornais e revistas. Agora mesmo, entre o Natal e estes últimos dias de férias escolares, consegui ler os seguintes livros: A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr., Beatriz, de Cristovão Tezza e As Esganadas, de Jô Soares.Todos me trouxeram alguma recompensa e ampliaram minha visão de mundo.Recomendo-os todos, seja como informação, seja como forma de ampliação de nosso nível de consciência sobre a vida e sobre a humanidade.Comecei a ler , ontem à noite, O Cemitério de Praga, de Umberto Eco.Já me surpreendi e fiquei fascinado com o primeiro parágrafo de quase quinze linhas.Escrever um parágrafo dessa extensão, sem se tornar obscuro e cansativo, só é possível para um escritor com a habilidade que tem o autor do também consagrado romance, O Nome da Rosa.Termino aqui, nesta linha, a minha crônica de hoje, já com os olhos voltados ansiosamente para a bela capa de O Cemitério de Praga, que, certamente, também será um belo filme, em breve.
Até a próxima!
Publicado em 18/01/2012 09:19
Laura Maria Leal Fernandes | belo horizonte
Messias Pedro | Ananindeua-PA
Parabèns, favor analisar "meu querido diário" do Chico Buarque
João Vianei Alves de Carvalho | Petrolina-PE
Glauciane | Rio de Janeiro
Guilherme | Rio de Janeiro
Lucia costa | Crato
ademar amancio | populina sp
ademar amancio | populina sp
Izabel Cristina Monteiro da Silva | Timon
ademar amancio | populina sp
ademar amancio | populina sp
Denise Pereira de Souza | Rio de Janeiro
Magali | Manaus
jefferson chaves | Belém
Versos Simples chimarruts / EScândalo de CAETANO VELOSO gostaria que cada estrofe fosse analisada...
ademar amancio | populina sp
ademar amancio | populina sp
Denise Pereira de Souza | Rio de Janeiro
Denise Pereira de Souza | Rio de Janeiro
Denise Pereira de Souza | Rio de Janeiro - RJ
natanael souza colares | manaus
A vida da gente -Cantado por maria gadú! valew pela analise , não entedia dessa maneira...!
ademar amancio | populina
sempre gostei de domingo no parque,mais nunca tinha notado que a letra fosse tão rica.
Pedro Cesário Dos Santos Jr | Joao Pessoa/Paraiba/Brasil
Pedro Cesário Jr | João Pessoa
Olá Professor, gostaria de saber mais sobre a música "Domingo No Parque"
Elisabeth Casagrande Vitiello | São Paulo
Camila Candido | São Paulo
maria aparecida arantes jose | Cruzilia M G
Muito bom amei quero ouvir todos os dias
beto | São Paulo
silvia | goiania
ademar amancio | populina sp
ademar amancio | populina interior de sao paulo
Messias Pedro da Silva | Ananindeua-Pará
lígia marques | guarabira
Uíres Marins | São Gonçalo / RJ
Joaquim Piauilino Filho | Bom Jesus-PI
Diego Henrique | Santa Luzia- MG
Linda análise professor, assim como todas as outras... muito obrigado!!!
Jober Keitel | Sapucaia do Sul
katia lucia lopes | belo horizonte
gostaria que o sr.analisasse a música é dai de milton nascimento e ruy guerra.agradeço
Rodrigo Teixeira | Fortaleza
gostario que o senhor fizesse uma analise da musica, Daniel na cova dos Leões, da Legião Urbana
silvia | goiânia
LAIS | Casimiro de Abreu RJ
paulo araujo dos santos | itatiba-SP
Claudinéia Pamplona | Belém
Priscila | Rio de Janeiro
Letícia | São Paulo
Gostaria de parabenizar o trabalho e sugerir a música tropicália de caetano veloso
ROZE NEIDE DOS SANTOS | São Vicente São Paulo
Sol | Araçatuba
Thaís Cristina Vitale | São Bernardo do Campo
João Paulo | Murici - AL
Publicado em 04/01/2012 12:10
A crônica de hoje retrata o meu carinho
permanente e a minha ternura mais funda pelas palavras. Amo-as, solitárias ou
A última edição do Dicionário Aurélio, revista e ampliada, traz, em suas 2.272 páginas, inúmeras palavras novas que não faziam parte de edições anteriores. Fiz uma exaustiva pesquisa,descobri-as e fiz questão de transcrever-lhes os significados só para vocês,meu leitor ou minha leitora, tão companheiros meus neste espaço, ao longo deste ano que espero tenha sido para vocês, de muita alegria e realizações, como foi para mim.Vamos a elas:
Agrobusiness: 1. O mesmo que agronegócio. O conjunto de atividades e operações da cadeia de produção rural e da comercialização de seus produtos e serviços.
Bandeide- Aport. do ingl. Band-aid, marca registrada.] 1. Curativo adesivo com uma gaze fina com antisséptico no centro, utilizado para proteger ferimentos leves. [Sin. lus.: penso rápido.]
Barwoman: 1. Mulher que prepara bebidas em bar1 (1) ou evento. [Pl. em ingl.: barwomen.]
Biojoia: 1. Joia feita de matéria-prima vegetal, esp. de sementes (jarina, buriti, etc.), fibras e cascas de coco, etc., que são coletadas sem causar prejuízo à natureza.
Blogar: Verbo intransitivo. Inform. 1. Manter (o internauta) um blog. [Conjug.: rogar.]
blue tooth- 1. Tecnologia que permite a conexão de dispositivos sem uso de cabos.
blu-ray disc: 1. Formato de disco de alta capacidade utilizado para armazenamento de conteúdo em alta definição. [Possui as mesmas dimensões de um disco DVD, a forma de armazenamento e a tecnologia aplicada à leitura de dados, porém, são diferentes.]
blu-ray player:Substantivo masculino. Inform. 1. Aparelho para reproduzir discos no formato blu-ray.
Bollywoodiano:
[De Bollywood (do top. Bombaim [atual Mumbai, cidade da Índia] + o top. Hollywood) + -iano.]
Adjetivo. Cin.
1. De ou referente a
Bollywood, a indústria de filmes da Índia (v. indiano).botox,
Bullying: 1. Em estabelecimentos escolares, etc., provocação, intimidação, ou agressão, física ou verbal, feita por indivíduo mais desinibido, mais velho, mais forte, etc., a outro mais tímido, mais novo, mais fraco, etc.
Chef: 1. Cozinheiro que dirige a cozinha de um restaurante, hotel, etc.
Chocólatra: Substantivo de dois gêneros. 1. Aquele que é devorador contumaz de chocolates e afins.
Chororô: 1. Fam. Choradeira (1).2. P. ext. Lamentação que se faz com o intuito de conseguir ou justificar algo:
Ciabatta: 1. Pão de massa úmida aromatizado com azeite.
Combo: 1. Inform. Gravador de
CDs que também
Cookie: 1. Cul. Biscoito crocante e macio, de forma arredondada, ger. recheado com nozes, passas, etc.
2. Inform. Informação coletada por um navegador Web que fica armazenada no computador, e que pode ser us. por sites da Intranet.
data-show: 1. Aparelho de vídeo que, através de um sistema de lentes, projeta imagens numa tela de projeção. [Pode ser conectado ao computador ou sistema de home theatre.] [Pl.: data-shows.]
donut: 1. Massa com a forma de rosca, frita e envolta em açúcar ou, eventualmente, chocolate.
doula[Do gr. doúle, aquela que serve.] Substantivo feminino. 1. Profissional que acompanha a gestante antes, durante e após o parto, cuida do seu bem-estar físico e emocional, e explica a ela (e a seu companheiro) a linguagem e os procedimentos dos médicos e enfermeiras.
e-book Substantivo
masculino.
1. V. livro eletrônico.
Ecobag: 1. Sacola feita de material biodegradável (ger. de tecido e linhas naturais e tinta à base de água).
ecojoia
1. Joia elaborada a partir de sementes não germinadas (catadas no solo das florestas, esp. da amazônica) e de
vários outros materiais (marfim vegetal, couro,
coco frito, etc.) de baixo ou nenhum impacto ecológico.
ecotáxi: 1. Turismo em áreas preservadas (ou relativamente preservadas) da natureza, e que busca o contato com a beleza natural, a diversidade da fauna e da flora, etc., sem causar danos ao ecossistema.
Ecoturismo: 1. Turismo em áreas preservadas (ou relativamente preservadas) da natureza, e que busca o contato com a beleza natural, a diversidade da fauna e da flora, etc., sem causar danos ao ecossistema.
Enem: 1. Sigla de Exame Nacional do Ensino Médio.
Flex: Adjetivo de dois gêneros e de dois números.Substantivo masculino de dois números. 1. Diz-se de, ou motor capaz de funcionar com dois tipos de combustível ao mesmo tempo, ou seja, com álcool e/ou gasolina.2. Diz-se de, ou o veículo com este tipo de motor. [Em tais veículos a gasolina e o álcool ficam no mesmo tanque e são queimados simultaneamente na câmara de combustão.]
fotolog [Adapt. do ingl. photolog.] Substantivo masculino.
1. Álbum de fotografias virtual, posto na Internet.
glamoroso(ô) [De glamor + -oso; ingl. glamorous.]
Adjetivo. 1. Que tem ou que revela glamor; glamouroso. [Flex.: glamorosos (ó), glamorosa(s) (ó).]
glamorizar: Verbo pronominal. 1. Tornar(-se) glamoroso; glamourizar.
hora-aula:
hotspot: 1. Local onde há disponibilidade de conexão à Internet sem fio.
mix: 1. Qualquer mistura, esp. a de alimentos (no caso de frutas, por vezes, batidas com água ou outra bebida): mix de frutas, mix de legumes, mix de frutas secas, mix de frutas e legumes.
Mochileiro: 1. Indivíduo, ger. jovem, que viaja com pouca bagagem (ger. mochila) e que procura gastar pouco com transporte e hospedagem.
nerd: 1. Jovem muitíssimo aplicado nos estudos, com especial interesse por tecnologia, às vezes, porém, com problemas de socialização, por ter comportamento antissocial ou por sofrer o preconceito dos demais.
odontogeriatria: 1. Ramo da odontologia especializado no tratamento dentário de pacientes idosos.
pet shop: 1. Estabelecimento no qual se comercializam produtos alimentícios (ração, pastas, biscoitos, etc.), remédios, acessórios, etc. ou a prestação de serviços para animais domésticos de pequeno porte
petit gâteau: 1. Pequeno bolo de chocolate com recheio cremoso e casca crocante, inventado nos E.U.A. mas batizado com nome francês.
pop-up: 1. Na Web, janela, ger. indesejada, destinada a exibir propaganda.
pré-sal: 1. Camada da costa brasileira, na faixa que se estende do Espírito Santo a Santa Catarina, localizada abaixo do depósito de sal no leito do mar (a mais de 7 mil metros), que abrange as bacias do Espírito Santo, Campos e Santos e apresenta grande quantidade de petróleo e gás. [Pl.: pré-sais.]
ricardão: 1. Amante de mulher casada ou comprometida.
saidinha de banco:1. Modalidade criminosa que consiste em assaltar um indivíduo que acabou de sacar dinheiro de um banco, principalmente de um caixa eletrônico.
SAMU: Sigla de Serviço de Atendimento Móvel de Urgência.
sex shop:1. Loja, ou seção desta, em que se vendem artigos para estímulo da libido ou coadjuvantes do ato sexual, além de livros, vídeos, etc., eróticos.
Tablet:
1. Computador de uso pessoal que possui tela sensível ao toque.
2. Tipo especial de caneta,
us. para registrar notas diretamente na tela do computador
test
drive: 1. Avaliação do desempenho de um veículo, feita por
especialista, ao dirigi-lo.
2. O ato de dirigir um
veículo, antes de comprá-lo, para avaliação de seu desempenho.
Tuitar:1. Postar no twitter comentários, informações, fotos, etc. ger. de caráter pessoal ou institucional.2. Acompanhar os fatos, ideias, informações, etc. registrados por alguém em seu twitter. [Conjug.: v. ajuizar.]
Até a próxima!
Publicado em 26/12/2011 09:23
Texto não é uma simples aglomeração de frases, períodos e parágrafos; texto é uma unidade de sentido. Vamos conceituar o texto verbal como uma produção escrita ou oral que esteja em sintonia fina com um contexto. Todo texto manifesta um conjunto de idéias dominantes em um grupo social, isto é, uma formação discursiva. Podemos dizer que o texto é a manifestação de um discurso. Eu leio o texto, para me encontrar com o discurso. As ideias contidas em um texto constituem o seu discurso. Texto e discurso andam juntos, avançam juntos, não se dissociam.O que eu leio é o texto;o que eu penso que esteja por trás do texto é o discurso.
O que é ler um texto?O que é
interpretar um texto?Ler é colher tudo o que o texto quis dizer. Para a
filosofia da linguagem, dizer é sinônimo de agir. Língua é uma forma de ação sobre
o outro e sobre o mundo. Interpretar é escolher uma entre as várias
possibilidades de significação que o texto sustenta. Isso não significa dizer
que qualquer interpretação seja válida. O que se diz em um texto está nele
mesmo, nos mecanismos que engendram o seu sentido. Interpretar não é adivinhar
ou inventar. Quem lê um texto com a intenção de descobrir o sentido dele e, ao
mesmo tempo, aprender os diferentes modos de escrever um texto deve responder a
duas perguntas básicas: 1 O que este texto quis dizer?2 Como ele disse o
que quis dizer?Essas perguntas propiciam condições ao leitor de buscar o que
dizer em seus textos e como dizer o que pretende dizer. A leitura de um texto
é, dessa forma, o caminho adequado para todos aqueles que desejam ampliar a sua
competência para a leitura e a escrita. Para dominar a língua e fazer dela um adequado
instrumento de recorte da realidade, uma forma de ação na vida em sociedade, é
preciso aprender a olhá-la com sensibilidade. Nem sempre as interpretações que
são feitas pelos diferentes leitores correspondem ao que se propõe dizer em um texto.
Foi o que se deu com a grande cantora e intérprete Gal Costa em uma entrevista
de lançamento do seu mais novo CD-ROM todo ele produzido e dirigido por Caetano
Veloso, que assina a maior parte das músicas também. Na edição do jornal Folha
de S. Paulo, de 29 de novembro de
E como é, para Gal, ter seu nome estampando a capa de um álbum em que as ideias não são suas? Como é ser "apenas" a vocalista de seu próprio CD?
"Eu mesma disse para ele: 'Caetano, esse disco é seu'", assume. "Mas sempre foi assim. Em todos os meus discos para os quais ele compôs, eu não pedia temas. Ele fez o que quis. Gosto de ser carregada."
Ela aplicou a si o que interpretou da leitura dos versos da canção Recanto, que dá título ao novo trabalho dela: "Não salto, mas sou carregada/ Por asas que a gente não tem. A luz não me fulmina os olhos/Nem vejo bem".
"Caetano decifrou isso muito bem nessa canção", afirmou Gal.
Caetano rebate: "Mas não foi isso o que eu quis dizer.
Foi justamente o contrário. Você, quando canta, parece que é carregada por asas
que a gente não tem, que mais ninguém no mundo tem".
Veja, leitor, que Gal Costa acabou por contradizer o que está dito nos versos de Caetano Veloso. Ela não se preocupou com o que o texto quis dizer, ela apenas aproveitou uma parte do texto para aplicar a si mesma, ao seu jeito de ser.
Alguns perigos rondam a interpretação de um texto. Esses perigos são: a extrapolação, a contradição e a redução.
Extrapolar é fugir dos limites do texto, das marcas e das pistas que ele oferece à interpretação que se sustenta nele, para criar outro texto.
Contradizer é dizer o contrário do que está contido no texto. Como exemplo, cito a interpretação que Gal Costa fez dos versos de Caetano.
Reduzir é concentrar-se apenas em algumas ideias do texto, em algumas partes e deixar de olhar o texto na sua totalidade. Esse é o erro mais comum. A interpretação desejada já está virtualizada no próprio texto, isto é, já está prevista como possível. Um texto pode ser interpretado de várias maneiras diferentes, mas não de todas. Se a interpretação não estiver garantida com as marcas de significado que são repetidas ao logo do texto, a interpretação não é aceitável. Nas leituras que fazemos, sejam elas literárias ou não-literárias temos de ter a paciência e a curiosidade necessárias para descobrir não apenas a significação, mas também a organização do texto. Tenho de dizer que as sensações que o leitor experimenta diante de um texto, as impressões que cada leitor tem ao ler um texto são importantes para a leitura, sim. Sem querer exagerar, afirmo que, se o texto for literário, até a leitura errada pode ser acertada, devido à perfeição da literatura. Se analisarmos a intenção de Gal Costa, ao interpretar os versos da canção, perceberemos que o seu erro de interpretação constitui o acerto de sua carreira: ela só interpreta bem as canções, se se sentir carregada, sustentada pelo bom trabalho de outras pessoas. Todos nós, quando lemos, às vezes, fugimos para outros mundos da imaginação, sonhamos com fatos diferentes dos que estamos lendo, temos outras inspirações e tudo isso é muito gostoso que aconteça. Leitura é para isso mesmo. Só precisamos garantir que, na descoberta do querer dizer do texto, isto é, do seu sentido, não possamos fugir do que está explícito e implícito nas suas linhas e entrelinhas. Assim fazendo, leitor, afastaremos os perigos da interpretação.
Até a próxima.
Publicado em 10/12/2011 09:49
Participei, no sábado passado, 03-12, de uma mesa-redonda cujo tema foi: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias: Leitura e Escrita, no Simpósio de Tecnologia Educativa, do programa de Mestrado em Linguística da Universidade de Franca, do qual sou professor. Concentrei minha palestra no tema tecnologia e educação. Usei como motivação o poema de Manoel de Barros, O Apanhador de Desperdícios, cujos versos eu convido você, leitor, a ler agora:
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Um poema como esse deve ser lido, pelo menos, duas vezes, e sei que você o fez, tal é a beleza dos versos e do encantamento que ele é capaz de provocar.
Sinta que o poeta faz uso de uma linguagem simples, metafórica e muito expressiva, para definir o fazer poético. Arte é uma criação humana, pronta a dar mais sentido à vida. Vivemos melhor, quando buscamos sentido em tudo o que aprendemos e fazemos.
A voz que se exprime nesses versos é a voz poética que sabe ver e sentir a beleza da vida nos seres e coisas menores ou menos importantes. O sentido da vida nem sempre está nas grandiosidades.É preciso aprender a ver os detalhes para enxergar melhor a totalidade.O diálogo no poema é entre a voz poética e a voz tecnológica.
As perguntas fundamentais de minha apresentação foram estas: O que a tecnologia tem feito comigo? O que eu tenho feito com a tecnologia? Tenho para mim que preciso colocar a tecnologia a meu serviço. Clarice Lispector escreveu o seguinte: Adestrei-me desde os sete anos para que um dia tivesse a língua em meu poder. Digo, em paráfrase, que estou me adestrando para ter a tecnologia em meu poder. Não posso e não quero ser escravo da tecnologia.
O eu - lírico
do poema diz não gostar das palavras fatigadas de informar. Existe uma
ansiedade pela informação cada vez maior nesse mundo tecnologizado,
O eu do poema respeita mais as palavras essenciais ao dia a dia do mundo da vida, as palavras concretas do ato de viver como água, pedra e sapo, inseto. A velocidade da tartaruga fala mais à sua alma do que a velocidade dos mísseis. Ele ama o perto mais do que o longe, mais o rio da sua aldeia do que o Tejo do poema de Fernando Pessoa, é atrasado de nascença e nasceu para amar os passarinhos.
A felicidade dessa voz que se expressa nos versos de Manoel de Barros dialoga, em contraponto, com as milhares de vozes do mundo de hoje, viciadas e escravizadas pela tecnologia. O quintal do poeta é maior do que o mundo e ele se faz um apanhador de desperdícios, sabe ver nos restos o canto da vida e queria que a sua voz se formatasse em canto, de canção mesmo, e também de lugar de pensar, para nele poder dizer bem alto a sua voz poética: Não sou da informática, eu sou da invencionática e a palavra só me serve para compor meus silêncios no meio de tanto barulho e de tão pouca atenção aos gestos mais simples e importantes para a vida acontecer.
Fiz desse poema a entrada para defender uma educação multidisciplinar que faça das artes, irmãs das ciências, e que não haja separação entre as ciências humanas e as ciências exatas. Não há sentido a preocupação desse mundo dominado pelo capital em se formar apenas especialistas incapazes de se comunicar para além dos limites de suas especialidades.A educação com que sonho não é dos especialistas, mas a dos generalistas que saibam pensar como cientista e como artista, como matemático e poeta, médico e romancista, engenheiro e músico.A educação será tanto mais aperfeiçoada quanto mais conseguir preparar a mente dos educandos para usar a imaginação de modo especialmente criativo em uma área e saber fazer aplicações criativas em outras áreas das atividades humanas. Basta que nos lembremos de que entre nós tivemos um médico como Guimarães Rosa, que se de fez autor de um romance da majestade de Grande Sertão: Veredas; um engenheiro como João Cabral de Melo Neto, que se consagrou como o poeta de Vida e Morte Severina; um advogado como Vinícius de Moraes, que se eternizou com os versos de Soneto de Fidelidade e com os acordes musicais de Garota de Ipanema; e que temos um quase arquiteto como Chico Buarque de Hollanda que é, sabidamente, um dos maiores compositores da Música Popular Brasileira.
Só me resta concluir com as proféticas palavras de Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo: A linguagem purificada da ciência, ou mesmo a linguagem mais purificada da literatura nunca será adequada à dádiva do mundo. Até a próxima!
Publicado em 04/12/2011 13:02
Na coluna da semana passada, escrevi, em forma de crônica, sobre dois adjetivos muito usados neste mundo de liberalismo econômico, em que as leis de mercados de capitais são soberanas: eficaz e eficiente. Não basta ser eficaz, é imprescindível ser eficiente. Sonhar, então, é proibido. No texto que escrevo agora, as estrelas serão outros dois adjetivos não tão usuais, mas que apareceram recentemente em um texto jornalístico de opinião.São eles: resiliente e renitente.
Veja comigo, prezadíssimo leitor, onde fui encontrar essas duas saborosas palavras.
Nizan Guanaes, publicitário e presidente do Grupo ABC, em 15 de novembro de 2011, escreveu, em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo, um perfeito anúncio publicitário, em busca de uma cozinheira. Veja só o título que ele deu à sua crônica: Procura-se uma grande cozinheira. Depois de comentar que a boa situação econômica do Brasil tem levado as pessoas a procurar profissões e empregos mais rentáveis, o que, segundo ele, é muito bom para todos, ele clama por auxílio dos leitores para que possam encaminhar para a casa dele uma excelente cozinheira. Leiamos juntos alguns excertos de seu texto:
Estou há anos procurando uma cozinheira de mão-cheia. Uma Dona Flor,
mas que não precisa ter o corpo da Sônia Braga -precisa é cozinhar mesmo. Fazer
aquela grande e vasta comida brasileira. (...)
Estamos
chegando ao final do ano, ao período de Natal, as pessoas estão imbuídas do
espírito natalino e podem fazer essa boa ação para um ex-gordo como eu. (...)
E termina assim o seu texto-anúncio:
Espero que
este artigo-anúncio classificado atinja seus objetivos. E que graças à força da
Folha e de santo Expedito eu encontre a minha tão sonhada cozinheira.
Aliás,
cozinheira anda tão difícil que hoje a gente não pede mais para santo Expedito,
a gente pede é para santo Antônio.
Você percebeu que no final ele apela até para santo Antônio, que é considerado casamenteiro. Ele se dispõe mesmo a casar com a sonhada cozinheira.
Pois bem, no dia seguinte, 16 de novembro de 2011,
o conceituado jornalista Fernando Rodrigues, da sucursal do jornal Folha de
S.Paulo, em Brasília, fez do texto-anúncio de Fernando Guanaes o tema de sua
coluna. Intitulou-a: O Brasil profundo e,
assim, exprimiu-se nos trechos-chave de sua crônica política:
Bem-sucedido, Nizan Guanaes diz ser um
entusiasta do Brasil contemporâneo. Mas é fascinante como até em cabeças como a
dele sobrevive um pedaço renitente do
Brasil antigo, profundo. (...)
Nizan
também deve ter redigido seu texto de boa-fé. Quer dar emprego a alguém.
"É fruto do bom momento econômico do Brasil." Só que, ao escolher as
palavras do seu Procura-se uma grande cozinheira, o publicitário mostra, de
forma involuntária, como é resiliente o velho Brasil no nosso cotidiano.
Você, meu leitor, atentou para as frases em que
são empregados os dois adjetivos que inspiraram esta crônica que estou
elaborando com carinho e zelo. Antes de me deter um pouco mais nos dois
vocábulos-chave de meu texto, levo você ao texto da cronista Danuza Leão, na mesma Folha de S. Paulo,
em 20 de novembro de
Apesar do tom brincalhão, Nizan publicou um anúncio, em espaço nobre, procurando uma cozinheira. (...) Quando Fernando diz que, ao escrever "procura-se uma cozinheira", Nizan mostra "como é resiliente o velho Brasil no nosso cotidiano", e que "até em cabeças como a dele sobrevive um pedaço renitente do Brasil antigo e profundo", nosso grande jornalista, querendo denunciar o preconceito, acabou sendo preconceituoso, logo ele. Ser cozinheira é uma excelente profissão; uma profissão nobre, pois a culinária de um país é parte importante de sua cultura, e foi descascando legumes que começaram todos os célebres "chefs de cuisine". Senti-me feliz pela leitura que ela soube fazer dos dois textos. Como leitora competente, Danuza Leão soube ler o explícito e o implícito, o aparente e oculto, o direito e o avesso dos dois textos. E é assim que um texto precisa ser lido. É indispensável ler o que está oculto em um texto. E a colunista fez isso muito bem. Já o jornalista Fernando Rodrigues, sem perceber, talvez, é que foi preconceituoso em relação ao nobre trabalho de uma cozinheira, seja ela a empregada, ou seja, a própria patroa de uma casa. Nizan Guanaes não foi, nem demonstrou, no seu texto, que é preconceituoso. Não foi teimoso, pertinaz, renitente, na ideia de mudança do velho para o novo, isto é, de um país apegado ao distanciamento social entre ricos e pobres, para um país que luta mais contra as desigualdades. Também não se mostrou resiliente, resistente, incapaz de aceitar uma mudança de comportamento em relação à igualdade de tratamento às pessoas que exercem profissões mais bem remuneradas e às empregadas e empregados em geral.Escrevi este texto de tal forma que os significados dos dois adjetivos que servem de título ficassem bem aparentes e claros, mas se você puder e tiver tempo, não deixe de consultar um dicionário. Além de ser um exercício agradável e enriquecedor para o uso da nossa língua portuguesa, auxilia bastante o nosso cérebro e traz boas inspirações para a vida.
Até a próxima!
Publicado em 28/11/2011 15:36
Um engenheiro de transportes de São Paulo, ao ser entrevistado por uma repórter, a respeito das reformas dos aeroportos, assim se expressou: Do modo como estão sendo feitas, podem até ser eficazes, mas não serão eficientes. Imediatamente, meus ouvidos me avisaram da novidade: eficaz não é sinônimo de eficiente. Será?Sei que a origem latina das duas palavras dão a ideia de bom resultado, alcance de efeito desejado. De onde teria surgido, então, a diferença de significação entre ambas? È muito interessante a história das palavras e da mudança de significados e de usos pelos quais elas passam no decorrer de sua existência.Confesso que é essa uma das minhas paixões.E das boas paixões, porque não me traz maiores sofrimentos e nem causa perdas.Não luto com as palavras, nem elas comigo, não fogem ao meu assédio e aceitam meu carinho.
Vamos aos dicionários, minha leitora companheira, meu leitor amigo. Eles são bons amigos e nada cobram a não ser paciência.
O dicionário Aurélio 2010 registra os seguintes significados para eficaz e eficiente::
eficaz
[Do lat. efficace.]
Adjetivo de dois gêneros.
1. Que produz o efeito desejado; que dá bom resultado:
medida eficaz; tratamento eficaz.
2. Que age com eficiência:
gerente eficaz. ~ V. corrente , seção e valor . [Sin. ger.: eficiente e (p. us.) efetuoso. Superl. abs. sint.: eficacíssimo.]
eficiente:
Do lat. efficiente.]
Adjetivo de dois gêneros.
1. V. eficaz. ~ V. causa .
eficiência
[Do lat. efficientia.]
Substantivo feminino.
1. Ação, força, virtude de produzir um efeito; eficácia.
No dicionário Houaiss, encontramos as seguintes abonações:
Eficiente: que obtém resultados efetivos com o mínimo de perdas, erros, dispêndios, tempo etc. no seu trabalho, numa tarefa ou na consecução de um fim; competente, capaz
Ex.: um criado eficiente
Eficaz que tem a virtude ou o poder de produzir, em condições normais e sem carecer de outro auxílio, determinado efeito; efetivo
Ex.: <meio e. > <proteção e. >
Ainda no Houaiss na rubrica de administração, é que poderemos achar a chave da diferença de significação:
qualidade ou característica de quem ou do que, num nível operacional, cumpre as suas obrigações e funções quanto a normas e padrões.
Obs.: cf. eficácia e efetividade
De acordo com esse dicionário, concluiremos que, se a pessoa cumpre sua obrigação, faz o que deve, realiza o que o chefe pede, é eficaz, não importando se na ação ele gastar mais energia ou não conseguir evitar algum desperdício. Se outra pessoa fizer a mesma ação, porém com alguma economia ou com menos desperdício, essa será eficiente.
Assim, para o engenheiro de transportes mencionado no início da crônica, as reformas dos aeroportos, feitas de forma um tanto apressada, poderão ser eficazes, porque precisam ser feitas antes da Copa do Mundo, mas poderão não ser eficientes, porque sairão mais caras e não serão definitivas. Para os administradores de empresas, eficiência é sinônimo de produtividade, está vinculada ao nível operacional, ou seja, à realização de operações mais lucrativas para as empresas.
A eficácia liga-se ao nível gerencial, das escolhas e decisões a serem tomadas pelos donos. A decisão tem de ser eficaz e a realização tem de ser eficiente.
Se sairmos do campo da administração, essa diferenciação não precisa ser feita. Eficaz e eficiente são sinônimos e a preferência de uso dependerá de quem escreve ou fala. Pelas minhas pesquisas, a sugestão é que se use o adjetivo eficaz, para objetos coisas inanimadas e eficiente, para pessoas. Leia este exemplo: Ele tomou medidas eficazes para os problemas da empresa e comprovou mais uma vez que é um chefe eficiente.
Clarice Lispector para mulheres, de novo
Atendendo a pedidos de mais leitoras, busco novamente o livro Clarice só para Mulheres e transcrevo outro trecho fascinante:
Para seu marido ler
Um menino de dez anos de idade disse um dia desses a um pai muito esclarecido: Alô, camarada! O pai respondeu, firmemente, gentilmente: Não sou seu camarada, sou seu pai. O pai foi áspero? Não. Reconheceu o fato de que filho e pai não são iguais. Pai é o homem que tem a difícil tarefa de civilizar seu filho. E isso envolve outra difícil tarefa: a de disciplinar. Um dos medos dos pais modernos é o de perder a amizade do filho. O resultado é que este cresce com desprezo por qualquer espécie de autoridade. E o resultado é uma criança e mais tarde um adulto que se sente solta no mundo, sem apoio e sem lei.
Em que se baseia a disciplina? Em firmeza, em carinho, em justiça, em franqueza.
Para quem julga Clarice Lispector apenas uma genial escritora alienada, fora do mundo, eis uma demonstração de sua ligação com a vida social, de suas preocupações com a educação dos filhos e, sobretudo, de sua sabedoria e intuição de mãe.
Veja mais um trechinho curto, para encerrar este meu texto que escrevo só para você:
Definição: Diplomata é um homem que pode ganhar numa discussão com sua mulher sem que ela perceba que saiu perdendo.
Quanta percepção e sensibilidade, meu Deus! Abençoada Clarice.
Até a próxima!
Publicado em 22/11/2011 13:59
Participei com entusiasmo do 5º Congresso Brasileiro de Escritores promovido pela União Brasileira de Escritores (UBE), na cidade de Ribeirão Preto, no período de
Quero deter-me sobre a palestra do Frei Betto, nome pelo qual é conhecido Carlos Alberto Libânio Christo. Sobre ele esclareço que não é frade, isto é, não foi ordenado padre, é irmão pertencente à ordem dominicana. Também não é filiado a nenhum partido político, como muitas pessoas costumam dizer. É um intelectual de vulto e tem escrito muito. Até agora, publicou 53 livros, o último dos quais é o romance Minas do Ouro, que acaba de ser lançado pela editora Rocco. Já o estou lendo e gostando bastante, seja porque também sou mineiro, seja pela boa qualidade literária do livro.
A palestra do Frei Betto intitulou-se Os escritores e as ditaduras e, nela, ele faz um apanhado de todos os escritores que foram vítimas de regimes ditatoriais, pelo mundo, desde a época de Cristo, o primeiro sacrificado por causa do uso das palavras. Jesus, em verdade, morreu sob dois processos: o judaico e o romano. Daí, poder-se dizer que é difícil concordar com o fato de uma pessoa declarar-se cristã e sua fé não ter nenhuma incidência política. Prosseguiu o Frei Betto em sua palestra, mostrando a trajetória literária de grandes nomes de escritores que foram presos, torturados e, muitos deles, mortos por regimes totalitários.Tudo isso para dizer que a literatura tem um caráter claramente conscientizador e, por isso mesmo, desperta o medo em ditadores.
O que me interessa nesta crônica é reafirmar que a função primeira da obra literária é dar o que pensar, é transmitir uma visão de mundo que poderá ajudar o leitor a se ver melhor, a se situar bem na vida e no mundo, a ficar mais esperto no jogo da vida. Por isso tudo a literatura tem de ser bela e fazer-se necessária na vida das pessoas. A literatura, disse bem Frei Betto, não tem de ser engajada politicamente, ela tem de trazer o belo artístico. Engajado quem tem de ser é o autor, não a obra. E eu acrescento, então, que o que faz a literariedade de uma obra são a sua forma significante e o conteúdo de valores que ela transmite. Para mim, o conteúdo da atividade estética é tão decisivo quanto o trabalho com o material linguístico. Por isso, gostei tanto da palestra do Frei Betto e a considerei a mais relevante de todo o 5º Congresso Brasileiro de Escritores.
Clarice para mulheres.
Nunca é demais escrever sobre Clarice Lispector e fico surpreso e feliz, quando vejo nas redes sociais que ela continua despertando o interesse e o encantamento cada vez maiores dos jovens. É bem verdade que muitos a citam, sem ter lido suas obras. Descobrem algumas frases soltas nas quais se reconhecem ou sentem que poderiam servir de guias de seu viver ou de seus amigos e as colocam em seus murais.De qualquer modo, é sempre bom que a literatura sirva de guia para os moços e moças de nosso Brasil amado.
Neste meu espaço, aqui e agora, trago aos meus leitores alguns trechos do belo livro de crônicas de Clarice, intitulado Clarice só para mulheres, da editora Rocco, lançado em 2008, porém pouco citado. Como é gostoso reconhecer Clarice nos conselhos para mulheres, na sugestão de roupas, perfumes e jóias!Quem leu os romances e contos de Clarice, verá nesses trechos escritos sob pseudônimos, para jornais, o estilo insuspeitável e originalíssimo da escritora, sempre atual, de nossa literatura.
Cito alguns trechos, para seu deleite, minha estimada leitora e meu prezado leitor:
Quem é que você deve imitar?
A questão está toda aí: você deve imitar você mesma. O que quer dizer: seu trabalho é o de descobrir no próprio rosto a mulher que você seria se fosse mais atraente, mais pessoal, mais inconfundível. Quando você cria seu rosto, tendo como base você mesma, sua alegria é de descoberta, de desabrochamento.
As 24 horas de um dia
Poucas pessoas pouquíssimas, aliás vivem com alegria. Ou estão lamentando os erros de outrem ou se preocupando com os problemas de amanhã.
Ou se sentem tão cansadas e nervosas que não têm capacidade de usar o momento presente. No entanto, o dever da gente é com o momento presente, sobretudo.
Não existe ninguém no mundo que tenha mais do que 24 horas por dia. Planejando um pouco, é muito possível mais essas essas 24 horas sem a exaustão ou confusão que vêm quando se tenta fazer muito em pouco tempo.
Qual seria a recompensa de um planejamento do tempo? Esta: ter mais tempo.
Minha vontade seria de transcrever mais trechos do precioso livro, mas deixo esses dois como chamariz para a sua leitura da obra inteira, porque sei que você se sentirá recompensada/o pelo esforço de concentração que fará sobre as palavras muito puras gotas de cristal, como Clarice mesma gostava de dizer.
Até a próxima!Publicado em 17/11/2011 10:11
A cidade de Conselheiro Lafaiete, no estado de Minas Gerais, ganhou as páginas dos jornais e tornou-se sucesso na internet, devido a um fato linguístico. A jovem lafaietense, Paola Fernandes Maia de Souza, de 14 anos, participante do quadro Soletrando, do Caldeirão do Huck, da rede Globo, no dia 28 de outubro passado, foi reprovada na soletração que fez da palavra esfoliação. O júri do programa que, naquele dia, certamente não estava de bem com a língua, reprovou a jovem, por julgar errada a soletração feita por ela. Para os jurados, esfoliação só poderia ser escrita com X: exfoliação.
Nunca se consultou tanto o dicionário Aurélio na bela cidade mineira, tenho certeza. Quem não o tinha em casa deve até tê-lo encomendado. Afinal, os brios da população foram atingidos.
Paola havia sido aprovada em todas as fases e ficara para a final, com apenas mais dois candidatos. Ela foi a segunda a soletrar, já que o primeiro havia errado.E lá se foi a representante da aprazível cidade de 102.000 habitantes, próxima de Ouro Preto e Ouro Branco. E Paola não fez feio. Lembrou-se dos produtos esfoliantes que tantas mulheres usam e soletrou com segurança: E-S-F-O-L-I-A- Ç-Ã-O.Seus torcedores ali presentes e, sem dúvida, os seus conterrâneos todos, de olhos grudados na tevê, deram pulos de alegria e gritaram o nome da cidade e da conterrânea famosa. Quando veio o veredito do Luciano Huck: errado, não é com S, é com X, houve uma decepção total. A aluna seguinte soletrou a palavra que lhe deram, de forma correta, e foi declarada vencedora.
A mãe de Paola caiu em prantos, mas a diretora da escola não se conformou. Consultou a internet, pelo telefone celular, e confirmou que aquela palavra poderia também ser escrita com S. Pediu licença reclamou educadamente e provocou espanto geral.
Você poderá estar pensando, caro leitor, como um pessoal tão gabaritado como o do júri do programa poderia errar tão feio, não é mesmo? A candidata estava certa: as duas formas de escrita, com S e com X, estão corretas, conforme o dicionário.
Veja leitor, como muitas pessoas, na posição enganosa de autoridades da língua, reagem, quando erram, e são corrigidas. Tentam justificar o erro com explicações nem sempre convincentes.Foi o que se deu com a equipe de jurados do Huck.
Tão logo a professora e também diretora da escola de Paola fez a reclamação, a equipe de produção do programa pediu que aguardassem a decisão. A aluna, a mãe e a diretora foram chamadas ao local onde havia sido feita a soletração. Exibiram o vídeo da fala de Paola e confirmaram o veredito de erro, porque a garota pronunciou com S e, de acordo com o Aurélio, o significado é diferente.São palavras homônimas,esfoliação e exfoliação, mas têm significados diferentes.Assim, para o júri, Paola Fernandes, que não é cantora, como a sua quase homônima conterrânea mineira, havia errado.Ou seja, inventaram uma saída honrosa.
Agora, faço uma rápida interrupção, na narrativa que vinha fazendo e convido você para vir comigo ao dicionário Houaiss.
Esfoliação
substantivo feminino
ato ou efeito de esfoliar
1 desprendimento, em fólios, escamas ou lâminas, dos tecidos animais ou vegetais
2 Rubrica: medicina.
descamação das células superficiais do epitélio
3 Rubrica: medicina.
descamação da camada cornificada da epiderme
Exfoliação
substantivo feminino
m.q. esfoliação
Vamos também ao dicionário Aurélio:
Esfoliação
[Do lat. exfoliatione < lat. exfoliare, tirar as folhas.]
Substantivo feminino.
1. Ato ou efeito de esfoliar.
2. Geol. Descamação (2). [Cf. exfoliação.]
Exfoliação
[Do lat. exfoliatione.]
Substantivo feminino.
1. Med. Desprendimento da pele sob a forma de escamas [v. escama (2)]. [Cf. esfoliação.]
Faço questão de recorrer também ao dicionário UNESP do Português Contemporâneo organizado pelo meu estimado professor de Linguística no Mestrado, Francisco da Silva Borba, da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP., de Araraquara:
Esfoliação/ exfoliação. Veja que ele já abona as duas em par.
Sf. 1. ato de esfoliar. descamação: a mulher aproveita folgas para fazer exfoliações no rosto.
Esfoliar.
Vt. Fazer desprender a pele de; descamar: Com uma mistura de óleo de amêndoas você pode esfoliar levemente as pernas.
Os dicionários que citei dão razão à ilustre diretora de Conselheiro Lafaiete e à jovem estudiosa e brilhante, Paola Fernandes. Considerar errada a separação das letras que a aluna fez da palavra esfoliação com s, e não com x, só fez desfolhar a insegurança linguística dos jurados do programa e mostrar que, em matéria de conhecimento linguístico, é preciso humildade para reconhecer que a língua tem também as suas armadilhas.
Fico feliz com a notícia de que a Globo resolveu, ontem, refazer a etapa de seleção
Para suavizar um pouco esse deslize terrível das pessoas que compõem o júri do programa Soletrando, cito e recito mentalmente Drummond, como um agradecimento a vocês, minha leitora e meu leitor:
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Até a próxima!
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Publicado em 10/11/2011 15:28
Outro dia, li na internet a notícia que tinha como foco uma doença cujo nome é estranhíssimo: Síndrome de Crigler-Najjar, tipo 1. O texto narra o drama de uma criança australiana que necessita de banhos diários de luzes azuis, a fim de se manter viva, pois é portadora dessa síndrome, causada pela insuficiência de uma enzima que controla a presença da bilirrubina. E fiquei triste, pensando no sofrimento da criança e, curioso, pelo nome esquisito da doença causado pela bilirrubina.
Lembrei-me depois de que Vinícius de Moraes, no poema, Poesia, havia empregado a palavra bilirrubina, em um dos versos. Vamos ler juntos, leitor, o belo poema do saudoso e grandioso poetinha:
Minha
mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado
Minha
irmã, conta-me histórias da infância em que eu tenha sido herói sem mácula;
Meu
irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a bilirrubina.
Maria,
prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco quilos;
Chamem-me
a massagista, a florista, o amigo fiel para as confidências.
E
comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas
Alinhadas
sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.
O eu-lírico do poema constrói o etos de poeta e encena todo um ritual de preparação para a criação da poesia. Convoca a mãe, a irmã, o irmão, a empregada, a massagista, a florista e o amigo fiel.Todos deverão colaborar para que ele esteja pronto para fazer a poesia acontecer.Quando ela vier, ele deverá estar de bem com o passado, em dia com a infância de herói, com a saúde impecável, com o físico afinado, com o corpo descansado, com a casa cheia de flores e sem sobras de segredo.A voz que fala nos versos quer estar pronta para o momento da inspiração poética e sabe que se não estiver, a poesia fugirá.
Gostei dos versos, quando os li pela primeira vez, e fixei-me na palavra bilirrubina. Quando o poema é bem composto, nem mesmo uma palavra tão prosaica, tão sem poesia, pode tirar-lhe a beleza,.Pelo contrário, ela também se torna bela e ganha contornos poéticos.
De onde teria vindo bilirrubina? Veja só: essa palavra pertence ao universo vocabular da Bioquímica, é formada pelos radicais latinos: bílis+ruber e, segundo o dicionário Aulete digital é substantivo feminino e significa: pigmento biliar vermelho, elaborado nas células de Kupffer do fígado por degradação da hemoglobina e do qual derivam outros pigmentos, como a biliverdina. É o principal dos pigmentos biliares; encontra-se também nos cálculos biliários.
E não é que Vinícius de Moraes andava preocupado com o nível de bilirrubina no organismo? Daí descobrimos que o poeta queria mesmo estar bem humorado, com a bílis em dia, já que o substantivo bílis significa:
1-Líquido esverdeado, amargo e viscoso, segregado pelo fígado e que, por meio de sistema próprio de canais, é levado ao duodeno, participando, de modo importante, da digestão.
2- Fig. Mau humor, irascibilidade, hipocondria.
O poeta não queria tornar-se bilioso, isto é, cheio de bílis, de mau humor, colérico, incapaz de estar alinhado para alinhavar os versos prestes a vir à sua mente.
Muito menos queria estar melancólico o que já seria estar com a bílis enegrecida, segundo a origem grega da palavra: melan (de cor preta e, por extensão: triste) + kolé (bílis). O dicionário Aurélio assim registra as acepções dessa palavra funesta que não combina com o universo poético de Vinícius:
1 Tristeza sem causa definida, por vezes acompanhada de uma saudade difusa
2 Desgosto, pesar
3 Psiq. Distúrbio emocional caracterizado por um estado de abatimento mental, pela sensação de impotência, pelo sentimento de que a vida não possui sentido, podendo, se não tratado, conduzir ao suicídio.
Nada como uma boa pesquisa sobre os significados das palavras para descobrir o sentido dos textos, porque significado e sentido estão próximos, mas não são exatamente a mesma coisa. Acabei de ler isso, não em um livro de teoria literária, mas em um romance dos mais belos de José Saramago. O livro intitula-se Todos os nomes e foi publicado aqui no Brasil, pela editora Companhia das Letras, em 1998. Não há como não recomendá-lo para sua leitura, amigo leitor. Acompanhe-me neste trecho da história:
O diálogo fora difícil, com alçapões e
portas falsas surgindo a cada passo, o mais pequeno deslize poderia tê-lo
arrastado a uma confissão completa se não fosse estar o seu espírito atento aos
múltiplos sentidos das palavras que cautelosamente ia pronunciando, sobretudo
aquelas que parecem ter um sentido só, com elas é que é preciso mais cuidado.
Ao contrário do que em geral se crê, sentido e significado nunca foram a mesma
coisa, o significado fica-se logo por aí, é directo, literal, explícito,
fechado em si mesmo, unívoco, por assim dizer, ao passo que o sentido não é
capaz de permanecer quieto, fervilha de sentidos segundos, terceiros e quartos,
de direcções irradiantes que se vão dividindo e subdividindo em ramos e
ramilhos, até se perderem de vista, o sentido de cada palavra parece-se com uma
estrela quando se põe a projectar marés vivas pelo espaço fora, ventos
cósmicos, perturbações magnéticas, aflições.
Não basta o significado, é preciso buscar o sentido do que se lê, do que se vê e, principalmente, do que se vive.
Até a próxima.
Publicado em 31/10/2011 10:52
Ouço muitas vezes essa expressão e também você, leitor, deve ouvi-la bastante, e é sobre ela que inicio esta crônica. O que significa falar bem o português? Para muitas pessoas, talvez a maioria, falar bem significa expressar-se rigorosamente de acordo com os padrões da gramática normativa. Nesse caso, não se perdoam quaisquer deslizes de ordem gramatical e ainda se espera que aquele que fala faça uso de algumas palavras, expressões e locuções que sejam elegantes e não muito comuns na fala cotidiana das pessoas em geral.Será isso mesmo o que ensina a teoria Sociolinguística? Não, não é esse o posicionamento dessa teoria que trata da relação entre a língua, a sociedade e o usuário. Para a Sociolinguística, a língua varia de acordo com os usuários e com os usos, e falar bem é usar a língua de modo a ser entendido pelo interlocutor. Segundo os sociolinguistas , a língua varia no tempo e no espaço e todas as normas são igualmente válidas.Não há deficiência no linguajar das pessoas não escolarizadas, mas, sim, diferenças de expressão linguística em relação à norma privilegiada socialmente.
Existem dois tipos de variedades linguísticas: os dialetos e os registros.
1) Dialetos: Variedades de fala e escrita que dependem dos usuários da língua.
2) Registros: Variedades que dependem dos usos, dos interlocutores do discurso e da mensagem.
Os dialetos podem ser dos seguintes tipos:
regionais;
sociais;
de idade;
de sexo;
de geração e função social.
Os registros linguísticos classificam-se de acordo com:
1- o modo (língua oral e língua escrita);
2- o grau de formalismo que varia numa escala de cinco graus básicos
e a sintonia, isto é, o grau de status social dos interlocutores, o grau
de cortesia entre eles, a tecnicidade da mensagem;
3- a norma.
Vejamos os graus de formalismo no quadro a seguir:
LÍNGUA ORAL LÍNGUA ESCRITA
Oratório Hiperformal.
Formal ou Deliberativo Formal
Coloquial Semiformal
Casual Informal
Familiar Pessoal
Registros Oratório e Hiperformal (grau extremo de formalismo):
Como exemplos de registro oratório temos os chamados discursos de tribuna (proferidos por oradores em sessões de Tribunais, Parlamentos, Igrejas) com predomínio das funções conativa, referencial e emotiva da linguagem. É a busca da persuasão, do
convencimento, da exortação. O registro Hiperformal predomina em certas mensagens literárias que se preocupam rebuscada do texto de modo que ele se faça entender apenas pelos estudiosos da língua e consulentes de dicionários. Os textos de Rui Barbosa, Coelho Neto, a Carta às Icamiabas, no romance Macunaíma, de Mário de Andrade, são exemplos do uso desse registro. Imagine, leitor, você ouvir uma frase como esta: O mancebo osculou a face angelical da moçoila ao aljôfar.(tradução: O rapaz beijou a mocinha ao cair do orvalho da manhã. Ou esta outra: A bucéfalo de oferenda não perquira a odontogenia. Esse seria o registro gramatical hiperformal do conhecido provérbio: A cavalo dado não se olham os dentes.
Registros Deliberativo e Formal: linguagem bem cuidada de acordo
com a norma culta: a linguagem dos jornais, os textos científicos e didáticos das teses, livros didáticos e artigos de grandes revistas, servem de exemplo.
Registros Coloquial e Semiformal: uso de construções gramaticais mais soltas, menos preocupadas com a gramática normativa. É a linguagem dos diálogos descontraídos, das reportagens de rádio e tv., etc.
Registros Casual e Informal: é a linguagem de grupos (gírias
próprias, termos especiais, liberdade de repertório e de sintaxe. Na
escrita, a correspondência familiar é o campo próprio desse registro.
Registros Íntimo e Pessoal: maneira pessoal de se usar a linguagem
na vida familiar e particular, com o mínimo de formalidade.
A língua portuguesa é o conjunto desses dialetos e registros e todos eles têm o seu grau de complexidade e riqueza de significação. O ideal é que todos os brasileiros possamos aprender os diferentes registros e dialetos e saibamos empregá-los de forma adequada, nas diferentes situações sociais que venhamos a enfrentar. Essa é uma afirmação pedagógica e teórica que faço, não sem antes explicar que a função da escola é criar condições de os alunos aprenderem o registro formal da língua, a norma considerada padrão que é privilegiada pela sociedade. O alunos não deveriam concluir o período de escolarização obrigatório sem ter o domínio pleno dos modos de expressão oral e escrita prescritos pela gramática normativa da língua.
Como estudioso da gramática e da teoria linguística tenho uma séria de sugestões para mudanças de nossas gramáticas, mas não posso preconizar o seu abandono no ensino de língua portuguesa. A gramática, repito, não tem culpa pelo mau uso que dela alguns fazem. Ela não quer ser rainha, ela quer ser mesmo serva do uso da língua. Ela não é sinônimo de língua, é apenas o seu retrato, uma tentativa de codificar os usos da língua.
Acho muito estranho o fato de a maioria das pessoas, mesmo as escolarizadas, não conhecerem uma gramática. É sinal de que, na escola, tenta-se ainda hoje ensinar a norma prescrita pela gramática, sem que os alunos a tenham em mãos. É um ensino de gramática sem a gramática. Convenhamos que não deva ser uma tarefa fácil para o professor, não é?
Até a próxima!
Publicado em 25/10/2011 09:59
Combinemos que, de quando em vez, é bom que abordemos, neste Rodapé Literário, aspectos da ortografia e da gramática da nossa língua portuguesa. Escrevo a expressão nossa língua, porque precisamos todos sentirmo-nos donos dela também.A língua é para ser amada e usada espontânea e naturalmente como nossa forma de ação no mundo.As pessoas costumam demonstrar receio, ou até medo, de falar ou escrever em determinadas circunstâncias, por não se sentirem seguras em relação às regras gramaticais.Eu lhes garanto, no entanto, que não se pode fazer da gramática normativa um instrumento de inibição da fala ou escrita de quem quer que seja.È evidente que o ideal é que as pessoas se esforcem para ter o domínio pleno dos recursos da língua, para falar e escrever na modalidade considerada culta.A situação real é que esse fenômeno não acontece, por uma série de fatores, desde os problemas do ensino, passando pela situação econômica, até chegar a um fator que considero preponderante: a preguiça de ler que assola o país.As pessoas leem muito pouco,usam muito pouco os olhos para se concentrar na palavra escrita, em busca de informação, cultura, entretenimento, formação espiritual e artística.Nem jornal as pessoas leem.Basta que consultemos a tiragem dos nossos jornais. Fala-se muito, ouve-se pouco, lê-se e escreve-se menos ainda. As nossas pesquisas sobre leitura revelam essa verdade.Tenho certeza de que esse não é o seu caso, leitor, uma vez que você está concentrado até aqui, acompanhando a escrita deste meu texto.Agradeço e louvo a generosidade de sua atenção à minha crônica e lhe afirmo que o meu objetivo de escrever é ser útil aos que me leem.
Dito isso, passemos a algumas regras de ortografia que espero possam ajudá-lo em caso de dúvidas.
Emprego das letras S/Z
Veja a ortografia das seguintes palavras:
a) Pesquisar, alisar, divisar, improvisar, paralisar. Todas estão escritas com a letras S, porque são derivadas de palavras que já são grafadas com S, na raiz: pesquisa,lisa,divisa,improviso e paralisia.
b) Atualizar, canalizar, amenizar, externar, exteriorizar. Todos esses verbos são grafados com Z, porquanto são derivados de palavras que não têm essa letra na raiz. São elas as primitivas: atual, canal, ameno, externo e exterior.
Se você estiver em dúvida quanto à terminação ESA ou EZA, observe o seguinte:
c) Se o substantivo não for derivado de adjetivo, escrever-se-á com S: marquesa, camponesa, defesa, princesa.
d) Se for derivado de adjetivo, deverá grafar-se com Z: magreza, gentileza, frieza, beleza, nobreza que são derivados dos adjetivos: magro, gentil, frio, belo, nobre.
Emprego de SS
As pistas metodológicas que se apresentam a seguir são bastante úteis, para sanar dúvidas ortográficas:
a) Palavras derivadas de verbos que têm o radical ced, são escritas com SS. É o caso de
cessão, derivada do verbo ceder; acesso, de aceder.
b) Quando os verbos têm o radical gred, dão origem a palavras grafadas com SS: Examine os exemplos: regredir (regresso); agredir (agressão).
c) Se o verbo tiver a raiz prim, as palavras dele derivadas deverão ser escritas com SS:
imprimir (impressão); reprimir (repressão).
d) Se os verbos tiverem o radical meter como é o caso de intrometer, prometer, submeter, as palavras que deles se derivarem serão escritas com SS. Veja os exemplos: intromissão, promessa, promissão, submissão.
e) Os verbos que terminam em tir dão origem a palavras que se escrevem com SS. Mire os exemplos: discutir (discussão); admitir (admissão); permitir (permissão).
Emprego de Ç
Com ç escrevem-se as palavras que se enquadram nos casos seguintes:
a) derivam-se de palavras que terminam
b) Os verbos ter e seus compostos também dão origem a palavras com Ç, como: retenção, de reter; tenção, de ter; contenção, de conter; abstenção, de abster.
c) Após ditongos: eleição (ditongo: ei); afeição (ei); traição (ai).
d) Vocábulos de origem árabe: muçulmano, açucena; açafrão; açúcar.
e) Palavras de origem africana ou indígena: juçara, araçá, Iguaçu, paçoca, Paraguaçu, caçula.
Emprego de S
a) Os substantivos que são derivados de verbos cuja raiz termine em nd, são escritos com S. São exemplos: expansão, suspensão, pretensão, ascensão, que são derivados, respectivamente, dos verbos: expandir, suspender, pretender e ascender.
b) Também com S devem ser grafados os substantivos derivados de verbos com o radical terminado em rg ou rt, como é o caso de: imersão, inversão, conversão, diversão, cuja origem está nos verbos: imergir, inverter, converter e divertir.
c) Escrevem-se com S os substantivos correspondentes a verbos com o radical pel ou corr. Sirvam como exemplo as palavras: impulsão (derivada de impelir); expulsão (expelir); repulsão (repelir); curso, discurso, excursão, incursão, recurso e cursivo, sendo essas seis últimas derivadas do verbo correr.
Emprego de X
Apresento a você, leitor, uma regra bastante prática para o caso da grafia com X:
Se a palavra iniciar-se com exa, exe, exi, exo, exu, com o som de Z, será escrita com a letra X. Veja comigo: exame, executar, exílio, exotismo, exumação. É importante que eu explique que só existem nove palavras, nessa situação, que não seguem essa grafia e são escritas com a letra S, de acordo com o Dicionário Aurélio. São elas:
Eseré (fava de calabar); esipra (erisipela); esocídeos (espécie de peixes); esoderma (membrana de insetos); esôfago; esoforia (estrabismo); esoterismo (ocultismo, não confundir com exoterismo que, na filosofia, significa, de acordo com o Aurélio: ensinamento que, em escolas da Antiguidade grega, era transmitido ao público sem restrição, dado o interesse generalizado que suscitava e a forma acessível em que podia ser exposto, por se tratar de ensinamento dialético, provável, verossímil.); ésula (planta) e esurino (aquilo que excita a fome).
Leitor, faço questão de agradecer a sua companhia nesta crônica linguístico-literária e encerro-a com uma confissão bonita e pedagógica de Clarice Lispector no seu livro A descoberta do mundo, p.101: E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever, é com se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.
Até a próxima.
Publicado em 18/10/2011 09:53
Hoje é para ser comemorado mais um Dia do Professor! E eu sou um deles, com a mais perene alegria. Antes de tudo, sou professor e tenho o maior orgulho dessa resposta que eu dou à minha existência. O entusiasmo que sinto pela sala de aula continua o mesmo das minhas primeiras aulas. E olhe que já se vão longos quarenta e sete anos de profissão. Mesmo que fosse hoje, apesar da situação tão sofrida dos professores brasileiros, sobretudo os do ensino fundamental e médio, eu ainda escolheria ser professor. Chego a crer que o magistério nem é mesmo questão de escolha.De repente, não mais que de repente, como diria Vinícius, a pessoa se vê professor, sente uma espécie de chamado para a sala de aula.Dali, daquele espaço de magia, encontro e acolhimento, onde um dia eu entrei por acaso, não mais quis sair.
Estou escrevendo este texto, no dia 12 de outubro, data em que se homenageia no Brasil a nossa Santa Padroeira e a criança e, logo no dia 15, em que você deverá estar lendo o que escrevi neste espaço do jornal, erguem-se louvores aos professores. Criança e professor são figuras que se casam à perfeição, que se entranham e se dão como pais e filhos. Nesta data, sinto-me professor e criança. Como professor, eu agradeço todos os meus alunos do ensino fundamental à pós-graduação. Não fossem vocês, eu não seria professor.Com todos vocês eu aprendi um pouco mais sobre a vida e sobre os homens.Descobri-me muito mais no encontro, na solidariedade e na crença mútua.
Como criança, faço questão de homenagear as minhas professoras do antigo Grupo Escolar Dr.Lycurgo Leite, da minha inesquecível Juréia,
O título de minha crônica é para lembrar que hoje é dia de dar vivas entusiasmados ao professor, mas, infelizmente, é também dia de desejar que viva o professor, que ele continue vivo, porque já atentam contra a sua vida nas escolas do Brasil. Ah! quem poderia imaginar que um dia chegaríamos a esse estado de barbárie.
Sobre grama e gramática
Um dos estudos linguísticos mais fascinantes é o da origem e transformação das palavras, a chamada etimologia. De certa forma, podemos considerar que as palavras têm uma vida semelhante à nossa. Elas nascem, crescem no uso, transformam-se, têm um período fecundo de produtividade de sentido e uso e depois entram em estado de decadência e são substituídas por outras. Não é regra geral, mas acontece com quase todas.A diferença negativa contra nós é que ninguém escapa à lei da decadência e desaparecimento.
Vamos às palavras e suas origens. Escrevi sobre caligrafia na crônica anterior e expliquei a origem grega da palavra: Kalós+graphein, em que a primeira significa bela, bonita e a segunda, escrever. Temos assim, a palavra caligrafia com o significado original de escrita bonita. O significado de escrever, para graphein, surgiu por associação, porque este verbo grego nasceu para designar a ação de sulcar, arranhar, raspar as letras nas pedras ou na argila.Daí, para passar a designar o ato de escrever foi um salto natural.E hoje temos, em muitas línguas palavras derivadas de graphein, como gráfico,grafia,autógrafo,parágrafo,grafema,grafe,grafila,grafomania,graforreia, grafismo grafemático,grafologia,grafofobia,grafite, grafismo,grafiteiro e tantas outras.
Ainda na língua dos gregos antigos, não dos gregos quebrados de hoje, encontramos gramma, como elemento de composição de palavras, derivado de graphé, para designar letra do alfabeto, escrita, registro, lista, livro, descrição, veja quanta possibilidade de significados para gramma, até chegar à nossa Gramática, que é derivada de Grammatiké tékne cujo significado seria ciência ou arte da escrita. Desse elemento de composição gramma, colocado no final de palavras, teremos no dicionário muitos exemplos de palavras entre as quais poderei apontar as seguintes, com um convite a que você vá, quando possível, ao dicionário, para conferir ou descobrir os seus significados:
anagrama, antibiograma, audiograma, caligrama, cronograma, decigrama, diagrama, digrama, electrencefalograma, epigrama, estenograma, fonograma, fotograma, hemograma, hierograma, lipidograma, lipograma, maregrama, metagrama, miligrama, monograma, organograma, pentagrama, pictograma, programa, psicograma, radiograma, silabograma, sismograma, taquigrama, telegrama, tetragrama.
Também devo mencionar um outro significado para gramma no grego: pequeno peso, por estar relacionado à pequenez das letras do alfabeto. Daí, termos a unidade de massa chamada de grama em português: dois gramas, duzentos gramas, etc , sempre no masculino.
Leitor, pode ser que você esteja curioso e queira interrogar-me: Professor, a palavra grama do campo de futebol ou do jardim teria vindo dessa mesma gramma do grego?
Respondo-lhe: A grama de jardim ou do campo de futebol originou-se do latim gramen, graminis. Nada tem a ver com a gramma dos gregos, que não é capim. Existe entre nós,atualmente, uma expressão popular,comer grama,para significar que a pessoa enfrentou muitas dificuldades, para realizar uma tarefa difícil. Posso garantir-lhe, entretanto, que para mim foi tão natural e gostoso escrever este texto que posso chamar Guimarães Rosa, para me emprestar uma das belas frases de seu Grande Sertão: Veredas: O bom da vida é para o cavalo, que vê capim e come. Simples assim. Até a próxima.
Publicado em 03/10/2011 11:00
É muito gostoso ouvir o leitor de um texto que escrevemos e descobrir as sensações e impressões que ele teve, enquanto lia o nosso escrito. Uma leitora muito querida fez a gentileza de comentar a minha última crônica e dizer que ficou impressionada com a minha paixão pela leitura, desde tão cedo.Disse-me ainda que adorara ler as frases que transcrevi do meu caderno de anotações sobre os livros que havia lido, em um só ano.Para ela a mais bonita das frases foi : Um homem que não pode amar seu semelhante, tampouco pode amar a Deus.(Sully Prudhome, no livro,Diário Íntimo).
Lembrei-me, de cor, da frase de Guimarães Rosa,
Vamos a um livro belíssimo e inesquecível que foi uma marca na minha trajetória de leitor adolescente e que há pouco tempo eu tive o prazer renovado de reler. Trata-se do romance Deus Nasceu no Exílio, produzido por um autor da Romênia, chamado Vir gil Georgiu, que escreveu também um romance célebre intitulado: A 25ª Hora.
1ª- Não é preciso ter tudo o que se deseja, para ser feliz.
2ª- O aspecto dos homens não passa muitas vezes de falsa aparência.
3ª- Poderíamos viver todos em paz se os homens não tivessem medo uns dos outros.O medo faz-nos empregar linguagens diferentes.E a vida torna-se uma guerra sem fim, uma guerra dia a dia mais encarniçada.fabricam-se armas em vez de inventar palavras de paz.
4ª- Se víssemos tudo o que nos espera, o tempo que passa teria um gosto de podridão.
5ª- Pode-se, portanto, morrer, antes de estar definitivamente morto.
6ª- O exílio é este lugar suspenso entre uma origem que se apagou na areia e um fim que não se deixa entrever.
Com essas frases, eu me presenteei e também a você, meu leitor, pelos valores que elas transmitem e pela beleza que irradiam. Também creio, ter-lhe dado uma sugestão para suas próximas leituras qual seja a de anotar frases e até trechos mais longos.De preferência em letra cursiva, a nossa caligrafia, a bela escrita, cuja morte vem sendo injustamente decretada.
O lavarroz
Abro um outro tópico nesta crônica, para lhe dar uma informação. O objeto culinário escorredor de arroz, de utilidade incontestável para quem cozinha, foi inventado por uma senhora nascida em Batatais, na nossa cidade amada. Por ela, o objeto seria patenteado como lavarroz, mas o nome de registro que permanece até hoje é escorredor de arroz. Pois é, a cirurgiã-dentista Therezinha Beatriz Zorowich, conhecida como Beatriz, conforme o desejo dela mesma, incomodada com o constante entupimento da pia pelos grãos que escorriam da bacia em que lavava o arroz, sentiu uma fagulha criadora e inventou o protótipo do que seria o escorredor de arroz: uma vasilha que de um lado pudesse lavar o arroz e do outro fizesse escorrer a água suja, sem que os grãos vazassem. Seu marido era engenheiro e ajudou-a a fazer o modelo em papel alumínio e daí para ser vendido para a Trol, indústria de plástico famosa, foi um passo.O lavarroz de Beatriz Zorowich virou realidade com o nome de escorredor de arroz.Nossas homenagens à inventora batataense.
Não vou perder a oportunidade de explicar o processo de formação dessas duas palavras: lavarroz e escorredor de arroz. A primeira é formada pelo processo de composição por aglutinação: esse processo se dá, quando duas ou mais palavras se ajuntam de tal forma que acabam perdendo sua integridade fonética e dão origem a uma outra. Nesse caso, na junção das duas, acabou desaparecendo uma letra a:seria lava-arroz e ficou sendo lavarroz. No segundo caso, as palavras se justapuseram, conservando a sua constituição fonética e deram origem a uma nova palavra da língua. Esse processo tão comum de formação de novas palavras na língua intitula-se composição por justaposição. Para ser sincero com você, considero lavarroz mais poético do que escorredor de arroz. E você?
Quero fechar o meu texto com um lamento pela falta de estímulo à escrita chamada de cursiva, a nossa tradicional caligrafia. Escreva à mão, como eu fiz em meu caderninho que foi a fonte de inspiração para as minhas duas últimas crônicas, e sinta o quanto é mais natural e faz bem ao cérebro. Steve Job que o diga. Na próxima semana, tratarei desse assunto. Até lá.
Publicado em 25/09/2011 13:48
Escrevo esta crônica para você, leitor, que me perguntou se a literatura resolve o problema de quem precisa aprender gramática. Antecipo-me às considerações que deverei fazer neste texto, para expressar minha devoção tanto à gramática quanto à literatura. Desde sempre gostei de ler.E como já li!E como ainda acho que tenho de ler!Tenho comigo um caderno com anotações de livros que li em um ano. Nutro um amor grande por este meu caderninho e, para não deixá-lo mais curioso, leitor meu, cito alguns dos livros que li, em um único ano.Eu tinha 17 anos. Fiz-me leitor muito cedo, precocemente mesmo. Hoje luto para formar leitores e nem sempre consigo, mas já formei muitos e formarei outros tantos.É a minha alegria e realização como educador.
Pela primeira vez, vou digitar os títulos dos livros que estão no citado e reverenciado caderno e, nesse gesto, tenho certeza, voltarei à época e condição de leitura que vivi, quando li cada um desses livros. Sentirei saudade, muita mesmo, e desejarei voltar àquele tempo.A minha sensação será indescritível e inefável.
Já o que você vai experimentar de sensação, ao me acompanhar nessa trajetória de volta a um passado de leitura, não me será acessível, a não ser no plano da imaginação. Tudo isso, só é proporcionado pela leitura.
Venha comigo à lista de livros amados que eu releria com muito prazer e sabor.
1-Trem de Istambul, Graham Greene.
2- Doutor Jivago, de Boris Pasternak.
3- Terra dos Homens, Antoine de Saint- Exupéry
4- Cela da Morte, Caryl Chessman.
5- Leon Tolstoi, Stefan Zweig
6- De Saga em Saga, Selma Lagerlof.
7-Os Irmãos Karamazov, Fiódor Dostoiévski.
8-Um Caso Liquidado, Graham Greene.
9-Diário Íntimo, Sully Prudhome.
10-Deus Nasceu no Exílio, Vintila Horia.
11-Um Certo Sorriso, Françoise Sagan.
12-Você Gosta de Brahms? Françoise Sagan.
13-Dentro de um Mês, dentro de um Ano, Françoise Sagan.
14- Gigi, Colette.
15-Amor de Outono, Colette.
16-Chocolates pela Manhã, Pamela Moore.
17-Os Homens não Querem Morrer, Paul Henry Simon.
18-O Poder e a Glória, Graham Greene.
19-Um Americano Tranquilo, Graham Greene.
20-Cartas à sua Noiva, Jaques Maillet.
21- Grandes Amizades, Raissa Maritain.
22- Psicologia do Caráter, Rudolf Allers.
23-Advogado do Diabo, Morris West.
24-A Peste, Albert Camus.
25-Cidade Vazia, Fernando Sabino.
26- Virilidade, Sexo e Amor, Dr. François Goust.
27- A Raposa e as Uvas, Guilherme Figueiredo.
28-De Mulher o que Você Entende?, Madeleine de
Agora que os citei e os revelei a você, terei um prazer imenso em transcrever frases de muitos deles que eu ia anotando à medida que ia lendo cada um.
Começo com o inesquecível Terra dos Homens, do criador de O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry. Nesse livro, o escritor relata as suas aventuras como piloto de aviação.Reflita sobre as seguintes frases que anotei, em meu caderninho, à mão, em letra cursiva, portanto:
1ª. - Mais coisas sobre nós nos ensina a terra mais que todos os livros.Porque nos oferece resistência.
2ª. - A grandeza de uma profissão é talvez, antes de tudo, unir os homens; só há um luxo verdadeiro, o das relações humanas.
3ª. - Cada um se enriquece com a descoberta de outras consciências.
4ª. - Quando tomamos consciência de nosso papel, mesmo o mais obscur,.só então somos felizes.Só então podemos viver em paz e morrer em paz, pois o que dá um sentido à vida, dá um sentido à morte.
5ª. - A verdade para um homem é o que faz dele um homem.
6ª. -As vocações ajudam o homem a se libertar, mas é igualmente necessário libertar as vocações.
Outro livro que li com muito gosto também foi Advogado do Diabo, de Morris West. Desse romancista, recomendo também A filha do Silêncio.É uma emocionante narrativa.Veja comigo algumas frases copiadas de Advogado do Diabo:
1ª- A fome não tem moral.
2ª- Como acontece com a maioria das pessoas bem educadas, não tinha defesa contra a grosseria dos outros.
3ª-Um homem que não pode amar seu semelhante, tampouco pode amar a Deus.
Um livro que me ajudou bastante na formação do meu caráter foi Diário Íntimo, de Sully Prudhome. Dele, cito algumas frases:
1ª- O amor contém em si um infinito desejo de fazer feliz o ser amado.
2ª-E estima que nos inspiram os homens pode medir-se pela qualidade de nossas confidências.
3ª- Amemo-nos uns aos outros e a face da terra se transformará.
4ª- A sinceridade é a condição principal de qualquer produção do espírito.
5ª- Nada mais agradável no mundo do que uma conversa simpática, pois nela se exercitam todos os poderes do espírito e do coração, com suficiente respeito ao interlocutor para dizer apenas coisas dignas. Essas trocas de calor e de luz são belas, animadoras e instrutivas.
Não encerro esta crônica sem escrever que a literatura tem mesmo uma função enobrecedora para quem escreve e uma função conscientizadora para quem lê. O compromisso da literatura é com a beleza da criação verbal e com a configuração de um mundo novo para o leitor.Ela não tem compromisso de ser modelo de ensino de gramática normativa.O escritor tem plena liberdade de tratar a língua conforme os propósitos de seu texto e, por essa razão, todas as normas linguísticas podem estar em um romance em um conto em uma novela.Um texto literário pode servir de modelo de criação de textos, mas pode não servir como uma boa aula de gramática.Ainda voltarei a esse tema fascinante, amigo leitor. Até a próxima.