De bem com a língua,
de bem com a vida

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Vivam os professores!

Publicado em 19/10/2014 11:25

Viva! hoje é dia de mais alegria. É sábado.Hoje é que é o dia do presente, como versejou o nosso sempre saudoso Vinícius de Moraes, no poema: Dia da Criação, que  se fecha com estes versos:

?Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo

E para não ficar com as vastas mãos abanando

Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança

Possivelmente, isto é, muito provavelmente

Porque era sábado.

Fomos feitos no sábado e basta esse fato para comemorações permanentes e eternas. Vá que de repente, não mais que de repente, a gente tenha de partir e não mais voltar a ser gente. Portanto: Viva a alegria! vivam os bem-humorados! Leitor, você estranhou o ?vivam?? É normal o seu estranhamento. Sempre se diz no singular: viva! Mas há controvérsias. A tradição oral que impera nos nossos costumes linguísticos é que ?Viva? seja empregada como se fosse interjeição sempre e, como tal, seja invariável quanto ao número singular e plural. A norma popular receita que não se diga ?Vivam?. Habitualmente, não há quem reprove o uso de Viva somente no singular. Mas vem a norma gramatical e explica que o verbo viver é que está em ?Viva? também. Quando ouvimos ou lemos: ?Vivam os professores?, estamos diante de uma oração chamada de optativa na qual colocamos o verbo no presente do subjuntivo para expressar nossa vontade de que algo aconteça: ?Vá com Deus? que equivale a ?Desejo que você vá com Deus?. ?Deus nos livre de ditaduras?, isto é, desejamos que Deus nos livre de ditaduras. Assim, se alguém escrever, como eu fiz no título desta minha crônica gramático-literária: Vivam os professores! é sinal de que estará desejando que os professores vivam e vivam felizes e prestigiados. É o que eu mais quero, é o meu sonho. Vivam meus colegas de magistério! Por outro lado, há que se aceitar o fato de que a índole da língua portuguesa pende mais para o uso de ?viva? apenas como interjeição e, dessa forma, na frase: Viva os professores!, o enunciado que se realiza é que alguém está dando um ?viva?, um aplauso, aos professores. Machado de Assis contraria essa tendência ao escrever frases como as seguintes em uma crônica datada de 6 de janeiro de 1895: "Venhamos ao presente. O presente é a chuva que cai, menos que em Petrópolis, onde parece que o dilúvio arrasou tudo ou quase tudo, se devo crer nas notícias; mas eu creio em poucas coisas, leitor amigo. Creio em ti, e ainda assim é por um dever de cortesia, não sabendo quem sejas nem se mereces algum crédito. Suponhamos que sim. Creio em teu avô, uma vez que és seu neto, e se já é morto; creio ainda mais nele que em ti. Vivam os mortos! Os mortos não nos levam os relógios. Ao contrário, deixam os relógios, e são os vivos que os levam, se não há cuidado com eles. Morram os vivos!" Na peça teatral, ?Tu, só tu, puro amor?, uma saborosa comédia que ele produziu, o bruxo escritor, colocou na boca de Camões a seguinte fala: Camões- Viva a minha corça gentil, a minha tímida corça! Ora vos juro que me vou, e de corrida. Adeus! As orações optativas com os verbos morrer e viver dão a tônica da crônica machadiana. Os dois verbos estão no subjuntivo presente e não no imperativo. Manifestam um desejo, uma vontade de quem exclama: Que os mortos vivam e os vivos morram. Na frase da peça teatral em que um dos personagens é Camões, também é o verbo viver que se faz presente no desejo dele de que a amada continue a viver. Para mostrar a minha posição sobre o uso de Viva, assim me manifesto. Quando eu quiser empregar a interjeição ?viva?, assim ela se construirá: --Viva! os professores agora estão sendo mais respeitados. Quando eu quiser manifestar o meu desejo, a minha vontade de que algo se realize, é o verbo viver a opção correta. Coloco-o no presente do subjuntivo e faço a concordância com o sujeito que virá depois dele: --Viva o meu professor! --Vivam todos os professores! E para dar os trâmites desta crônica, por findos, copio um trecho da comédia de Machado de Assis para você saborear:

D. CATARINA, aflita pegando-lhe na mão. - Reparai, meu Luís, reparai onde estais, quem eu sou, o que são estas paredes... domai esse gênio arrebatado, peço-vo-lo eu. Ide-vos em boa paz, sim?

CAMÕES - Viva a minha corça gentil, a minha tímida corça! Ora vos juro que me vou, e de corrida. Adeus!

D. CATARINA - Adeus!

CAMÕES, com a mão dela presa.  ? Adeus!

 

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Aforismos

Publicado em 11/10/2014 08:00

Pode-se dizer que as redes sociais alimentam-se de aforismos que os internautas usam como meio da transmitir mensagens aos seus seguidores. Se recorrermos ao dicionário Houaiss, encontraremos as seguintes acepções para essa palavra: substantivo masculino:1-máxima ou sentença que, em poucas palavras, explicita regra ou princípio de alcance moral; apotegma, ditado. 1.1 texto curto e sucinto, fundamento de um estilo fragmentário e assistemático na escrita filosófica, ger. relacionado a uma reflexão de natureza prática ou moral. Se quisermos nos estender um pouco mais sobre o assunto,  poderemos descobrir que vem do grego aphorismós, e significa ?limitação; definição; breve definição, sentença? e quase sempre é vista como sinônimo de provérbio, ditado, dizer, dito popular, adágio, rifão, anexim ou ainda, máxima, sentença, apotegma. Antes dele, houve o epigrama, caracterizado por uma forma também concisa, de cunho satírico, geralmente estampado em túmulos e estátuas. Goethe assegurou que ?tudo parece mais verdadeiro quando escrito sob a forma de aforismo.? Quando lemos aforismos, podemos perceber que eles têm um caráter ao mesmo tempo filosófico e literário. Vamos a alguns deles já famosos: ?Olho para as coisas que existem e pergunto: Por quê? Olho para as coisas que não existem e pergunto: Por que não??. É um aforismo de Bernard Shaw e traduz a ideia de que nada é impossível de existir se o homem quiser que exista. Sobre o existente eu devo procurar a razão de existir. Sobre o não existente eu devo me perguntar por que não posso fazer que exista? É interessante observar que há um diálogo entre os aforismos. É como se um fosse memória e eco de outros. O de Bernard Shaw mantém relação dialógica com este de Jean Cocteau: ?E não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez.? O sentido que ele produz é que, quando se tem vontade firme, não existe impossibilidade para o que se deseja conseguir ou fazer. Eu mesmo, quando leio romances e contos, vou em busca de aforismos. Em Grande Sertão: veredas, obra maior de Guimarães Rosa, encontrei centenas deles, alguns dos quais (com o número das páginas entre parênteses), estampo agora para você que me lê com paciência: ?Enfim cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães é questão de opiniães?(9) ?Quem muito se evita, se convive?(9) ?Viver é negócio muito perigoso?(11)?Vivi puxando de difícil de difícel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp?ro, não fantaseia?(11)?Abriu em mim um susto; porque passarinho que se debruça, o vôo está pronto?(13)?Eu quase que nada sei. Mas desconfio de muita coisa? (15) ?Viver é muito perigoso... (16) ?O senhor sabe: o perigo que é viver...? (18) ?A como? O senhor sabe: há coisas de medonhas demais, tem. Dor do corpo e dor da ideia marcam forte, tão forte como o amor e raiva de ódio? (19) ?O senhor... Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas ? mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão? ?Diz-se que tem saudade de ideia e saudade de coração...? (24) ?Mas ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor. Coração da gente- o escuro, escuros? (30) ? ?Moço: toda saudade é uma espécie de velhice.? (34). ? ?O amor, de si, é algum arrependimento. (34) (p. 38) ?... mas minha competência foi comprada a todos custos, caminhou com os pés da idade. E digo ao senhor, aquilo mesmo que a gente receia...? p. 45 ? ?Confiança ? o senhor sabe ? não se tira das feitas ou perfeitas: ela rodeia é o quente da pessoa.? (p. 47)? ?... a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...? p. 52 ? ?Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.? p. 56 ? ?Viver é um descuido prosseguido.? p.66 ? ?Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto. As pessoas, e as coisas, não são de verdade! E de que é que, amiúde, a gente adverte incertas saudades? Será que, nós todos, as nossas almas vendemos? Bobéia, minha. E como é que havia de ser possível? Hem?!? p. 67 ? ?No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam.? p. 69 ? ?Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!? p. 74 ? ?Vingar, digo o senhor: é lamber, frio, o que outro cozinhou quente demais. O Demônio diz mil. Esse! Vige mas não rege...Qual é o caminho certo da gente? Nem para a frente nem para trás: para cima. Ou parar curto quieto. Feito os bichos fazem. Os bichos estão é muito esperando?? p. 77 ? ?Eu estou contando assim, porque é o meu jeito de contar. Guerras e batalhas? Isso é como jogo de baralho, verte, reverte.? p. 77 ? ?A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento...? p. 79 ? ?O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!? Com essas belezas todas, ditas aforisticamente, só me resta dizer: Até a próxima.

 

 

 

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Boas recomendações para a fala e escrita

Publicado em 06/10/2014 11:31

Juscelino Pernambuco

Hoje é um bom dia para ler assuntos leves como a boa escrita e a boa fala. Em princípio, toda fala e toda escrita, se cumprirem sua finalidade que é a comunicação com o outro, são boas igualmente. Mas existe a regulação da norma da língua, e, então, quem fala ou escreve precisa saber escolher a norma que é mais adequada ao seu propósito comunicacional. A norma privilegiada pela sociedade é considerada padrão diante das demais e deve ser a guia da fala e da escrita consideradas melhores. Trata-se apenas de uma valoração social, sem que isso implique maior ou menor peso diante do sistema da língua. Sendo assim, não posso deixar de recomendar que as pessoas aprendam da melhor maneira a usar a língua em seu registro formal, orientado pelas diversas gramáticas normativas da língua. Dessarte, quero enunciar neste meu texto gramático-literário algumas recomendações para vocês, minha boa leitora e meu bom leitor, colocarem em prática na fala e na escrita. É preciso cuidado na escrita de certas palavras que podem provocar alguma confusão entre visão e audição na percepção da sílaba tônica. Leia estes exemplos de grafias equivocadas pelo problema que citei: espontâneidade, ciêntifico,línguistico,essêncial, paciênte. A que se deve a acentuação gráfica inadequada? Sem dúvida, o redator confundiu essas palavras com as que lhes deram origem: espontânea, ciência, língua, essência e paciência. É também uma ligeira troca do ouvido pelo olho que leva algumas pessoas a escrever ninguêm, vôce, vôvo, côco, alguêm, tâmbem, cancêr, em vez das corretas: ninguém, você, vovô, cocô, alguém, também, câncer. Um outra recomendação que faço é referente ao emprego do verbo implicar, do pronome mesmo, da locução adverbial junto a e da conjunção enquanto. Evite estes usos porque são inadequados no registro formal da língua: ?Não votar implica em multa para o eleitor?; ?Encontrei o pai e o filho na piscina e falei com os mesmos.?; ?Ele reclamou junto à diretoria do clube e não foi atendido?; ?Ele, enquanto funcionário público, deveria dar bom exemplo de correção.? Porque são inadequados na norma culta ou registro formal? Respondo assim: o verbo implicar como sinônimo de provocar ou causar não gosta de preposição. Diga, sem medo de errar: ?Esses comentários maldosos implicam prejuízo à imagem do seu colega.? Sobre o pronome ?mesmo?, não me canso de recomendar que não seja empregado como substituto de ?ele ?ou ?ela?. Diga ou escreva: ?Encontrei o pai e o filho e falei com eles.?; ?Gosto muito dos romances de Cristovão Tezza e Milton Hatoum, aliás, falei deles na palestra de ontem.? Não recomendo que se diga: falei dos mesmos, falei com os mesmos, elogiei os mesmos, pois todos esses empregos são amostras de desconhecimento de que ?mesmo? não é pronome pessoal. Posso dizer: ?Eu mesmo falei com ela.?; ?Ela mesma falou comigo.? ?Morei na mesma casa em que ela mora agora. Até a pintura ainda é a mesma. Mesmo a mobília não foi trocada.? Passo para ?junto a? e explico que essa expressão só deve ser empregada com o sentido de ?perto de?. Assim, fica bonito dizer: ?Sinto-me junto ao seu coração, quando você escreve para mim.? Agora, dizer ?junto à diretoria? significa perto da diretoria. Diga: ?reclamou à diretoria.? Economize no uso das palavras e você verá como a boa linguagem apreciará.Veja também que o uso da conjunção temporal ?enquanto? anda fora dos parâmetros da norma culta. Virou moda escrever e falar desse jeito: ?Eu, enquanto professor, gosto de recomendar bons livros.? Parece que é um uso muito bom, mas não é mesmo. Escrever bem não requer muito invencionismo de ordem gramatical. ?Enquanto? é para indicar tempo. Use a conjunção ?como? ou as expressões ?na condição de ou na qualidade de? e a frase ficará perfeita: ?Eu, como professor, recomendo bons livros.? Ou então: ?Na condição de prefeito, decreto feriado municipal na data de hoje.? Fiz essas recomendações com relação ao uso considerado culto da língua e da linguagem, não sem antes alertar que a língua comporta e aceita usos diferentes desses, pois ela é capaz de se vestir com outras roupagens, sem perder o brilho, de mudar e se transmudar, conforme o gosto dos seus fregueses, estes sim, os seus verdadeiros donos. Escrevo para trazer você para junto de mim nessa ideia de que a língua existe para nos ajudar a ficar cada vez mais de bem a vida. Até a próxima.

 

 

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Cuidados com a linguagem

Publicado em 28/09/2014 10:27

O título do texto é pretexto para eu dialogar com você sobre algumas dificuldades que se apresentam a quem quer se expressar de acordo com a norma considerada gramatical. Comecemos por distinguir linguagem e língua. Todos nascemos com a faculdade da linguagem, o que significa dizer que somos capazes de dar nomes para as coisas, inventar símbolos, caracterizar os seres todos do mundo real ou imaginário e mais outras tantas ações necessárias para o nosso viver. A capacidade de linguagem com a qual nascemos é que nos permite aprender a língua dos nossos pais e todas as demais que desejarmos. Assim, a língua é produto do exercício da linguagem. Cuidar da língua é enriquecer também o exercício que fazemos com a linguagem. Vou apontar, a partir de agora, alguns usos muito comuns que não combinam como os preceitos da norma considerada padrão da língua. Você, certamente, já ouviu frases como as que se seguem: ?Fazem dois anos que trabalho nesta empresa.? ?Houveram muitos casos de corrupção até me nossa cidade.? ?Prefiro muito mais carne de vaca do que carne de porco.? Existe muitos ladrões no país.? Entre eu e você não há muito amor.? Veja bem: não se trata de considerar quem se expressa dessa forma como pessoa sem cultura ou carente de conhecimentos da língua. O problema é de domínio da norma da gramática padrão. Vamos às correções: o verbo fazer, com o significado de tempo que passou, deve ficar sempre no singular. A frase adequada na norma culta é: ?Faz dois anos que trabalho nesta empresa.? A pessoa fica com medo de errar quando usa o verbo assim, no singular, mas é o correto na norma padrão. Também o verbo haver, na forma ?houveram?, causa algum desconforto e, como vem um plural logo após ele, a pessoa não vacila e expõe o seu desconhecimento da norma padrão. O certo, para a norma culta, assim chamada, é o singular: ?Houve muitos casos de corrupção.? Quanto ao verbo preferir, escrevo que é difícil ouvir-se alguém empregando-o com correção: quem prefere, prefere uma coisa a outra; não é preferir mais uma coisa do que outra. Preferir já significa gostar mais de um do que de outro objeto. Assim, o modo considerado certo de usá-lo é: ?Prefiro carne de vaca a carne de porco.? Evite dizer: Prefiro carne de vaca do que carne de porco, nem prefiro mais carne de vaca do que carne de porco. Confirmando o uso desse verbo: ?Ela prefere cerveja a vinho.? Escrevendo sobre preferir, lembrei-me do verbo prevenir. Esse é outro verbo quase sempre usado de forma destoante da norma culta. Ontem mesmo, um amigo me disse: ?Eu bem que previni, mas ela não me ouviu.? O verbo é prevenir e esse ?e? da sílaba ?ve? deve ser mantido em quase todas as pessoas da conjugação, a não ser nas três pessoas do singular e na terceira do plural do presente do indicativo. É bom que eu conjugue para você esse tempo verbal inteiro: eu previno, tu prevines, ele previne, nós prevenimos, vós prevenis, eles previnem. Quando o tempo é pretérito perfeito, isto é, o passado perfeito, o ?e? de ?ve? impera em todas as pessoas: eu preveni, tu preveniste, ele preveniu, nós prevenimos, vós prevenistes, eles preveniram, do mesmo modo que com o verbo preferir: eu preferi, tu preferiste, ele preferiu, nós preferimos, vós preferistes, ele preferiu. Agora vou ao problema do verbo existir antes do sujeito. Estas frases estão adequadas na norma culta: ?Existem muitas pessoas que não percebem que têm um comportamento hipócrita.? ?Existiram e existirão muitos ladrões no país.? Em todas elas, o verbo existir está concordando com o sujeito no plural. Assim deve ser o uso, conforme os padrões da norma culta. Já na frase a seguir, ?Entre eu e você não há muito amor?, o desacerto está no uso do pronome eu depois da preposição entre. O preceito é que se use o pronome mim. ?Entre mim e você não há muito amor.? Pode parecer estranho, mas é isso o que a gramática normativa recomenda. É evidente que a norma daqui a alguns anos poderá ser alterada, devido à frequência do uso do pronome eu depois da preposição entre. E isso é que é bonito de se observar. Até a próxima.

 

 

 

 

 

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Millôr, como vai?

Publicado em 16/09/2014 08:56

Estava procurando um bom assunto para escrever a crônica desta semana e encontrei Millôr Fernandes, em uma homenagem da Folha de S. Paulo, por ocasião da morte do grande criador de frases filosóficas e de humor, em 27 de março de 2012.Como eu pensava em escrever sobre interpretação de frases e enunciados, achei o pensador mais do que acertado para esse tema. Lembrei-me de uma de suas tiradas bastante providencial para o nosso dia a dia: ?Chato é uma pessoa que não sabe que ?Como vai?? é um cumprimento, não uma pergunta.?  Pensei comigo: quais inferências posso fazer com base nessa frase de Millôr? A primeira é que chato é aquela pessoa que quando alguém pergunta para ela: Como vai? ela acha que tem de contar tudo o que se passa com ela. A segunda inferência é que chato é o que não sabe distinguir um simples cumprimento de uma pergunta.

Interpretar, meu estimado leitor, é saber fazer deduções, ilações, tirar conclusões do que lemos e ouvimos. É bom que eu faça uma distinção importante entre significação e sentido. Significação é tirada do recursos da língua que estão relacionados na frase. O sentido é dado pela significação ligada a um contexto ou a uma situação de comunicação. Se a esposa disser para o marido: ?Hoje não tem carne para bife.? A significação da frase é que não há como fazer bife, por falta de carne. O sentido, porém, poderá ser: ?O almoço será sem bife, porque você não comprou.? ?Vamos ter de comer sem carne hoje.? ?Hoje só tem carne para cozinhar, não para fazer o seu preferido bife.? Esses são os enunciados que podem ser gerados pelas frase: ?Hoje não tem carne para bife.? A frase tem significação; o enunciado, que é a frase ligada a uma situação de comunicação, tem sentido. Para descobrir o sentido, é preciso saber fazer inferências, que são deduções que se fazem com base no que se ouve ou lê. Diante da pergunta: Como vai? o mais lógico sempre foi inferir que a pessoa está realmente interessada em saber como está a vida da outra. Porém, na frase do Millôr, a inferência é que hoje, dada a pressa com que vivemos e o pouco interesse que cada um tem pela vida do outro, a habitual interrogação ?Como vai?? tornou-se apenas um protocolo da saudação, sem nenhum interesse pela resposta do outro. Aquele que se dispõe a conversar um pouco mais e a falar de sua vida, poderá ser tachado de chato.Millôr sempre foi um frasista de humor ácido e corrosivo e não fazia questão de esconder isso. Era o seu ?pensar livre pensar? que, certamente, contribui e muito para a nossa reflexão diária sobre as coisas do viver. Vamos a mais algumas de suas famosas tiradas filosóficas: ?Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem.? O sentido desse enunciado está ligado à ideia de que se conhecermos as pessoas profundamente, o grau de admiração por elas não será tão elevado. Outra milloriana: ?Chama-se de herói o cara que não teve tempo de fugir.? A inferência correspondente à frase é que não existe herói; existe o que se consagra por acaso, como por exemplo, não ter tido tempo para fugir junto com os demais e ficou sozinho no campo de batalha. Não resisto ao desejo de transcrever neste Rodapé, o famoso ?Poeminha: última vontade?, do livre-pensador Millôr Fernandes:

Enterrem meu corpo em qualquer lugar.

Que não seja, porém, um cemitério.

De preferência, mata;

Na Gávea, na Tijuca, em Jacarepaguá.

Na tumba, em letras fundas,

Que o tempo não destrua,

Meu nome gravado claramente.

De modo que, um dia,

Um casal desgarrado

Em busca de sossego

Ou de saciedade solitária,

Me descubra entre folhas,

Detritos vegetais,

Cheiros de bichos mortos

(Como eu).

E, como uma longa árvore desgalhada

Levantou um pouco a laje do meu túmulo

Com a raiz poderosa,

Haja a vaga impressão

De que não estou na morada.

Não sairei, prometo.

Estarei fenecendo normalmente

Em meu canteiro final.

E o casal repetirá meu nome,

Sem saber quem eu fui,

E se irá embora,

Preso à angústia infinita

Do ser e do não ser.

Sol e chuva ocasionais,

Estes sim, imortais.

Até que um dia, de mim caia a semente

De onde há de brotar a flor

Que eu peço que se chame

Papáverum Millôr.

Na próxima semana, quero conversar com você sobre o sentido desse poema. Até lá.

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Quando o "se" não é problema

Publicado em 06/09/2014 14:07

Um soneto que eu gostava de ler e consegui decorar nos meus primeiros contatos com a literatura foi ?As pombas?, de Raimundo Correia. A primeira estrofe tem os seguintes versos:

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...?.

Você se lembra desses versos? O que mais me chamava a atenção era o pronome ?se?, usado com o verbo ?ir?: ?Vai-se...vão-se...?. Achava muito sonoro esse encontro do pronome pessoal de terceira pessoa, do caso oblíquo, átono, como é a sua classificação na morfologia gramatical. Depois, conheci o poema famoso do Manuel Bandeira, ?Pasárgada? e seu primeiro verso tão ao gosto popular: ?Vou-me embora pra Pasárgada?, e fiquei também implicado com o ?me?. Descobri que esse ?me? depois do verbo ir é o mesmo ?se? que aparece nos versos do Raimundo Correia: ?Vai-se, vão-se?. O ?me? é da primeira pessoa e o ?se? é da terceira: ?vou-me, vai-se?. Gostei dos dois empregos, mas nos meus estudos de análise sintática, acabei descobrindo que se tratavam de partículas de realce ou expletivas. São, portanto, de uso livre e ficam apenas na dependência do gosto do autor ou de seu estilo. Se fizermos a reescrita dos versos de um e de outro, veremos que perderão um pouco de sua sonoridade, ritmo e encantamento: Vai a primeira pomba despertada...Vai outra mais... mais outra...enfim dezenas de pombas vão dos pombais, (...). E o verso de Bandeira seria: Vou embora pra Pasárgada. Parece que as pombas sem o pronome ?se? já não se iriam com tanta beleza e o ?eu? bandeiriano não iria tão sonhador em busca de Pasárgada. Na gramática normativa, aprendi os diferentes usos do pronome ?se? e descobri que os mais comuns são: conjunção subordinativa integrante ou condicional, partícula integrante do verbo pronominal, partícula de realce, pronome apassivador, pronome reflexivo. São tantas possibilidades de usos, mas os usuários parece não se contentarem e inventam mais uma. Acompanhe comigo estes exemplos: ?Levando-se em consideração as pesquisas já feitas ...? ?Percebendo-se o problema, ficará mais fácil...?; ?Foi bom ouvir-se da boca da própria postulante ao cargo...?; ?Para resolver-se o problema ...?; Foi um erro escolher-se o primeiro da lista.?; ?Para votar-se melhor é preciso saber-se as informações.? Todos esses empregos do pronome ?se?, são dispensáveis, desnecessários e inadequados. Podem, e aqui escrevo brincando com você, ficar nos teclados dos computadores ou nos tinteiros das canetas Parker ou Montblanc, para quem as possuir. Amigo leitor, permita-me assim considerá-lo, é só experimentar tirá-los das frases e ver-se-á a sua inutilidade. ?Levando em consideração as pesquisas já feitas ...? ?Percebendo o problema, ficará mais fácil...?; ?Foi bom ouvir da boca da própria postulante ao cargo...?; ?Para resolver o problema ...?; Foi um erro escolher o primeiro da lista.?; ?Para votar melhor é preciso saber-se as informações.?

No caso de se examinarem as funções sintáticas que o pronome ?se? pode exercer, teremos as seguintes possibilidades: Objeto direto: ?Ela se prontificou a receber-me em sua mansão.?; Objeto indireto: ?Ela se dá ao luxo de viajar duas vezes ao ano para a Europa.?; Sujeito do infinitivo: ?Deixou-se levar pelas opiniões dos parceiros.?; ?Sentiu-se adormecer e desmaiou.?; Indice de indeterminação do sujeito: ?Precisa-se de bons candidatos sempre.?; Trata-se de problemas que vêm de longe.? Em todos os exemplos citados, o ?se? encaixou-se bem e imprimiu sua marca. Sei que você ficou curioso para ler o soneto completo de Raimundo Correia e não serei eu ingrato de privá-lo desse prazer.

?E à tarde, quando a rígida nortada

Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,

Ruflando as asas, sacudindo as penas,

Voltam todas em bando e em revoada...

 

Também dos corações onde abotoam,

Os sonhos, um por um céleres voam,

Como voam as pombas dos pombais;

 

No azul da adolescência as asas soltam

Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,

E eles aos corações não voltam mais...?

A chave de ouro do poema é o verso final o qual encerra o recado que o eu-lírico deixa para o leitor: diferentemente das pombas que alçam voo logo de manhã, mas voltam à tarde, os sonhos da juventude vão-se celeremente, um por um, e não retornam aos corações, quando estes chegam ao outono da vida.

Todavia, é imprescindível ao bom viver aprendermos que se se vão os sonhos da juventude, não se vão os sonhos da maturidade, que se constroem pacientemente, com base nos que se foram, como respostas ao ato de existir de cada um de nós. Até a próxima.

 

 

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A travessia de Fernando Brant

Publicado em 30/08/2014 15:32

No Rodapé anterior, o tema foi a interpretação da música João e Maria, de Sivuca e Chico Buarque. Eu terminei o texto, perguntando qual seria a sua interpretação, leitor. Volto ao assunto, para me estender um pouco mais a respeito de interpretação de textos. Se você tiver a letra da música, no momento em que estiver lendo este texto, tanto melhor será para dialogarmos. Logo no primeiro verso ?Agora eu era herói?, o ouvinte da canção perceberá algo de estranho: o advérbio de tempo ?agora? modifica um verbo no imperfeito do indicativo. É como se fosse um presente mexendo com um passado. Normalmente deveria ser ?Agora eu sou herói?, com uma combinação gramatical lógica. Acontece que a língua que falamos é companheira, não é rainha, ela quer servir, ser útil à minha manifestação com palavras, ao meu discurso. A voz que fala na canção do Chico, não é mais ele, autor- pessoa, mas é um componente do texto que ele construiu para falar em nome dele, para defender valores que sirvam para ajudar o leitor a dar respostas à vida. Essa voz é o enunciador do texto que nem sempre coincide com o que a gramática chama de sujeito. O enunciador produz os seus enunciados tornando-se dono das categorias da língua, alterando seu uso habitual, se isso for preciso ao que ele quer dizer. A pergunta é: Por que agora eu era e não agora eu sou? O imperfeito do indicativa vai dominar os versos: ?enfrentava os batalhões?, ?guardava o meu bodoque?, ?ensaiava o rock? ?a gente era obrigado a ser feliz?. O ouvinte da música terá de perceber que a intenção do enunciador do texto foi criar um tempo irreal, ficcional, imaginário, mítico, que lhe permitisse conduzir a voz com quem ele fala para esse tempo que tanto pode ser mesmo o tempo da infância que ele e ela já não mais vivem, como pode também ser o tempo que não se esperava viver, da ?noite que não tem mais fim pra lá desse quintal?. O enunciador remete ao período medonho da ditadura militar no Brasil. A letra da música permite essa interpretação, embora Chico, como autor pessoa tenha declarado que é uma canção para rememorar a infância. O autor de um texto falado ou escrito, depois que o produz deixa de ter domínio sobre ele. A interpretação não é dele, ela passa a ser do leitor ou do seu interlocutor. Por isso, o filósofo Mikhail Bakhtin diz que o autor nada tem a dizer sobre o processo de criação de sua obra. O que ele tinha a dizer está na obra que ele produziu, é lá que temos de procurar, isto é, o texto diz tudo o precisa dizer. Nem sempre o que os autores dizem sobre o que queriam fazer significar com os seus textos coincide com a interpretação que os leitores fazem. Todavia, dá um sabor especial à leitura quando conhecemos a manifestação do autor sobre a sua criação. Agora, por exemplo, vou trazer a este Rodapé, a fala de um dos maiores compositores da MPB, o Fernando Brant. Em entrevista a João Pombo Barile, no Suplemento Literário Minas Gerais, ele assim se manifestou sobre a interpretação e o uso que fazem de suas músicas:

SL: Queria te perguntar como suas músicas são interpretadas. Por exemplo, naquela homenagem que foi feita para o escritor Bartolomeu Campos de Queirós, no ano passado, você falou um negócio que me deixou impressionado quando tocaram ?Canção da América?. Você falou que compôs aquela música quando estava nos EUA, e sua filha tinha acabado de nascer, estava superfeliz. E a música, na maioria das vezes, é tocada em enterro...

FB: É verdade, para mim não tinha nada com tristeza, era mais sobre a amizade mesmo. Meu pai mesmo, quando aposentou do Tribunal usou a música. Tem gente que pede autorização pra usar em velório, enterro. É aquele negócio: o autor põe e o público dispõe. É mais ou menos isso. A canção caminha sozinha.

SL: Você não tem o controle de como a pessoa recebe a música...

FB: Não. (...) Eu já escutei o Gervásio Horta, por exemplo, falando que ?Travessia? é uma música muito boa, pena que seja uma música política.? Eu pensei: ?Pô, política? Na cabeça dele.? Porque não tem nada a ver, né?

Até a próxima.

 

 

 

 

 

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João e Maria

Publicado em 27/08/2014 09:37

A interpretação de um texto é um assunto que interessa a todas as pessoas, porque na vida em sociedade nós ouvimos e produzimos textos, para nos comunicarmos e exercermos a nossa cidadania. Tudo o que eu falo, escrevo, ouço e leio é um texto. Texto não é uma simples aglomeração de frases, períodos e parágrafos; texto é uma unidade de sentido. Todo texto manifesta um conjunto de ideias dominantes em um grupo social, isto é, uma formação discursiva. O texto é, então, o plano de manifestação de um discurso. Eu leio o texto, para me encontrar com o discurso. Eu leio um texto e penso no discurso que ele quer transmitir. O que se diz em um texto está nele mesmo, nos mecanismos que geram o seu sentido. Se eu fujo do que está contido no texto, a minha interpretação vira extrapolação. Essa introdução deve ?se ao meu propósito de escrever este texto gramático-literário de hoje em torno da letra da música ?João e Maria? de Sivuca e Chico Buarque. Encontrei em pesquisa nos mais diferentes blogs diferentes interpretações que nem sempre se sustentam em marcas da letra que Chico Buarque produziu para a melodia de Sivuca. Convido você, meu leitor, a acompanhar algumas interpretações que escolhi como ?corpus? deste Rodapé. Para ser fiel ao que li e selecionei, mantive a escrita do texto tal como está na internet. Vamos à primeira: ?na minha opnião a interpretação do professor não faz juz a verdadeira simbologia da musica, que não fala sobre a infancia de Chico e sim da Ditadura Militar, "...a noiva do cowboy era voce alem das outras tres..." essa parte significa o poder que tinham a aeronaltica, exercito e .marinha na epoca da ditadura militar... "...e pela minha lei agemnte era obrigado a ser feliz..." esta parte se refere a senssura que era implantada na epoca onde todos eram obrigados a se passar por satisfeitos com o governo e proibidos de expressar sua insatisfação e temor.... epor ai vai....... a letra tem um significado muito mais profundo do que uma mera lembrança de infancia. A segunda manifesta o seguinte dizer :Realmente ele compôs essa música pensando na sua infância pois Sivuca compos a melodia na época em que Chico nasceu. Ele não procura se remeter a questão da ditadura nessa letra! A terceira diversifica um pouco mais a interpretação: Na minha opinião a música trata de duas realidades: Uma história de criança, o faz de conta e a realidade enfrentada no tempo da Ditadura Militar. Faço questão de reproduzir o depoimento de Chico Buarque, no seu livro História das canções: ?Eu tenho uma parceria com o Sivuca que é engraçada. Ele fez a música, que ficou se chamando João e Maria. Ele mandou uma fita com uma música que ele compôs em 1944, por aí. Eu falei: "Mas isso foi quando eu nasci." A música tinha a minha idade. Quando eu fui fazer, a letra me remeteu obrigatoriamente pra um tema infantil. A letra saiu com cara de música infantil porque, simplesmente, na fitinha ele dizia: "Fiz essa música em 47." Aí pensei: "Mas eu criança..." e me levou pra aquilo. Cada parceria é uma história. Cada parceiro é uma história." Qual é a sua interpretação para a letra de João e Maria?


Agora eu era o herói

E o meu cavalo só falava inglês

A noiva do cowboy

Era você

Além das outras três

Eu enfrentava os batalhões

Os alemães e seus canhões

Guardava o meu bodoque

E ensaiava o rock

Para as matinês

Agora eu era o rei

Era o bedel e era também juiz

E pela minha lei

A gente era obrigada a ser feliz

E você era a princesa

Que eu fiz coroar

E era tão linda de se admirar

Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não

Finja que agora eu era o seu brinquedo

Eu era o seu pião

O seu bicho preferido

Sim, me dê a mão

A gente agora já não tinha medo

No tempo da maldade

Acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal

Que o faz-de-conta terminasse assim

Pra lá desse quintal

Era uma noite que não tem mais fim

Pois você sumiu no mundo

Sem me avisar

E agora eu era um louco a perguntar

O que é que a vida vai fazer de mim


 

 

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Durante a Copa do Mundo

Publicado em 21/08/2014 16:25

Na Copa do Mundo de Futebol de 2010, logo após a derrota do Japão para o Paraguai nos pênaltis, escrevi o Rodapé Literário de nº 72. No texto, eu me vali de reflexões de poetas e romancistas, para analisar o significado do jogo de futebol na vida das pessoas e das nações. Hoje, depois da derrota da Seleção Brasileira de Futebol para a Alemanha, escrevo este Rodapé Literário 254, com um sabor amargo de derrota no campo esportivo. Talvez o amargor se deva mais ao fato de a Copa do Mundo estar acontecendo no Brasil e nossa Seleção não ter alcançado a possibilidade de disputar o título de campeã. Entretanto, esse fato não apaga o orgulho que sinto de o país ter conseguido realizar todas as tarefas necessárias para que um evento esportivo desse porte pudesse alcançar o sucesso que logrou alcançar. Durante a Copa, fiz uma espécie de diário com as minhas reflexões na minha página da rede social do Facebook e, com prazer, transcrevo as postagens que fiz:

7 de junho: Já estou no clima da Copa: álbum quase pronto e tabela dos jogos. Só não consegui ingresso para a final no Maracanã. Vamos ganhar!

15 de junho: Na praça festiva, com meu álbum da Copa quase completo. Meu coração exulta de alegria por este momento histórico de meu país.

30 de junho: Estou feliz, a não mais poder: de férias e com a Copa do Mundo, a mais bonita de todas, no meu país.

20 de junho: Chico Buarque, figura brilhante no cenário cultural brasileiro, chegou ontem aos setenta anos. No seu último CD, ele canta o blues "Essa Pequena", que criou para a sua nova namorada, a cantora e compositora curitibana, Thaís Gullin.Olha a primeira estrofe como é bonita:

"Meu tempo é curto, o tempo dela sobra

Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora

Temo que não dure muito a nossa novela, mas

Eu sou tão feliz com ela."

Viva o Chico!

2 de julho: Leia o desabafo de Cecília Meireles:

?Hoje eu queria ler uns livros que não falam de gente, mas só de bichos, de plantas, de pedras: um livro que me levasse por essas solidões da Natureza, sem vozes humanas, sem discursos, boatos, mentiras, calúnias, falsidades, elogios, celebrações...? In. Escolha o seu sonho, p.138)

04/07: Duas reflexões antes de Brasil x Colômbia:

Nelson Rodrigues: ?Quem ganha e perde as partidas é a alma.? Albert Camus que, além de grande escritor e filósofo, foi goleiro de time da Argélia, assegurou: ?O que finalmente eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem devo ao futebol.? E viva o Brasil!

05/07: Aqui, do meu posto de torcedor confiante, mas atento ao significado das atividades humanas, fico a pensar o quanto o futebol se assemelha à vida: acasos, mistérios e estranhezas marcam a vida de cada um de nós, assim como também são a marca desse esporte apaixonante. Força, Neymar!

6 de julho: Enquanto leio o belo romance 1Q84, volume 3, do japonês, Haruki Murakami, vou escalando a nossa Seleção para terça-feira: Júlio César, Maicon, Dante, David Luiz e Marcelo; Luiz Gustavo, Fernandinho e Oscar; Bernard, Fred e Hulk.Que tal?

7 de julho: O historiador holandês, Johan Huizinga, no livro ?Homo Ludens?, p. 24, escreveu:

(...) o jogo autêntico e espontâneo também pode ser profundamente sério. O jogador pode entregar-se de corpo e alma ao jogo, e a consciência de tratar-se 'apenas' de um jogo pode passar para segundo plano. A alegria que está indissoluvelmente ligada ao jogo pode transformar-se, não só em tensão, mas também em arrebatamento. A frivolidade e o êxtase são os dois pólos que limitam o âmbito do jogo.

08/07: Que vexame, Seleção! O pior da história das Copas. ?Torço e acompanho futebol desde criança, mas não confundo nada com futebol. Os jogadores foram mal e perderam para um time muito superior. Só isso. É esporte: um ganha outro perde. Uma pena que tenha sido a nossa Seleção, você não acha?"

6 de julho: Veja só a sabedoria do grande Papa Francisco: "As mulheres são a coisa mais bonita que Deus fez." Discordar quem há de?

09/07:Ter espírito crítico é imprescindível ao bem viver, mas é preciso acertar o alvo da crítica.

Até próxima crônica!

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Acaso ocaso

Publicado em 21/08/2014 16:22

Coloquei aqui ao meu lado, na escrivaninha, um dicionário etimológico, um dicionário de latim e o Aurélio século XXI, antes de escrever este Rodapé Literário. Sou apaixonado pela etimologia, sinto que ela é o adubo do meu amor pelas palavras. Sei que lutar com elas, como o Drummond já cantou em versos, ?é a luta mais vã, entanto lutamos mal rompe a manhã.? A minha luta será, nesta crônica, com as duas palavras do título, todavia sei que outras virão por chamamento dessas duas. De onde teria vindo ?acaso?? Diz o Antônio Geraldo Cunha, no seu saboroso ?dicionário etimológico da língua portuguesa? que ela originou-se no vocábulo latino ?casus? e passou a significar: ?conjunto de pequenas causas independentes entre si, que se prendem a leis ignoradas ou mal conhecidas, e que determinam um acontecimento qualquer.? (p.162). Assim, acaso é o que ocorre sem querer, acidentalmente, sem que haja propósito. Sorte seria um sinônimo? O Aurélio registra: ?Acidente da fortuna; casualidade, acaso: Enfrentou a sorte, e venceu.? Esta veio do Latim ?sors? e significava ?parte, porção, o que cabe a cada um?. Na sua evolução em diferentes línguas passou a ter o sentido de ?boa sorte, fortuna?. E ?azar? de onde teria vindo? Não foi do latim, foi do árabe ?az- zahr?, que é a flor que ficava em um dos lados do dado no jogo de apostas. Em um exercício de palavra puxa palavra, a palavra chance também está no mesmo campo. Veio para o francês como ?chance?, derivada de ?cadentia? do verbo ?cadere? do latim com o sentido de cair para a frente como caem os dados no jogo de azar. Viu só como as palavras dialogam na origem umas com as outras? É tudo muito apaixonante neste reino fantástico.

?Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta,

pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave??

É o convite do poeta de Drummond de Andrade no seu inimitável poema ?Procura da poesia?.

Até aqui, pus frente a frente: acaso, sorte, chance, azar, mas sinto que o ?ocaso? gostaria de dialogar com o ?acaso?. Acompanhe a história de ?ocaso?. Se em acaso há o prefixo ?a? antes de ?caso?, em ?ocaso?, o prefixo é ?ob? que evoluiu para ?o? em palavras como: objetivo, ocorrer, ocidente, obsessão e óbito?. Ocaso tem a ver com ?occasus?, sinônimo em português de ?pôr do sol? ou ?ocaso?, do mesmo campo semântico de ?occidens?, ocidente, isto é, lugar onde o sol se põe ou morre.? Outro dia, eu analisei em sala de aula o soneto ?Vila Rica? de Olavo Bilac, cujos versos iniciais trazem a palavra ?ocaso?:

?O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre;

Sangram, em laivos de ouro, as minas, que a ambição

Na torturada entranha abriu da terra nobre:

E cada cicatriz brilha como um brasão.?

Sinta que o poeta está começando a descrever a morte de Vila-Rica: O eu-lírico, a voz que se expressa no poema diz que o ouro amarelado do pôr-do-sol cobre as velhas casas, que as minas que os colonizadores ambiciosos de Portugal abriram nas entranhas torturadas da terra nobre estão sangrando e cada cicatriz está brilhando como se fosse um brasão para a coroa portuguesa. Nesta estrofe está-se desenhando o óbito da cidade do ouro Vila-Rica que se transformará em Ouro-Preto, depois de toda a exploração.

Você percebeu que os substantivos ?ocaso? e ?óbito? acabaram entrando neste diálogo etimológico, não estou certo? Pois bem, ?óbito?, triste palavra tão presente nos dias atuais da vida brasileira, em todos os campos de atividade, vem de ?obitus?, particípio passado do verbo latino ?obire?, ou seja, ir para a frente (ob+ire). O sentido é de ir para a frente, ato que pode resultar em destruição e morte. Assim, os verbos ?obire? e ?occidere? deram origem a ?óbito? e ?ocidente?. Esta última, na sua origem, significa ?o que morre?. O seu contrário, é ?oriente?, particípio presente do verbo ?orior?, que tem o significado de ?nascer?. Pudemos acompanhar juntos, a história e o diálogo das palavras e, não por acaso, chegamos ao ocaso deste texto, em condições de desejar boa sorte na vida para todos os nossos irmãos brasileiros. Até a próxima!

 

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João Ubaldo Ribeiro e Murakami

Publicado em 21/08/2014 16:21

Estou terminando a leitura do romance Albatroz Azul, de João Ubaldo Ribeiro, e estou impressionado com a capacidade que tinha o saudoso romancista de inventar e narrar bem uma boa história. Seu estilo é verborrágico, porém não cansa o leitor, porque as palavras são bem selecionadas e combinam com perfeição sintaticamente. O escritor argentino, Ricardo Piglia, autor de Respiração artificial, na conferência "Três propostas para o próximo milênio (e cinco dificuldades)", proferida na Casa de las Américas, Cuba, em 2000, proferiu as seguintes observações sobre a literatura: ?O sentido de uma narrativa está no uso que dela se faz e não numa essência que se teria de descobrir, numa exegese que permitiria chegar ao âmago imutável do sentido. Cada leitor está sempre traduzindo para si o texto, para uma língua mais pessoal e marcada pela época.? ?Na literatura tudo é tão perfeito que até a leitura errada dá certo.? Com o pensamento voltado para essas acertadas reflexões do escritor argentino, li praticamente toda a obra de João Ubaldo Ribeiro, terminando com o seu último romance publicado que é uma verdadeira lição de como se habilitar para viver e morrer. Logo na página 10, o narrador ao apresentar Tertuliano, o personagem central, assim se manifesta: "Os que têm estudo explicam a claridade e a treva, dão aulas sobre os astros e o firmamento, mas nada compreendem do Universo e da existência, pois bem distinto do explicar é o compreender e quase sempre os dois caminham separados. ?E o valor central que vai presidir à organização desse belo romance é a necessidade da sabedoria para o bem viver. Permito-me ir para a página 192, para ler o que o personagem principal ensina: " O homem que conhece a arte da vida deve sempre virar ao contrário o que lhe dizem, para ver se o certo não é esse contrário, de acordo com a realidade. Diz todo mundo que não é bom dever favor, mas eu digo que se recebe mais estima por dever favor do que por fazer favor. (...) Procurar dever favores é caminho certo para a benquerença de todos e fazer favores pode ser a perdição, se não se tomar bastante cuidado. ?O que fica do que ele diz é que é preciso desconfiar do que está estabelecido como verdade pelo senso comum. Guimarães Rosa coloca o narrador de Grande Sertão: veredas a dizer que ?Quem desconfia fica sábio?. E Tertuliano confirma dizendo que ?se deve prestar atenção no que o sujeito faz, não no que ele diz.? Sobre a sociedade entre duas pessoas, o velho Tertuliano faz uma comparação com o casamento: ?E a boa sociedade é como o bom casamento, que só é bom de fato quando ambos os dois gostam de pão, mas um prefere o miolo e outro a casca. ?Quer dizer que se os dois gostarem das mesmas partes do pão, a convivência não será das melhores.

Mas eu não ficarei apenas na leitura do romance de João Ubaldo Ribeiro. Consigo ler e gosto de ler dois ou até três romances ao mesmo tempo. Deu-se que eu recebi, agora nas férias, o livro 3 do romance 1Q84 da autoria do japonês Haruki Murakami, sobre quem escrevi em crônica de 2011. Eu fui ouvir sua conferência em Barcelona, no Palau de la Generalitat, onde ele foi receber o grande prêmio literário da Catalunha. Ao agradecer, ele disse que o povo japonês foi, ao mesmo tempo, vítima e culpado pelo desastre nuclear de Fukushima e proclamou: ?No mundo de hoje só querem eficiência, não querem sonhadores nem a criação de novos valores. ?Seu belo romance 1Q84, cuja trama amorosa traz a história dos jovens Tengo e Aomame, é organizado com fundamento em novos valores para o mundo contemporâneo em uma mistura de real e fantástico. Do livro 3, trago para você, meu caro leitor, duas citações que   valem a pena. Na página, 388, quando Tamaru está asfixiando até à morte Ushikawa, diz para este: ?A dor é um conceito que não se pode generalizar. O sofrimento de cada um possui características próprias. Se me permite parafrasear Tolstoi, toda a felicidade é igual, mas cada dor é dolorosa à sua própria maneira. Mas eu não iria tão longe a ponto de afirmar que é uma questão de gosto. Você não acha?? O conhecimento que o romancista japonês tem da literatura ocidental faz surgir a intertextualidade de sua obra com grandes obras mais próximas de nós. Mais à frente, na página 396, aparece a seguinte fala: ??Como bem disse Shakespeare?falou Tumaru, com a voz serena e olhando para a cabeça pesada e deformada de Ushikawa--, se morrermos hoje, amanhã não precisaremos morrer, então vamos ver o lado bom das coisas.? Nas falas dos personagens, nas intromissões e nas digressões do narrador, os valores que governam a elaboração da obra se revelam. O leitor atento não pode perder isso de vista. Até a próxima.

 

 

 

 

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Citações poéticas e filosóficas

Publicado em 06/07/2014 10:14

Vou começar esta crônica gramatical e literária com uma frase-enunciado de Cecília Meireles. A voz que se manifesta neste texto da poetisa é de alguém que está querendo fazer um desabafo. Leia para você sentir isso: ?Hoje eu queria ler uns livros que não falam de gente, mas só de bichos, de plantas, de pedras: um livro que me levasse por essas solidões da Natureza, sem vozes humanas, sem discursos, boatos, mentiras, calúnias, falsidades, elogios, celebrações...? Esse enunciado está no livro ?Escolha o seu sonho?, p.138. Conviver é realmente uma arte e uma ciência. Primeiramente, porque cada ser é único e irrepetível, como refletiu o filósofo russo, Bakhtin. Essa descoberta filosófica se, por um lado, traz algum conforto para cada um de nós, por outro traz um grande desafio: não é pacífica a aceitação do convívio com todos os semelhantes a nós. Não gostamos de todos igualmente, até pelo contrário, é mais fácil desgostar do que gostar de alguém. Quer dizer, os homens não nasceram naturalmente predispostos ao amor. Por isso Jesus Cristo veio ao mundo: para ensinar e pregar o amor. Não há mandamento mais bonito e sábio do que o ?Amai-vos uns aos outros. ?A literatura, como arte que é, vem confirmar a sabedoria e a necessidade do amor para a convivência e a existência do homem, em sua passagem pela Terra. O desabafo de Cecília Meireles dialoga com a confissão de Carlos Drummond de Andrade, quando no livro ?Passeios na Ilha?, publicado originalmente em 1952, sabiamente intuiu: "Quando me acontecer alguma pecúnia, passante de um milhão de cruzeiros, compro uma ilha; não muito longe do litoral, que o litoral faz falta; nem tão perto, também, que de lá possa eu aspirar a graxa e a fumaça do porto. Minha ilha (e só de a imaginar já me considero seu habitante) ficará no justo ponto de latitude e longitude que, pondo-me a coberto de ventos, sereias e pestes, nem me afaste demasiado dos homens nem me obrigue a praticá-los diuturnamente. Porque esta é a ciência e, direi, a arte do bem viver; uma fuga relativa, e uma não muito estouvada confraternização.? O poeta usou magistralmente o adjetivo ?estouvada? para fazer significar ?imprudente?, como a querer dizer que a confraternização humana tem de acontecer com prudência. Ambos os textos, o de Cecília Meireles e o de Carlos Drummond de Andrade fazem eco no genial trecho de Guimarães Rosa, na página 236 do romance ?Grande Sertão: veredas: ?Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.? Para prosseguir neste meu texto, neste mesmo rumo traçado com citações poéticas e filosóficas, trago mais literatos da mais alta competência. Confira o que Mário Quintana pensou por nós: ?A lua, quando fica velha, todo o mundo sabe que vira lua nova.? O quotidiano é o incógnito do mistério.? ?A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer.? ?Nunca se deve consultar o relógio perto de um defunto. É uma falta de tato, meu caro senhor...uma crueldade... uma imperdoável indelicadeza ... ??Posso morrer descansado e levar meus probleminhas comigo que não me faltará distração.? ?Os verdadeiros poetas não leem os outros poetas. Os verdadeiros poetas leem os pequenos anúncios dos jornais.? E mais ainda lhe trago, da sutileza de Cecília Meireles: ?Ó nuvens prodigiosas, criaturas efêmeras que estais tão alto e não pretendeis nada, e sois capazes de obscurecer o sol e de fazer frutificar a terra, e não tendes vaidade nenhuma nem apego a esses acasos.? ?Não pensamos na morte, como, de certo modo, não pensamos na vida.? ?Os homens incendeiam clandestinamente as matas para lotearem as terras, e há mesmo quem coma sabiás, nestes últimos bairros arborizados da minha cidade, pois parece que vamos regredindo e qualquer dia talvez cheguemos a antropófagos.? Carlos Drummond de Andrade não poderia faltar neste diálogo: ?Gostaria que a vida nos desse tempo de vivê-la.? ?Queria aproveitar este dezembro para dizer-lhes que os meses passaram tão ligeiros, mas tão, que não houve tempo para revelar-lhes como eu lhes quero bem; e meu silêncio sabe como isso é verdade.? ?Eu sustento que o pior literato de vinte anos ainda é um homem maravilhoso, e eu o invejo, o amo e o respeito, absolutamente sem crítica.? Bem que eu queria continuar provocando este diálogo poético e filosófico, mas guardarei comigo algumas pepitas graúdas até a próxima crônica. Até lá.

 

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Para pensar e extasiar

Publicado em 29/06/2014 12:25

Antes que a Seleção Brasileira de Futebol entre em campo para jogar contra o Chile, no Mineirão, em BH, você haverá de ler este texto que eu escrevo com muito carinho e zelo pela mensagem que desejo construir e pela língua que me fornece os recursos para a escrita coesa e coerente. Pretendo promover um encontro do meu leitor com três artistas da palavra. Considero artista o homem que tem um olhar não comum para as coisas comuns, um olhar invulgar para as coisas vulgares. Onde o homem comum vê apenas uma pedra, o artista vê o que a pedra simboliza, o que ela é em sua essência, o sentido que ela pode ter para a existência humana. A arte é para dar o que pensar, é para conscientizar, para servir de guia, convulsionar interiormente, deixar em êxtase o seu contemplador. Por isso tudo, trago para você, enunciados poéticos e filosóficos de Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade e Rubem Braga. Escrevi ?enunciado?, porque este vai além da frase, além da gramática, para alcançar sentido. Quando lemos um texto, temos de descobrir os valores que regem a sua organização. Quem escreve ou fala o faz para defender valores humanos e são estes que interessam no diálogo dos textos e dos indivíduos.

Em crônicas de Cecília Meireles, descobri estas joias de enunciados:

"Dança-se desde que o mundo é mundo, dança-se de alegria, de tristeza, para celebrar isto e aquilo, para exprimir sentimentos ou para emagrecer; cada um sabe por que dança e com que música."

?Senhor, hoje é domingo, os sinos repicaram, as pessoas foram à igreja, tudo devia ser igualmente bom para todos.?

?Procuremos salvar, cada dia, a rosa que desfalece; virão outras mais belas, sim, mas a beleza de cada uma é sem repetição; cada rosa é única e nisto se parecem com a criatura humana ­--- e o seu tempo de vida é um tempo exclusivo.?

?Inutilmente o relógio marca o dia e a noite, pois a vida é sem fim.?

?Pensando bem, pergunto-me se a criatura humana, hoje em dia, vale uma árvore.?

 ?Mandamos pelo ar nossos bons pensamentos: mas que acontece aos pensamentos, mesmo aos melhores, desde que partem, desde que se desprendem de nós??

?Parece-me que os homens estão ficando piores todos os dias.?

Agora, busco a filosofia e a estética literária de Carlos Drummond de Andrade:

?Penso somente nessas amizades que o tempo vai esgarçando e substituindo por outras, com o cuidado pérfido de intercalar, entre os amigos de vinte anos e os de trinta, um espaço em branco para as incompreensões e as incorrespondências.?

 ?O ano, propriamente, se compõe de onze meses; dezembro não conta: é só para desejar que os restantes sejam mais propícios.?

Quase todos carregamos a nossa cruz; alguns, além da própria, carregam a cruz dos outros.?

?Eu vivo, portanto sou feliz, parecia dizer-nos Mário de Andrade.?

?Afinal, eu nunca poderia dizer ao certo se culpo ou se agradeço a Itabira pela tristeza que destilou no meu ser, tristeza minha, tristeza que não copiei, não furtei.?

Não poderia faltar a este texto, as reflexões, descobertas e intuições do mestre da crônica, Rubem Braga:

Coragem, a Terra está rodando, vosso mal terá cura; e se não tiver, refleti que no fim todos passam e tudo passa: o fim é um grande sossego e um imenso perdão.?

?O que há de horrível no amor é que muitas vezes depois que ele acaba dá a impressão de que não devia ter começado e, pior ainda, de que não houve.?

 ?Imaginem um menino de 9 anos que não tem uma só mancha de caju em sua camisinha branca: que honras poderá esperar essa criança na vida, se a inicia sem a menor dignidade??

 ?É verdade que estou meio triste, mas não tem importância, é uma tristezinha maneira; vou tocando assim mesmo.?

Fiz essa pesquisa na obra desses três escritores dos mais consagrados de nossa bela literatura e termino esta crônica, sem saber qual desses enunciados é o mais marcante. Deixo a você, meu caro leitor, neste momento convertido também em torcedor da nossa Seleção de Futebol, a agradável tarefa de dialogar com cada um dos três artistas e escolher uma das frases para a sua vida ficar ainda melhor do que já é. Até a próxima.

 

 

 

 

 

 

 

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Vinícius de Moraes: Silêncio

Publicado em 21/06/2014 15:54

Vinícius de Moraes nos deixou em 1980, mas um poeta como ele, sempre deixa muitos poemas rascunhados ou mesmo terminados que permanecem algum tempo inéditos. Luciana de Moraes, uma de suas filhas, encontrou, há cerca de quatro anos, entre os rascunhos do pai o poema ?Silêncio?, produzido em 1958. Ela, então, imediatamente, fez chegar às mãos de Edu Lobo, parceiro musical de seu pai, por muitos anos, que acabou de gravar a música com os versos do poema inédito. O belo site Glamurama, de Joyce Pascowitch, traz, em primeira mão, a canção gravada por Edu Lobo. E eu, aqui, em minha coluna gramático-literária, faço questão de trazer até você a letra e uma tentativa de análise. Vamos aos versos ainda não publicados de Vinícius de Moraes.

Silêncio

Crê apenas no amor

e mais em nada

Cala bem meu amor

quem diz muito, diz nada?

 

Cala

Escuta o silêncio

Escuta o silêncio

que fala de tudo

mais intimamente

 

Ouve

Serenamente ouve

a voz comovida

que fala da vida

mais profundamente

 

É o amor que te fala

É o amor que se cala

e que despetala

a flôr do silêncio

Silêncio?

Silêncio?

O poema tem como tema central o amor e do silêncio que deve cercá-lo para que tenha mais vida e significado. O eu-lírico ou enunciador quer mostrar o caminho do silêncio como forma de amar mais profundamente e de fazer mais duradouro o amor. O amor não quer ser falado, muito menos gritado, basta a ele o silêncio sereno que fala de tudo mais intimamente. O poeta Vinícius fez da sua poesia o registro de sua vida. Escreveu seus versos amorosos retratando seu modo de viver e crer no amor. Não escreveu para ensinar a amar, mas para mostrar como amou. Tanto que Carlos Drummond de Andrade, como que manifestando uma certa inveja dessa coragem e ousadia do poeta- compositor, disse: "Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural. Eu queria ter sido Vinicius de Moraes?. No poema ?Silêncio?, há uma voz que se mostra cuidadosa com o amor que sente e tem medo que ele se vá, se houver muito barulho em torno dele. Por isso, a voz do eu-lírico pede que o ser amado se cale e ouça o silêncio. No amor, o importante é a crença e o silêncio que sabe ouvir. Essa voz dialoga com todas as outras que defendem a necessidade de que o amor se faça de palavras, alaridos e cantos. A pergunta que se faz é a seguinte: ?Por que Vinícius não publicou esse poema?? Se recorrermos ao conjunto de sua produção, poderemos nos arriscar a escrever que nem sempre o amor que ele viveu foi feito de silêncio. Aliás, o que ele mais fez foi bem alardear em poemas e canções todos os seus amores vividos e sonhados. O silêncio não foi a marca maior de sua vida de amor e de poesia. O que o silêncio desse poema singelo comprova é que o poeta também viveu amores que necessitaram de permanecer quietos, muito quietos e tivessem de deixar que as mãos cálidas da noite encontrassem, sem fatalidade, o calor extático da aurora, como em outro poema de sua autoria e que eu parafraseei para você, meu leitor. Em ?Silêncio?, os versos certamente não são os mais inspirados de Vinícius, não há uma riqueza de vocabulário que traduza a grandeza do sentimento amoroso, mas há a marca da ternura que caracteriza o conjunto de valores que embalam os caminhos do amor e da paixão vividos por esse amado poeta. Fiquei muito feliz, quando descobri mais essa produção desse poeta e compositor brasileiro que sempre esteve pronto para a inspiração do verso, como neste seu belo poema que transcrevo a seguir:

A BRUSCA POESIA DA MULHER AMADA (III)

A Nelita

Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado

Minha irmã, conta-me histórias da infância em que que eu haja sido herói sem mácula

Meu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a bilirrubina

Maria, prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco quilos

Chamem-me a massagista, o florista, o amigo fiel para as confidências

E comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas

Alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.

Até mais, meu leitor.

 

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Elis, atrás da porta

Publicado em 14/06/2014 14:36

No meu programa de rádio desta semana, analisei a letra da bela música de Chico Buarque e Francis Hime, Atrás da Porta, cantada por Elis Regina. Escrevo, sem medo de errar, que foi a melhor interpretação da nossa saudosa Pimentinha. Emoção pura tomou conta da voz da inesquecível Elis. Mas, antes de analisar os versos da música, é bom que se conte a história que dela faz parte. Nelson Motta, no seu precioso livro ?Noites Tropicais?, narra que depois de se separar de Ronaldo Bôscoli, em janeiro de 1972, Elis Regina lança um novo disco com sucessos como: Casa no Campo, Águas de Março e Nada Será Como Antes. Agora, transcrevo palavras do autor: ?No disco inteiro ela se apresenta mais técnica e contida, mas em uma música explode de emoção como nunca e se derrama, chora e soluça as palavras de ?Atrás da porta?, uma de suas maiores performances em disco. Quando Elis conheceu a música, levada por Menescal, a melodia de Francis Hime tinha só a primeira parte da letra de Chico Buarque. Elis e César ficaram apaixonados pela música e a gravação foi marcada para dentro de três dias. Nesse meio tempo, Menescal e Francis tentariam dar uma pressão em Chico para terminar a letra. À noite, separada de Ronaldo, sozinha na casa branca da Niemeyer, Elis resolveu fazer uma sessão de cinema, convidando alguns amigos, entre eles César, para ver Morangos silvestres, de Bergman, um clássico-cabeça da época. Mal o filme começou, César recebeu um bilhete de Elis, foi ao banheiro ler e se espantou: era um ?torpedo? amoroso. Atônito, César leu e releu, acreditou e sumiu: completamente fascinado por Elis, era tudo o que secretamente desejava. E temia. Então sumiu. Não foi encontrado nos dois dias seguintes em lugar nenhum, os amigos se preocuparam. Mas no dia e hora da gravação, duas da tarde, César estava no estúdio, Menescal se sentiu aliviado e Elis sorriu sedutora. César dispensou os músicos, pediu para todo mundo sair, para colocarem o piano no meio do estúdio, baixarem as luzes e deixarem só ele e Elis, para a gravação do piano e da voz-guia de ?Atrás da porta?. Extravasando seus sentimentos, misturando as dores da separação com as esperanças de um novo amor, Elis cantou, mesmo sem a segunda parte da letra, com extraordinária emoção, com a voz tremendo e intensa musicalidade. Na técnica, quando ela terminou, estavam todos mudos. Elis chorava abraçada por César. Juntos, César e Menescal foram levar a fita para Chico, que ouviu, chorou, e terminou a letra ali mesmo, no ato. ?Dei pra maldizer o nosso lar, pra sujar teu nome, te humilhar e me vingar a qualquer preço te adorando pelo avesso pra mostrar que ainda sou tua...? Assim, Elis Regina cantou a versão definitiva de uma das mais poderosas e dilacerantes letras de amor e ódio da música brasileira, produziu uma gravação antológica e emocionou o Brasil com sua arte. E ganhou um novo namorado, com quem esperava crescer na música e na vida.? (MOTTA, N. Noites Tropicais, http://groups.google.com/group/digitalsource, p.216-218)

Atrás da Porta

(Chico Buarque/Francis Hime)

Quando olhaste bem nos olhos meus

E o teu olhar era de adeus

Juro que não acreditei, eu te estranhei

Me debrucei sobre teu corpo e duvidei

E me arrastei e te arranhei

E me agarrei nos teus cabelos

Nos teu peito, teu pijama

Nos teus pés ao pé da cama

Sem carinho, sem coberta

No tapete atrás da porta

Reclamei baixinho

 

Dei pra maldizer o nosso lar

Pra sujar teu nome, te humilhar

E me vingar a qualquer preço

Te adorando pelo avesso

Pra mostrar que ainda sou tua.

Não é caso de concordar com Nelson sobre essa canção ser de amor e ódio, mas de sentir nela pura paixão desesperada que, quando se vinga, é só para dar prova de amor maior. Toda poesia de amor tem uma única mensagem: eu amo você. Haja o que houver, união eterna ou separação, o recado do poema ou da canção de amor é sempre o mesmo: eu te amo. O eu desta canção, a voz que fala nela, dialoga com todas as vozes de quem amou e foi abandonado. Há o inconformismo inicial, o susto, o desespero e, sem saída, a promessa de vingança, mas é de uma vingança às avessas, porque é apenas mais uma prova de amor, como a querer fazer do fim, o início, quando se sabe que Todo fim tem começo, Não importa que seja o avesso, É só fazer do princípio o fim, Trocando  o não pelo sim. Como se vê, não consegui terminar, sem escrever esses versos como homenagem à eterna Elis, atrás da porta. Até a próx

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Publicado em 05/06/2014 08:39

Gabriel García Márquez teve o apelido de Gabo e o levou consigo quando deixou este mundo. Viveu com muita intensidade, respondeu ao ato de existir com muita galhardia e escreveu com muita fecundidade.Agora, ao escrever este Rodapé Literário, lembrei-me de uma crônica que ele produziu em 1982, para a extinta Revista Status, que trazia sempre bons textos de literatura e cultura em geral, além de belas mulheres. Gabo, em um texto que ele intitulou ?A poesia ao alcance das crianças?, fez considerações sobre a literatura e o seu ensino que podem servir de guia a todos os leitores e aos professores que se preocupam com a formação de leitores. Vale a pena ler:

?Tenho muito respeito, e, sobretudo, grande carinho pelo ofício de professor, e por isso me dói que eles também sejam vítimas de um sistema de ensino que os induz a dizer bobagens. Uma das pessoas inesquecíveis para mim é a professora que me ensinou a ler aos cinco anos. Era uma moça bela e sabia que não pretendia saber mais do que podia, além disso, era tão jovem que com o tempo acabou sendo menor que eu. Foi ela quem nos lia em aula os primeiros poemas que ficaram na minha memória para sempre. Lembro, com a mesma gratidão, do professor de literatura do colégio, um homem modesto e prudente que nos levava pelo labirinto dos bons livros sem interpretações mirabolantes. Este método nos permitia uma participação mais pessoal e livre pelos meandros da poesia. Em síntese: um curso de literatura não deveria ser mais que um bom guia de leituras. Qualquer outra pretensão não serve para nada além de assustar as crianças. Creio eu, aqui entre nós.?

Não posso deixar também de recorrer a Jorge Luis Borges, que se preocupou e muito com a formação de novos leitores:

?Sempre disse aos meus alunos que tenham pouca bibliografia, que não leiam críticas, que leiam diretamente os livros; entenderão pouco, talvez, mas sempre desfrutarão e ouvirão a voz de alguém... O mais importante de um livro é a voz do autor.?

Aqui entre nós, a consagrada escritora de belos livros para as crianças e para os jovens, Ana Maria Machado, em seu artigo ?El libro, de la letra a la lectura?, escreveu de forma admirável para quem se interessa pela relação texto-leitor:

 ?Mas no momento da leitura, ocorre ao leitor um fenômeno muito raro. O livro que ele lê não é jamais o mesmo livro que o autor escreveu.

Enquanto lê, imagina outras paisagens, outros rostos para as personagens, outros cheiros, outras cores, tudo diferente. Cada elemento do livro que se lê, se mistura com suas próprias lembranças e seus medos, seus sonhos. E, ainda mais importante, o universo e cada livro lido por cada leitor está a cada instante contaminado por suas leituras e experiência e passa a contaminar todas as suas leituras e experiências futuras. É único. Absolutamente único.

Isto ocorre por uma razão muito simples, ainda que paradoxal: o que faz o leitor não é exatamente ler o livro, ainda que o chamemos assim por comodismo. A verdade é que o livro é escrito pelo leitor, com sua leitura. Cria-se um texto novo que não existia antes e que ninguém poderá jamais repetir?. Vou voltar ao texto de Gabo para relembrar e passar para você, meu leitor, o que ele escreveu sobre a sua primeira professora, aquela que teve a abençoada missão de ensinar este que seria um dos maiores escritores universais:

?Tenho um grande respeito, e sobretudo um grande carinho,pelo ofício de professor e por isso mesmo me magoa saber que eles também são vítimas de um sistema de ensino que os induz a dizer besteiras.Uma das pessoas inesquecíveis da minha vida é a professora que em ensinou a ler, aos cinco anos.Era uma moça bonita e sábia, que não pretendia saber mais do que podia, e era alem do mais tão jovem que, com o tempo, acabou sendo menor do que eu.Era ela quem nos lia na classe, os primeiros poemas que apodreceram meus miolos para sempre.? Até a próxima.

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Gabo e a literatura

Publicado em 05/06/2014 08:26

Gabriel García Márquez teve o apelido de Gabo e o levou consigo quando deixou este mundo. Viveu com muita intensidade, respondeu ao ato de existir com muita galhardia e escreveu com muita fecundidade.Agora, ao escrever este Rodapé Literário, lembrei-me de uma crônica que ele produziu em 1982, para a extinta Revista Status, que trazia sempre bons textos de literatura e cultura em geral, além de belas mulheres. Gabo, em um texto que ele intitulou ?A poesia ao alcance das crianças?, fez considerações sobre a literatura e o seu ensino que podem servir de guia a todos os leitores e aos professores que se preocupam com a formação de leitores. Vale a pena ler:

?Tenho muito respeito, e, sobretudo, grande carinho pelo ofício de professor, e por isso me dói que eles também sejam vítimas de um sistema de ensino que os induz a dizer bobagens. Uma das pessoas inesquecíveis para mim é a professora que me ensinou a ler aos cinco anos. Era uma moça bela e sabia que não pretendia saber mais do que podia, além disso, era tão jovem que com o tempo acabou sendo menor que eu. Foi ela quem nos lia em aula os primeiros poemas que ficaram na minha memória para sempre. Lembro, com a mesma gratidão, do professor de literatura do colégio, um homem modesto e prudente que nos levava pelo labirinto dos bons livros sem interpretações mirabolantes. Este método nos permitia uma participação mais pessoal e livre pelos meandros da poesia. Em síntese: um curso de literatura não deveria ser mais que um bom guia de leituras. Qualquer outra pretensão não serve para nada além de assustar as crianças. Creio eu, aqui entre nós.?

Não posso deixar também de recorrer a Jorge Luis Borges, que se preocupou e muito com a formação de novos leitores:

?Sempre disse aos meus alunos que tenham pouca bibliografia, que não leiam críticas, que leiam diretamente os livros; entenderão pouco, talvez, mas sempre desfrutarão e ouvirão a voz de alguém... O mais importante de um livro é a voz do autor.?

É muito provável que nesse caminho de iniciação no ritual da leitura compartilhada, surja nos jovens o desejo de ler sozinho outros livros, ter outras experiências; e é possível que comecem a surgir perguntas, perguntas autênticas sobre algo não compreendido, ou curiosidade por saber quem é o autor, de quem é essa voz que habita nossos sonhos; e nasça também a vontade de escrever sobre o que estamos lendo, de conversar com esse texto que nos habita; e é muito provável também que durante essa experiência comece cada um a se ver ou a conhecer um pouco mais ou um pouco menos, a esclarecer-se e a confundir-se; que se vá deixando enganar pela leitura como quem se deixa enganar pela vida.

Aqui entre nós, a consagrada escritora de belos livros para as crianças e para os jovens, Ana Maria Machado, em seu artigo ?El libro, de la letra a la lectura?, escreveu de forma admirável para quem se interessa pela relação texto-leitor:

 ?Mas no momento da leitura, ocorre ao leitor um fenômeno muito raro. O livro que ele lê não é jamais o mesmo livro que o autor escreveu.

Enquanto lê, imagina outras paisagens, outros rostos para as personagens, outros cheiros, outras cores, tudo diferente. Cada elemento do livro que se lê, se mistura com suas próprias lembranças e seus medos, seus sonhos. E, ainda mais importante, o universo e cada livro lido por cada leitor está a cada instante contaminado por suas leituras e experiência e passa a contaminar todas as suas leituras e experiências futuras. É único. Absolutamente único.

Isto ocorre por uma razão muito simples, ainda que paradoxal: o que faz o leitor não é exatamente ler o livro, ainda que o chamemos assim por comodismo. A verdade é que o livro é escrito pelo leitor, com sua leitura. Cria-se um texto novo que não existia antes e que ninguém poderá jamais repetir?. Vou voltar ao texto de Gabo para relembrar e passar para você, meu leitor, o que ele escreveu sobre a sua primeira professora, aquela que teve a abençoada missão de ensinar este que seria um dos maiores escritores universais:

?Tenho um grande respeito, e sobretudo um grande carinho,pelo ofício de professor e por isso mesmo me magoa saber que eles também são vítimas de um sistema de ensino que os induz a dizer besteiras.Uma das pessoas inesquecíveis da minha vida é a professora que em ensinou a ler, aos cinco anos.Era uma moça bonita e sábia, que não pretendia saber mais do que podia, e era alem do mais tão jovem que, com o tempo, acabou sendo menor do que eu.Era ela quem nos lia na classe, os primeiros poemas que apodreceram meus miolos para sempre.? Até a próx

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Dúvidas em pares

Publicado em 27/05/2014 08:22

Fui ao barbeiro hoje pela manhã e lá ouvi de um senhor, que aguardava a vez de passar pela tesoura do cabeleireiro, a seguinte frase: ?O meu pobrema é que eu não adapito com esse povo chato daqui.? Confesso que a pronúncia ?adapito? doeu mais que ?pobrema?, embora eu não veja, como linguista, deficiência de ordem cognitiva nessa manifestação espontânea. Vejo diferença no falar, em relação à norma considerada culta, mas considero que faltou a ele escolarização mais eficiente, talvez. Mas que dói o ouvido, não há a menor dúvida. Sobre ?problema?, não é novidade a dificuldade que muitas pessoas experimentam para pronunciar essa palavra cujo significado parece combinar com a configuração fonética dela. Ambos lembram dificuldade. Lembro-me de uma anedota contada em crônica pelo Ignácio de Loyola Brandão, na edição de 29/11/1998, do jornal Estado de São Paulo. Duas mulheres conversando em um ônibus na periferia de São Paulo:

­-Ando tão preocupada.

-Com o que, minha flor?

- Com duas palavras.

- Que coisa, minha flor! Que palavras são essas que te perturbam tanto?

-Poblema e pobrema.

-Não acredito que você não sabe.

- Não sei e já perguntei a um mundo de gente. Tem quem me diz que é probema.Como é que a gente faz para descobrir o que as palavras querem dizer?

- Sei lá! Perguntar para um professor?

-Vou ter de ir ao grupo escolar?

- Por sorte, eu sei o que quer dizer poblema e pobrema.

--Jura? Por que não me disse?

-Ia dizer. É tão fácil.

-Diz logo, mulher.

- Minha flor, poblema é quando você tem um poblema em casa. Com o marido, com os filhos, com a mãe, com uma parente. Aí  é poblema.

- E pobrema?

- É pobrema de escola. Aquelas contas que as professoras dão para a gente fazer. Quanto mais difícil, maior o pobrema. Entendeu?

- Entendi. Por que não pensei nisso? Fiquei com um pobrema na cabeça e não precisava.

Virou-se para a janela, feliz da vida, contente por ter decifrado o mistério das palavras.

Com relação ao verbo adaptar, a pronúncia ?adapito? é mais comum do que se pensa. Verbos como ?designar?, resignar?, ?indignar? também deixam o falante de português, menos atento ao falar privilegiado pela sociedade, em situação complicada. Muitas pessoas e, sem medo de errar, digo que a maioria, costuma pronunciar: ?desiguino?, ?resiguino? e ?indiguino?, em vez da pronúncia prescrita pela gramática normativa: ?designo?, ?resigno? e ?indigno?, com o acento tônico no fonema ?i?. Nada demais que eu relembre agora que a palavra ?gratuito?, tão generosa no significado e tão rara nos eventos da vida, pois que nada mais é gratuito nos dias atuais, é pronunciada, à larga, como ?gratuíto?, com um acento que parece gritar sobre a letra ?i?, de tão inconveniente que é. Não custa fazer menos esforço e pronunciar ?gratuito?, dando força à sílaba ?túi?. Avisei no título que iria escrever sobre pares e acabei formando um trio, e que trio, hein? Nesse caso, eu poderia escrever ?hem?, em vez de ?hein?, o que seria até mais adequado.

Outro par de palavras que merece a nossa atenção é ?gente? e ?nós?.

É correto usar ?a gente?, em lugar de ?nós?? pergunta-me a bela moça do balcão da companhia aérea. Penso que seja mais um cacoete gramatical das pessoas na fala. ?A gente foi, a gente acha, a gente pensa?. Dá até samba. Porém esse uso já está consagrado na linguagem oral. Se você, leitor, preferir o uso da norma culta, o mais adequado é usar o pronome ?nós?: ?Nós fomos, nós achamos, nós pensamos?. O inaceitável mesmo é misturar ?a gente? com ?nós? e falar: ?A gente achamos?, ?a gente pensamos?. Pior ainda escrever ?agente pensamos?, com o artigo acoplado ao substantivo; ?agente?, como se fosse o antigo particípio presente de agir: agente, ou seja, aquele que age. O que recomendo é que se a pessoa quer expressar-se de acordo com o que preconiza a gramática normativa, deverá usar o pronome ?nós? e não ?a gente?. Esse uso é para a linguagem coloquial, descompromissada com a norma considerada mais culta, elegante e bela.

Há uma música gravada pela Daniela Mercury intitulada ?Música de rua", na qual aparece um trecho que ilustra o que estou escrevendo:

... E a gente dança
A gente dança a nossa dança
A gente dança
A nossa dança a gente dança
Azul que é a cor de um país
que cantando ele diz
que é feliz e chora

A beleza poética desses versos e o que dá mais ritmo à canção é a mistura de ?a gente? como o pronome possessivo ?nossa?. Essa concordância reforça a ideia da equivalência semântica entre ?a gente? e ?nós?, porque ?nossa? é o possessivo para ?nós?. E ficou mesmo mais poético e melódico o jogo de palavras: ?A gente dança a nossa dança,
A nossa dança a gente dança
?. Até a próxima.

 

 

 

 

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Ler nas entrelinhas

Publicado em 18/05/2014 10:30

Ler nas entrelinhas significa descobrir o que está escondido nas linhas do que ouvimos ou lemos. Todo texto traz uma parte de si,  mais no que esconde do que naquilo que mostra. Sabiamente, o senso comum diz que nas entrelinhas estão as segundas intenções do dizer das pessoas. O sentido do texto, pode-se dizer, está nas suas camadas ocultas, assim como a riqueza de um terreno ou do mar esconde-se nas camadas mais fundas. Interpretar bem um texto exige essa espécie de escavação, em busca de achar o que se esconde no seu componente profundo, que apenas se entremostra na superfície. Neste texto, eu desejo que você sinta prazer em acompanhar-me em uma leitura da música ?Minha História?, que é uma versão que Chico Buarque fez para ?Gesù Bambino?, dos compositores italianos, Lucio Dalla e Palotino. No original, a letra do poema, abordava a história de um filho, nascido do relacionamento de uma adolescente com um soldado estrangeiro durante a 2ª Guerra Mundial, por isso a música ganhou o subtítulo de ?Os filhos da guerra?. A canção foi premiada no Festival de San Remo de 1971, ficando em terceiro lugar. Chico Buarque, amigo de Dalla, fez uma original versão e lançou-a no seu disco ?Construção? de 1971. Há um fato curioso em torno desta música: Wagner Homem, autor do livro ?Histórias de canções - Chico Buarque?, narra que no lançamento da música, Chico estava dando uma entrevista para um jornalista cubano, que certamente não sabia interpretar textos, quando este fez o seguinte comentário: "o que me impressiona, senhor Chico, é como o senhor conseguiu chegar tão longe sendo filho de uma prostituta?. Vejamos a letra da música:

Ele vinha sem muita conversa sem muito explicar

eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar

sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente

e minha mãe se entregou a esse homem perdidamente.

 

Ele assim como veio partiu não se sabe pra onde

e deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe

esperando, parada, pregada na pedra do porto

com seu único velho vestido cada dia mais curto.

 

Quando enfim eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto

me vestiu como se eu fosse assim uma espécie de santo

mas por não se lembrar de acalantos a pobre mulher

me ninava cantando cantigas de cabaré.

 

Minha mãe não tardou alertar toda a vizinhança

a mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança

e não sei bem se por ironia ou se por amor

resolveu me chamar com o nome do nosso senhor.

 

Minha história e esse nome que ainda hoje carrego comigo

quando vou bar em bar viro a mesa, berro, bebo e brigo

os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz

me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus.

O ideal é que você possa ouvir agora, a canção na voz de Chico. Assim, a leitura do meu texto vai fazer mais sentido. Na primeira estrofe, ou seja, nos quatro primeiros versos, o que está explícito é que o filho fala de um homem que que havia vindo não se sabe de onde e pouco falava, apenas do mar, seu cheiro era do mar, tinha tatuagem, dente dourado e foi a ele que sua mãe se entregou.

Na segunda estrofe, a voz do filho narra que o marinheiro, calado, como havia vindo, da mesma forma partiu, sem que se soubesse para onde, deixando a jovem grávida sem ação e na pobreza de um vestido cada dia mais curto. Está implícito que essa futura mãe está como Jesus Cristo, parada, pregada à pedra do porto como se fora a cruz de Nosso Senhor. Antecipa-se o próprio nome a ser dado ao filho.

A terceira estrofe faz uma analogia com o nascimento do Menino Jesus,  e as palavras selecionadas para os versos traduzem essa atmosfera: ?embrulhou-me num manto?, ?uma espécie de santo?, ?acalantos?, ?me ninava?. Porém, a pobre mulher, só sabia cantar as cantigas de cabaré. Percebe-se que a letra da música é memória do nascimento do Menino Jesus, mas como se fosse transportado para os dias de hoje. Na penúltima estrofe, a mãe quer fazer o anúncio ao mundo de que havia gerado mais do que uma simples criança, ela se tornara mãe do Jesus Menino, Gesù Bambino. A última estrofe traz o recado da canção, o sentido do texto: o menino, batizado com o nome de Jesus, só herda do Salvador, o sofrimento na cruz, não passa de produto do meio, veio apenas para cumprir uma sina, com uma história igual à de tantos outros meninos que nascem na miséria e dela não conseguem escapar. Até a próxima.

 

 

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Chão de Giz: histórias

Publicado em 10/05/2014 10:01

Juscelino Pernambuco

Existem compositores de música popular que se consagram por manterem um mesmo estilo musical ao longo de toda a carreira. O caso de Zé Ramalho é um exemplo. As letras de suas canções e a melodia são inconfundíveis, seja pelo despistamento que ele consegue com a seleção e combinação de palavras, que constroem um jogo entre o aparente e o oculto, o implícito e o explícito, seja pelos acordes que traduzem sempre um ambiente apocalíptico. As letras de Ramalho mais escondem do que mostram, mas não conseguem ocultar seu fundo biográfico. De modo que a interpretação de uma canção dele será tanto mais acertada quanto mais contiver dados da própria vida do compositor. É o que tentarei mostrar na canção Chão de Giz:

Eu desço dessa solidão

Espalho coisas sobre um chão de giz

Há meros devaneios tolos a me torturar

Fotografias recortadas em jornais de folhas, amiúde...

Eu vou te jogar num pano de guardar confetes

Eu vou te jogar num pano de guardar confetes

 

Disparo balas de canhão

É inútil, pois existe um grão-vizir

Há tantas violetas velhas sem um colibri

Queria usar, quem sabe, uma camisa de força ou de Vênus

Mas não vou gozar de nós apenas um cigarro

Nem vou lhe beijar, gastando assim o meu batom

 

Agora pego um caminhão, na lona, vou a nocaute outra vez

Pra sempre fui acorrentado no seu calcanhar

Meus vinte anos de boy, that's over baby, Freud explica

Não vou me sujar fumando apenas um cigarro

Nem vou lhe beijar gastando assim o meu batom

Quanto ao pano dos confetes, já passou meu carnaval

E isso explica por que o sexo é assunto popular

 

No mais, estou indo embora

No mais, estou indo embora

No mais, estou indo embora

No mais...

Há interpretações espalhadas pela internet que garantem que essa música narra biograficamente a história do amor proibido entre Zé Ramalho, ainda muito jovem, e uma dama rica da sociedade paraibana. É relevante dizer que a letra da canção dá sustentação a essa interpretação. Prefiro fazer aqui com você uma leitura baseada na estrutura da composição e mostrar os valores que a organizam. Muito do que vou escrever a esse respeito coincide com a versão do amor proibido entre o jovem pobre e a mulher casada. O título Chão de Giz dá a pista do conteúdo temático da letra. A ideia é de algo passageiro como o chão marcado, rabiscado com giz. ?Eu desço dessa solidão

Espalho coisas sobre um chão de giz?: a voz que fala no poema está solitária e quer contar passagens recentes de sua vida, espalhando-as sobre um chão de giz, prontas a serem apagadas. ?Há meros devaneios tolos a me torturar?: existem sonhos bobos a torturá-lo e estes são ?Fotografias recortadas em jornais de folhas, amiúde... ?, isto é, fotografias recortadas da amada que saíram em folhas de jornais frequentemente. Por isso vou jogar-te em um pano de guardar confetes, ou seja, em um balaio usado pelos nordestinos para guardar restos de panos que sobravam das costuras ou confetes do Carnaval. A segunda estrofe mostra a atitude do amante abandonado: ?Disparo balas de canhão, É inútil, pois existe um grão-vizir?: protesto com violência, mas não adianta, pois o outro é poderoso. Que pena, pois há tantas mulheres mais velhas a precisar de um jovem beija-flor, como eu: ?Há tantas violetas velhas sem um colibri.? Por isso, eu queria ser amarrado à força para ficar longe ou, então, poder usar um preservativo para viver este nosso amor: ?Queria usar, quem sabe, uma camisa de força ou de Vênus?.

?Mas não vou gozar de nós apenas um cigarro, Nem vou lhe beijar, gastando assim o meu batom?: não quero apenas o tempo de fumar um cigarro ou gastar o meu batom neste amor tão passageiro. Faz parte da biografia de Zé Ramalho a sua atividade de garoto de programa, por algum tempo. Na terceira estrofe, o enunciador, desiludido pelo abandono, resolve partir, mas não consegue, sente-se preso à mulher que passou a amar para sempre e chama até Freud para explicar sua situação psicológica: ?Agora pego um caminhão, na lona, vou a nocaute outra vez, Pra sempre fui acorrentado no seu calcanhar, Meus vinte anos de boy, that's over baby, Freud explica...? Será que explica? Está tudo acabado. Não quero apenas o tempo de um cigarro, isto é, quero um amor duradouro, por isso, não vou mais atrás dos panos de guardar confetes, porque meu Carnaval já acabou. A voz do enunciador é a de quem não se conforma com a vulgaridade do amor baseado apenas no sexo. Desencantado, ele nada mais tem a dizer e quer ir embora: ?No mais, estou indo embora, No mais...?. Nada mais tenho a dizer, estou indo embora.

Até a próxima.

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Luíza, de Tom Jobim: desafio

Publicado em 03/05/2014 14:43

Há letras de música que desafiam a atenção do ouvinte para uma boa interpretação. É o caso de Luíza, a bela música que Tom Jobim compôs para a novela Brilhante, da rede Globo de televisão, em 1981.A protagonista seria a atriz Vera Fischer e o maestro inspirou-se nela para produzir os belos versos da canção. Conta-se que ele ficou decepcionado, quando, já no primeiro capítulo, a loira atriz surgiu de cabelos curtos e escuros, uma vez que sua inspiração surgira dos cabelos longos e loiros que a consagraram. Faz parte ainda da história o que Sérgio Cabral revela, no livro sobre Tom Jobim, a participação de um outro compositor na letra da música. Ele narra que Tom Jobim procurou Ronaldo Bôscoli, para ouvir a música que estava compondo e estava com dificuldades com a sequência dos versos a partir de: ?Vem me dar um beijo, E um raio de sol nos teus cabelos?. Bôscoli sugeriu: ?Como um brilhante que partindo a luz, Explode em sete cores, Revelando então os sete mil amores?. Nesse momento, a inspiração voltou e Antônio Carlos Jobim completou maravilhosamente a letra da canção, sem, contudo, revelar ao público que havia recebido uma importante colaboração. Para quem trabalha no meio acadêmico, fato como esse não é novidade. Bôscoli deixou transparecer sua mágoa com esse episódio no livro de sua autoria, Eles e eu; memórias de Ronaldo Bôscoli, Rio: Nova Fronteira, 1994.Escreveu o compositor, que foi também marido de Elis Regina: "Mas minha maior mágoa de Tom veio depois, em 'Luíza', quando o ajudei em alguns versos da segunda parte. É quando a letra fala em sete cores, sete mil amores, etc. Contribuí com umas quatro, cinco frases. Tom alegou que já tinha apanhado uma boa grana para fazer a música sozinho e que ia pegar mal aparecer com uma parceria. Relevei, mas, agora, revelo". A letra é uma obra prima de Tom Jobim e merece que eu tente interpretar para você. Vamos aos versos de Luíza:

Rua,

Espada nua

Boia no céu imensa e amarela

Tão redonda a lua

Como flutua

Vem navegando o azul do firmamento

E no silêncio lento

Um trovador, cheio de estrelas

Escuta agora a canção que eu fiz

Pra te esquecer Luíza

Eu sou apenas um pobre amador

Apaixonado

Um aprendiz do teu amor

Acorda amor

Que eu sei que embaixo desta neve mora um coração

Vem cá, Luíza

Me dá tua mão

O teu desejo é sempre o meu desejo

Vem, me exorciza

Dá-me tua boca

E a rosa louca

Vem me dar um beijo

E um raio de sol

Nos teus cabelos

Como um brilhante que partindo a luz

Explode em sete cores

Revelando então os sete mil amores

Que eu guardei somente pra te dar Luiza

Luíza, Luíza

Coisa estranha, rua /espada nua, não é mesmo? Por onde passeou o olhar do eu-lírico desta canção? Rua como se fosse espada nua, fazendo comparação, analogia da rua, com espada nua. Para interpretar com correção, pode-se dizer que ele fez uma comparação com base na verticalidade da rua asfaltada, reta, vazia, à noite, com uma espada. Podemos chamar de metáfora de imagens a esse recurso, baseado em imagens mentais que geram novos sentidos, isto é, identificação da rua durante a noite, em perspectiva de vazio, com a espada fora da bainha. O que é importante para o ouvinte no caso da música é o ouvinte perceber que mesmo em frases as mais simples existem operações mentais complexas que precisam ser descobertas na atividade de interpretação. Do espaço da rua como uma espada nua, ele dirige olhar e mente para o firmamento e lá imagina a lua como um barco a flutuar pelo azul do céu. Cá embaixo, como se fora um trovador, o enunciador da canção, entranhado de estrelas dirige-se à musa e pede que ela ouça a canção que ele fez para esquecê-la. Confessa humildemente ser apenas um pobre amador apaixonado, que ainda não sabe amar, mas sabe que a musa Luíza, tem um coração ardente, apesar de uma aparência fria como a neve. Daí, a ousadia de pedir que ela venha e lhe dê a mão. O trovador aproxima-se mais e declara abertamente o desejo de tê-la nos braços, pois sabe que o desejo dela também é este e, atrevido, ousado, proclama poeticamente a celebração do amor como um encontro dos raios do sol nos cabelos da amada, das sete cores do arco-íris, transfigurando-se em sete mil amores, guardados desde sempre para dar a Luíza. É o casamento perfeito de melodia e letra, de olhar e imaginação, na bela canção de Tom. Até a próxima.

 

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Eu sei que vou te amar

Publicado em 27/04/2014 11:21

Ontem, à noite, ouvi Ana Carolina cantar ?Eu sei que vou te amar?, na abertura de uma novela e dormi embalado com os sons e a letra desta canção de Vinícius de Moraes e Tom Jobim. Por isso, quero escrever este texto a respeito da história desta música e de sua mensagem. Foi em uma apresentação de Toquinho no Canecão, no Rio de Janeiro, que ouvi dele esta narrativa pitoresca: ?Fizemos mais de 200 shows aqui nesse palco, acompanhados de uma grande orquestra. Parece que estou vendo. O camarim do Tom era logo ali. A Miúcha ficava quietinha naquele canto, e o Vinícius colocava uísque embaixo da mesa, que ele chamava de uísque ave-maria, porque era só para depois das seis?, recordou, arrancando risos da plateia. enquanto dedilhava acordes de Eu Sei Que Vou Te Amar. Uma vez o Tom, depois de ouvir essa música, brincou dizendo que o Vinícius era muito mentiroso de escrever ?eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar?, tendo casado nove vezes!?

Eu sei que você, leitor, vai gostar de recordar comigo a letra de Eu Sei Que Vou Te Amar. Vamos a ela:

Eu sei que vou te amar

Por toda a minha vida eu vou te amar

Em cada despedida eu vou te amar

 

Desesperadamente

Eu sei que vou te amar

E cada verso meu será pra te dizer

Que eu sei que vou te amar

Por toda a minha vida

 

Eu sei que vou chorar

A cada ausência tua eu vou chorar,

Mas cada volta tua há de apagar

O que essa ausência tua me causou

 

Eu sei que vou sofrer

A eterna desventura de viver à espera

De viver ao lado teu

Por toda a minha vida.

Essa é uma das músicas mais gravadas da nossa MPB. O que se percebe ao ouvi-la é que palavra e melodia nela se casam à perfeição. Há na música uma perfeita harmonia entre melodia e letra, entre composição musical e composição verbal. Nesta os versos são de seis e dez sílabas poéticas. ?Vou te amar? repete-se cinco vezes; vou chorar, duas vezes. Na ausência da amada, o eu-lírico, a voz que fala na canção, vai chorar e sofrer pela espera de poder viver eternamente ao lado da amada. Temos no poema um éthos de apaixonado, a imagem do apaixonado, que tem certeza de que vai amar por toda a vida, que quer viver ao lado da amada e vai chorar sempre que dela tiver de se separar.

O éthos, a imagem que ele quer passar, é de um ser apaixonado que jura um amor incondicional à pessoa que ele ama. Esse amor, para ele, tem que ser eterno. É a canção da paixão, do amor romântico idealizado. É a cantiga de amor trovadoresca atualizada. O tema é o amor cortês, o amor servil à mulher amada. Essa crença em um amor eterno é muito própria das canções e dos poemas de Vinícius.  Esse é o discurso que está no texto da canção.

Eu leio o texto e o que eu penso quando leio é o seu discurso, o querer dizer do texto, a intenção de dizer do texto. A intenção de dizer desta canção de Vinícius e Tom é que, se existe o amor, é para ser eterno, pelo menos ?enquanto dure?, como diz Vinícius em outro poema. Ele crê e quer que este amor dure eternamente. O advérbio de modo ?desesperadamente? comprova isso. Sempre que a amada se despedir, ela vai ficar desesperado e desesperadamente sabe que vai continuar amando-a.

A voz que predomina no poema da canção é de quem acredita que o amor possa durar toda uma vida. Um texto é sempre um diálogo com outras vozes. Sempre que eu digo alguma coisa, posso ter certeza de que o meu dizer é resposta a uma voz que já falou a este respeito. Assim, em qualquer texto há sempre um diálogo, uma intertextualidade e um encontro de muitas vozes, uma polifonia. Diálogo, intertextualidade e polifonia são o suporte de todo discursos. Os versos de Vinícius, harmonizados com a música de Tom Jobim, respondem a vozes que não acreditam que o amor possa durar para sempre. Nós, meu leitor, minha leitora, você e eu, sabemos que pode, não é? Até a próxima.

 

 

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Voltando à gramática

Publicado em 27/04/2014 11:19

Voltando à gramática

Rodapé Literário 244 (26-04-2014)

Juscelino Pernambuco

Estou voltando minha atenção hoje para algumas possibilidades diferentes nos modos de falar a nossa língua. É importante esclarecer logo de início minha posição a este respeito: a língua que falamos aprova uma série de variações no modo de ser falada e escrita. Não falamos da mesma forma o tempo todo, em todos os lugares e com as pessoas com as quais temos maior ou menor intimidade. Há momentos em que se presta mais atenção à construção das frases, porque há preocupação com a pessoa diante da qual estamos. Quero dizer, para simplificar o que venho escrevendo, que o linguajar de uma pessoa varia ao longo do dia. Entretanto, convém ficar atento às normas da gramática normativa da língua culta, para não sofrer o que se pode mesmo chamar de preconceito linguístico. Para efeitos de uma melhor convivência social, é necessário que todas as pessoas aprendam a chamada língua padrão, mesmo que não seja para usá-la em todos os momentos de nossa tão passageira existência aqui na terra. É por essa razão que passo a fornecer a você, meu leitor, algumas pistas para o chamado bom uso da norma da língua privilegiada socialmente. Vou citar alguns pares de expressões que merecem cuidado no uso: ?A sós? e ?só?. Se a moça deseja ficar a sós, quem haverá de impedir? Se ela disser que quer ficar ?a só?, é bom adverti-la de que o certo mesmo seria ela querer ficar só, ou seja, sozinha. Você, esperto que é, já descobriu que ?a sós? está adequado ao linguajar considerado mais culto. O mesmo não se pode dizer de ?a só?. Esse uso é condenado pela norma culta. Não combina com a preposição ?a?. Digamos acertadamente: Há momentos em que precisamos ficar sós ou ?a sós?, mas não ?a só?. Isso se vai aprendendo à medida que o tempo passa, mas não na medida em que o tempo passa, porque assim já seria causa, significaria ?porque?. Quando digo ?à medida que?, desejo dar uma ideia de proporcionalidade. Existem pessoas que ficam mais bonitas à medida que envelhecem. Sei que você concorda comigo, não é mesmo, minha cara leitora? Se eu disser que as torneiras de nossas casas estão sem uso, na medida em que as chuvas não caíram com a abundância de outros anos, estarei de bem com a língua, embora não de bem com a vida, já que sem água, a felicidade de cada um fica prejudicada. Na medida em que é sinônimo de porque, visto que, já que, etc. Espero que com essas observações sobre o uso da língua você vá ficando mais a par das normas da gramática e não corra o risco de dizer que está ao par, porque se se expressar assim, estará fazendo ao par de sapatos que está em seus pés. Viu como deve ser o uso apropriado de ?a par? e ?ao par?? Lembrei-me agora do susto que levei ao ouvir um apresentador de programa policial aqui de nossa região dizer: ?Também pudera, a tal moça sempre andou má acompanhada.? Ele desconhece o modo adequado de se usar ?mau? e ?mal?. Caso soubesse, diria com acerto: ?mal acompanhada?, que é o contrário de ?bem acompanhada?. Mau é o antônimo de bom. ?Se aquele homem é um mau companheiro, jamais deveria fazer parte de um grupo de amigos. Bem-vindos os bons companheiros, porque é deles de que precisamos em nossa vida.? Enquanto eu escrevia este texto para você um amigo distante telefonou-me: ?Onde está você?? Pensei responder: ?Estou no telefone?, mas ele poderia estranhar essa expressão. Preferi dizer: ?estou ao telefone.? Devo explicar que se você disser que está no telefone, não estará afastado da norma gramatical. A Gramática Metódica da Língua Portuguesa? do professor Napoleão Mendes de Almeida recomenda esse uso. Todavia, fico com a posição predominante de que o melhor mesmo é dizer que ?estar ao telefone? é a mais acertada, já que a preposição ?a? indica proximidade. Se não estiver de acordo com as recomendações da gramática, é bom evitar o uso de certas expressões, senão poderá alguém taxá-lo de ignorante. Na mesma frase o uso do par ?Se não e senão?. Se não é a conjunção condicional ?se? antecedendo o advérbio de negação ?não?. Equivale a ?caso não?. O termo ?senão? significa ?do contrário?. Se você tiver dúvida, tente substituir ?se não? por ?caso não? e ?senão?, por ?do contrário?. É assim que se aprende a língua. Até a próxima.

 

 

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Lígia, a musa de Jobim

Publicado em 18/04/2014 08:54

Que Tom Jobim foi cantor, compositor e maestro dos mais admiráveis todos o sabemos, mas que também tenha sido um homem dos mais galanteadores nem todos o sabem. Assim sendo, neste meu texto de hoje trago para você a música Lígia e sua história de composição. Para mim, essa canção é das mais belas e tocantes do grande Jobim. Tem uma letra singela e bem construída em versos e uma melodia cativante aos ouvidos sensíveis. Antes de mais nada, antecipo que existem duas versões da letra dela: uma de 1972, só com a letra escrita por Jobim e outra de 1974, com alguns versos de Chico. A de 1974, foi gravada por Chico Buarque no disco Sinal Fechado, mas ele não quis colocar seu nome como parceiro de Tom Jobim, devido a problemas com a censura imposta pela ditadura militar que infelicitava o nosso Brasil. Vamos ler juntos aqui os versos da canção gravada tanto por Chico quanto por Jobim:


Eu nunca sonhei com você

Nunca fui ao cinema

Não gosto de samba

Não vou a Ipanema

Não gosto de chuva

Nem gosto de sol

E quando eu lhe telefonei

Desliguei, foi engano

O seu nome eu não sei

Esqueci no piano

As bobagens de amor

Que eu iria dizer

Não, Ligia, Ligia

 

Eu nunca quis tê-la ao meu lado

Num fim de semana

Um chope gelado

 

Em Copacabana

Andar pela praia até o Leblon

E quando eu me apaixonei

Não passou de ilusão

O seu nome rasguei

Fiz um samba-canção

Das mentiras de amor

Que aprendi com você

Ligia, Ligia

 

E quando você me envolver

Nos seus braços serenos

Eu vou me render

Mas seus olhos morenos

Me metem mais medo

Que um raio de sol

Ligia, Ligia


Para interpretar bem um texto, o contexto não pode ser deixado de lado. Texto e contexto dialogam o tempo todo e o sentido surge exatamente da boa descoberta desse dialogismo. Não estou afirmando que, sem se conhecer o contexto ou a história de um texto, não se possa interpretá-lo. O que explico é que quanto mais conhecimento de mundo tivermos a respeito de um texto, mais apropriada será a sua interpretação. No caso dessa canção de Tom Jobim, é importante que se conheçam os fatos que a fizeram ser produzida. Existiu uma Lígia na vida de Tom: Lygia Marina de Moraes é o nome dela. Faço questão de reproduzir as palavras dela mesma em uma entrevista do ano de 2000, para a revista Marie Claire: "Conheci o Tom em uma tarde chuvosa. O bar Veloso estava vazio, era junho e fazia frio. Eu e uma amiga, Cecília, nos sentamos na varanda e vimos o Tom conversando com Paulo Góes [fotógrafo]. Os dois acabaram se sentando na nossa mesa. Quando contei ao Tom que era professora da sua filha Beth, ele teve um ataque de riso e disse: 'É a primeira vez que paquera vira reunião de pais e mestres!'. E eu babando: imagine, em 68, Tom era um dos homens mais lindos do Brasil.

Ele tinha que dar uma entrevista a Clarice Lispector para a 'Manchete', e convidou a mim e a Cecília para ir com ele. Fomos no fusquinha azul-claro do Tom. Eu usava uma saia de lã e um suéter de cashmere. Ao abrir a porta, Clarice fez cara de mau humor. Tom, abraçado comigo e com Cecília, disse: 'Trouxe minhas amigas'. Ela ficou mais furiosa quando pediu a Tom que fizesse um poema para ela, como Vinícius [de Moraes] teria feito em entrevista anterior, e ele disse: 'Não sou poeta, se tivesse um violão...'.Mas aí pegou um bloco de papel-jornal e escreveu um poema para mim, que guardo até hoje: 'Teus olhos verdes são maiores que o mar/ Se um dia eu fosse tão forte quanto você/ Eu te desprezaria e viveria no espaço/ Ou talvez então eu te amasse/ Ai que saudades me dá/ Da vida que eu nunca tive', e assinou: A.C.J.?

Quero analisar com você a letra da bela canção de Tom para a sua musa Lígia. Veja que ela é toda feita de negativas: Eu nunca, não, não sei...etc. Mas é puro fingimento artístico. Ele está fingindo dizer uma coisa para dizer outra. Está dizendo o contrário do que pensa e sente. Conhecendo a história do amor platônico que ele experimentou por Lígia, que era, em verdade, esposa de Fernando Sabino, o conhecido autor de Encontro Marcado, o meu caríssimo leitor já percebeu que Jobim faz um despistamento na letra da música, por meio do uso magistral da figura de linguagem chamada de ironia. Não devo escrever mais por hoje, pois o espanto que a história de Lígia lhe deve ter provocado já basta para este meu texto dar-se por findo. Até a próxima.


 


 

 

 

 

 

 

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Eu me indigno

Publicado em 09/04/2014 11:06

Se me perguntarem o que mais me indigna na convivência com as pessoas, direi que é a falsidade. Garanto que você também, meu leitor, indigna-se com os comportamentos falsos de algumas pessoas. O crescimento numérico da humanidade traz junto o aumento da falsidade. É um verdadeiro aprendizado conviver com gente falsa e conseguir sair ileso. Eu me indigno mais com os falsos do que com os corruptos, porque estes, mais dias menos dias, acabam sendo descobertos. Aqueles, não: são capazes de enganar a si mesmos. Para ficar de bem com a vida, é imprescindível saber livrar-se dos falsos. Já para ficar de bem com a língua, é bom saber pronunciar e conjugar o verbo pronominal indignar-se. Muitas pessoas, até mesmo as que se consideram letradas, não sabem pronunciar verbos como: indignar, dignar, resignar, designar. Dizem elas: [indiguino], [diguino], [resiguino], [desiguino]. Você que lê agora o que escrevo, vai recordar comigo que esses verbos pronunciam-se com acento no ?i? das sílabas ?di? e ?si?. É como se tivesse de escrever assim: eu me ?indíguino?, ?eu ?desíguino?. Mas a escrita é sem acento e sem o ?u?. Tais verbos assim se conjugam como indignar-se no Presente do Indicativo: eu me indigno, tu te indignas, ele se indigna, nós nos indignamos, vós vos indignais, eles se indignam. Nas pessoas, ?eu?, ?tu? e ?ele?, com acento tônico, sem a marca de grafia, na letra ?i? das sílabas ?di? e ?si?. Conjugando, pronunciando com acerto o verbo indignar, e, sobretudo, praticando a ação que ele designa, tenho certeza de que afastaremos de nós as pessoas falsas, sem precisar de dar ?beijinho no ombro?. Ah! que lembrança ruim! De lembranças ruins passo para lembranças boas e dou uma repassada pelas Gramáticas Históricas da Língua Portuguesa e pelo Vocabulário Ortográfico, edições de 1961 e 2012, para rever alguns femininos meio estranhos ou de pouco uso. Gosto de fazer esse exercício, para agradar meus leitores e tornar a língua portuguesa mais amada e menos temida. Um feminino pouco usado, mas à disposição dos falantes de língua portuguesa é ?hóspeda?. Já existia desde o século XIII. Por volta de 1400, já há registro dele na Crônica de D.Pedro I, da autoria de Fernão Lopes. Quer uma sugestão? Comece a usá-lo, que ele se espalha. As mulheres merecem um feminino só para si, quando bem hospedadas por um homem. Veja como é interessante o campo da língua portuguesa. Para as mulheres que fazem poesia, existe o feminino poetisa. Não se sabe como surgiu a ideia de que seria pejorativo chamar de poetisa a mulher que tem o dom da poesia. Como consequência, as nossas grandes poetisas passaram a se atribuir o substantivo poeta e a rejeitar poetisa. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e os dicionários não registram o feminino poeta, apenas agasalham o uso de poeta como substantivo masculino. Além de poetisa, como feminino de poeta, há também os femininos papisa, profetisa, diaconisa, e episcopisa. Este designa o feminino de bispo. Mas aí criou-se bispa e rejeitou-se episcopisa. Talvez, tenham razão, já que as antigas episcopisas não dispunham de certas prerrogativas próprias de um bispo. Sobre palavras que terminam em ?-nte?, como estudante, escrevente, ajudante, presidente, vou à Gramática Histórica do professor Ismael de Lima Coutinho, edição de 1974, e encontro o seguinte trecho: ?-ante,-ente,-inte < vogal temática dos verbos mais o sufixo ?nte do particípio presente. Exprimem agente, qualidade ou estado, servindo para formar adjetivos e substantivos: tratante, delinquente, pedinte, ouvinte,? etc. Esse sufixo serve tanto para o masculino quanto para o feminino. Entretanto, já existia no século XIII, o feminino parenta; governanta surgiu em 1881 e presidenta data de 1872. Esse feminino fez-se presente na peça As Sabichonas, que é uma tradução de Antônio Feliciano de Castilho para Des femmes savantes, de Moliére. Veja só alguns diálogos: ?Mil graças, presidenta.?, Página 139; na página 153: ?À nossa presidenta, e às minhas sócias, peço se dignem perdoar-me o intempestivo excesso.? Assim, não é mesmo novidade do século XXI, o feminino presidenta. Surpreendente também, é você saber, meu caro leitor, que existe um feminino para ?cantor?, registrado em dicionários e, principalmente, no nosso guia de ortografia que é o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Trata-se do feminino cantatriz, com o mesmo sufixo ?triz?, presente nos femininos ?embaixatriz? e ?imperatriz?. Como era difícil fazer-se o feminino para palavras em ?or?, criou-se o feminino cantatriz. Sabe que eu fiquei pensando: uma forma de caracterizar as más cantoras, e elas são muitas, seria chamá-las de cantatrizes.

Até a próxima.

 

 

 

 

 

 

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Cuidados com sinônimos

Publicado em 29/03/2014 11:22

Os assuntos para uma crônica gramático-literária são inesgotáveis e, a quem queira ou tente escrever sobre a língua que fala, esse fato permite que essa tarefa se torne palpitante. Gosto muito de dicionários de sinônimos e consulto-os com assiduidade, uma vez que que vivo do que falo, escrevo, ouço e leio. Gostaria de poder afirmar que a humanidade inteira também pratica essas quatro atividades, mas é sabido que a maior parte vive mesmo do que fala e ouve, mais até do que fala. Quanto a ler e escrever, infelizmente, ainda não são muito praticados no mundo.O conhecimento dos sinônimos é um recurso poderoso com que o falante de uma língua pode contar para tornar a sua fala mais apropriada, adequada, acertada, atraente, contundente e convincente. A série de adjetivos que empreguei para a fala foi com o propósito de mostrar que o vocabulário ativo de uma pessoa é a sua marca pessoal na comunicação que faz nos diferentes momentos de sua existência. Está provado que quanto mais sinônimos para uma palavra uma pessoa conhecer, mais facilidade ela terá para interpretar o dizer das outras pessoas e para construir o seu próprio discurso. Como entender o trecho que transcrevo a seguir se não se souber o sinônimo de algumas palavras-chave da organização do texto? Trata-se de uma passagem do romance de Umberto Eco intitulado ?O cemitério de Praga? e está na página 370: ?É sempre necessário ter alguém para odiar, para sentir-se justificado na própria miséria. O ódio é a verdadeira paixão primordial. O amor, sim, é uma situação anômala. Por isso, cristo foi morto: falava contra a natureza. Não se ama alguém por toda a vida; dessa esperança impossível nascem adultérios, matricídios, traições dos amigos...Ao contrário, porém, pode-se odiar alguém por toda a vida. Desde que esse alguém esteja ali, para reacender nosso ódio. O ódio aquece o coração. ?Se o leitor não souber que ?primordial? significa primitivo, básico, principal, primeiro e anômalo quer dizer, irregular, anormal, não compreenderá que o narrador do romance está afirmando que o homem não nasceu para amar, mas para odiar. Para amar, ele precisa mudar sua índole, educar seu espírito, aprender com os ensinamentos de Cristo. A reflexão é profunda e chocante para muitas pessoas e o leitor não é obrigado a concordar com ela. É um enunciado que convida a uma resposta seja de concordância, seja de discordância. O que eu quero acentuar é a força da palavra e a necessidade da leitura para a ampliação do vocabulário. Ontem, vendo um jogo pela televisão, ouvi o seguinte comentário: ?Os torcedores do São Paulo e do Corínthians assistiram impávidos à derrota de seus times.?  Como assim: impávidos? Esse adjetivo significa destemido, que não tem pavor, intrépido, e, é claro, que o ilustre especialista em futebol deveria ter usado o adjetivo ?impassíveis? que  corresponde ao estado de ânimo desses frustrados torcedores, ou seja, indiferentes à dor, aos desgostos com os seus times; imunes às paixões; serenos. Veja só a confusão por falta de domínio dos sinônimos. Como escrevo para ser útil ao meu leitor, aproveito para apresentar alguns pares de palavras que causam, em algumas oportunidades, situações de embaraço. Vamos a eles: confiscar e desapropriar: a primeira significa apoderar-se sem indenizar; a segunda: privar alguém da propriedade com indenização. Roubar e furtar: roubar é subtrair (coisa alheia móvel) para si ou para outrem, mediante grave ameaça; furtar é subtrair fraudulentamente coisa alheia móvel sem violência. Implantar e implementar: o primeiro verbo significa introduzir; inaugurar; estabelecer; o segundo, levar à prática por meio de providências concretas. Descriminar e legalizar: o significado do primeiro verbo é absolver de crime; tirar a culpa de; inocentar; o do segundo, tornar legal; dar força de lei a. Em princípio e a princípio: Em princípio quer dizer ?em tese, na teoria?; a princípio tem o sentido de ?em um primeiro momento, no começo, inicialmente?. Veja exemplos: ?Em princípio, ele era contra o aborto, dizia que por motivos religiosos. ?A princípio, vou contrariar seu pensamento.? Ao invés de, em vez de: a primeira locução significa ao contrário de; a segunda quer significar em lugar de. De encontro a e ao encontro de: ser contra é ir de encontro a; estra a favor de é ir ao encontro de; Quer exemplos? ?O carro veio de encontro ao muro de minha casa.? ?Todos nós achamos que o projeto do Marco Civil da Internet veio ao encontro dos interesses dos internautas brasileiros.? Espero que também o meu texto tenha ido ao encontro das suas expectativas, meus caríssimos leitores. Até a próxima.

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Se eu fizer o que devo...

Publicado em 28/03/2014 10:34

Vez por outra, eu me surpreendo com a rapidez com que a língua vai-se transformando e mudando, graças à insistência com que os falantes criam formas de falar que ignoram a norma gramatical considerada padrão. Na propaganda e publicidade, é comum observar-se no texto o uso de um registro intercambiante entre o popular e o culto. Veja-se o comercial que a Fátima Bernardes protagoniza para uma empresa de produtos alimentícios. Aqui, o texto: Experimente o frango... A qualidade vai te surpreender. A gramática normativa também foi surpreendida pelo desacerto entre o verbo e o pronome oblíquo: ?Experimente? e ?te?. Explico: o verbo está na terceira pessoa do modo Imperativo: Experimente (você) o frango... Assim, a frase seguinte deveria ser: A qualidade vai surpreendê-lo. Seria a combinação do verbo ?surpreender? com o pronome ?o?, que equivale a ?você?. Como o verbo termina por ?r?, este no encontro com ?o?, transformar-se-ia em ?lo?: ?surpreendê-lo?. Caso o mais importante do texto fosse tratar o potencial consumidor por tu, o verbo deveria figurar na segunda pessoa do Imperativo: ?experimenta?. A combinação entre verbo e o pronome estaria nos padrões da gramática normativa: ?Experimenta o frango...A qualidade vai te surpreender.? Todavia, o criador do comercial optou por uma linguagem popular, sem submissão ao que prescreve a norma tratada como padrão. A pergunta que se pode fazer é: caso o produtor da propaganda tivesse optado pela escrita formal, ?Experimente o frango...A qualidade vai surpreendê-lo?, teria perdido o impacto que quer provocar? Tenho certeza de que não. A publicidade e a propaganda poderiam funcionar como veículos de propagação também do uso adequado da língua. Se escolherem usar a norma popular que o façam, mas não é recomendável que fiquem a meio caminho de uma e outra norma. A conclusão a que chego é que os textos de propaganda e publicidade procedem como políticos à cata de votos: fazem o jogo popular e populista. Tempos atrás, houve um comercial de um banco do governo com a mesma estrutura verbal: ?Vem pra ...você também.? Em lugar de ?Venha?, apareceu ?Vem?, de maior apelo popular. Para ficar de acordo com a gramática da norma culta, o texto deveria ser: ?Venha para a ...você também?. A conclusão a que se chega é a seguinte: os textos de propaganda fingem que seguem a norma da gramática prescritiva para disfarçar que seguem mesmo é a norma popular. Esse fato pode ser observado também na linguagem da televisão. Presto atenção à fala das pessoas em entrevistas e fico assustado com a confusão que se faz com o uso da língua. Em dois dias sucessivos, ouvi este uso do verbo ?fazer?: ?Se a gente não fazer o que deve no tempo certo, nunca mais vai acertar.? A manifestação é de um especialista em uso da água. Outro, também especialista, esse em assuntos penitenciários: ?Se os governos não fazer o esforço de construção de novos presídios, vamos ter cada vez mais rebeliões.? Talvez você, meu leitor, tenha ouvido uma ou ambas as frases ditas em dois telejornais. Quer dizer que o futuro do subjuntivo de ?fazer? está virando ?fazer? e desbancando o gramatical ?fizer?? Não, não é possível. Quer dizer, é possível, sim, já que são tantos os desatinos no campo da expressão linguística, que nada mais é impossível. Sou de opinião que a língua deve mesmo estar aberta a transformações para acompanhar a trajetória nada previsível dos seus falantes, mas isso não quer dizer que não deva haver respeito a um padrão mínimo de linguagem que sustente a vida social de pessoas de um mesmo país. A gramática, pejorativamente, chamada de tradicional precisa ser do domínio de todos os usuários,  para funcionar como um referencial de um padrão mínimo de adequação da linguagem da coletividade. É preciso um esforço coletivo para que a norma da língua escrita possa ser aprendida pelos falantes de todas as camadas da sociedade. O ideal é que todos os alunos tenham condições de aprender a ler e a escrever na norma considerada padrão e se tornem cidadãos capazes de se expressar tanto na norma privilegiada socialmente, quanto na norma menos formal, conforme o ambiente em que estiverem nas diferentes circunstâncias de seu ato de viver. Era o que eu queria escrever para você, hoje. Até a próxima.

 

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Sobre farpas e felpas

Publicado em 18/03/2014 08:42

Estava pronto para escrever sobre um assunto do momento, mas diante da consulta de um leitor, mudei toda a rota do texto e vou às farpas e felpas. Pergunta-me o meu seguidor do Facebook, se existem as palavras ferpa e farpa. Como estudioso da língua devo dizer que ambas existem, já que são usadas, mas  a norma considerada padrão só aceita ?farpa?. Assisti a muitas sessões da Ação Penal 470, conhecida apenas por Mensalão, e fiquei espantado com tantas farpas atiradas pelos juízes do Supremo Tribunal Federal, uns contra os outros. Antes desse julgamento que, aliás, foi midiático, pela primeira vez, havia em torno do Tribunal Supremo uma certa aura de mistério que lhe trazia muito respeito e até veneração. Depois de tudo o que ocorreu e foi visto por milhões de pessoas, não é certo que se tenha mantido essa atitude de reverência pelo Tribunal. Acostumados que estavam as pessoas pelo tumulto que há de quando em vez em sessões de debates políticos ou outros que tais, esperava-se que entre os juízes da Suprema Corte houvesse uma atmosfera de extrema cordialidade e respeito pela opinião alheia, muitas vezes, divergente de outros colegas. As farpas, todavia, não permitiram e mostraram que havia entre eles uma divisão muito grande, quase próxima da que existe em partidos políticos. Como o meu leitor deseja saber sobre ?farpa?, vamos ao dicionário Aurélio e ver algumas acepções reservadas para esse substantivo. Mantive a numeração do dicionário, para melhor uso no texto.

 Farpa [Dev. de farpar.] Substantivo feminino.

1. Ponta metálica penetrante, em forma de ângulo agudo.3. Estilha de madeira que acidentalmente se introduz na pele ou na carne.

5. Fig. Crítica mordaz; sarcasmo.

Interessa ao meu propósito de construção textual a acepção de número 5. Foi nesse sentido que as farpas se fizeram utilizar na argumentação de muitos juízes. Quem assistiu ao julgamento, saberá do que estou tratando. Quanto sarcasmo desnecessário e imprudente se ouviu de pessoas com saber jurídico inquestionável! Se o leitor me perguntar se farpa poderia ter como sinônimo ?ferpa?, direi que não. Na expressão popular, essa palavra reina soberana. Quanta vez se ouve de bocas até letradas a frase: ?Entrou uma ferpa no meu dedo?. Como é que se pode explicar a origem de ?ferpa?, em lugar de ?farpa?? Foi da analogia e da semelhança fonética entre farpa e felpa que surgiu ?ferpa?. Nos dicionários, há o registro de farpa e felpa como sinônimos.Vejamos o que o dicionário Houaiss agasalha para as acepções de ?felpa?:1    Rubrica: indústria têxtil.

Tecido felpudo de lã ou algodão, à semelhança da pelagem animal 2Derivação: por metonímia. Pêlo levantado em tecidos lanosos; felpo. 3   Derivação: por extensão de sentido.penugem de aves e animais 5Derivação: por analogia.buço em jovem rapaz

6          Uso: informal.dinheiro 7 Regionalismo: Brasil. Uso: informal.

pequena lasca ou farpa que penetra acidentalmente na pele ou na carne

8          Regionalismo: Ceará. Uso: informal. Laia, tipo Ex.: são todos da mesma f.

9          Regionalismo: Portugal. Erva rasteira fina e emaranhada ª felpas

n substantivo feminino plural Regionalismo: Brasil. Uso: informal.10 notas de dinheiro

Poupo-lhe, leitor, o tempo de ir ao dicionário e faço meu texto ganhar mais corpo e significado com o registro de tantas riquezas no uso da língua. Na acepção de número 7, do dicionário Houaiss (lê-se Huais), encontra-se a possibilidade de tratar ?felpa? como sinônimo de ?farpa?. Só não há a aceitação de ?ferpa?. O melhor, na minha opinião, é que se use ?farpa? para ?crítica mordaz, sarcasmo? e se reserve ?felpa? para ?pêlo levantado em tecidos lanosos?. Imagine uma frase como esta: ?Suas Excelências, os juízes do STF, recobertos por suas capas carregadas de felpas, não vacilaram, muitas vezes, no mau uso de farpas contra seus interlocutores.? Poderia você concluir que se trata de uma frase felpuda e farpada, e não estaria em má companhia nesse uso dos dois adjetivos, já que encontraria apoio em muitos dos nossos consagrados escritores. E pois não é que observei o bom uso que fiz do adjetivo ?mau? nessa frase? Muitas pessoas têm dúvida entre ?mal? e ?mau?. O primeiro é advérbio e, assim, é invariável; o segundo é adjetivo e, como tal, concorda com o substantivo. Veja só esta frase: ?Está em maus lençóis ,quem mal procede em matéria de respeito ao uso da língua e ao bem estar das pessoas.? E, para terminar, dou um viva a Batatais, por mais um  aniversário. Até a próxima.

 

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Enigmas de Grande Sertão: veredas

Publicado em 13/03/2014 08:12

João Guimarães Rosa, autor de Grande Sertão: veredas, foi um homem muito supersticioso, os amigos diziam isso dele. Seu amigo particular, David de Carvalho, morador de Itaguara, revela esse fato, na revista, bel? Contos, de Itaúna, MG. de 1973, página 9:  ?Guimarães Rosa parece supersticioso. Não subestima qualquer crença. Acredita na força da lua. Respeita normalmente os curandeiros, feiticeiros, e as crenças na umbanda, na quimbanda, no kardecismo, talvez acreditando que todas as crenças são coordenadas que convergem para o mesmo pólo.? Mais à frente, na mesma revista, o amigo David Carvalho, relata: ?Em casa do Dr. A. A. de Lima Coutinho, Dona Nair observa que a falta de dois botões, na camisa incomoda João Guimarães Rosa. Ela prontifica-se então em pregar os botões, mas ele recusa o oferecimento. Por sua vez o Dr. A. A. de Lima Coutinho insiste com ele:?Deixe de bobagem! Aqui você está em casa e a Nair vai pregar os botões em sua camisa. Ele reluta, mas, diante da insistência, concorda, impondo-lhes uma condição: que antes Dona Nair repita três vezes: ?Coso a roupa e não coso o corpo, coso um molambo que está roto...? Dona Nair sujeita-se à condição, repete três vezes os dizeres e prega os dois botões na camisa da visita.?

No conto? São Marcos?, do livro Sagarana (1971.p.227), há um trecho que assim diz: ?Bem, ainda na data do que vai vir, e já eu de chapéu posto, Sá Nhá Rita Preta minha cozinheira, enquanto me costurava um rasgado na manga do paletó (?Coso a roupa e não coso o corpo, coso um molambo que está roto...?), recomendou-me que não enjerizasse o Mangolô.?

Essa pluralidade religiosa que impregna a obra de Guimarães Rosa reflete uma característica muito pessoal. Conforme expressão do próprio escritor: (...) ?sou profundamente, essencialmente religioso, ainda que fora do rótulo estrito e das fileiras de qualquer confissão ou seita; antes, talvez, como o Riobaldo do G.S.:V., pertença eu a todas. E especulativo, demais. Daí todas as minhas constantes preocupações religiosas, metafísicas, embeberem os meus livros. Talvez meio existencialista-cristão (alguns me classificam assim), meio neoplatônico (outros me carimbam disto) e sempre impregnado de hinduísmo (conforme terceiros). Os livros são como eu sou.?

?Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco.O senhor, eu,nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral, isso é que é a salvação-da-alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio...? (ROSA, 1967,p.15-16).

Em o Grande sertão: veredas, ele dá forma artística ao sincretismo religioso, ao fazer de Riobaldo, um herói que se vale de todas as religiões, crenças e crendices populares para vencer o inimigo Hermógenes e, por extensão o demônio. No aspecto místico da obra, a palavra final é do próprio Guimarães Rosa: ?Todos os meus livros são simples tentativas de rodear e devassar um pouquinho o mistério cósmico, esta coisa movente, impossível, perturbante, rebelde a qualquer lógica, que é a chamada ?realidade?, que é a gente mesmo, o mundo, a vida?. Para ele, ?o idioma é a única porta para o infinito?. Sobre o lado mágico da existência, dizia: ?Minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos... Sou um contemplativo fascinado pelo Grande Mistério?. Sobre sua obra-prima, confessou no prefácio Sobre a escova e a dúvida, em Tutaméia: ?Quanto ao Grande sertão: veredas, forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer que foi ditado, sustentado e protegido ? por forças ou corrente muito estranhas?.

A professora Sílvia Meneses-Leroy, autora do ensaio A Cabala do sertão em Grande sertão: veredas enxerga elementos cabalísticos na obra do autor. Há ainda um ensaio intitulado Guimarães Rosa: O alquimista do coração do médico e psicólogo José Maria Martins, com relação à Alquimia, vai na mesma direção. Permito-me escrever que o romance Grande Sertão: veredas continua sendo um desafio para os seus leitores e mais ainda para os estudiosos dessa primorosa e enigmática narrativa. Até a próxima

 

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Letra de música e poesia

Publicado em 02/03/2014 08:49

Não há propriamente um acordo sobre a convivência entre poesia e letra de música. Há aqueles estudiosos de literatura e críticos de música que consideram a possibilidade de haver poesia na música popular. Também existem os que negam qualquer possibilidade de a poesia poder estar nas letras das canções populares. Quanto a mim, considero que o gênero letra de música pode ser também um território poético. O predomínio da poesia em uma letra de música dependerá do talento e da dedicação do compositor ao fazer literário e musical. Uma letra de música, quando lida separadamente da melodia,  revelará sua riqueza ou indigência literária. Nos domínios da Música Popular Brasileira (MPB) de hoje, não há o primado da poesia sobre o ritmo, muito pelo contrário, a preocupação está apenas no ritmo e barulho que se pode fazer. A letra é complemento tão somente. Não é para dar o que pensar, é para dar o que fazer com o corpo.

Antes de uma novela de televisão ir para o ar, havia, há tempos, uma grande preocupação com a trilha sonora para embalar e enriquecer a trama narrativa. Atualmente, busca-se apenas o sucesso fácil e a vendagem de CD. Tenho- me concentrado na busca de boas letras de música nas trilhas das diferentes novelas das redes de televisão brasileiras e, raramente, sinto poesia nas canções. Sim, poesia é para sentir, deleitar, extasiar, embriagar.

Analisei a seleção musical da novela Em família, da TV. Globo e encontrei poucas canções com letras poéticas. É bom que se saiba que escrever em versos não quer dizer que se esteja fazendo poesia. Poesia é beleza, é convulsão, é arte, é trabalho original com as palavras, é encantamento. Convido você, meu leitor, a acompanhar-me na análise que faço da letra da música ?Recomeço?,  de Maria Gadu e Totonho Villeroy, que está na trilha sonora da novela.

Recomeço


Você sumiu, desarvorei

Eu não pensei levar um nó

Te destratar não destratei

Eu sempre dei o meu melhor

E não sei como aconteceu

Pensava eu ser teu herói

Só essa dor não me esqueceu

Foi me apertando e como dói

 

De alguma coisa isso valeu

Ficou mais claro quem sou eu

Brilhou o sol onde foi breu

E a minha vida começou

E quando viu que eu tava bem

Foi de meu bem que me chamou

Mas pra você nem fica bem

Pedir perdão, dizer que errou

 

Não diz que sim, não diz que não

Não diz que deu e nem constrói

Não deu valor ao que foi seu

Se arrependeu e isso lhe rói


 

Por trás do discurso do eu-lírico está a defesa da ideia de que, quando alguém é abandonado pelo ser amado, não deve aceitar o pedido de volta. Na primeira estrofe, o eu-lírico confessa que ficou desarvorado com a separação amorosa. O uso do verbo desarvorar é a único traço de originalidade dessa estrofe. Desarvorar significa ficar abatido, caído e sem prumo, como uma árvore que desaba. Quem perde um amor pode desarvorar-se. É o caso do eu dessa música. Na segunda estrofe, ele vai dizer que não sabe como aconteceu, já que ele se sentia um verdadeiro herói para o ser que amava. Esse é o perigo: sentir-se importante e indispensável, sem desconfiar do pouco significado que tem para o outro. Recuperado do tombo, ele vem e diz que o drama da separação valeu para ele descobrir-se a si mesmo e fazer a sua vida recomeçar. Foi, aí que a pessoa que ele amava arrependeu-se de o ter largado e quis voltar mais doce do que antes, chamando-o de meu bem. O desprezado faz-se de vitorioso, ironiza a situação e diz que não fica bem para o ser amado que o havia abandonado pedir perdão. Ele não vai perdoar. A conclusão a que se chega é que não havia amor entre os dois, pois, do contrário, não haveria separação e, se houvesse, haveria reconciliação. A letra é pobre de poesia, as repetições são cansativas e a mensagem é que a separação mostrou que não havia mesmo amor entre os dois. Essa música ?Recomeço? salva-se apenas pela melodia e pela interpretação dos dois compositores. Apenas isso. Até a pr

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