De bem com a língua,
de bem com a vida

Blog

Lígia, a musa de Jobim

Publicado em 18/04/2014 08:54

Que Tom Jobim foi cantor, compositor e maestro dos mais admiráveis todos o sabemos, mas que também tenha sido um homem dos mais galanteadores nem todos o sabem. Assim sendo, neste meu texto de hoje trago para você a música Lígia e sua história de composição. Para mim, essa canção é das mais belas e tocantes do grande Jobim. Tem uma letra singela e bem construída em versos e uma melodia cativante aos ouvidos sensíveis. Antes de mais nada, antecipo que existem duas versões da letra dela: uma de 1972, só com a letra escrita por Jobim e outra de 1974, com alguns versos de Chico. A de 1974, foi gravada por Chico Buarque no disco Sinal Fechado, mas ele não quis colocar seu nome como parceiro de Tom Jobim, devido a problemas com a censura imposta pela ditadura militar que infelicitava o nosso Brasil. Vamos ler juntos aqui os versos da canção gravada tanto por Chico quanto por Jobim:


Eu nunca sonhei com você

Nunca fui ao cinema

Não gosto de samba

Não vou a Ipanema

Não gosto de chuva

Nem gosto de sol

E quando eu lhe telefonei

Desliguei, foi engano

O seu nome eu não sei

Esqueci no piano

As bobagens de amor

Que eu iria dizer

Não, Ligia, Ligia

 

Eu nunca quis tê-la ao meu lado

Num fim de semana

Um chope gelado

 

Em Copacabana

Andar pela praia até o Leblon

E quando eu me apaixonei

Não passou de ilusão

O seu nome rasguei

Fiz um samba-canção

Das mentiras de amor

Que aprendi com você

Ligia, Ligia

 

E quando você me envolver

Nos seus braços serenos

Eu vou me render

Mas seus olhos morenos

Me metem mais medo

Que um raio de sol

Ligia, Ligia


Para interpretar bem um texto, o contexto não pode ser deixado de lado. Texto e contexto dialogam o tempo todo e o sentido surge exatamente da boa descoberta desse dialogismo. Não estou afirmando que, sem se conhecer o contexto ou a história de um texto, não se possa interpretá-lo. O que explico é que quanto mais conhecimento de mundo tivermos a respeito de um texto, mais apropriada será a sua interpretação. No caso dessa canção de Tom Jobim, é importante que se conheçam os fatos que a fizeram ser produzida. Existiu uma Lígia na vida de Tom: Lygia Marina de Moraes é o nome dela. Faço questão de reproduzir as palavras dela mesma em uma entrevista do ano de 2000, para a revista Marie Claire: "Conheci o Tom em uma tarde chuvosa. O bar Veloso estava vazio, era junho e fazia frio. Eu e uma amiga, Cecília, nos sentamos na varanda e vimos o Tom conversando com Paulo Góes [fotógrafo]. Os dois acabaram se sentando na nossa mesa. Quando contei ao Tom que era professora da sua filha Beth, ele teve um ataque de riso e disse: 'É a primeira vez que paquera vira reunião de pais e mestres!'. E eu babando: imagine, em 68, Tom era um dos homens mais lindos do Brasil.

Ele tinha que dar uma entrevista a Clarice Lispector para a 'Manchete', e convidou a mim e a Cecília para ir com ele. Fomos no fusquinha azul-claro do Tom. Eu usava uma saia de lã e um suéter de cashmere. Ao abrir a porta, Clarice fez cara de mau humor. Tom, abraçado comigo e com Cecília, disse: 'Trouxe minhas amigas'. Ela ficou mais furiosa quando pediu a Tom que fizesse um poema para ela, como Vinícius [de Moraes] teria feito em entrevista anterior, e ele disse: 'Não sou poeta, se tivesse um violão...'.Mas aí pegou um bloco de papel-jornal e escreveu um poema para mim, que guardo até hoje: 'Teus olhos verdes são maiores que o mar/ Se um dia eu fosse tão forte quanto você/ Eu te desprezaria e viveria no espaço/ Ou talvez então eu te amasse/ Ai que saudades me dá/ Da vida que eu nunca tive', e assinou: A.C.J.?

Quero analisar com você a letra da bela canção de Tom para a sua musa Lígia. Veja que ela é toda feita de negativas: Eu nunca, não, não sei...etc. Mas é puro fingimento artístico. Ele está fingindo dizer uma coisa para dizer outra. Está dizendo o contrário do que pensa e sente. Conhecendo a história do amor platônico que ele experimentou por Lígia, que era, em verdade, esposa de Fernando Sabino, o conhecido autor de Encontro Marcado, o meu caríssimo leitor já percebeu que Jobim faz um despistamento na letra da música, por meio do uso magistral da figura de linguagem chamada de ironia. Não devo escrever mais por hoje, pois o espanto que a história de Lígia lhe deve ter provocado já basta para este meu texto dar-se por findo. Até a próxima.


 


 

 

 

 

 

 

Comente este post

Eu me indigno

Publicado em 09/04/2014 11:06

Se me perguntarem o que mais me indigna na convivência com as pessoas, direi que é a falsidade. Garanto que você também, meu leitor, indigna-se com os comportamentos falsos de algumas pessoas. O crescimento numérico da humanidade traz junto o aumento da falsidade. É um verdadeiro aprendizado conviver com gente falsa e conseguir sair ileso. Eu me indigno mais com os falsos do que com os corruptos, porque estes, mais dias menos dias, acabam sendo descobertos. Aqueles, não: são capazes de enganar a si mesmos. Para ficar de bem com a vida, é imprescindível saber livrar-se dos falsos. Já para ficar de bem com a língua, é bom saber pronunciar e conjugar o verbo pronominal indignar-se. Muitas pessoas, até mesmo as que se consideram letradas, não sabem pronunciar verbos como: indignar, dignar, resignar, designar. Dizem elas: [indiguino], [diguino], [resiguino], [desiguino]. Você que lê agora o que escrevo, vai recordar comigo que esses verbos pronunciam-se com acento no ?i? das sílabas ?di? e ?si?. É como se tivesse de escrever assim: eu me ?indíguino?, ?eu ?desíguino?. Mas a escrita é sem acento e sem o ?u?. Tais verbos assim se conjugam como indignar-se no Presente do Indicativo: eu me indigno, tu te indignas, ele se indigna, nós nos indignamos, vós vos indignais, eles se indignam. Nas pessoas, ?eu?, ?tu? e ?ele?, com acento tônico, sem a marca de grafia, na letra ?i? das sílabas ?di? e ?si?. Conjugando, pronunciando com acerto o verbo indignar, e, sobretudo, praticando a ação que ele designa, tenho certeza de que afastaremos de nós as pessoas falsas, sem precisar de dar ?beijinho no ombro?. Ah! que lembrança ruim! De lembranças ruins passo para lembranças boas e dou uma repassada pelas Gramáticas Históricas da Língua Portuguesa e pelo Vocabulário Ortográfico, edições de 1961 e 2012, para rever alguns femininos meio estranhos ou de pouco uso. Gosto de fazer esse exercício, para agradar meus leitores e tornar a língua portuguesa mais amada e menos temida. Um feminino pouco usado, mas à disposição dos falantes de língua portuguesa é ?hóspeda?. Já existia desde o século XIII. Por volta de 1400, já há registro dele na Crônica de D.Pedro I, da autoria de Fernão Lopes. Quer uma sugestão? Comece a usá-lo, que ele se espalha. As mulheres merecem um feminino só para si, quando bem hospedadas por um homem. Veja como é interessante o campo da língua portuguesa. Para as mulheres que fazem poesia, existe o feminino poetisa. Não se sabe como surgiu a ideia de que seria pejorativo chamar de poetisa a mulher que tem o dom da poesia. Como consequência, as nossas grandes poetisas passaram a se atribuir o substantivo poeta e a rejeitar poetisa. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e os dicionários não registram o feminino poeta, apenas agasalham o uso de poeta como substantivo masculino. Além de poetisa, como feminino de poeta, há também os femininos papisa, profetisa, diaconisa, e episcopisa. Este designa o feminino de bispo. Mas aí criou-se bispa e rejeitou-se episcopisa. Talvez, tenham razão, já que as antigas episcopisas não dispunham de certas prerrogativas próprias de um bispo. Sobre palavras que terminam em ?-nte?, como estudante, escrevente, ajudante, presidente, vou à Gramática Histórica do professor Ismael de Lima Coutinho, edição de 1974, e encontro o seguinte trecho: ?-ante,-ente,-inte < vogal temática dos verbos mais o sufixo ?nte do particípio presente. Exprimem agente, qualidade ou estado, servindo para formar adjetivos e substantivos: tratante, delinquente, pedinte, ouvinte,? etc. Esse sufixo serve tanto para o masculino quanto para o feminino. Entretanto, já existia no século XIII, o feminino parenta; governanta surgiu em 1881 e presidenta data de 1872. Esse feminino fez-se presente na peça As Sabichonas, que é uma tradução de Antônio Feliciano de Castilho para Des femmes savantes, de Moliére. Veja só alguns diálogos: ?Mil graças, presidenta.?, Página 139; na página 153: ?À nossa presidenta, e às minhas sócias, peço se dignem perdoar-me o intempestivo excesso.? Assim, não é mesmo novidade do século XXI, o feminino presidenta. Surpreendente também, é você saber, meu caro leitor, que existe um feminino para ?cantor?, registrado em dicionários e, principalmente, no nosso guia de ortografia que é o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Trata-se do feminino cantatriz, com o mesmo sufixo ?triz?, presente nos femininos ?embaixatriz? e ?imperatriz?. Como era difícil fazer-se o feminino para palavras em ?or?, criou-se o feminino cantatriz. Sabe que eu fiquei pensando: uma forma de caracterizar as más cantoras, e elas são muitas, seria chamá-las de cantatrizes.

Até a próxima.

 

 

 

 

 

 

Comente este post

Cuidados com sinônimos

Publicado em 29/03/2014 11:22

Os assuntos para uma crônica gramático-literária são inesgotáveis e, a quem queira ou tente escrever sobre a língua que fala, esse fato permite que essa tarefa se torne palpitante. Gosto muito de dicionários de sinônimos e consulto-os com assiduidade, uma vez que que vivo do que falo, escrevo, ouço e leio. Gostaria de poder afirmar que a humanidade inteira também pratica essas quatro atividades, mas é sabido que a maior parte vive mesmo do que fala e ouve, mais até do que fala. Quanto a ler e escrever, infelizmente, ainda não são muito praticados no mundo.O conhecimento dos sinônimos é um recurso poderoso com que o falante de uma língua pode contar para tornar a sua fala mais apropriada, adequada, acertada, atraente, contundente e convincente. A série de adjetivos que empreguei para a fala foi com o propósito de mostrar que o vocabulário ativo de uma pessoa é a sua marca pessoal na comunicação que faz nos diferentes momentos de sua existência. Está provado que quanto mais sinônimos para uma palavra uma pessoa conhecer, mais facilidade ela terá para interpretar o dizer das outras pessoas e para construir o seu próprio discurso. Como entender o trecho que transcrevo a seguir se não se souber o sinônimo de algumas palavras-chave da organização do texto? Trata-se de uma passagem do romance de Umberto Eco intitulado ?O cemitério de Praga? e está na página 370: ?É sempre necessário ter alguém para odiar, para sentir-se justificado na própria miséria. O ódio é a verdadeira paixão primordial. O amor, sim, é uma situação anômala. Por isso, cristo foi morto: falava contra a natureza. Não se ama alguém por toda a vida; dessa esperança impossível nascem adultérios, matricídios, traições dos amigos...Ao contrário, porém, pode-se odiar alguém por toda a vida. Desde que esse alguém esteja ali, para reacender nosso ódio. O ódio aquece o coração. ?Se o leitor não souber que ?primordial? significa primitivo, básico, principal, primeiro e anômalo quer dizer, irregular, anormal, não compreenderá que o narrador do romance está afirmando que o homem não nasceu para amar, mas para odiar. Para amar, ele precisa mudar sua índole, educar seu espírito, aprender com os ensinamentos de Cristo. A reflexão é profunda e chocante para muitas pessoas e o leitor não é obrigado a concordar com ela. É um enunciado que convida a uma resposta seja de concordância, seja de discordância. O que eu quero acentuar é a força da palavra e a necessidade da leitura para a ampliação do vocabulário. Ontem, vendo um jogo pela televisão, ouvi o seguinte comentário: ?Os torcedores do São Paulo e do Corínthians assistiram impávidos à derrota de seus times.?  Como assim: impávidos? Esse adjetivo significa destemido, que não tem pavor, intrépido, e, é claro, que o ilustre especialista em futebol deveria ter usado o adjetivo ?impassíveis? que  corresponde ao estado de ânimo desses frustrados torcedores, ou seja, indiferentes à dor, aos desgostos com os seus times; imunes às paixões; serenos. Veja só a confusão por falta de domínio dos sinônimos. Como escrevo para ser útil ao meu leitor, aproveito para apresentar alguns pares de palavras que causam, em algumas oportunidades, situações de embaraço. Vamos a eles: confiscar e desapropriar: a primeira significa apoderar-se sem indenizar; a segunda: privar alguém da propriedade com indenização. Roubar e furtar: roubar é subtrair (coisa alheia móvel) para si ou para outrem, mediante grave ameaça; furtar é subtrair fraudulentamente coisa alheia móvel sem violência. Implantar e implementar: o primeiro verbo significa introduzir; inaugurar; estabelecer; o segundo, levar à prática por meio de providências concretas. Descriminar e legalizar: o significado do primeiro verbo é absolver de crime; tirar a culpa de; inocentar; o do segundo, tornar legal; dar força de lei a. Em princípio e a princípio: Em princípio quer dizer ?em tese, na teoria?; a princípio tem o sentido de ?em um primeiro momento, no começo, inicialmente?. Veja exemplos: ?Em princípio, ele era contra o aborto, dizia que por motivos religiosos. ?A princípio, vou contrariar seu pensamento.? Ao invés de, em vez de: a primeira locução significa ao contrário de; a segunda quer significar em lugar de. De encontro a e ao encontro de: ser contra é ir de encontro a; estra a favor de é ir ao encontro de; Quer exemplos? ?O carro veio de encontro ao muro de minha casa.? ?Todos nós achamos que o projeto do Marco Civil da Internet veio ao encontro dos interesses dos internautas brasileiros.? Espero que também o meu texto tenha ido ao encontro das suas expectativas, meus caríssimos leitores. Até a próxima.

Comente este post

Se eu fizer o que devo...

Publicado em 28/03/2014 10:34

Vez por outra, eu me surpreendo com a rapidez com que a língua vai-se transformando e mudando, graças à insistência com que os falantes criam formas de falar que ignoram a norma gramatical considerada padrão. Na propaganda e publicidade, é comum observar-se no texto o uso de um registro intercambiante entre o popular e o culto. Veja-se o comercial que a Fátima Bernardes protagoniza para uma empresa de produtos alimentícios. Aqui, o texto: Experimente o frango... A qualidade vai te surpreender. A gramática normativa também foi surpreendida pelo desacerto entre o verbo e o pronome oblíquo: ?Experimente? e ?te?. Explico: o verbo está na terceira pessoa do modo Imperativo: Experimente (você) o frango... Assim, a frase seguinte deveria ser: A qualidade vai surpreendê-lo. Seria a combinação do verbo ?surpreender? com o pronome ?o?, que equivale a ?você?. Como o verbo termina por ?r?, este no encontro com ?o?, transformar-se-ia em ?lo?: ?surpreendê-lo?. Caso o mais importante do texto fosse tratar o potencial consumidor por tu, o verbo deveria figurar na segunda pessoa do Imperativo: ?experimenta?. A combinação entre verbo e o pronome estaria nos padrões da gramática normativa: ?Experimenta o frango...A qualidade vai te surpreender.? Todavia, o criador do comercial optou por uma linguagem popular, sem submissão ao que prescreve a norma tratada como padrão. A pergunta que se pode fazer é: caso o produtor da propaganda tivesse optado pela escrita formal, ?Experimente o frango...A qualidade vai surpreendê-lo?, teria perdido o impacto que quer provocar? Tenho certeza de que não. A publicidade e a propaganda poderiam funcionar como veículos de propagação também do uso adequado da língua. Se escolherem usar a norma popular que o façam, mas não é recomendável que fiquem a meio caminho de uma e outra norma. A conclusão a que chego é que os textos de propaganda e publicidade procedem como políticos à cata de votos: fazem o jogo popular e populista. Tempos atrás, houve um comercial de um banco do governo com a mesma estrutura verbal: ?Vem pra ...você também.? Em lugar de ?Venha?, apareceu ?Vem?, de maior apelo popular. Para ficar de acordo com a gramática da norma culta, o texto deveria ser: ?Venha para a ...você também?. A conclusão a que se chega é a seguinte: os textos de propaganda fingem que seguem a norma da gramática prescritiva para disfarçar que seguem mesmo é a norma popular. Esse fato pode ser observado também na linguagem da televisão. Presto atenção à fala das pessoas em entrevistas e fico assustado com a confusão que se faz com o uso da língua. Em dois dias sucessivos, ouvi este uso do verbo ?fazer?: ?Se a gente não fazer o que deve no tempo certo, nunca mais vai acertar.? A manifestação é de um especialista em uso da água. Outro, também especialista, esse em assuntos penitenciários: ?Se os governos não fazer o esforço de construção de novos presídios, vamos ter cada vez mais rebeliões.? Talvez você, meu leitor, tenha ouvido uma ou ambas as frases ditas em dois telejornais. Quer dizer que o futuro do subjuntivo de ?fazer? está virando ?fazer? e desbancando o gramatical ?fizer?? Não, não é possível. Quer dizer, é possível, sim, já que são tantos os desatinos no campo da expressão linguística, que nada mais é impossível. Sou de opinião que a língua deve mesmo estar aberta a transformações para acompanhar a trajetória nada previsível dos seus falantes, mas isso não quer dizer que não deva haver respeito a um padrão mínimo de linguagem que sustente a vida social de pessoas de um mesmo país. A gramática, pejorativamente, chamada de tradicional precisa ser do domínio de todos os usuários,  para funcionar como um referencial de um padrão mínimo de adequação da linguagem da coletividade. É preciso um esforço coletivo para que a norma da língua escrita possa ser aprendida pelos falantes de todas as camadas da sociedade. O ideal é que todos os alunos tenham condições de aprender a ler e a escrever na norma considerada padrão e se tornem cidadãos capazes de se expressar tanto na norma privilegiada socialmente, quanto na norma menos formal, conforme o ambiente em que estiverem nas diferentes circunstâncias de seu ato de viver. Era o que eu queria escrever para você, hoje. Até a próxima.

 

Comente este post

Sobre farpas e felpas

Publicado em 18/03/2014 08:42

Estava pronto para escrever sobre um assunto do momento, mas diante da consulta de um leitor, mudei toda a rota do texto e vou às farpas e felpas. Pergunta-me o meu seguidor do Facebook, se existem as palavras ferpa e farpa. Como estudioso da língua devo dizer que ambas existem, já que são usadas, mas  a norma considerada padrão só aceita ?farpa?. Assisti a muitas sessões da Ação Penal 470, conhecida apenas por Mensalão, e fiquei espantado com tantas farpas atiradas pelos juízes do Supremo Tribunal Federal, uns contra os outros. Antes desse julgamento que, aliás, foi midiático, pela primeira vez, havia em torno do Tribunal Supremo uma certa aura de mistério que lhe trazia muito respeito e até veneração. Depois de tudo o que ocorreu e foi visto por milhões de pessoas, não é certo que se tenha mantido essa atitude de reverência pelo Tribunal. Acostumados que estavam as pessoas pelo tumulto que há de quando em vez em sessões de debates políticos ou outros que tais, esperava-se que entre os juízes da Suprema Corte houvesse uma atmosfera de extrema cordialidade e respeito pela opinião alheia, muitas vezes, divergente de outros colegas. As farpas, todavia, não permitiram e mostraram que havia entre eles uma divisão muito grande, quase próxima da que existe em partidos políticos. Como o meu leitor deseja saber sobre ?farpa?, vamos ao dicionário Aurélio e ver algumas acepções reservadas para esse substantivo. Mantive a numeração do dicionário, para melhor uso no texto.

 Farpa [Dev. de farpar.] Substantivo feminino.

1. Ponta metálica penetrante, em forma de ângulo agudo.3. Estilha de madeira que acidentalmente se introduz na pele ou na carne.

5. Fig. Crítica mordaz; sarcasmo.

Interessa ao meu propósito de construção textual a acepção de número 5. Foi nesse sentido que as farpas se fizeram utilizar na argumentação de muitos juízes. Quem assistiu ao julgamento, saberá do que estou tratando. Quanto sarcasmo desnecessário e imprudente se ouviu de pessoas com saber jurídico inquestionável! Se o leitor me perguntar se farpa poderia ter como sinônimo ?ferpa?, direi que não. Na expressão popular, essa palavra reina soberana. Quanta vez se ouve de bocas até letradas a frase: ?Entrou uma ferpa no meu dedo?. Como é que se pode explicar a origem de ?ferpa?, em lugar de ?farpa?? Foi da analogia e da semelhança fonética entre farpa e felpa que surgiu ?ferpa?. Nos dicionários, há o registro de farpa e felpa como sinônimos.Vejamos o que o dicionário Houaiss agasalha para as acepções de ?felpa?:1    Rubrica: indústria têxtil.

Tecido felpudo de lã ou algodão, à semelhança da pelagem animal 2Derivação: por metonímia. Pêlo levantado em tecidos lanosos; felpo. 3   Derivação: por extensão de sentido.penugem de aves e animais 5Derivação: por analogia.buço em jovem rapaz

6          Uso: informal.dinheiro 7 Regionalismo: Brasil. Uso: informal.

pequena lasca ou farpa que penetra acidentalmente na pele ou na carne

8          Regionalismo: Ceará. Uso: informal. Laia, tipo Ex.: são todos da mesma f.

9          Regionalismo: Portugal. Erva rasteira fina e emaranhada ª felpas

n substantivo feminino plural Regionalismo: Brasil. Uso: informal.10 notas de dinheiro

Poupo-lhe, leitor, o tempo de ir ao dicionário e faço meu texto ganhar mais corpo e significado com o registro de tantas riquezas no uso da língua. Na acepção de número 7, do dicionário Houaiss (lê-se Huais), encontra-se a possibilidade de tratar ?felpa? como sinônimo de ?farpa?. Só não há a aceitação de ?ferpa?. O melhor, na minha opinião, é que se use ?farpa? para ?crítica mordaz, sarcasmo? e se reserve ?felpa? para ?pêlo levantado em tecidos lanosos?. Imagine uma frase como esta: ?Suas Excelências, os juízes do STF, recobertos por suas capas carregadas de felpas, não vacilaram, muitas vezes, no mau uso de farpas contra seus interlocutores.? Poderia você concluir que se trata de uma frase felpuda e farpada, e não estaria em má companhia nesse uso dos dois adjetivos, já que encontraria apoio em muitos dos nossos consagrados escritores. E pois não é que observei o bom uso que fiz do adjetivo ?mau? nessa frase? Muitas pessoas têm dúvida entre ?mal? e ?mau?. O primeiro é advérbio e, assim, é invariável; o segundo é adjetivo e, como tal, concorda com o substantivo. Veja só esta frase: ?Está em maus lençóis ,quem mal procede em matéria de respeito ao uso da língua e ao bem estar das pessoas.? E, para terminar, dou um viva a Batatais, por mais um  aniversário. Até a próxima.

 

Comente este post

Enigmas de Grande Sertão: veredas

Publicado em 13/03/2014 08:12

João Guimarães Rosa, autor de Grande Sertão: veredas, foi um homem muito supersticioso, os amigos diziam isso dele. Seu amigo particular, David de Carvalho, morador de Itaguara, revela esse fato, na revista, bel? Contos, de Itaúna, MG. de 1973, página 9:  ?Guimarães Rosa parece supersticioso. Não subestima qualquer crença. Acredita na força da lua. Respeita normalmente os curandeiros, feiticeiros, e as crenças na umbanda, na quimbanda, no kardecismo, talvez acreditando que todas as crenças são coordenadas que convergem para o mesmo pólo.? Mais à frente, na mesma revista, o amigo David Carvalho, relata: ?Em casa do Dr. A. A. de Lima Coutinho, Dona Nair observa que a falta de dois botões, na camisa incomoda João Guimarães Rosa. Ela prontifica-se então em pregar os botões, mas ele recusa o oferecimento. Por sua vez o Dr. A. A. de Lima Coutinho insiste com ele:?Deixe de bobagem! Aqui você está em casa e a Nair vai pregar os botões em sua camisa. Ele reluta, mas, diante da insistência, concorda, impondo-lhes uma condição: que antes Dona Nair repita três vezes: ?Coso a roupa e não coso o corpo, coso um molambo que está roto...? Dona Nair sujeita-se à condição, repete três vezes os dizeres e prega os dois botões na camisa da visita.?

No conto? São Marcos?, do livro Sagarana (1971.p.227), há um trecho que assim diz: ?Bem, ainda na data do que vai vir, e já eu de chapéu posto, Sá Nhá Rita Preta minha cozinheira, enquanto me costurava um rasgado na manga do paletó (?Coso a roupa e não coso o corpo, coso um molambo que está roto...?), recomendou-me que não enjerizasse o Mangolô.?

Essa pluralidade religiosa que impregna a obra de Guimarães Rosa reflete uma característica muito pessoal. Conforme expressão do próprio escritor: (...) ?sou profundamente, essencialmente religioso, ainda que fora do rótulo estrito e das fileiras de qualquer confissão ou seita; antes, talvez, como o Riobaldo do G.S.:V., pertença eu a todas. E especulativo, demais. Daí todas as minhas constantes preocupações religiosas, metafísicas, embeberem os meus livros. Talvez meio existencialista-cristão (alguns me classificam assim), meio neoplatônico (outros me carimbam disto) e sempre impregnado de hinduísmo (conforme terceiros). Os livros são como eu sou.?

?Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco.O senhor, eu,nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral, isso é que é a salvação-da-alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio...? (ROSA, 1967,p.15-16).

Em o Grande sertão: veredas, ele dá forma artística ao sincretismo religioso, ao fazer de Riobaldo, um herói que se vale de todas as religiões, crenças e crendices populares para vencer o inimigo Hermógenes e, por extensão o demônio. No aspecto místico da obra, a palavra final é do próprio Guimarães Rosa: ?Todos os meus livros são simples tentativas de rodear e devassar um pouquinho o mistério cósmico, esta coisa movente, impossível, perturbante, rebelde a qualquer lógica, que é a chamada ?realidade?, que é a gente mesmo, o mundo, a vida?. Para ele, ?o idioma é a única porta para o infinito?. Sobre o lado mágico da existência, dizia: ?Minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos... Sou um contemplativo fascinado pelo Grande Mistério?. Sobre sua obra-prima, confessou no prefácio Sobre a escova e a dúvida, em Tutaméia: ?Quanto ao Grande sertão: veredas, forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer que foi ditado, sustentado e protegido ? por forças ou corrente muito estranhas?.

A professora Sílvia Meneses-Leroy, autora do ensaio A Cabala do sertão em Grande sertão: veredas enxerga elementos cabalísticos na obra do autor. Há ainda um ensaio intitulado Guimarães Rosa: O alquimista do coração do médico e psicólogo José Maria Martins, com relação à Alquimia, vai na mesma direção. Permito-me escrever que o romance Grande Sertão: veredas continua sendo um desafio para os seus leitores e mais ainda para os estudiosos dessa primorosa e enigmática narrativa. Até a próxima

 

Comente este post

Letra de música e poesia

Publicado em 02/03/2014 08:49

Não há propriamente um acordo sobre a convivência entre poesia e letra de música. Há aqueles estudiosos de literatura e críticos de música que consideram a possibilidade de haver poesia na música popular. Também existem os que negam qualquer possibilidade de a poesia poder estar nas letras das canções populares. Quanto a mim, considero que o gênero letra de música pode ser também um território poético. O predomínio da poesia em uma letra de música dependerá do talento e da dedicação do compositor ao fazer literário e musical. Uma letra de música, quando lida separadamente da melodia,  revelará sua riqueza ou indigência literária. Nos domínios da Música Popular Brasileira (MPB) de hoje, não há o primado da poesia sobre o ritmo, muito pelo contrário, a preocupação está apenas no ritmo e barulho que se pode fazer. A letra é complemento tão somente. Não é para dar o que pensar, é para dar o que fazer com o corpo.

Antes de uma novela de televisão ir para o ar, havia, há tempos, uma grande preocupação com a trilha sonora para embalar e enriquecer a trama narrativa. Atualmente, busca-se apenas o sucesso fácil e a vendagem de CD. Tenho- me concentrado na busca de boas letras de música nas trilhas das diferentes novelas das redes de televisão brasileiras e, raramente, sinto poesia nas canções. Sim, poesia é para sentir, deleitar, extasiar, embriagar.

Analisei a seleção musical da novela Em família, da TV. Globo e encontrei poucas canções com letras poéticas. É bom que se saiba que escrever em versos não quer dizer que se esteja fazendo poesia. Poesia é beleza, é convulsão, é arte, é trabalho original com as palavras, é encantamento. Convido você, meu leitor, a acompanhar-me na análise que faço da letra da música ?Recomeço?,  de Maria Gadu e Totonho Villeroy, que está na trilha sonora da novela.

Recomeço


Você sumiu, desarvorei

Eu não pensei levar um nó

Te destratar não destratei

Eu sempre dei o meu melhor

E não sei como aconteceu

Pensava eu ser teu herói

Só essa dor não me esqueceu

Foi me apertando e como dói

 

De alguma coisa isso valeu

Ficou mais claro quem sou eu

Brilhou o sol onde foi breu

E a minha vida começou

E quando viu que eu tava bem

Foi de meu bem que me chamou

Mas pra você nem fica bem

Pedir perdão, dizer que errou

 

Não diz que sim, não diz que não

Não diz que deu e nem constrói

Não deu valor ao que foi seu

Se arrependeu e isso lhe rói


 

Por trás do discurso do eu-lírico está a defesa da ideia de que, quando alguém é abandonado pelo ser amado, não deve aceitar o pedido de volta. Na primeira estrofe, o eu-lírico confessa que ficou desarvorado com a separação amorosa. O uso do verbo desarvorar é a único traço de originalidade dessa estrofe. Desarvorar significa ficar abatido, caído e sem prumo, como uma árvore que desaba. Quem perde um amor pode desarvorar-se. É o caso do eu dessa música. Na segunda estrofe, ele vai dizer que não sabe como aconteceu, já que ele se sentia um verdadeiro herói para o ser que amava. Esse é o perigo: sentir-se importante e indispensável, sem desconfiar do pouco significado que tem para o outro. Recuperado do tombo, ele vem e diz que o drama da separação valeu para ele descobrir-se a si mesmo e fazer a sua vida recomeçar. Foi, aí que a pessoa que ele amava arrependeu-se de o ter largado e quis voltar mais doce do que antes, chamando-o de meu bem. O desprezado faz-se de vitorioso, ironiza a situação e diz que não fica bem para o ser amado que o havia abandonado pedir perdão. Ele não vai perdoar. A conclusão a que se chega é que não havia amor entre os dois, pois, do contrário, não haveria separação e, se houvesse, haveria reconciliação. A letra é pobre de poesia, as repetições são cansativas e a mensagem é que a separação mostrou que não havia mesmo amor entre os dois. Essa música ?Recomeço? salva-se apenas pela melodia e pela interpretação dos dois compositores. Apenas isso. Até a pr

Comente este post

Riscos da vida e da língua

Publicado em 23/02/2014 08:58

Estar de bem com a língua ajuda muito a estar de bem com a vida. A língua vive e é viva como a vida. Por isso é que a língua inova, muda, transforma-se, renova-se a cada instante para não se arriscar a morrer e para não arriscar a vida. Toco em dois aspectos do uso da língua para me referir também à vida. Há risco de vida ou risco de morte? pergunta-me o amigo. Existem os dois: há aqueles que arriscam a vida para salvar alguém a quem amam finamente. Há também aqueles que se arriscam a morrer em busca de uma conquista. Risco de vida e risco de morte estão tão próximos e se assemelham que a língua e a vida os absorvem e absolvem. A vida está mesmo sujeita a riscos e Guimarães Rosa vem confirmar: ?Viver é muito perigoso?. Há o risco de perdas e diz o outro que temos de correr atrás do prejuízo. E vem  a língua e diz: mas o termo ?atrás? é um advérbio de lugar. Como correr atrás do prejuízo, então? E a vida garante: é preciso esforço para ir em busca de recuperar o que se perdeu. Assim, ?atrás? já não se liga a espaço físico, mas a esforço da mente. Quem não se esforça para ir em busca de reverter o prejuízo e transformá-lo em ganho, arrisca-se a não estar de bem com a vida. A língua, conseguintemente, como diria Machado de Assis aceita a inovação e a expressão se consagra: ?Se há prejuízo, corramos atrás dele?. Nada de mais e não é demais repetir que a língua é viva e acompanha os destinos do homem que a usa. Está sempre pronta a renovar-se e tornar-se o mais legítimo instrumento de expressão do homem sobre a terra. Não fosse assim, como ?folia? significa hoje ?Carnaval? e não mais ?loucura? como no século XVI? ?Amigo?, no português arcaico, significava ?namorado?, hoje se se disser isso, pode significar ofensa para a maioria das pessoas, mas a amizade sincera é muito próxima disso, não é não? Veja o que diz o Guimarães Rosa: p. 139 ? ?Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda, que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual ao igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou ? amigo ? é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.? (p. 139, de Grande sertão: veredas).

Já inventaram ?namorido?, sei lá se um dia não se cria o ?namorigo?. ?A amizade sincera é um santo remédio, um abrigo seguro? diz o primeiro verso da imortal canção de Dominguinhos e Renato Teixeira. A palavra ?abrigo? aí me leva a lembrar que ela vem do verbo ?aprire? do latim com o significado de ?estar exposto ao sol?. Veja que mudança de sentido! No território da língua, os fatos se passam assim: o que hoje é errado, ontem foi o certo. Quem diria que Camões já escreveu ?frecha? e ?ingrês? (no lugar de flecha e inglês?). Se o homem da zona rural disser assim, estará roçando na língua de Camões, como canta o Caetano Veloso.

Não se espante com as inovações da língua da internet. Quando caio na rede do Facebook, faço um contraponto com a linguagem solta, descontraída e inventiva dos mais jovens. Mostro o modo de falar e escrever da norma considerada culta, mas sem querer dizer que no ambiente da internete (posso escrever assim, mas não é preciso), eles devam escrever segundo os padrões da gramática normativa. A linguagem, hoje chamada de ?internetês? só vale para o ambiente da tecnologia digital. O sistema da língua não se altera com todas essas inovações, o que se renova é a norma. Essa é a prova da riqueza do sistema da língua. Se alguém pede uma cerveja geladinha, não está usando o diminutivo para diminuir, mas para dar a ele uma dimensão aumentativa: uma geladinha no final de semana é a cerveja no máximo do que o gelo pode fazer por cada um de nós que queremos estar sempre de bem com a língua e de bem com a vida. Até a próxima.

 

Comente este post

Machado de Assis e a Presidenta

Publicado em 15/02/2014 11:44

O feminino presidenta, como tratamento para a mais alta mandatária do nosso país, ainda não foi aceito pela maioria dos brasileiros. Muitas explicações para essa rejeição podem ser dadas, mas a principal parece ser mesmo a do desconhecimento de que este feminino já existe há muito tempo entre nós. Assim que Dilma Rousseff foi eleita, a mídia impressa e falada apressou-se em usar a presidente Dilma, mesmo já sabendo que ela havia escolhido o feminino presidenta. Em crônica aqui publicada por mim, no início de novembro de 2010, eu escrevi: ?Logo após ser proclamado o resultado da eleição para presidente da República Federativa do Brasil, no quatriênio 2011- 2014, surgiu uma dúvida que tomou conta das redações dos jornais e revistas semanais: a presidenta Dilma Rousseff ou a presidente Dilma Rousseff ? É sobre essa dúvida que eu pretendo escrever essa crônica.

Uma das grandes características de uma língua é que ela muda e varia. Nada na língua é fixo ou imutável por todo o tempo e em todos os lugares. Não se dizia a presidenta, pelo fato de jamais imaginar-se que uma mulher pudesse chegar à Presidência do país. Machista como é a sociedade, transportou-se para a língua esse machismo. Sim, leitora, a língua sempre foi muito machista. Desse modo, dizer a presidente parece ser mais adequado para muitas pessoas.

As gramáticas apontam que o substantivo presidente é comum de dois gêneros, assim como: artista, jovem, estudante, cliente, amante. O artigo que se usa com esses substantivos dependerá do sexo a que se queira designar. Temos assim: o artista, a artista; o jovem, a jovem; a estudante, o estudante; o cliente, a cliente; o amante, a amante; o presidente, a presidente.

O gramático Evanildo Bechara, na 37ª edição de sua Moderna Gramática Portuguesa, à página 134, no item, O gênero nas profissões, assim se expressa: ?A presença, cada vez mais justamente acentuada, da mulher nas atividades profissionais que até bem pouco eram exclusivas ou quase exclusivas do homem tem exigido que as línguas, não só o português, adaptem seu sistema gramatical a estas novas realidades.? Basta esse ensinamento do ilustre gramático, para refletirmos que não se registrava a forma a presidenta, porque as mulheres ainda estavam barradas socialmente da ocupação de cargos de presidência, fosse nas grandes empresas, fosse, e principalmente, da presidência de um país. Foi o que escrevi em 2010.

Relendo Machado de Assis, há poucos dias, veja só, meu caro leitor, minha querida leitora, descobri que ele já havia usado o feminino presidenta em 1881, na primeira edição de seu genial romance, Memórias Póstumas de Brás Cubas. No capítulo LXXX, De Secretário, Brás Cubas diz para si mesmo, logo após ser convidado por Lobo Neves para ser seu secretário:

?-- Você é rico, continuou ele, não precisa de um magro ordenado; mas se quisesse obsequiar-me, ia de secretário comigo.

Meu espírito deu um salto para trás, como se descobrisse uma serpente deante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente, a ver se lhe apanhava algum pensamento oculto... Nem sombra disso; o olhar vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, não violenta, uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e não tive ânimo de olhar para Virgília; senti por cima da página o olhar dela, que me pedia também a mesma cousa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta (grifo meu), um secretário, era resolver as cousas de um modo administrativo. ?A citação que faço de Machado de Assis, leva-me a reafirmar os benefícios da leitura de um bom romance. Além de colaborar com o leitor na ampliação de sua capacidade de perceber os significados da vida e do ato responsável de existir, a boa literatura ajuda-o a descobrir e usar melhor os recursos e as riquezas da língua.Quando alguém lhe disser que o feminino presidenta não existe, recorra a Machado de Assis e convide o seu interlocutor a ler os romances do nosso magistral romancista. Até a próxima.

Comente este post   |   Ver comentários enviados

Dois elegantes tempos verbais

Publicado em 12/02/2014 08:23

Existem dois tempos verbais que eu considero elegantes, quando bem empregados estilisticamente: o mais- que- perfeito e o futuro do subjuntivo. Acompanhe comigo estes exemplos poéticos:

 

Sete anos de pastor

Sete anos de pastor Jacó servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

mas não servia ao pai, servia a ela,

e a ela só por prêmio pretendia.

 

Os dias, na esperança de um só dia,

passava, contentando-se com vê-la;

porém o pai, usando de cautela,

em lugar de Raquel lhe dava Lia.

 

?Vendo o triste pastor que com enganos

lhe fora assim negada a sua pastora,

como se a não tivera merecida;

 

começa de servir outros sete anos,

dizendo: Mais servira, se não fora

para tão longo amor tão curta a vida.?

(Luíz Vaz de Camões -1524-1580)

 

Quando, Lídia, Vier o Nosso Outono

 

Quando, Lídia, vier o nosso outono

Com o inverno que há nele, reservemos

Um pensamento, não para a futura

Primavera, que é de outrem,

Nem para o estio, de quem somos mortos,

Senão para o que fica do que passa

O amarelo atual que as folhas vivem

E as torna diferentes.

(Ricardo Reis, Heterónimo de Fernando Pessoa, in. "Odes")

 

Lemos um soneto de Camões e uma ode de Ricardo Reis, nome poético diferente de Fernando Pessoa. No soneto camoniano, que narra tão belamente a história bíblica de Jacó, assistimos a um homem apaixonado por uma e tendo de servir a outra das filhas de Labão, e, ao final, confessar liricamente que serviria mais sete anos se fosse necessário para ter o amor de sua Raquel. Essa confissão se dá nos dois últimos tercetos do poema e o tempo verbal, magistralmente usado por Camões, foi o mais-que-perfeito: ?fora?, ?tivera?,?servira?, ? fora?.Quiséssemos reescrever estilisticamente de outra forma, teríamos: ?Vendo o triste pastor que com enganos/lhe havia sido  assim negada a sua pastora,/como se a não tivesse merecido;/começa de servir outros sete anos,/dizendo: Mais serviria, se não fosse/para tão longo amor tão curta a vida.?

No segundo poema, o verso inicial tem o futuro do subjuntivo como tempo verbal decisivo para o que se quer expressar liricamente: Lídia, ?quando vier? o outono de nossa vida, ou seja, a nossa velhice, com todo o inverno que ela contém, não adianta olhar a Primavera que virá, pois ela é de outrem; é bom que saibamos contemplar e aceitar resignadamente o momento que passa, isto é, o amarelo atual que as folhas vivem e as torna diferentes.

Vamos ao uso camoniano do mais-que-perfeito: o poeta emprega esse tempo verbal em lugar de outro, para dar mais incisivamente a ideia de um passado mais acabado de que qualquer outro passado ou de um futuro condicionado ao que quer que fosse: ?serviria?, ?haveria de servir?, etc., ou de um imperfeito tempo: ?tivesse sido?. Não foi apenas a necessidade de construção sintática ou de acerto métrico, mas, sim, o efeito estilístico e semântico o norteador da opção do grande vate. É bom recordar que Caetano Veloso, na bonita canção ?O Estrangeiro?, recorreu ao mais-que- perfeito , como se fora Camões: "E eu? Menos a conhecera mais a amara?". Em um exercício de reescrita que quiséssemos fazer, teríamos: E eu? Se menos a houvesse conhecido, mais a teria amado? Questão de opção estilística e semântica, já que o mais-que-perfeito, mais perfeição traz ao uso do passado. Na ode de Fernando Pessoa, reinventado em Ricardo Reis, o futuro do subjuntivo verbo ?vir? com a conjunção temporal ?quando?, logo no primeiro verso, acentua a ideia de futuro, mas deixando no ar a possibilidade da presença da conjunção condicional ?se?, ou de uma partícula como ?só? e ?apenas?.

Se vier, Lídia, o nosso outono, ou então: Apenas quando, Lídia, vier o nosso outono. Tudo isso faz desses dois tempos verbais riquezas a serem exploradas não apenas na arte, mas na língua viva de todos os momentos do acontecimento miraculoso do nosso existir. Até a próxima.

 

 

 

Comente este post

Queijo Minas de Aiuruoca

Publicado em 27/01/2014 10:01

Neste último sábado de janeiro, do quentíssimo ano da graça de 2014, trago-lhe, meu leitor, um manjar literário. Você se lembra de que o último texto que publiquei aqui, em O Jornal, tratava da minissérie Amores Roubados. Pois naquela transposição franciscana de um romance para a televisão, pontificou a jovem e talentosa atriz, Isis Valverde, que veio lá de Aiuruoca, bucólica cidade montanhosa de Minas Gerais.Lá nasceu e viveu o poeta Dantas Motta, cujo centenário comemoramos em 2013.Grande figura das letras mineiras e brasileiras, embora não tão conhecido e lido, como merece, foi homenageado por Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade , Manuel Bandeira e outros talentos literários nossos.Este texto que acabo de produzir vai trazê-lo para você, com apoio da pena de Manuel Bandeira, imagine que grandeza.

?Numa de minhas últimas crônicas, fiz breve referência à soberba epístola em que Dantas Motta pôs-se a falar aluvialmente do chamado rio da unidade nacional, apartado dos demais que fluviam este país, para ser santo. E não me contive que não lembrasse ao poeta que nunca mais me mandara ele um queijo de sua terra e do nome de sua terra. Pois não lhes conto nada: dias depois, recebo de Aiuruoca um jacazinho com quatro queijos-de-minas e um maço de goiabada cascão. Tudo acompanhado destas instruções tão saborosas quanto o manjar de boca:

?Olhe que é um queijo tão digno que se aborrece na geladeira. Nela, perde o gosto. O que ele quer é tábua numa cozinha sem forro e acima do fogão. Mas você não tem, no seu apartamento, nem uma coisa nem outra. Nem mesmo fumaça. Acredito, assim, que, quanto mais depressa comida, mais você lhe diminui a tristeza. Torne-lhe, pois, breve o exílio. Pena que não lhe possa mandar também angu quente. Isso com queijo mineiro é admirável. Mas o angu, como o queijo mineiro, a única coisa que não requer é civilização. Fubá do Rio não dá liga. Logo, o angu, partido disciplinadamente, é coisa mais indigna que já vi. Vai também um maço de goiabada tipo cascão. Um pouco impraticável principalmente para quem possui dentaduras duplas (?ainda não sou bem velho para merecer-vos?). Vai envolta decentemente em palha fervida e amarrada com embira limpa. Dou-lhe apenas um trabalho: o de mandar buscá-los na Rua Acre, 34, às treze horas de quarta-feira, no momento em que aí chega o caminhão-transporte daqui. Convém buscar logo, para evitar o calor carioca, com o que não se dá bem o queijo, feito com muito carinho em cozinha limpa de sítio de gente limpa e sem a interferência indigna de qualquer maquinaria. ?

Dantas, meu grande poeta, Dantas, meu velho, sabe que considerei também coisa indigna mandar mãos mercenárias buscar tão raras iguarias: fui buscá-las eu mesmo. E desde aquela quarta-feira tem sido aqui neste apartamento do Castelo e suas sucursais uma formidável, gargantuesca e pantagruelesca orgia de queijo-de-minas e goiabada cascão!E, honra a ambos, ninguém indigestou! Sabe, Dantas, que não engulo queijo-de-minas que não me lembre do nosso querido Mário, que Deus tenha. O criador de Macunaíma era brasileiro como ninguém. Menos nisto: não gostava de queijo-de-minas! ?Começa que não é queijo?, bradou-me indignado certa vez que ousei enfrentar a erudição de um amigo no assunto. ? ?Queijo ou não queijo ? com goiabada de cascão é sublime!?, respondi. Dantas, meu velho, agradeço-te tanta sublimidade com palavras do teu mais recente poema: Graça te seja dada, e paz da parte do Senhor, o Qual te assista, assim seja.? Fico com receio de comentar essa maravilha de peça artística de Bandeira e Dantas Motta e cometer o pecado da intromissão indevida. Lembro-me de haver anotado que Mário de Andrade, quando leu poemas e contos de Dantas Motta, exclamou: ?Carece ler?. Na crônica bandeiriana é tarefa das mais difíceis avaliar se o sabor maior está na reverência do poeta de A Cinza das Horas em respeito do escrito de Dantas Motta ou no próprio texto do cronista de Aiuruoca. De minha parte, aqui do meu canto modesto de leitor apaixonado pelas coisas da vida e das letras, manifesto o meu encanto pelo gesto e pela escrita de ambos. O motivo foi o Queijo Minas de Aiuruoca, o gesto foi a mostra da amizade plena e respeito de dois artistas da palavra e o produto foi um texto capaz de provocar o deleite e o êxtase de todos os apaixonados pela boa e bela escrita. Até a próxima.

 

 

Comente este post

Amores Roubados

Publicado em 27/01/2014 10:00

Terminei 2013 com a seguinte mensagem no Facebook:

Hoje é o último dia do ano e, por isso mesmo, o mais importante. Não é mais uma promessa, é uma certeza: você viu, viveu e venceu 2013. Celebre todos os seus atos e gestos neste dia e, assim, ficará mais desperto e esperto para viver o belo jogo da vida, em 2014. Seja feliz, sejamos felizes juntos, vivamos com muita paixão, do primeiro ao último dia do novo ano. Essa postagem foi curtida por cento e dezenove pessoas e comentada por dezenove.

No dia seguinte, abertura do ano, postei em versos:

Dormimos 2013, acordamos 2014

Sábia ficção humana para driblar

a inexorabilidade do tempo.

O segredo que nos convém

É o tempo que o tempo tem.

Na postagem seguinte, escrevi frases de Rubem Braga e fiz uma pesquisa:

Curta, meu amigo, minha amiga, o cronista Rubem Braga e experimente momentos de encantamento e reflexão nestes enunciados que selecionei para você:

1-?Isso eu gostaria de lhe dizer, minha amiga, com a autoridade triste do mais vivido e mais sofrido: amar é um ato de paciência e de humildade; é uma longa devoção.?

2-?Coragem, a Terra está rodando, vosso mal terá cura; e se não tiver, refleti que no fim todos passam e tudo passa: o fim é um grande sossego e um imenso perdão.?

Pesquisa: de qual deles você gostou mais? Cinquenta pessoas curtiram e a pesquisa registrou o seguinte quadro:

Vinte pessoas optaram pela 2ª.;sete optaram pela 1ª; Houve seis empates.

No dia do leitor, 7 de janeiro, minha mensagem foi simples e direta: Quem lê vive melhor, fica mais esperto no jogo da vida. A mensagem foi curtida por sessenta e três pessoas.

No dia 11 de janeiro, Rede Globo já estava exibindo a minissérie Amores Roubados e uma leitora pediu-me que postasse para ela o poema que havia sido declamado pelo personagem Leandro Dantas para a amante Isabel Favais. Atendi prontamente e transcrevi os versos do poeta pernambucano, Joaquim Cardozo:

Poema
Eu não quero o teu corpo
Eu não quero a tua alma,
Eu deixarei intato o teu ser a tua pessoa inviolável
Eu quero apenas uma parte neste prazer
A parte que não te pertence.

Os autores da adaptação para a TV do livro de Carneiro Vilela, A Emparedada da Rua Nova, foram muito originais em recuperar para o público leitor a poesia deste grande poeta. Lembro-me da haver lido e mostrado em aula esta declaração valiosa de Carlos Drummond de Andrade: "Se me perguntassem: o que distingue o grande poeta? Eu responderia: Ser capaz de fazer um poema inesquecível. O poema que adere à nossa vida de sentimento e de reflexão, tornando-se coisa nossa pelo uso. Para mim, Joaquim Cardozo, entre os muitos títulos de criador, se destaca por haver escrito o longo e sustentado poema A Nuvem Carolina que é uma das minhas companheiras silenciosas da vida." Mais não preciso dizer depois do que Drummond pontificou sobre a obra de Joaquim Cardozo.

Sobre Amores Roubados tenho de dizer que fazia muito tempo que eu não me empolgava com a transposição de uma obra literária para a linguagem da TV como estou-me empolgando com essa minissérie. George Moura fez um trabalho belíssimo, atestando primeiramente que é um grande leitor de romances e depois que conhece muito de cinema. O autor do romance naturalista, A Emparedada da Rua Nova, é o pernambucano Joaquim Maria Carneiro Vilela (1846-1913), que publicou em jornal os capítulos do romance até 1912.Em livro, foram cerca de 500 páginas, relançado agora na 3ª edição. A trama está dividida em três partes: 1ª - O Cadáver de Suaçuna, que narra o aparecimento de um cadáver na cidade de Jaboatão no ano de 1864, no Engenho Suaçuna. O desvendamento do misterioso caso do cadáver traz à cena o conturbado relacionamento familiar dos Favais: Jaime, o rico comerciante português, a esposa Josefina, a filha Clotilde e o sobrinho de Jaime, o caixeiro João Paulo. 2ª- O Segredo de Família é a segunda parte e relata o romance de Josefina, a esposa de Jaime, com o aventureiro  Leandro Dantas.Este mantém também um envolvimento amoroso com  Celeste Cavalcanti, esposa de Tomé Cavalcanti.Jaime  contratou dois matadores de aluguel para assassinar Leandro Dantas. A 3ª parte intitula-se: Epílogo: as vítimas do amor, e nela é que as grandes revelações se dão: o assassinato de Leandro a mando de Jaime é descoberto por Josefina e pela filha: a mãe enlouquece e a filha, grávida de Leandro, não aceita casar-se com João Paulo, o primo caça-dotes. Em ato de extrema loucura e hipocrisia, o pai manda emparedar a filha Clotilde em um velho banheiro da construção. Para não roubar mais o seu tempo e manter seu amor pela leitura de meus textos, por aqui fico com minhas reflexões. Até a próxima.

 

 

 

Comente este post

Bons livros para as férias

Publicado em 21/12/2013 08:59

Há sempre alguém me pede indicação de livros para ler nas férias e eu fico muito feliz em poder atuar como um guia de leituras. Aliás, essa deve ser a tarefa mais importante do professor de qualquer disciplina, não só de português ou literatura. Em 2012, nessa mesma ocasião, indiquei alguns bons romances para meus leitores e volto a fazer isso, com prazer, neste ano que já se vai gloriosamente e em boa hora para tantas pessoas.

Os livros que eu li mais recentemente e faço questão de sugerir como leitura para as férias e depois delas. ?Dois rios?, de Tatiana Salem Levy, que estreou com o belo ?A chave da casa?, em 2010, e brinda agora o seu leitor com esse surpreendente romance em cuja trama uma mulher francesa, Marie-Ange, seduz igualmente o jovem Antônio e a sua irmã Joana.

Beatriz, de Cristovão Tezza, é um lindo livro de contos, entre os quais, eu destaco ?Beatriz?, que deu origem ao romance ?Um erro emocional?, publicado anteriormente.

?As naus? é um romance do português, António Lobo Antunes, originalíssimo no tratamento da linguagem romanesca que narra nesta obra o retorno dos navegantes e heróis portugueses a Lisboa, aqui chamada de Lixboa.  O romance ?Livro?, de José Luís Peixoto, é uma reflexão bonita sobre as transformações da sociedade portuguesa, por meio dos desencontros entre um casal enamorado que parte separadamente para a França. ?O céu dos suicidas?, de Ricardo Lísias, é um romance no qual se entrechocam a ordem e o caos, a busca de sentido e a desagregação.

 ?O senhor Eliot e as conferências, obra do português, Gonçalo M. Tavares, mistura na sua trama nomes de grandes escritores e filósofos, para poder brincar com os conceitos do pensamento e da percepção ocidentais.

?A noite das mulheres cantoras?, de Lídia Jorge, dá um mergulho épico no tempo passado, por meio das tensões e diferenças entre as participantes de um grupo musical.

Quero dar um destaque especial para o romance ?As visitas que hoje estamos?, de Antônio Geraldo Figueiredo Ferreira, residente aqui pertinho de nós, em Arceburgo, estado de Minas Gerais, que surpreende a crítica literária ao narrar metaforicamente o mundo confuso em que vivemos em matéria de comunicação que mais afasta do que aproxima as pessoas. Do autor, eu já havia lido, com gosto,o livro de poesias ?Peixe e míngua?, de 2003, e descobri nele belos versos.

Elvira Vigna, minha amiga no Facebook, publicou em 2012, o livro ?O que deu para fazer em matéria de história de amor? e, mais uma vez, surpreendeu pela originalidade da trama e pelo tratamento entre cruel e pungente à história de amor entremeada de perdas e danos de dois casais em um apartamento.

José Luiz Passos é um romancista que veio para ficar no cenário literário do Brasil e com ?O sonâmbulo amador? ele firma de vez o seu nome, ao retratar a voz de um funcionário zeloso, Jurandir, que enlouquece.

Também quero indicar também livros de Marcelo Mirisola, tido por muitos como escritor rebelde. Leia o que ele postou recentemente no Facebook, no período de lançamento do romance ?O Cristo empalado?: ?Tem gente que acha que eu sou maluco, doidão, gente que me diz pra ser marginal, que me diz pra ser herói, que me acusa de bitinique e por aí a coisa vai. Não é nada disso. Também não sou nenhum degenerado, só tive o azar de nascer escritor. E por isso, eu rezo todo dia.?

Há um autor de que gosto muito desde que li o seu romance ?Os desvalidos?. É  Francisco J.C.Dantas, sergipano, que lançou em 2012, ?Caderno de ruminações?, que tem na trama um médico proctologista vivendo sua paixão e desventura.

Em 2013, foram lançados alguns excelentes romances que eu sugiro como boas leituras para você que me lê agora: ?A cidade, o inquisidor e os ordinários?, de Carlos de Britto e Melo. Na trama,  um Inquisidor cria regras arbitrárias em meio à indiferença geral.

?Aos 7 e aos 40? é o romance de estreia do bom escritor, João Anzanello Carrascoza que trata dos afetos familiares. Daniel Pellizzari, em ?Digam a Satã que o recado foi entendido? toma como tema a pós-modernidade.

Mesmo sem esgotar a lista de livros que poderia sugerir, vou-me despedindo de você em 2013, confiante de poder contar com a sua sempre valiosa leitura em 2014, se Deus quiser. Até lá.

Comente este post

Cuidados com citações

Publicado em 18/12/2013 10:24

Vez por outra, consultam-me sobre a autoria de um poema, um verso ou uma frase. Se tenho certeza, ajudo a pessoa, pois assim ajudo-a a evitar o desgosto de fazer citações falsas. Dá-se muitas vezes o caso de eu encontrar atribuição enganosa de um poema ou de uma frase a um autor consagrado com cuja obra eu gozo de familiaridade. Esse fato ocorre com frequência nas redes sociais, principalmente no facebook. Fiz uma pesquisa recentemente sobre esse assunto e constatei que os autores mais citados de forma enganosa são pela ordem: Caio Fernando Abreu, Martha Medeiros, Jô Soares, Paulo Leminski,Paulo Coelho,Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa. Sobre Drummond é impressionante como atribuem a ele versos que ele jamais escreveu ou pensou em escrever. Quando se conhece a visão de mundo de um escritor, seus temas preferidos,seu estilo sintático e seu universo vocabular não se torna difícil reconhecer atribuições enganosas que se fazem em torno de seus versos e poemas.Recentemente, li uns versos no facebook atribuídos a Carlos Drummond de Andrade.Ao lê-los, veio-me, por inteiro, à mente o belo poema ?Receita de Ano Novo? do poeta de Itabira, considerado o maior de todos.

 


Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,

Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido

(mal vivido ou talvez sem sentido)

para você ganhar um ano

não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,

mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,

novo até no coração das coisas menos percebidas

(a começar pelo seu interior)

novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,

mas com ele se come, se passeia,

se ama, se compreende, se trabalha,

você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,

não precisa expedir nem receber mensagens

(planta recebe mensagens?

passa telegramas?).

Não precisa fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar de arrependido

pelas besteiras consumadas

nem parvamente acreditar

que por decreto da esperança

a partir de janeiro as coisas mudem

e seja tudo claridade, recompensa,

justiça entre os homens e as nações,

liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,

direitos respeitados, começando

pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo

que mereça este nome,

você, meu caro, tem de merecê-lo,

tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,

mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo

cochila e espera desde sempre.

 

Agora leia estes versos de um poema intitulado: Feliz ano novo

Para você neste novo ano,

desejo que os amigos sejam mais cúmplices,

que sua família esteja mais unida,

que sua vida seja bem melhor vivida.

 

Gostaria de lhe desejar tantas coisas,

mas nada seria suficiente para

repassar o que realmente desejo a você.

 

Então,

desejo apenas que você tenha muitos desejos, (desejos grandes),

que eles possam te mover a cada minuto

ao rumo da sua FELICIDADE!

 

Que Deus abençoe a sua vida,

que Ele coloque suas mãos poderosas em sua cabeça,

e distribua muitos pensamentos bons?

Feliz vida Nova!

Feliz Ano Novo!


 

Esse poema é da autoria de Vilma Galvão, mas na internet corre à solta que é de Carlos Drummond de Andrade, sobretudo, em razão destes versos quase finais: ?desejo apenas que você tenha muitos desejos, (desejos grandes),

que eles possam te mover a cada minuto

ao rumo da sua FELICIDADE!?

Não estou afirmando que o poema atribuído enganosamente ao poeta mais ilustre seja ruim ou não mereça ser citado. Estou apenas tentando corrigir um vício que se vai propagando de dar autoria falsa a versos, frases, poemas inteiros que em nada engrandecem a obra dos legítimos autores.A recomendação que faço é que não sejam citados sem consulta à obra e que sempre que for possível, citar a obra e a página de onde se tirou a citação.É digno de lembrança o personagem de Paulo Gracindo, Odorico Paraguaçu, político falsamente erudito, corrupto e demagogo da novela O Bem Amado. Ele vivia a desfilar citações pretensamente sábias e as atribuía a Ruy Barbosa.Quando o secretário o alertava:-?Prefeito, mas Ruy não disse isso?, lá vinha a resposta - "Se ele não disse, deveria ter dito". Até a próxima.

 

Comente este post

Palavras e mais palavras

Publicado em 09/12/2013 08:13

O dicionário pode trazer a quem o consulta uma porção de surpresas agradáveis. O que este bom livro não gosta é de pressa. Consultar apressadamente um bom dicionário é quase uma indignidade.Vai daí que para tirar uma dúvida de um amigo,  fui ver as acepções para a palavra pena.Eis o que o indispensável Dicionário Aurélio me apresenta:

?Acepção de pena1: [Do lat. penna.] Substantivo feminino. 1. Cada uma das peças que revestem o corpo das aves; pluma2. Tubo córneo oriundo da pena de algumas aves, e preparado para com ele se escrever3. Pequena lâmina de metal, terminada em ponta, que, adaptada a uma caneta, serve para escrever ou desenhar. [Sin., lus.: aparo.] 4. Fig. O instrumento da escrita.5. Fig. Trabalhos de escrita: Fig. A classe dos escritores:um expoente da pena. 7. Fig. A maneira de escrever; estilo, cálamo: a pena machadiana.

8. Fig. Autor, escritor: Este rapaz é uma pena brilhante. 9. Parte espalmada da bigorna.

Pena de ouro. Escritor ou jornalista brilhante, talentoso. Ao correr da pena. De maneira espontânea, sem preocupar-se com o estilo. Enfeitar-se com penas de pavão. Fazer bonito com o mérito dos outros. Acepção de pena2 [Do gr. poiné, pelo lat. poena.]
Substantivo feminino. 1. Castigo, punição: ?A rainha D. Maria I, por um ato de clemência, comutou as penas de quase todos em extermínio para a África, e só um, o Tiradentes, subiu ao patíbulo? (João Ribeiro, Histórias do Brasil, p. 311). 2. Sofrimento, padecimento, aflição:?Quem ama inventa as penas em que vive? (Olavo Bilac, Poesias, p. 44).3. Piedade, compaixão, dó:?Donzela, deixa tua aia, / Tem pena do meu penar.? (Manuel Bandeira, Estrela da Vida Inteira, p. 26.) 4. Mágoa, desgosto, tristeza.5. Dir. Penal Punição imposta pelo Estado ao delinquente ou contraventor, mediante processo judicial, em razão de crime ou contravenção que tenham cometido.6. Dir. Civ. Sanção de caráter civil, fiscal ou administrativo, pecuniária ou não, em razão de infração prevista em lei, ou em contrato, para o caso das relações civis; cláusula penal.
Pena acessória. Bras. Jur. Aquela que, em certos casos, acompanha a reclusão ou detenção, e que consiste em perda de função pública, interdições de direito e publicação da sentença condenatória.
Pena capital. Pena de morte; pena mortal; pena última.
Pena de talião. 1. Pena antiga pela qual se vingava o delito, infligindo ao delinquente o mesmo dano ou mal que ele praticara. 2. Aplicação ou imposição dessa pena. [Tb. se diz apenas talião; sin. ger.: lei de talião, retaliação, talionato. ? Atenção: escreve-se talião, com minúscula, pois não é nome próprio.] Pena mortal. V. pena capital. Pena última. V. pena capital.?

Para mim, foi uma surpresa, e das grandes, confesso, ao ler no final da consulta, que a palavra talião deve ser escrita com letra minúscula, porque não é nome próprio. Eu que sempre vi escrita a expressão Lei de Talião, pena de Talião, como se houvesse aí o nome de uma pessoa vingativa, fui surpreendido com essa bela descoberta. Fiquei feliz.Achei um bom exemplo, em texto de Camilo Castelo Branco: "...praticara o decreto de despejo que me lançava fora de casa em Lisboa, e desta vida há de executar-se pelo santo direito do talião divino contra os vergonhosos autores." (Camilo Castelo Branco, Noites de insônia).Ah! como gosto de dicionários e como ficaria feliz se um dia viesse a saber que todas as pessoas dispõem de um dicionário impresso ou digital.Mas, com a sua devida licença, meu leitor, minha leitora deste texto, preciso tirar mais uma dúvida de internautas. Pergunta-me a amiga do facebook:Usa-se a crase depois da preposição ?até?? Digo que em Portugal, é normal o uso do sinal de crase (`), mas aqui entre nós o emprego é facultativo. Eu prefiro não usar, porque considero o ?a? ou ?as? depois de ?até?, apenas artigo e não outra preposição como é ?até?. Sempre que possível, é bom evitar duas preposições juntas, como no caso, por exemplo,  de ?para com?. Preste a atenção e perceba como é frequente a construção: ?Ele foi bom para com a amiga?.Diga apenas: ?Ele foi bom com a amiga?.Ou: ?Ele foi bom para a amiga.? Também eu quero ser bondoso com o meu leitor e, por isso, dou por findo este texto. Até a próxima.

 

 

 

Comente este post

Cuidados com a língua e com o ensino

Publicado em 01/12/2013 09:35

Para escrever o texto desta semana, recorri a um trecho entrevista que concedi ao jornal Comércio da Franca, no dia 27 de novembro corrente.. A reportagem recebeu a seguinte manchete: Entre as 10 melhores de Franca no Enem, apenas uma escola é pública. Vejamos um trecho da reportagem:

Uma das turmas do ensino médio da Etec ?Júlio Cardoso?. Escola pública comemora o bom desempenho no Enem 2012

Apenas uma escola pública de Franca está entre as dez melhores da cidade no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2012. O resultado foi divulgado na última segunda-feira pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) e mostra a Escola Técnica Estadual ?Júlio Cardoso?, o Colégio Industrial, como a única pública da lista. As nove restantes são todas particulares, com destaque para o Novo Colégio que ocupa o primeiro lugar do ranking municipal pelo quarto ano consecutivo. Em Franca, 29 escolas com 50% de participação tiveram o resultado do exame divulgado pelo Inep - 19 delas da rede pública. As provas foram feitas por 2.042 estudantes da cidade.

Integrante do Centro Paula Souza, a Escola ?Júlio Cardoso? obteve média de 589,91 pontos considerando as provas objetivas realizadas nas quatro áreas de conhecimento do Enem - código de linguagens, matemática, ciências humanas e ciência da natureza. A média não inclui a nota da redação. A primeira colocada no país fica localizada em Belo Horizonte e alcançou média de 722,15 pontos.

Segundo o doutor em educação e letras, Juscelino Pernambuco, as escolas estaduais não alcançam melhores resultados no Enem devido a ?problemas de organização?. Pernambuco isenta o professor de culpa e diz que a falta de planejamento e de uma ?cadeira definitiva? atrapalha o aprendizado. ?No Estado nem sempre é possível um mesmo professor dar sequência nas aulas, além disso, não há uma organização estrutural, as turmas são grandes e os professores são sobrecarregados.?

O especialista culpa ainda os alunos da rede estadual pela falta de comprometimento e motivação. ?Muitos não têm interesse e não veem necessidade de ter habilidade na escrita e na leitura. Lê-se pouco e escreve-se ainda menos. No Centro Paula Souza, é diferente. As unidades são organizadas, os professores têm melhores condições de trabalho e os alunos são diferenciados.?

Amo a escola pública, pois foi nela que estudei e foi nela que fiz a maior parte da minha carreira de professor. Quando vejo o que vem acontecendo com as escolas estaduais, sobretudo as de São Paulo, estado em que vivo também com muito orgulho e carinho, já que sou mineiro de origem, fico bastante entristecido. Não é possível que o professor desenvolva um bom trabalho pedagógico com turmas de alunos tão grandes, sem um salário digno, sem tempo para preparar suas aulas e corrigir as atividades com a língua escrita. As avaliações que se fazem sobre o desempenho dos alunos mostram não o fracasso do trabalho do professor, mas dos governos de todos os níveis.Essa  é que a verdade comprovada em pesquisas científicas.

Passemos agora a alguns cuidados necessários com a língua escrita. Recebi pelo facebook a seguinte consulta:­? Professor, veja se está certo dizer assim: A nossa viagem tinha sido planejada há um ano e , mesmo assim, tivemos problemas com passagens. Escrevi como resposta o seguinte: faltou a correlação verbal entre ?tinha sido? e ?há?. O ideal é que você combine ?tinha sido? com ?havia?. A frase seria assim: A nossa viagem tinha sido planejada havia um ano.... Da mesma forma, deve-se dizer ou escrever: ?Trabalhava comigo havia dois anos e nunca havia faltado.? O caso é que se tornou tão comum substituir ?havia? por ?há?, que este se tornou uma forma verbal sem ideia de tempo. Se assim perdurar, não tenho dúvidas de que será normal e aceito pela gramática normativa. Até a próxima.

 

 

 

Comente este post

Uma conversa informal

Publicado em 25/11/2013 08:10

No texto gramático-literário da semana passada, escrevi sobre a arte de conversar e não houve tempo e espaço para eu discorrer sobre os tipos de conversa. Hoje, volto ao tema e começo pela conversa informal, que é a mais presente na vida humana. Necessitamos de trocar ideias descompromissadas com as pessoas próximas e mesmo com quem ainda não temos muita intimidade.Digamos que seja uma necessidade vital esta de falar e ouvir quem está perto de nós, não importa o ambiente ou a ocasião.Pode não conduzir a lugar algum a prosa solta sobre qualquer assunto que seja, o importante é poder falar e ouvir o outro.Saber iniciar, manter ou prolongar uma conversa é uma função importante da linguagem chamada de fática pelo seu idealizador, o linguista russo Roman Jakobson.Vem-me à lembrança a bela música de Paulinho da Viola, Sinal Fechado, cuja letra é toda marcada pelo predomínio das marcas de uma conversa informal , também chamada de conversa fiada, entre duas pessoas que se reencontram em pleno fechamento de um farol no trânsito: ?Olá, como vai ?/ Eu vou indo e você, tudo bem ?/ Tudo bem eu vou indo correndo/Pegar meu lugar no futuro, e você ?/Tudo bem, eu vou indo em busca/De um sono tranquilo, quem sabe .../Quanto tempo... pois é.../Quanto tempo.../Me perdoe a pressa/É a alma dos nossos negócios/Oh! Não tem de quê/Eu também só ando a cem/Quando é que você telefona ?Precisamos nos ver por aí/Pra semana,prometo talvez nos vejamos/Quem sabe ?/Quanto tempo.../ pois é... (pois é... quanto tempo...)/Tanta coisa que eu tinha a dizer/Mas eu sumi na poeira das ruas/Eu também tenho algo a dizer/Mas me foge a lembrança/Por favor, telefone, eu preciso,Beber alguma coisa, rapidamente/Pra semana/O sinal .../Eu espero você/Vai abrir.../Por favor, não esqueça, /Adeus...?Essa bela letra de música resulta de um encontro casual que marca o reinício de uma relação humana importante.Veja que ela se inicia  com um ?Olá? e termina com um ?Adeus?, este, não de despedida , mas de esperança de um novo encontro.Tudo começou com uma conversa informal que pode, muitas vezes, ser chamada de conversa fiada. É o tipo de conversa que predomina nos bares, nos salões de barbeiro e de cabeleireiro, nos campos de futebol, à beira das piscinas, etc.Nesse tipo de conversa, as pessoas não têm a pretensão de argumentar a favor de um ponto de vista, de uma ideia importante para a sociedade ou mesmo para a vida de cada um. Enfim, não há intenção de se promover um debate argumentativo acirrado.Na letra de Sinal Fechado, predominam os chamados clichês ou chavões, expressões que de tanto serem usadas tornam-se vazias de sentido.Confira comigo: ?Vou indo correndo pegar um lugar no futuro?, ?Eu vou indo em busca de um sono tranqüilo?, ?A pressa é a alma dos negócios?, ?Eu também só ando a cem?, ?mas eu sumi na poeira das ruas?, ?Eu também tenho algo a dizer, mas me foge a lembrança?, ? Preciso beber alguma coisa rapidamente?. Pode-se dizer que a letra da música, toda ela centrada em clichês,quer mostrar o vazio da vida das pessoas impossibilitadas de encontros vivos e acolhedores diante da correria a que têm  de se submeter, para sobreviver no ritmo frenético do dia a dia. Os clichês da música traduzem o desgaste não só das palavras, mas também da vida. Aqui eles se tornam de vital importância para a construção do texto da canção, já que o tema gira em torno da dificuldade de se manterem relações interpessoais nos dias atuais, por causa do excesso de compromissos profissionais.. Há um sinal fechado para a convivência mais frequente. Quando se encontram, faltam para as pessoas até mesmo palavras para uma conversa mais quente e  natural.Os clichês são ponto de apoio para a conversa fluir.Esse é um dos tipos de conversa, talvez, o mais comum e predominante nos encontros pessoais.Também é uma arte saber conduzir uma boa conversa informal e torná-la significativa.Até a conversa fiada se fia com palavras que , de alguma forma, fazem a vida tornar-se a arte do encontro,conforme queria Vinícius de Moraes.Até a próxima.

 

Comente este post

A arte da conversa

Publicado em 16/11/2013 09:12

Conversar é uma arte, mas pode também ser uma ciência. Envolve palavras e modos de trabalhar com elas. Exige talento e habilidade, mas se você tiver o domínio de algumas técnicas, tanto melhor será a conversa. O filósofo russo Mikhail Mikhailovitch Bakhtin descobriu, maravilhado, que a essência da língua está na troca verbal, na interação de palavras, na conversa entre um ?eu? e um ?tu?. O que eu digo é o meu enunciado. O ato de dizer meu enunciado é a minha enunciação que é de fato a minha intenção e posicionamento diante do que digo para o outro. Quem conversa quer resposta, quer reação do outro.O outro de minha conversa é essencial para a descoberta de quem eu sou.Para Bakhtin, ser é conviver.Assim, sem conversa não há convivência e ,sem esta, não há vida.O filósofo inglês, Herbert Paul Grice, defendeu a ideia de um princípio cooperativo na conversação e idealizou alguns princípios para uma boa conversa.Veja o que ele imaginou para uma conversa produtiva e agradável: Quantidade:na conversa os as informações devem ter uma medida certa: nem mais nem menos.Se um fala demais, detalha em excesso, torna-se arrogante, quando não, ?chato?.Se o outro fala informa menos, pode tornar-se desinteressante. Qualidade: é bom procurar dizer só o que tem certeza de ser verdadeiro ou tiver provas de sua autenticidade. Ou seja, não invente nem ?chute?, só para aparecer bem informado.Relação: bom conversador é o que tem sempre novidade bem fundamentada para dizer, ou seja, faz a conversa ficar interessante. Modo: regras de ouro para a boa conversa fluir: clareza no que se diz, brevidade, linguagem bem cuidada e ordem nos assuntos. Para Grice, esses princípios são fundamentais para uma conversa civilizada e atraente.Quando se trata de pessoas com bastante afinidade essas recomendações ou princípios tornam-se secundários, já que a intimidade dos pares faz que a conversa seja sempre um prazer ou até mesmo o silêncio entre os dois é significante.Já quando os participantes não gozam de intimidade ou familiaridade, é bom que se estabeleçam algumas normas, entre as quais aponto as seguintes:

1ª) Quando quiser iniciar conversa com alguém, é bom ter o que dizer.

2ª) O mais importante para uma boa conversa é a humildade para ouvir o outro.

3ª)Ser significativo é tornar-se um interlocutor interessante para os demais.

4ª)Saber iniciar uma conversa ou reaquecê-la, quando o silêncio toma conta da roda de amigos, é questão de inteligência.

5ª)Ter sempre casos curtos, historietas, para contar é uma ciência.

6ª)Ter bom domínio da língua portuguesa, para adaptar sua fala ao ambiente é uma questão de competência.

7ª)Evitar atropelar a fala dos demais é prova de elegância e boa educação.

8ª) Não seja ?contador de vantagem?. Evite mostrar-se em excesso.Falar de salário e de fortuna pessoal nunca será motivo para uma boa conversa.

9ª) Saber discordar do outro, sem constrangê-lo é um mandamento.

10ª)Só use ou exiba ipad, iphone e celular, se tiver bastante intimidade com a pessoa com quem estiver conversando. Assim mesmo, use-os com parcimônia e, depois de pedir licença encarecidamente. Mostre interesse pela pessoa com quem conversa no momento, prestigie a conversa entre os dois.Não atenda celular diante da pessoa com quem está conversando.Retire-se da presença dela, como quem vai palitar os dentes.Aliás, usar palito ou fio de limpar dentes, diante de alguém, é dar prova de péssima educação e atestado de deselegância. Que deselegante!

A tecnologia é essencial nos dias de hoje, mas isso não significa que devamos nos tornar escravos dela a ponto de perder o bom convívio face a face com as pessoas.  Inteligente é aquele que sabe colocar a tecnologia a seu serviço, e não aquele que se torna um serviçal dela. E para que a minha conversa com você não se torne cansativa e que eu tenha mais o que dizer na próxima semana, peço licença para interromper minha escrita, por aqui. Até a próxima.

 

Comente este post   |   Ver comentários enviados

A prova do Enem (2)

Publicado em 11/11/2013 08:44

A prova de Redação é sempre a mais empolgante do Enem, assim como de qualquer outro concurso. Isso se deve ao medo da escrita, criado pela própria escola e endossado pela sociedade em geral. Não deveria ser assim, mas é o que ocorre.A prova do Enem deste ano apresentou uma proposta de Redação que agradou a todos os candidatos.Vou até ilustrar este texto que agora escrevo com a fala de alguns estudantes:

Natalia Rodrigues, de17 anos, estudante de São Paulo, candidata ao curso de Comércio Exterior, achou o tema da redação bastante fácil. "Eu escrevi sobre a consciência dos motoristas. Esse é um tema bem claro, que todo mundo está consciente".

Mariana Vigliotti, de 17 anos, candidata ao curso de Nutrição, também de São Paulo, disse: "O tema da redação estava fácil, porque, pelo que estava sendo proposto, em outros anos achei que seria mais complicado?.

Em Brasília, Mateus Oliveira, candidato a cursar Ciências da Computação, assim se expressou: ?Foram dois dias muito cansativos, principalmente hoje, que teve a redação. Ainda bem que o tema foi tranquilo?. Também de Brasília, Nathalie Castro, 17 anos, que quer cursar Arquitetura, acredita que foi bem na redação. ?Falei os prós e os contras da Lei Seca, baseada nos dados que eles deram no enunciado?.

No Rio de Janeiro, Jorge Paulino, 47 anos, operador de caldeira, está tentando voltar aos estudos por meio do Enem. Diz que lê bastante para se manter atualizado. Disse ele: ?Eu quero fazer história, minha pretensão é me aposentar e dar aulas, e quando estiver mais folgado retornar ao curso de direito, que é meu sonho. Acredito que, para quem esteja estudando, não foi difícil não, eu não achei dificuldade, embora não tenha estudado com afinco. O tema da redação foi bem atual, está na nossa vida constante?, avaliou. Ficou evidente a agrado geral dos candidatos quanto à proposta para a Redação

Veja como ela se deu:

?A partir da leitura dos textos motivadores seguintes e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo na

modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema ?Efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil?, apresentando proposta de intervenção, que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa

de seu ponto de vista.?

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) manifestou-se pelo Twitter, o que foi outra surpresa deste ano, explicando ao público em geral: "sobre esse tema, os participantes devem desenvolver um texto dissertativo-argumentativo segundo os critérios definidos no Edital do exame." Para subsidiar a redação do candidato, os elaboradores apresentaram duas imagens e dois textos. Uma das imagens trazia a campanha do governo federal sobre os perigos de dirigir embriagado e a outra era um infográfico sobre os efeitos da campanha contra a combinação bebida e direção.

Como se viu, o candidato do Enem foi bem orientado para a produção da redação. Porém, de nada adiantam os subsídios se o aluno não souber organizar as ideias para expressá-las por escrito. Digo que há em todo texto argumentativo um esquema  semelhante ao discurso retórico criado pelos gregos.Costumo dizer que as partes de um bom texto seriam: tema-problema-hipótese-tese-argumentação-conclusão.Explicando: diante de um tema, imagino um problema em relação a ele, isto é, faço uma ou mais perguntas problematizadoras:Como? Por quê? A que se deve? Com base nas perguntas, imagino hipóteses, ou seja, soluções provisórias para a resolução do problema em relação ao tema. Depois, escolho uma das hipóteses que eu julgo a mais acertada para ser a minha tese.Para defender minha tese , construo argumentos a favor e contra ela e tento provar que os favoráveis a ela são mais fortes do que os contrários.Como conclusão faço uma espécie de balanço do que foi a minha tese.Prometo a você, leitor, que ampliarei as explicações sobre o assunto, no meu próximo texto gramático-literário aqui neste espaço. Até a próxima.

 

 

Comente este post

A prova do Enem (1)

Publicado em 02/11/2013 10:50

A prova do Enem (1)

Rodapé Literário 223(02-11-2013)

                                   Juscelino Pernambuco

 

Como educador há algumas décadas e sempre meio desconfiado da validade de provas, aventuro-me por uma análise do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizado no último final de semana. Antes de tudo, preciso afirmar que se trata de uma prova interdisciplinar sempre muito bem elaborada. As diferentes disciplinas de estudo se interconectam em cada questão, dialogam entre si, para testar a capacidade de compreensão ativa do candidato.Esse é o seu caráter de interdisciplinaridade. Quando digo que a questão é bem elaborada, refiro-me tanto ao conteúdo quanto à forma de expressão. Começo dando ao meu leitor um bom exemplo de questão do exame deste ano:

Questão 125:

Original do trabalho de Cury que foi usado na prova do Enem 2013 (Foto: Caetano Cury/Reprodução) CURY, C. Disponível em: http://tirasnacionais.blogspot.com. Acesso em: 13 nov. 2011.

 

A tirinha denota a postura assumida por seu produtor frente ao uso social da tecnologia para fins de interação e de informação. Tal posicionamento é expresso, de forma argumentativa, por meio de uma atitude

a) crítica, expressa pelas ironias.

b) resignada, expressa pelas enumerações.

c) indignada, expressa pelos discursos diretos.

d) agressiva, expressa pela contra-argumentação.

e) alienada, expressa pela negação da realidade.

Para responder acertadamente, o aluno teria de examinar bem a chamada tirinha e ver que o que se afirma nos três retângulos é contraditado pela fala dos personagens nos balões. As ironias mostram uma atitude crítica do produtor diante do uso que se faz da tecnologia. Resposta: A. O que se exige do candidato nesta questão é um domínio, pelo menos razoável, dos significados das palavras que compõem as falas do produtor e dos personagens, para interpretar a intenção discursiva ou comunicativa da tirinha.

Para construir uma questão como essa, o professor elaborador do exame, tem de estar bem atualizado, ter uma visão interdisciplinar e multidisciplinar e saber como formular as questões que levem em conta os seguintes critérios: Em cada questão, as alternativas devem: apresentar sempre uma e só uma resposta correta; ser homogêneas, tanto no conteúdo (integrando uma mesma família de fatos e idéias), como na forma (expressas, tanto quanto possível, com a mesma extensão); representar idéias plausíveis, que possam ser admitidas como boas e atraentes por candidatos menos informados ou que desconheçam a matéria; quando absurdas, a maioria as rejeita; ser independentes, redigidas de forma clara e correta, sem subentendidos ou referências a alternativas anteriores; evitar pistas que sugiram a resposta certa.

Na questão acima, todas essas normas se fazem presentes. O candidato bem preparado teria condições plenas de assinalar a única alternativa correta. Coloquei essa questão como modelo de boa formulação, também por um fato que é interessante para nós aqui desta região. O autor da tirinha é o repórter e cartunista mineiro, Caetano Cury, residente em Ribeirão Preto. Sem dúvida, que deve ser, para ele, motivo de orgulho ver um trabalho seu como tema de uma questão de um exame tão decisivo para a vida de pelo menos cinco milhões de pessoas que prestaram o Enem de 2013. As reações sobre o exame deste ano foram bem menos contundentes do que as do ano de 2012. Tudo funcionou bem no recente Enem, o que é de esperar que aconteça sempre. Um concurso como este que envolve tantos milhares de jovens e adultos torna-se facilmente motivo de disputa política.Os que torcem pelo insucesso do governo desejam que o exame apresente algum problema que possa tirar o seu brilho. Os defensores do governo ficam à espera de que nada possa ser aproveitado pela imprensa e pelos adversários como motivo de crítica. No caso do Enem, o que deve interessar é a discussão sobre a importância e necessidade dele para ingresso do estudante concluinte do ensino médio no ensino superior e a sua melhor forma de realização. Fazer dele um mero instrumento de avaliação mais do governo do que dos candidatos, não me parece ser a atitude mais sensata e politizada. Eu sonho que poderemos chegar a um momento histórico em nosso país em que todos os jovens que tenham concluído o ensino médio tenham lugar garantido nas melhores universidades, independentemente de exame de ingresso. É um sonho, mas sem os sonhos as grandes realizações não acontecem. Até a próxima.

 

Comente este post

Conversa sobre assunto variados

Publicado em 27/10/2013 09:57

Conversar é uma arte e, então, quem desejar iniciar e manter uma boa conversa, além de uma certa habilidade natural com a língua materna, deve também ter o domínio de algumas técnicas. No texto de hoje, quero fazer o possível para manter uma boa conversa com meus leitores sobre alguns assuntos do nosso cotidiano e sobre aspectos da gramática normativa. Vamos por temas:

SOBRE O VERBO FAZER- ?Faz três meses que não viajo. Fazia três anos que eu não vinha a Batatais. Vai fazer duas horas que estou aqui e ela não vem. Quantos anos faz que nós não nos vemos, hein? Você trabalha nesta loja faz quantos meses??

Observe o uso do verbo fazer. Em todos os exemplos acima, ele tem o sentido de tempo decorrido. Assim, deverá estar sempre no singular, em qualquer tempo e pessoa nos quais tiver de ser conjugado.Se estiver formando locução verbal, o verbo auxiliar ficará no singular.É o caso de:vai fazer, deverá fazer, pode fazer.

SOBRE O VERBO HAVER- ?Houve alguns problemas com o meu passaporte e eu não tive tempo de resolvê-los. Nunca houve tantas queixas como agora sobre o preço dos ingressos. Os jogadores se houveram bem na competição. Esta casa nós a houvemos de nossos avós. Haverá aulas quando os professores houverem resolvido seus acertos salariais.?

O verbo HAVER exige cuidados com a concordância. Sempre que ele tiver o significado de EXISTIR, deverá ficar no singular. Evite a qualquer preço dizer: Houveram vários casos de dengue. Concordância assim é tão cruel quanto a epidemia, não é? Para usar a forma, houveram, somente se for para significar: portar-se bem, ser bem sucedido. Nesse caso conjuga-se com o pronome SE. As moças se houveram bem no concurso. Também se pode empregar o verbo HAVER com o significado de OBTER POR HERANÇA. Nesse caso, ele concorda com o sujeito e pode ir para o plural. Veja um exemplo no trecho anterior.

SOBRE O ARTIGO E O HORÁRIO DE VERÃO: Como fica o artigo antes das horas, principalmente as do famigerado horário de verão? Para muitas pessoas, entre as quais me incluo, o horário de verão é uma inconveniência. Li uma carta de um leitor do jornal Folha de S.Paulo, sobre o assunto e concordo com ele. Vejam um trecho da carta que ele escreveu, depois eu volto aos artigos.

?Não tenho dúvida de que, se houvesse uma consulta popular para saber se os brasileiros são a favor ou contra o horário de verão, o resultado seria maciçamente contrário a essa instituição macabra, que massacra os mais humildes que precisam madrugar a fim de saírem para o trabalho.? Para mim, tem razão o distinto leitor. Andam falando tanto em plebiscito, que bem poderiam propor mais esse. Até o nome já significa que não é algo natural, pois nem mesmo o artigo aparece: não é horário do verão, é horário de verão.Só com a preposição, já que a estação do verão, tão simpática e gostosa, por si só dispensa a mudança de horas, para preservar o nosso relógio biológico.

 Pois bem, dito isso e voltando aos artigos antes de horas, digamos o seguinte:

O uso do artigo definido é obrigatório: ''Trabalhamos das 6h. às 14h. ''. Assim, definimos a hora do início e do final do nosso trabalho.

SOBRE OS PRONOMES QUE e QUEM: Como fazer a concordância verbal com os pronomes QUE e QUEM?

A) Se o pronome QUE for sujeito, o verbo concordará com o antecedente. Assim diremos: Fomos nós que fizemos. Foi ela que fez.

B) Se o sujeito for o pronome QUEM, normalmente o verbo ficará na 3ª pessoa do singular: Hoje sou eu quem paga. Porém, é bom que se diga que não é erro fazer a concordância com o antecedente: Hoje sou eu quem pago. Hoje somos nós quem pagamos.

SOBRE A CRASE EM DIA DE SEMANA: Estaria certa uma frase como esta: ''O minuto das chamadas para celulares custa R$ 0,29 de segunda à sábado entre 21h e 7h''?

Digo que está errada, pois não pode haver crase antes de sábado porque, além de ser uma palavra masculina, estamos falando de qualquer sábado. Se aparece a preposição DE, deverei dizer: ''de segunda a sábado'', sem crase.

Até a próxima.

 

Comente este post

A misantropia de Drummond

Publicado em 20/10/2013 11:36

Li no jornal Folha de São Paulo de ontem, 16 de outubro, o artigo de opinião de Hélio Schwartsman intitulado ?O misantropo e o trânsito?, em que ele trata da dificuldade que tem o misantropo de viver em cidades pequenas, já que teria de ver sempre as mesmas pessoas, quando o que ele mais detesta são exatamente pessoas. Misantropo é definido pelo dicionário como aquele que prefere a solidão, não tem vida social, não gosta da convivência com outras pessoas; eremita, ermitão, solitário.

O texto do jornalista me levou imediatamente para um diálogo com ?Divagação sobre as ilhas?, texto famoso de Carlos Drummond de Andrade. Leia comigo um trechinho:

?Quando me acontecer alguma pecúnia, passante de um milhão de cruzeiros, compro uma ilha; não muito longe do litoral, que o litoral faz falta; nem tão perto, também, que de lá possa eu aspirar a fumaça e a graxa do porto. Minha ilha (e só de a imaginar já me considero seu habitante) ficará no justo ponto de latitude e longitude que, pondo-me a coberto dos ventos, sereias e pestes, nem me afaste demasiado dos homens nem me obrigue a praticá-los diuturnamente. Porque esta é a ciência e, direi, a arte do bem viver: uma fuga relativa, e uma não muito estouvada confraternização.? É bonito ler uma construção gramatical como a inicial, com a palavra ?pecúnia?: dinheiro.Em vez de:Quando eu ganhar um bom dinheiro, o escritor surpreende com: Quando me acontecer alguma pecúnia, o que já prepara o leitor para o estilo que se vai imprimir ao texto. O poeta consagrado se fará aqui de cronista poético e persuasivo. O advérbio ?diuturnamente?, que significa aqui: demoradamente, longamente, tem uma importância tremenda para a comunicação que se quer fazer: é bom que se saiba evitar uma longa e demorada confraternização com os homens. A mensagem do cronista-poeta é: A arte ou a ciência do bem viver consiste no equilíbrio entre uma relativa fuga da convivência com os outros e uma confraternização não muito imprudente. Veio-me, agora, à mente um adjetivo que diuturnamente atrapalha a comunicação oral de muitas pessoas: ?opróbrio?.Apliquei-o ao texto de Drummond e saiu essa assertiva: ?O misantropo tem medo do opróbrio que se sujeita a passar no convívio com as  pessoas?.Se você for ao dicionário em busca dos significados, achará: ?Opróbrio?:substantivo masculino: afronta vergonhosa, ignomínia profunda, vexame; desonra; vergonha. Porém cuidado: o dicionário Aulete Digital, registra ?Opróbio? e ?Opróbrio?. Trata-se de um descuido ainda não corrigido, já que na edição impressa do mesmo dicionário só se registra ?Opróbrio?. Um  ex-presidente da República costuma falar ?opróbio?, engolindo a consoante ?r? da sílaba ?bri?. Não é de se espantar, quando se constata que são várias as palavras com essa mesma característica fonética que oferecem dificuldades na pronúncia. São os casos de:frustração, frustrado, fragrância, flagrante, flagrância, programa, problema.Essa última, então, é até motivo de piada ou anedota. Lembro-me de uma contada em crônica pelo Ignácio de Loyola Brandão, na edição de 29/11/1998, do jornal Estado de São Paulo. Duas mulheres conversando em um ônibus na periferia de São Paulo:

??Ando tão preocupada.

? Com o que, minha flor?

? Com duas palavras.

? Que coisa, minha flor! Que palavras são essas que te perturbam tanto?

?Poblema e pobrema.

? Não acredito que você não sabe.

? Não sei e já perguntei a um mundo de gente. Tem quem me diz que é probema.Como é que a gente faz para descobrir o que as palavras querem dizer?

? Sei lá! Perguntar para um professor?

? Vou ter de ir ao grupo escolar?

? Por sorte, eu sei o que quer dizer poblema e pobrema.

? Jura?Por que não me disse?

? Ia dizer. É tão fácil.

? Diz logo, mulher.

? Minha flor, poblema é quando você tem um poblema em casa. Com o marido, com os filhos, com a mãe, com uma  parente.Aí  é poblema.

? E pobrema?

? É pobrema de escola. Aquelas contas que as professoras dão para a gente fazer.Quanto mais difícil, maior o pobrema. Entendeu?

? Entendi. Por que não pensei nisso? Fiquei com um pobrema na cabeça e não precisava.

Virou-se para a janela, feliz da vida, contente por ter decifrado o mistério das palavras.?

Até a próxima.

 



 

Comente este post

A vida espia

Publicado em 12/10/2013 10:00

Entre os inumeráveis e belos poemas que o poeta Carlos Drummond de Andrade nos deixou, um é bastante especial para mim e cheio de significados para a nossa vida. O título é Cerâmica e é constituído de apenas três versos:

                    Cerâmica

Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.

Sem uso,

Ela nos espia do aparador?.

O poeta, em 1962, ao organizar a sua Antologia Poética, escolheu e agrupou os poemas de acordo com nove temas que ele nomeou assim: ?1) O indivíduo: 2) A terra natal; 3) A família; 4)Amigos; 5)O choque social; 6)O conhecimento amoroso; 7)A própria poesia; 8)Exercícios lúdicos; 9)Uma visão, ou tentativa de, da existência.?

Depois de ler com calma e atenção esse poema, tente, meu leitor, situá-lo em um desses temas. de acordo com a mensagem :

 A) Uma visão, ou tentativa de, da existência.

(B) O indivíduo.

(C) O choque social.

(D) Exercícios lúdicos.

(E) O conhecimento amoroso

Certamente, que você ficaria com a alternativa A e acertaria a resposta, já que é da vida humana que trata o poema. O título Cerâmica já encaminha a produção do sentido, pois sugere a ideia de algo que é feito do barro e o verso primeiro já se inicia com o substantivo cacos para dar a ideia de que a vida é feita de cacos que poderiam ser os momentos, as fases da vida de cada um. Entre vírgulas, vem uma espécie de aposto?, colados,?, que bem pode ser um fragmento de oração temporal: ?quando são colados?, ou mesmo condicional ?se forem colados?. É preciso explicar que a poesia mais esconde do que aparenta, traz mais implícitos do que explícitos. É o lugar do inefável, daquilo que nem sempre se pode dizer. O primeiro verso termina com a afirmação de que esses cacos ?formam uma estranha xícara?. O adjetivo ?estranha? marca a intervenção do eu - lírico do poema. Está construída a metáfora: ?cacos da vida? identificam-se com ?estranha xícara?. Até aí o leitor  talvez nem se surpreenda tanto. Quando chega ao segundo verso, começará provavelmente uma espécie de escuridão semântica: xícara sem uso? Vida sem uso? É sabido que a xícara só justifica sua existência pelo fato de poder ser usada. E a vida? Eu a uso ou ele me usa? O leitor tem de ir ao verso final em busca de resolver a aparente falta de sentido. E achará o seguinte:

?Ela nos espia do aparador?. Ela, a vida, que é xícara, nos espia, nos olha de esguelha, nos espiona, nos olha secretamente. Está no verbo o tema do poema, a intenção discursiva do eu - lírico: nós não vivemos a vida; é a vida que nos vive, por isso nos espia. É como se ela dissesse a cada um de nós: vá e me viva, eu ficarei espiando. Há claramente uma inversão entre sujeito e objeto no poema de Carlos Drummond de Andrade: o que é sujeito, na verdade, pode ser objeto. A vida deixa de ser o objeto do meu viver para ser o sujeito. O que ela quer de nós é uma atitude resposta ao ato de existir. O poema Cerâmica tem como tema a insustentável leveza não do ser, mas do existir humano. O sentido de minha vida está na resposta que dou a ela com o meu viver a cada momento.É o que o poema tem a dizer.Volto aos versos do poema, para fazer notar que o verbo-chave dele é ?espiar?, que, neste momento da vida brasileira, voltou a ganhar muito mais vida com ato mesquinho de que estamos sendo vítimas do serviço de segurança dos Estados Unidos.O Brasil vem sendo espionado pelos americanos.?Espionar? é um verbo da mesma família de ?espiar?, assim como ?espião?. Estão nos espiando secretamente, o que já era até de esperar, partindo de quem parte, já que eles se consideram os guardiões do mundo todo. Em vez de espiar, deveriam expiar, isto é, pagar pelo crime cometido. Quem espia o que não deve, merece expiar as consequências de sua falta grave. Você concorda comigo?





Comente este post

Frases para a vida

Publicado em 05/10/2013 15:34

Vez por outra, me pego buscando uma frase que me fez e me faz pensar muito sobre a vida. Para isso nada mais apropriado que um livro. O romance é um lugar de encontro com a nossa própria vida, porque os personagens que nele habitam são modelos de comportamentos existenciais. Vou citar neste de hoje um romance que é uma de minhas paixões de leitor e pesquisador: Grande Sertão: Veredas, da autoria magistral de João Guimarães Rosa. Estou aqui com a edição de número 5, da Livraria José Olympio Editôra, (Veja que editora ainda era acentuada). A capa é grande artista Poty.  O meu exemplar está todo marcado a lápis, todo cheio de papéis de anotações e também já um tanto desgastado pelo manuseio constante de minhas mãos desde 1965. Pois bem, é deste livro que vou retirar as frases que mais me deleitaram e me deram  e continuam dando o que pensar.Espero que você, leitor, aprecie e desfrute de toda a riqueza de ideias que essas frases suscitam.Vou proceder assim: antes de cada frase, apontarei a página em que ela se encontra no livro:

p.11- ?Viver é negócio muito perigoso?

p.15-?Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar?.

p.16-?Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar?.

p.18-?O senhor sabe: o perigo que é viver...?

p.20-?O senhor... Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas- mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra,montão?

p.30- ?Eu atravesso as coisas- e no meio da travessia não vejo!- só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais em baixo, bem diverso do que em primeiro se pensou? Viver nem não é muito perigoso??

p. 38 ? ?Mas a minha competência foi comprada a todos custos, caminhou com os pés da idade.?

p. 47 ??... a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...?

p. 52 ? ?Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.?

p. 56 ? ?Viver é um descuido prosseguido.?

p.66 ? ?Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto. As pessoas, e as coisas, não são de verdade! E de que é que, a miúde, a gente adverte incertas saudades? Será que, nós todos, as nossas almas já vendemos? Bobéia, minha. E como é que havia de ser possível? Hem?!?

p. 67 ? ?No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam.?

p. 69 ? ?Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!?

p. 77 ? ?A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento...?

p. 79 ? ?O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!?

p. 86 ? ?Deveras se vê que o viver da gente não é tão cerzidinho assim??

p. 114 ? ?Estou contando ao senhor, que carece de um explicado. Pensar mal é fácil, porque esta vida é embrejada. A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar. A servergonhice reina, tão leve e leve pertencidamente, que por primeiro não se crê no sincero sem maldade.?

p. 120 ? ?Este é nome apelativo, inventado por necessidade minha, carece de você não me perguntar por quê. Tenho meus fados. A vida da gente faz sete voltas ? se diz. A vida nem é da gente...?

p. 165 ? ?Quem que diz que na vida tudo se escolhe??

Até a próxima vez.

 

 

Comente este post

Antimetábole e enálage

Publicado em 29/09/2013 07:54

Quem escreve um texto, sabe que deve ter primeiramente um projeto de dizer, uma intenção de comunicação discursiva, para que haja um diálogo com o leitor. O sentido do texto vai ser construído no jogo de interação entre o autor, o texto e o leitor, tudo isso com olhos voltados para o contexto. Texto e contexto não se desvinculam, sob pena de se perder o sentido. Não é o autor que dá sentido ao texto. O sentido está mais com o leitor do que com o autor.É ilusório pensar que o que se diz chega ao leitor com a mesma carga de significação que se pensa ter organizado com o que se disse ou se escreveu.Em um simples e-mail , é preciso que se leia e se releia, para imaginar o sentido que o texto pode ter para quem vai recebê-lo. Na publicidade e propaganda, então, isso ganha uma evidência extraordinária. Daí decorre a necessidade de os profissionais dessas duas áreas da comunicação discursiva terem um domínio amplo das figuras de linguagem para imprimir aos textos a máxima riqueza de possibilidades interpretativas. Quem não se lembra de uma propaganda dos biscoitos Tostines que assim foi construída: "Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?" Essa foi uma propaganda criada nos anos de 1980, criado nos anos 80 por Enio Mainardi da agência Proeme. Se você perguntar-me se o pessoal da agência conhecia o nome da figura de linguagem que estava neste texto publicitário, eu lhe direi que talvez não, mas o que eles sabiam é que o jogo de inversão que se faz nesta frase é de uma originalidade sem par.O importante é isso mesmo: saber usar os recursos de vocabulário e construção de frases. Mas é curioso oi nome dessa bela figura de linguagem: Antimetábole. Figura de retórica que consiste na inversão repetida de palavras numa mesma sequência. O esquema de repetição é: a b b a. Também pode ser chamada de deantimetátese ou antimetalepse. Veja só este clássico do orador romano Quintiliano: ?non ut edam vivo sed ut vivam edo? que, no português é: ?Não vivo para comer, mas como para viver?. Na Bíblia também se vale de muitas figuras de linguagem e lá encontramos esta original Antimetábole: ?O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado.? (S. Marcos, 2, 27). É bastante parecida com o Quiasmo, outra figura belíssima que envolve o cruzamento de dois pares de palavras, sem que sejam obrigatoriamente repetidas. Camões em (Os Lusíadas, c IX, 93), escreveu: ?Melhor é merecê-los sem os ter / Que possuí-los sem os merecer.? Passemos agora para mais uma figura surpreendente, utilizada até sem que as pessoas percebam que se trata de um recurso da língua. Quantas vezes, você, minha leitora, vai a uma loja e diz para a gentil vendedora: ?Eu queria ver aquela blusinha azul.? Note que você trocou ?quero? por ?queria?. Essa é a figura da Enálage. Tantas vezes usadas por escritores clássicos com Camões que no soneto ?Sete anos de pastor? , escreveu estes dois tercetos: Vendo o triste pastor que com enganos/lhe fora assim negada a sua pastora,/como se a não tivera merecida; /começa de servir outros sete anos,/dizendo: Mais servira, se não fora/para tão longo amor tão curta a vida. Perceba as trocas: Como se não a tivera merecida: tivera, em lugar de tivesse. ?Mais servira, se não fora/para tão longo amor tão curta a vida.? Mais servira, em lugar de: mais serviria; se não fora, em vez de se não fosse. Eis aí um belo emprego de Enálage. Quando você diz a uma amiga: ?No final do mês, vamos à praia?, você está empregando a figura da Enálage, já que usou ?vamos?, quando deveria usar ?iremos?. Se alguém disser que houve erro, diga que é Enálage.Que elegante, hem? Dando os trâmites por findos, com diria o Vinícius, e eu aqui emprego outra Enálage, por aqui vou fechando este texto. Até a próxima.

 

 

 

Comente este post   |   Ver comentários enviados

Verbos dos sabiás

Publicado em 22/09/2013 09:42

A primavera vem chegando, do mesmo modo como chega todos os anos: primeiro, uma ventania que faz o desespero das donas de casa e logo depois, uma chuva benfazeja, que alegra o espírito e dá mais ânimo ao corpo. Nas árvores e nos quintais, os pássaros traduzem em canto a sua saudação à primavera. Contudo, não são todas as pessoas que se alegram com o canto dos pássaros. Chego a temer que, em breve, saiam às ruas em protesto contra o chilreio dos sabiás-laranjeira em São Paulo. Uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo revela que há muitas pessoas reclamando contra o canto de sabiás-laranjeira nas madrugadas paulistanas. ?Por causa do insistente gorjeio, "posts" vêm pipocando nas redes sociais, reivindicando o silêncio dos passarinhos em prol do sono.? Um diretor de arte ­? o que é mais incrível de se ler ? postou: "Ele canta três acordes e fica o dia inteiro martelando isso. É insuportável!". À reportagem, disse ele: "Vou ser linchado pelos protetores dos pássaros, mas que é insuportável, isso é". O engenheiro Johan Dalgas Frisch pensa diferente. "O sabiá é considerado a ave que melhor canta", afirma. Um dos maiores especialistas do país, respeitado internacionalmente, esse ornitólogo já gravou 18 discos... de cantos de passarinhos. Frisch, 83, pioneiro na gravação de vozes de aves da América do Sul, diz que quem reclama da cantoria é "gente que nasceu num bloco de concreto sem conhecer o chilreio dos passarinhos". Ainda bem, meu leitor, que há pessoas sensíveis que se enternecem com o canto dos sabiás. É o caso de um dramaturgo que mora em Interlagos: ?conta que a rua onde vive nem é tão arborizada assim, mas, "por sorte", a vizinha tem um jardim, que é voltado para a janela do quarto dele."Como tenho insônia, ouço o trinado até as 5h. Confesso não me incomoda. É como o barulhinho da chuva. "Diz que prefere o canto do sabiá-laranjeira ao ronco de alguém ao seu lado ou "à barulheira de um vizinho ouvindo Applause', da Lady Gaga. Eu quero mais é o sabiá." Frisch explica que o pássaro fica à distância de até cinco metros do ninho para ensinar a melodia aos filhotes. ?A escolha do horário?, diz Frisch, ?é estratégica: durante o dia, se abandonasse o ninho, o macho deixaria os filhotes na mira de predadores.? Ainda bem, que existem pessoas que se enternecem com o canto dos passarinhos na capital do maior estado da federação. No Painel do Leitor, encontro um depoimento exortativo e poético: ?Há pessoas que reclamam dos sabiás que gorjeiam na madrugada (? Durma com um barulho desses", "Cotidiano", ontem). Esses reclamantes deveriam entender que duro mesmo deve ser não ter mais o canto das aves, como já ocorre em muitos bairros cada vez mais dominados por uma selva de pedra. Sugiro que parem de reclamar e aproveitem enquanto ainda temos o que sobrou de nossa tão sofrida natureza. Longa vida para os nossos sabiás, tico-ticos, bem-te-vis. ?Vale a pena que  eu prossiga neste tema, agora para expor neste texto, a reserva vocabular que a nossa língua portuguesa faz para reproduzir as vozes dos animais em geral: Para as aves, dispomos dos seguintes verbos:apitar, assobiar, atitar, cantar, chilrear, corruchiar, dobrar, engabrichar, estribilhar, gabar,galrear, gargantear, garrir,garrular,gazilar, gorjear, gralhar, gralhear,grasnar, gritar, guinchar, modular, papear, piar, picuinhar, pipiar, pipilar, pipitar, ralhar, redobrar, regorjear, rouxinolar rouxinolear, soar, suspirar, taralhar, trilar, trinar, ulular, vozear. Para outros animais e aves especiais, temos estes verbos: beija-flor: trissar,zinzilular; bezerro:berrar, berregar; bode: berrar, bodejar, gaguejar; boi: arruar,berrar, bramar, mugir; burro e jumento: azurrar, ornear, ornejar, rebusnar, zornar, zurrar; camelo: blaterar, balir; cão: acuar, balsar, barroar, cainhar, cuincar, esganiçar,, ganir, ladrar,latir, ladrir, maticar, roncar, rosnar, uivar, ulular; cigarra:blaterar, cantar, chiar, ciciar, escardinchar, estridular, fretenir,garritar, rechiar, rechinar, retinir, zangarrear, zinir, ziziar, zunir.Há uma lista enorme e rica de substantivos e verbos destinados a reproduzir as vozes dos animais e os cantos dos nossos pássaros.Em outro texto, quero ainda completá-la. Até a próxima.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comente este post

Verbos e palavras do momento

Publicado em 17/09/2013 18:46

As chamadas redes sociais dão um grande impulso à criação de novas palavras e ao retorno de outras já antigas com significação nova. Dois são os verbos que imperam na rede social Facebook: curtir e compartilhar. Eu mesmo curto e compartilho, com prazer, muitas postagens de meus amigos e conhecidos. E como curtem e compartilham os milhares de usuários dessa teia de comunicação social, meu Deus! Gosto muito de observar e analisar o comportamento das pessoas nas redes sociais. Não com o intuito de julgar, mas de apreciar e conhecer melhor o ser humano. Digo que aprendo muito com a minha participação neste jogo de comunicação. Tenho visto exemplos grandiosos de solidariedade entre as pessoas, mas, sobretudo tenho visto muita beleza. Mulheres lindas e paisagens exuberantes. Os dois adjetivos poderiam até ser trocados, para refletir minhas sensações. Emociono-me com o que é belo. Ganho mais vida com o que é artístico.Para os pesquisadores das diferentes áreas da ciência, as redes sociais fornecem pistas para muitos trabalhos sobre interação social, comportamento humano, uso dos recursos da língua materna, posicionamento ideológico, etc.A ação de curtir é a mais econômica, é a ação mais rápida da rede Facebook. Olhou, leu, clicou, curtiu, está pronta a sua participação na interatividade. Se você tiver apreciado bastante a postagem de alguém, compartilha-a com seus amigos. Pressinto que logo teremos um verbo para a ação de compor o status ou o tópico?em que você está pensando?. Poderia ser, por exemplo, o verbo estatutar, derivado de ?estatuto?, que significa, conforme o Dicionário Aurélio: Posição, condição; status: Teríamos então os verbos: ?estatutar?, ?curtir? e ?compartilhar?. Veja que frase poderíamos ouvir entre amigos: ?Eu estatuto, você me curte e compartilha.? Curtiu? Então, compartilhe, meu leitor. De onde teria surgido o verbo curtir? Não se sabe ao certo. O significado original que se encontra no Dicionário Aurélio é: ?Preparar (couro) para torná-lo imputrescível.? Na 10ª edição do formidável Dicionário de Verbos e Regimes, de Francisco Fernandes, publicado pela Editora Globo, podemos ler: ?Preparar, pondo de molho, em líquido adequado: ?Curtir azeitonas?. Também aparece a seguinte acepção: Padecer, sofrer, suportar: ?O velho exânime e sem forças, curtia amargos transes?. E cita um uso poético de Gonçalves Dias: ?Curtir saudades.? Vamos encontrar o significado de? ?Gozar, desfrutar, deleitar-se?, apenas na entrada de número nove do Aurélio, como gíria. É muito interessante a mudança de significação de um verbo como curtir. De sofrer, para desfrutar, deleitar-se, extasiar-se. Vale a pena testar a sua capacidade de extasiar-se diante dos milhares de compartilhamentos a que você se sujeita nos momentos de curtição da rede social de que você faz parte. Espero que você curta esta minha crônica e a compartilhe com os seus amigos. No Twitter, a rede dos 140 caracteres como limite para o seu texto, o verbo tuitar ganhou status de verbo da língua portuguesa e foi dicionarizado. Veja o registro dele no Aurélio:
[Do ingl. twitt(er) + -ar2.]
Verbo intransitivo.
1. Postar no twitter comentários, informações, fotos, etc. ger. de caráter pessoal ou institucional.
2. Acompanhar os fatos, ideias, informações, etc. registrados por alguém em seu twitter. [Conjug.: v. ajuizar.]

Se tuitar foi aceito, também serão aceitos brevemente retuitar e tuíte como palavras da língua portuguesa. Outro verbo que vem ganhando muita força de uso é ?partir? Nas primeiras entradas do dicionário, esse verbo significa

1dividir(-se) em partes, fazer (-se) em porções ou pedaços; separar ou ficar separado, em pedaços, em duas ou mais partes ou porções.

1.1       danificar (-se) ou destruir (-se), quebrando.

Os usuários das redes sociais costumam utilizar o verbo partir em publicações com o significado de sair para festas, passeios ou saída momentânea da rede social. Geralmente, o termo é grafado antecedido por uma cerquilha (#), formando a ?hashtag? ?#Partiu?. O mecanismo chamado de ?hashtag? forma uma rede com todas as publicações que contêm determinada palavra precedida por esse caractere. Essa palavra não tão usual na língua significa: Qualquer dígito numérico, letra do alfabeto, código de controle ou símbolo especial, pertencente a um sistema específico de codificação; caráter. Agora, deixa-me confessar a você a irritação que ando experimentando por uma palavra que foi ressuscitada por um comentarista esportivo. Trata-se do adjetivo ?baita?.Não há um programa de rádio e televisão sobre futebol ou um texto jornalístico da área esportiva em que não se ouça ou não se leia: ?baita jogador?, ?baita jogo?, ?baita técnico?.Pior, a palavra vai-se estendendo a outros domínios e já se ouve por aí: ?baita modelo?, ?baita cantor?, ?baita apresentador?.É muito ?baita? para o meu gosto e acredito que para vocês também, minha leitora e meu leitor. Até a próxima.

Comente este post

Explicando usos populares

Publicado em 08/09/2013 11:44

Explicar o erro é mais difícil que ensinar o certo? Mostrar o erro pode ser construtivo? São perguntas que surgem em circunstâncias variadas da nossa vida e também na esfera pedagógica do ensino de língua portuguesa. Aliás, é bom que se diga que língua e vida têm tudo a ver uma com a outra. A língua é , sim, um bem precioso, pois é a nossa forma de agir no mundo e sobre o mundo.Está presente em todos os momentos da nossa vida  até nos nossos sonhos.Daí, que, hoje, neste despretensioso texto, vou-me dedicar a explicar alguns erros que colhi em redações escolares e na fala e escrita de pessoas fora do ambiente escolar.Escrevo a palavra erro, dando a ela um valor mais leve do que se costuma dar aos deslizes gramaticais.

Vou numerar cada frase e logo a seguir explicarei o erro.

1- ?Elas são pessoas com quem discordo.? O erro nesta frase é de regência do verbo. Quem discorda, discorda de alguém e não com alguém. O que ocorre em uso como esse é que a pessoa faz analogia com o verbo concordar: ?Concordo com ela.? Assim a conjunção vem também para o verbo discordar. Concordar é bem mais usual do que discordar.

2- ?A gente vamos à escola todos os dias.? O erro se explica pelo fato de o substantivo ?gente? ser coletivo e designar uma porção de pessoas. Desse modo, pensa-se fazer a concordância com a ideia de plural contida na palavra ?gente?.O correto é o singular.

3-?Se o juiz pressuposse minha inocência, tudo ficaria mais fácil.? A conjugação do verbo pressupor ficou inadequada. Fosse, talvez, o verbo pôr , a pessoa não erraria e diria ?pusesse?. ?Pressupor? soou para ela, certamente, como um verbo estranho ao seu uso diário. Então, ela fez analogia com ?fosse? e escreveu ?pressuposse?, em vez do correto ?pressupusesse?.Devo dizer que a inadequação dessa frase acontece também com a semântica.Juiz não pressupõe inocência de quem quer que seja, ele julga diante de fatos e evidências.Dessa forma, o verbo pressupor não seria o indicado para ser usado nessa frase.

4-Vossa Senhoria precisais estudar mais. Bastou aparecer o pronome de tratamento Vossa Senhoria, para o autor da frase buscar a conjugação do verbo na 2ª pessoa do plural ?vós?.É quase que geral esse equívoco: ?Vossa? passa a ideia de ?vós?, mas não é o correto, conforme a norma padrão.Embora o pronome seja de segunda pessoa, o tratamento verbal é de terceira, como se fosse os pronomes ?ele?, ?você?.A frase ficaria correta na norma culta se fosse formulada assim: ?Vossa Senhoria precisa estudar mais?. Lembre-se de que ?você" é também pronome de tratamento e leva o verbo para a terceira pessoa. ?Você precisa estudar mais?.

5- ?Ela não preveu todos os problemas.? O problema está no verbo ?prever?. Perdeu-se a noção de que ?prever?é um derivado do verbo ?ver?.Nada mais coerente do que escrever, então: ?Ela não previu todos os problemas.?

6- ?Fazem dois dias que não nos vemos. ?Não há como insistir mais do que os professores o fazem com a explicação da concordância do verbo fazer com a ideia de tempo decorrido ou tempo meteorológico. Nesses casos, esse verbo é impessoal, deve ficar sempre no singular.Vejamos alguns exemplos: ?Faz dois dias que aguardo resposta ao meu  e-mail.? ?Nesta região faz invernos rigorosos.??Faz dois meses que eu recebi sua encomenda.

7- ?Os jogadores substimaram a capacidade dos rivais.? De onde o autor da frase teria tirado ?substimaram?? Parece evidente que ele fez analogia com ?subscrever?, que significa ?escrever por baixo?. Não é condenável a confusão, porque também não há explicação lógica para a existência de ?subscrever? e ?subestimar?.Se de ?escrever? se forma  ?subscrever?, de ?estimar?, poder-se-ia formar ?substimar?.Não é isso o que ocorre na norma culta, entretanto.A frase no padrão culto deverá ser: ?Os jogadores subestimaram a capacidade dos rivais.? Como se vê, não há lógica nas formações gramaticais.Para dominar o padrão culto, faz-se necessário muita leitura e observação do modo como os textos são escritos por aqueles que dominam a gramática normativa do padrão considerado modelo de escrita e de fala.

8-?Polícia procura padre sequestrado pela internet.? Essa frase gera confusão de interpretação, isto é, ambiguidade. Teria a internet sequestrado o padre ou é a polícia que se vale da internet para procurar o padre sequestrado?A solução é simples: basta que se coloque o adjunto adverbial de instrumento ou meio, ?pela internet?, logo no início da frase, com vírgula. ?Pela internet, polícia procura padre sequestrado.? Também, poderia o adjunto adverbial ?pela internet? aparecer depois do verbo, entre vírgulas e evitar-se-ia ambiguidade: ?Polícia procura, pela internet, padre sequestrado.? Por hoje, meu leitor e minha leitora, considero que está bom para este final de semana, vocês não acham? Até a próxima.

 

 

 

Comente este post

De repente, Vinícius de Moraes

Publicado em 01/09/2013 09:41

No momento em que escrevo este texto, estou ouvindo o disco Canção do Amor Demais, na voz de Elizeth Cardoso, com canções da parceria entre Vinícius de Moraes e Tom Jobim. O trabalho deles é de 1957 e foi lançado em 1958. Não tenho dúvida de que a Bossa Nova começou a surgir nesse disco, na batida do violão de João Gilberto que acompanhou Elizeth, em algumas canções do disco. Da música, passo para a poesia de Vinícius de Moraes. É meu jeito de homenagear o poeta  no ano de seu centenário de nascimento.Ele nasceu no dia  19 de outubro de 1913 e faleceu  no dia 9 de julho de 1980. Nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, disse o seguinte a respeito do colega: "Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural. Eu queria ter sido Vinicius de Moraes?. Homenagem mais significativa do que essa é difícil que se faça.Vai daí que eu me lembrei de ter analisado recentemente o Soneto da Separação, em meu programa de rádio, Análise Musical, na rádio Claretiana FM de Batatais.O poema foi musicado por Tom Jobim e gravado por ele, em parceria com Elis Regina. Uma maravilha. Agora, vou ao poema, para escrever sobre o sentido dos versos e sua composição.Relembro a letra para você, leitor a letra de Soneto da Separação.

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

Oceano Atlântico, a bordo do Highland Patriot, a caminho da Inglaterra, setembro de 1938.

Buscar o sentido de um texto é ajudar a construí-lo também. Como leitores, somos igualmente componentes do texto, no diálogo que se trava na sua concepção e na sua leitura.Este soneto traz uma expressão gramatical que se consagrou como uma das preferidas do poeta: ?de repente?. Se se consultar o dicionário, encontrar-se-ão as seguintes acepções: repente1; [Do lat. repente, ?súbito?.] Substantivo masculino.
1. Dito ou ato repentino, irrefletido; ímpeto, impulso.
2. Qualquer improviso, ou qualquer verso improvisado:É hábil em fazer repentes.
3. Bras. Restr. V. sextilha (2): Deixou de cantar martelo e passou a cantar repente.
De repente. De súbito; repentinamente.

Um poema vive das palavras que o compõem e do jogo que cada uma delas trava com as demais, nos versos. Cada palavra de um  poema comparece diante do leitor ou ouvinte uma única vez com aquela evocação, com aquela entonação, com aquele valor. Esse soneto quer falar de separação, do modo como ela se dá, das imagens que ela sugere, dos conflitos que ela provoca, dos efeitos que ela gera. E tudo acontece de repente, de súbito, repentinamente.Na primeira estrofe, o que era riso se tornou pranto cuja imagem é a bruma, a neblina silenciosa e branca. Não há choro estridente, mas um choro contido e calado, como a brancura da bruma. Das bocas unidas no beijo, surgiu a espuma da rebentação das águas nas margens dos mares e rios e das palmas das mãos em abertura fez-se o espanto.Na 2ª estrofe, vento , chama, pressentimento e drama, muito mais do que rimas engendram o sentido do poema, que trata do drama que é a separação dos amantes: o que é calma se faz vento que apaga a chama amorosa; o que é paixão vira pressentimento do que há de vir de solidão e do momento que não se movia vem o drama, a tragédia.De repente, não mais que de repente (e esse é o verso síntese do poema), do amante restou o triste, do contente ficou o sozinho, do amigo próximo fez-se o distante e a vida, até então arrumada, se fez errante repentinamente, subitamente, não mais que de repente. O soneto de Vinícius de Moraes mantém um diálogo com todos os poemas que tratam de separação, e não há como não se lembrar do celebrado Aquela Triste e Leda Madrugada, de Camões, cujos versos iniciais são estes: ?Aquela triste e leda madrugada, cheia toda de mágoa e de piedade, enquanto houver no mundo saudade, quero que seja sempre celebrada. Ela só, quando amena e marchetada/saía, dando ao mundo claridade, viu apartar-se d`ua outra vontade, que nunca poderá ver-se apartada.? Ah!, minha leitora, a dor da separação pode até fazer-se mais amena com poemas tão empolgantes, não é mesmo? Até a próxima.

 

 

 

 

 

 

Comente este post

Para hifenizar bem

Publicado em 19/08/2013 10:09

O sinal de hífen ganhou tamanha importância na língua que até um verbo foi criado para nomear ação de seu emprego: hifenizar. Verbo transitivo-direto e de conjugação regular. ? ?Eu tento hifenizar as palavras, conforme o novo Acordo Ortográfico, mas não consigo, professor?, disse-me uma aluna. Pensei comigo mesmo: ?Nem eu, minha cara.? Veja o que o Dicionário Aurélio registra para o vocábulo hífen: [Do lat. tard. hyphen < gr. hyphén, ?traço em forma de arco invertido para assinalar a união de duas letras ou de duas partes de um vocábulo?.]
Substantivo masculino.
1. Sinal diacrítico (-) (q. v.) usado para ligar os elementos de palavras compostas (couve-flor; ex-presidente), para unir pronomes átonos a verbos (ofereceram-me; vê-lo-ei) e para, no fim da linha, separar uma palavra em duas partes (ca-/sa; compa-/nheiro). [Sin.: traço de união, tirete. Pl.: hifens e (p. us. no Brasil) hífenes.].

Observe que ele já existia no latim e, para muitas pessoas é um sinal de difícil emprego.

O novo Acordo buscou simplificar seu uso, mas não será ainda a solução. Recordemos juntos as novas regras.

1- Veja : anti-ibérico e micro-ônibus.Note que os prefixos anti e micro terminam em vogal e as palavras que com que eles se ajuntam também começam pela mesma vogal.Então, usa-se o hífen (-): Assim, escreveremos: anti-inflamatório, anti-inflacionário, anti-imperialista, arqui-inimigo, arqui-irmandade, micro-ondas.

Caso queira lembrar-se da regra, veja como fica: quando o prefixo terminar com uma vogal e a segunda palavra começar com a mesma vogal, o hífen será utilizado.

2- Se a vogal for diferente, não se usa o hífen. Veja algumas palavras assim:

autoafirmação, autoajuda, autoaprendizagem, autoescola, autoestrada, autoinstrução, coautor, contraexemplo, contraindicação, contraordem, extraescolar, extraoficial, infraestrutura, intraocular, intrauterino, neoexpressionista, neoimperialista, semiaberto, semiárido, semiautomático.

3- Outra regra bastante lógica é a que manda duplicar as letras e não usar o hífen em prefixos terminados em vogal seguida de palavras iniciadas com "r" ou "s". Vejamos alguns exemplos:

antessala, autorretrato, antissocial, antirrugas, arquirrival, autorregulamentação, autossugestão, contrassenso, contrarregra, contrassenha, extrarregimento, infrassom, ultrassonografia, semirreal, suprarrenal.

4: Deve-se usar o sinal de hífen, quando o primeiro elemento da palavra composta terminar por vogal, r ou b e o segundo iniciar-se por h: abdômino-histerotomia, adeno-hipófise, anti-hemorrágico, auto-hipnose, beta-hemolitico, bio-histórico, geo-historia, hétero-hemorragia, infra-hepático, poli-hídrico, sobre-humano, subepático,

5: Com os prefixos pós, pré e pró, veja como escrever: pós-graduação; pré-natal; pré-escolar; pró-africano. Assim se deve escrever, porque a palavra depois do prefixo tem autonomia separadamente.

6- Quando o prefixo terminar com consoante e se essa for a mesma da palavra seguinte, deveremos usar hífen. Veja exemplos: inter-regional,sub-bibliotecário.

7- Já no caso dos prefixos inter e super, veja como deveremos escrever palavras como: interestadual, superinteressante. Isso, porque os prefixos: inter e super estão diante de palavras iniciadas por vogal.

8- Diante de palavras começadas por r, os prefixos hiper, inter e super devem ser separados por hífen, como nas palavras: hiper-requintadas, inter-regionais, super-resistentes.

9- Os prefixos mal e bem merecem cuidado:
No caso do prefixo mal, veja estas palavras:
mal-educado, mal-educada, mal-amada, mal-afortunado, mal-estar, mal-humorado. Você concluirá que o hífen apareceu, porque as palavras começaram por vogal ou por h.
Sendo assim, em palavras como: malcriado, malditoso, malfalante, malmandado, malnascido, malsoante, malvisto, o hífen não será usado, já que depois do prefixo mal, vêm palavras iniciadas sem vogal ou h.
O prefixo bem também requer atenção. Veja com atenção: bem-aventurado, bem-estar, bem-humorado, bem-criado, bem-ditoso, bem-falante, bem-nascido, bem-mandado, bem-soante, bem-visto, bem-vindo. O prefixo bem separa-se da palavra seguinte, não importando se ela começa por vogal ou por qualquer consoante, mesmo que seja o h.
Fique atento: As palavras, bendito, bendizer, benfazejo, benfeitor, benfeitoria, benquerença e benquisto, devem ser escritas sem hífen. Isso se deve ao fato de serem palavras já consagradas pelo uso, há muito tempo. Agora, apresento a você casos de hífen com os sufixos de origem tupi-guarani: açu, guaçu e mirim, não tão comuns entre nós: Amoré-guaçu, anajá-mirim, andá-açu, capim-açu, Ceará-Mirim.

Deixei para o final deste texto, o caso das palavras compostas em que o primeiro elemento é um substantivo, adjetivo, numeral ou verbo. Nessa situação, há sempre o emprego do hífen. Leia comigo os exemplos: ano-novo, arco-iris,decreto-lei,médico-cirurgião,mesa-redonda,tio-avô, azul-escuro, boa-fé, amor-perfeito, guarda-noturno, mato-grossense, primeiro-ministro,verbo-nominal, segunda-feira, vaga-lume, porta-aviões, porta-retrato, quebra-mar.Não se pode negar que o destino do hífen não é muito certo na língua.É impossível que se aprendam tantas regras para seu uso.Basta dizer, por exemplo, que a palavra ano-novo  que deve ser hifenizada, não o foi nem sequer pelo poeta Carlos Drummond de Andrade, no seu famoso poema Receita de Ano Novo, assim grafado por ele. Nem por isso o poema perdeu seu encanto e magia. Até a próxima.

 

 

Comente este post

Professor Juscelino.com.br

" De bem com a língua, de bem com a vida "