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Falar bem o português

Publicado em 31/10/2011 10:52

Ouço muitas vezes essa expressão e também você, leitor, deve ouvi-la bastante, e é sobre ela que inicio esta crônica. O que significa falar bem o português? Para muitas pessoas, talvez a maioria, falar bem significa expressar-se rigorosamente de acordo com os padrões da gramática normativa. Nesse caso, não se perdoam quaisquer deslizes de ordem gramatical e ainda se espera que aquele que fala faça uso de algumas palavras, expressões e locuções que sejam elegantes e não muito comuns na fala cotidiana das pessoas em geral.Será isso mesmo o que ensina a teoria Sociolinguística? Não, não é esse o posicionamento dessa teoria que trata da relação entre a língua, a sociedade e o usuário. Para a Sociolinguística, a língua varia de acordo com os usuários e com os usos, e falar bem é usar a língua de modo a ser entendido pelo interlocutor. Segundo os sociolinguistas , a língua varia no tempo e no espaço e todas as normas são igualmente válidas.Não há deficiência no linguajar das pessoas não escolarizadas, mas, sim, diferenças de expressão linguística em relação à norma privilegiada socialmente.

Existem dois tipos de variedades linguísticas: os dialetos e os registros.

1) Dialetos: Variedades de fala e escrita que dependem dos usuários da língua.

2) Registros: Variedades que dependem dos usos, dos interlocutores do discurso e da mensagem.

Os dialetos podem ser dos seguintes tipos:

? regionais;

? sociais;

? de idade;

? de sexo;

? de geração e função social.

Os registros linguísticos classificam-se de acordo com:

1- o modo (língua oral e língua escrita);

2- o grau de formalismo que varia numa escala de cinco graus básicos

e a sintonia, isto é, o grau de status social dos interlocutores, o grau

de cortesia entre eles, a tecnicidade da mensagem;

3- a norma.

Vejamos os graus de formalismo no quadro a seguir:

LÍNGUA ORAL                    LÍNGUA ESCRITA

Oratório                                  Hiperformal.

Formal ou Deliberativo            Formal

Coloquial                                 Semiformal         

Casual                         Informal

Familiar                                   Pessoal

? Registros Oratório e Hiperformal (grau extremo de formalismo):

Como exemplos de registro oratório temos os chamados discursos de tribuna (proferidos por oradores em sessões de Tribunais, Parlamentos, Igrejas) com predomínio das funções conativa, referencial e emotiva da linguagem. É a busca da persuasão, do

convencimento, da exortação. O registro Hiperformal predomina em certas mensagens literárias que se preocupam rebuscada do texto de modo que ele se faça entender apenas pelos estudiosos da língua e consulentes de dicionários. Os textos de Rui Barbosa, Coelho Neto, a Carta às Icamiabas, no romance Macunaíma, de Mário de Andrade, são exemplos do uso desse registro. Imagine, leitor, você ouvir uma frase como esta: ?O mancebo osculou a face angelical da moçoila ao aljôfar.?(tradução: O rapaz beijou a mocinha ao cair do orvalho da manhã.? Ou esta outra: ?A bucéfalo de oferenda não perquira a odontogenia.? Esse seria o registro gramatical hiperformal do conhecido provérbio: A cavalo dado não se olham os dentes.

? Registros Deliberativo e Formal: linguagem bem cuidada de acordo

com a norma culta: a linguagem dos jornais, os textos científicos e didáticos das teses, livros didáticos e artigos de grandes revistas, servem de exemplo.

? Registros Coloquial e Semiformal: uso de construções gramaticais mais soltas, menos preocupadas com a gramática normativa. É a linguagem dos diálogos descontraídos, das reportagens de rádio e tv., etc.

? Registros Casual e Informal: é a linguagem de grupos (gírias

próprias, termos especiais, liberdade de repertório e de sintaxe. Na

escrita, a correspondência familiar é o campo próprio desse registro.

? Registros Íntimo e Pessoal: maneira pessoal de se usar a linguagem

na vida familiar e particular, com o mínimo de formalidade.

A língua portuguesa é o conjunto desses dialetos e registros e todos eles têm o seu grau de complexidade e riqueza de significação. O ideal é que todos os brasileiros possamos aprender os diferentes registros e dialetos e saibamos empregá-los de forma adequada, nas diferentes situações sociais que venhamos a enfrentar. Essa é uma afirmação pedagógica e teórica que faço, não sem antes explicar que a função da escola é criar condições de os alunos aprenderem o registro formal da língua, a norma considerada padrão que é privilegiada pela sociedade. O alunos não deveriam concluir o período de escolarização obrigatório sem ter o domínio pleno dos modos de expressão oral e escrita prescritos pela gramática normativa da língua.

Como estudioso da gramática e da teoria linguística tenho uma séria de sugestões para mudanças de nossas gramáticas, mas não posso preconizar o seu abandono no ensino de língua portuguesa. A gramática, repito, não tem culpa pelo mau uso que dela alguns fazem. Ela não quer ser rainha, ela quer ser mesmo serva do uso da língua. Ela não é sinônimo de  língua, é apenas o seu retrato, uma tentativa de codificar os usos da língua.

Acho muito estranho o fato de a maioria das pessoas, mesmo as escolarizadas, não conhecerem uma gramática. É sinal de que, na escola, tenta-se ainda hoje ensinar a norma prescrita pela gramática, sem que os alunos a tenham em mãos. É um ensino de gramática sem a gramática. Convenhamos que não deva ser uma tarefa fácil para o professor, não é?

Até a próxima!

 

Comentários enviados


Isso é muito bom, gostei quero aprender mais sobre português.

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